Azul.

Antes, ele não saberia dizer realmente como era a cor azul. Se lhe perguntassem, apontaria para o céu, para a cor dos jeans que usavam, a camiseta do time de futebol do seu irmão, quando era pequeno. Ou iria rir, tomar um gole do que quer que estivesse em seu copo e diluísse seu sangue e dizer que não se importava se a garota tinha olhos azuis, verdes, castanhos, desde que não fossem vermelhos, amarelos ou completamente negros. Sim, era assim que conhecia aquela cor.

Mas não depois, nunca depois de contemplar aqueles olhos. O céu? Não. O céu se espelhava naquele puro azul e dele parecia viver. Não havia nada que se comparasse àquela cor, ao que enxergava quando mirava a profundidade daquelas orbes cerúleas. Toda vez que ele o olhava – e como ele gostava de se aproximar! - tentando entender os sutis sinais dos seres humanos que lhe eram estranhos. Aqueles olhos, tão honestos, francos e inocentes, muito mais do que os de qualquer criança – ele, por exemplo, há uns vinte anos atrás. Olhos que não tinham medo de se aproximar e de investigar a profundeza de sua alma, de olhar para o penhasco, o desfiladeiro onde seu espírito vivia. Olhos que nunca tinham medo de espiar pelas janelas e frestas e de ver o que escondia tão bem, o que nem ele queria saber que estava lá.

Azuis, os olhos que sempre se fixavam nele não querendo nada mais do que enxergar e que, assim, pareciam ver muito mais do que o que havia para ser visto.

Nunca mais chamaria nada de azul novamente. Nada nunca mais seria azul novamente.

Nem podia mais viver longe daquele azul tão vibrante e magnético.

Era seu céu.

Era o único paraíso que conhecia de verdade.