o.O.o

O plano

o.O.o

Hyoga aproximou-se do local que Shiryu havia indicado. Era um pequeno ponto com uma imensa placa na parte de cima. Em letras visíveis e bem pintadas, a mesma dizia: OFICINA MECÂNICA. Havia sido uma bela cartada do chinês ter alugado o lugar. Na calçada fronteira encontrava-se a casa de eu rival, Guilty Corleone, um rico empresário que enriquecera de forma obscura e suspeita. Acusado de vários homicídios, nunca foi possível condená-lo a coisa alguma. Simplesmente não havia provas contra ele. Mas eles as trariam da escuridão.

Em sua camisa de mangas curtas, de cor azul escuro, suspirou e com um pouco de esforço, abriu a pesada porta, girando-a para cima. Dentro estava tudo pronto para iniciar-se mais um dia de trabalho. Com certeza ninguém desconfiaria de nada e dessa forma, aproximar-se-iam de sua vitima sem despertar a mínima suspeita. Hyoga olhou o relógio.

- Atrasado, como sempre! – referia-se a Ikki – Por que o Shiryu decidiu que ficaríamos juntos no turno! Até parece que posso ser amigo daquele tratante!

Balançou a cabeça e começou a organizar algumas ferramentas.

- Bom dia!

A voz de Seiya se fez presente.

- O que faz aqui, Seiya? – Hyoga perguntou – Você e o Shun não ficariam nas terças e quintas?

- Sim, mas...- jeito maroto -...O Shiryu me incumbiu de um trabalhinho para atrair nosso primeiro freguês!

E dizendo isso, ergueu um pé de cabra. Hyoga franziu o cenho.

- E que trabalhinho é esse? Assassinar alguém?

...

Tranquilamente, sentado num dos bancos da humilde lanchonete, Ikki tomava um bom café, puro, como gostava. Levava agora uma camisa branca, de algodão leve. Os cuidados com o irmão não lhe deixaram dormir durante toda a madrugada, mas não sentia-se cansado. Estava pensativo quando um barulho no interior do estabelecimento chamou sua atenção.

Uma jovem loira, com um vestidinho florido de estampas azuis, sapatilhas nos pés, tentava, por meio de alguns golpes bem femininos, fazer funcionar a máquina de café. O seu dia não havia começado muito bem. Sua companheira na venda de flores se atrasou e sua mãe resolvera dar-lhe um sermão sobre as muitas contas da casa ás 6 da manhã.

Ikki aproximou-se da garota, ainda segurando seu copo de café. Sentiu, ao entrar em sua atmosfera, o cheiro forte e levemente adocicado de rosas, como rosas do campo, florescentes, primaveris.

- Posso ajudar?

Ela olhou para ele e de repente as preocupações fugiram de seu semblante. Passaram alguns poucos segundos a olharem-se e foi ela que, um pouco gaguejante, quebrou o silêncio.

- Não é nada! A máquina parece que travou...- dizia, fazendo gestos com suas delicadas mãos.

Ikki seguia-lhe o movimento um pouco divertido com o embaraço dela. Suas explicações deram-lhe tempo de perceber seus lindos e angelicais olhos de um verde água, tão transparentes e tão turvos, que sentiu-se mergulhado num oceano de lembranças. Buscava em sua memória de onde os conhecia.

- Sem problemas! – disse ele por fim – Ainda tenho café, aceita?

- Não! – ela disse com um sorriso sem graça – Não poderia aceitá-lo!

- Eu tenho mais na minha oficina, posso tomar na hora que quero! – falou ele, estendendo-lhe o copo.

- Tudo bem! – ela sorriu, um sorriso encantador. O tipo de sorriso que ele sabia que ela tinha – Até que me vai bem, minha manhã tem sido bastante conturbada! – aceitando.

- Eu te conheço! – Ikki comentou, após ela dar um gole no liquido quente e forte; Esmeralda o fitou.

- Não! Eu acho não! – ela riu mais uma vez, delicada.

- Não...- ele retribuiu seu sorriso com um maroto e levemente enamorado -...Não digo você, mas os teus olhos! – encarou-a.

Esmeralda olhou-o sem jeito.

- Eu tenho certeza que já os vi antes!

- Esmeralda!

Uma voz grave e forte o sobrepujou por trás, chamando a atenção de ambos. Ikki virou-se para ver de quem se tratava. Seu semblante fechou-se e seu olhar, antes doce, agora tornara-se seco e frio. Era ele! O homem que matara a seu pai! Guilty Corleone! O homem acercou-se a menina, falando-lhe com certa simpatia.

- Acabo de vir da casa de sua mãe!

Só então deu-se conta que ela não estava sozinha. Seu sorriso cedeu lugar a uma expressão altiva e soberba.

- Estou interrompendo algo? – perguntou, olhando o rapaz.

- Não, senhor Corleone! – disse a menina com singeleza.

