Escuro. Preto. O mais profundo breu que jamais veria em toda a existência do universo. Sentia as correntes dilacerarem sua carne, mesmo que não houvesse carne para cortar, sentia cada talho em seu espírito como se fossem em sua carne, em seu antigo corpo. Podia imaginar quanto sangue escorria, podia ouvir seu sangue borbulhar, mas a cor de todo aquele massacre não lhe chegavam aos olhos.

Era tudo preto em seu inferno.

E seu pai sempre tinha ensinado a temer o escuro, tudo se escondia no escuro, como se já não bastasse a sensação de impotência de estar preso por cada centímetro de seu corpo – espírito? Alma? Não importava.

Tinha medo do escuro, tinha medo de não ver. Preferia encarar seus monstros de frente, mas ele era só um homem corrompido, que havia vendido sua alma e caído para sempre no escuro.

Era sempre noite ali e, embora tivesse perdido a conta de quanto tempo havia passado, sabia que estava ali há mais de meia eternidade.

Foi quando algo se iluminou em sua noite eterna.

Seu braço ardeu, nunca tinha sentido uma dor como aquela. Tinha sido mutilado, cortado, mastigado e consertado para tudo se repetir novamente, mas nunca nada tinha lhe queimado como aquilo.

Ousou abrir os olhos, uma explosão branca como nunca havia visto praticamente o cegou e ele se agarrou àquela luz com o mais terrível medo de se perder no escuro de novo. Um fogo limpo, branco e brando queimava seu ombro e ele não se importava mais com a dor, abraçaria feliz aquele fogo e se deixaria consumir por inteiro para nunca mais ficar no escuro.

Ascendeu.

Sua luz branca, como um guia, queimava e limpava ao mesmo tempo e o ascendia da mais negra perdição, fazia sentir o vento no rosto, sem nunca abandoná-lo.

Uma voz tão clara, tão branca soou em sua mente "Sou aquele que o segurou forte e o tirou da perdição".

Ele estava bem. Não havia mais escuro.

Fechou os olhos, dormiu e esqueceu.