Vermelho.

Sempre tivera curiosidade de entender o que era esse tom, de ver algo que realmente pudesse ser chamado de escarlate. Já lhe haviam dito que o fogo era vermelho, e ele tinha tentando ver, tinha mergulhado a mão naquelas chamas de aparência tão quente, tinha tentando enxergar o carmesim naquelas labaredas que lambiam a sua palma branca sem, contudo, ferir.

Não era vermelho. Era branco, amarelo, alaranjado e um punhado de outras cores, mas não era vermelho.

Não era também as maçãs, nem qualquer outra coisa.

Nada era vermelho até que tivesse conhecido a ira dele, a ira do sangue. Nada pareceu tão vermelho quando viu borbulhar e jorrar dos cortes, dezenas deles, que ele sofria toda vez que fazia seu chamado trabalho. Escarlate, carmesim, escorria por ele e pingava no chão, e ele sempre estava com tanta raiva, sempre com tanta ira, sempre tão machucado e ferido de muitas outras formas que sequer via o sangue que inundava suas veias escorrer para o chão e ficar ali, abandonado.

Vermelho era o sangue dele.

Vermelho também era o sangue do corpo que vestia e que agora era seu. Vermelha foi a dor de cortar o próprio braço e de escrever, tão carmesim, símbolos nas paredes, espantando os inimigos dele.

Vermelho foi quando o sangue deles se misturaram, sem que percebessem, quando lutavam e se apoiavam junto.

Vermelho, muito escarlate, mais carmesim do que qualquer coisa, explodiu em sua mente quando o encontrou ajoelhado naquele descampado, contemplando o mundo com olhos vazios, sem que houvesse uma única parte dele que não estivesse batida e macerada.

Sim. Ele entendeu o que era vermelho só depois de conhecê-lo.

E conheceu também o que era a ira e o que era a dor e todas elas tinham a mesma cor encarnada do sangue dele.