- É seu namorado? – perguntou Guilty, seu rosto adquirira um tom feroz e tornara-se sério de repente.

- Não! – disse a loira – Ele é...- confusa -...Não sei quem é! Quem é você? – e sorriu ao jovem.

Ikki, pego de surpresa pela pergunta, levou um segundo até estender sua mão e responder:

- Ikki! Ikki Uehara! – dera o sobrenome combinado com antecedência com os rapazes.

Foi Guilty que, ainda muito afetado, aceitou sua mão, apresentando-se:

- Guilty Diaz Corleone! Eu tenho a impressa de tê-lo visto mais cedo...

- É possível! Eu e meus amigos alugamos o ponto ai em frente!

- A oficina? – Guilty ergueu uma sobrancelha.

- Sim! De algum modo necessitamos ganhar a vida!

- Senhor Uehara! – chamou o dono do bar. – Acompanhe-me, por favor! Há um telefonema para o senhor!

- Com licença! – pediu, fazendo um aceno para Esmeralda.

Guilty voltou sua atenção para ela.

- Eu também necessito ir, senhor Guilty! – disse a jovem – Tenho flores que vender!

E jogando o copo no lixo, fez-lhe um cumprimento e saiu. Lá ele ficou, remoendo o rosto daquele jovem que, sem saber por que, trouxera-lhe recordações que preferia esquecer.

Ao sair, Esmeralda encontrou, sentada ao pé da escada, o mesmo rapaz com quem conversara lá dentro e aproximando-se dele, antes de sentar-se ao seu lado, perguntou, como permissão para sentar-se:

- Boas ou más noticias? Vi que o senhor Hoshiro lhe chamou!

- Boas! – respondeu ele, olhando para cima e encontrando aquele rosto tão angelical que o havia afetado – Estão operando meu irmão e parece que ficará bem!

- Eu sei como é! – falou ela – Ano passado minha avó faleceu!

- Eu sinto muito! – Ikki a admirava – Este senhor que chegou é seu familiar?

- Não! É um amigo de minha mãe de longa data! Me conhece desde pequena!

Após um silêncio, Ikki perguntou-lhe.

- Ainda não sei seu nome!

- Mas eu sei o seu! Ikki!

- Sim, Ikki! E você? Quer se fazer de misteriosa? – indagou com semblante divertido. – Além disso me deves um café!

- Ok! – ela riu – Da próxima vez te pago um cappuccino!

- Dívida aceita!

Permaneceram calados, ambos olhavam o chão, sem saberem como continuar a conversa. Foi Ikki que, decidindo ingressar por outro caminho, quebrou o silencio.

- O que será que nos une? – Esmeralda o encarou interrogativa – Digo, além de uma dívida! Esbarramos duas vezes...uma eu fui até você e na outra você veio até mim!

Ante o olhar dela, ele balançou a cabeça como para afastar um pensamento.

- Só me pareceu estranho as lembranças que me trazem teus olhos!

- Então? – ela o fitou curiosa.

- Acho que devo investigar um pouco! – ele riu – Quando vais me pagar o café que me deves?

- Não sei dizer! – ela entendera sua indireta – Se tem de ser, vamos nos encontrar alguma outra vez ou...ficará o mistério!

Ele a olhou e Esmeralda, levantando-se, sorriu-lhe mais uma vez e desceu os dois lances de degrau que ainda lhe faltava para chegar a rua. Da escada Ikki a observava. De repente, ao chegar ao fim, ela virou-se para ele, agora com a cabeça baixa, vasculhando algo em seu bolso. A voz doce, o tirou de seus pensamentos.

- Esmeralda! Me chamo Esmeralda!

Ikki levantara o rosto e como um vendaval, um turbilhão de recordações se fez presente, de uma só vez, em cabeça. Fitou aqueles olhos penetrantes, olhos de verde mar, os cachos caindo-lhe soltos pelas costas, os lábios rosas, úmidos, como uma flor esperando para ser colhida. Sim, ele já a vira antes! Era ela! Soube desde a primeira vez!

Jamais esquecera aquela menininha de vestido que, entregando-lhe um colar onde um pingente cuja foto infantil estava oculta, disse-lhe, numa tarde já perdida no passado que, quando crescesse, se casaria com ele! Esmeralda! Como eram inocentes então! Nunca esquecera aquele par de olhos que o havia enfeitiçado! Mas ela, ela não lembrava-se dele!

Ikki engoliu em seco e viu-a afastar-se até perder-se no transito caótico de Tóquio. Quando seu coração retornou da eternidade, ele tirou de dentro da blusa aquela mesma correntinha, já gasta pelo tempo e abrindo-a, ainda encontrou aquele mesmo sorriso singelo de menina. Ela não mudara nada, só ficara ainda mais formosa!

...

- Eu vou matá-lo!

Guilty entrou em sua casa batendo forte a porta principal. Estava transtornado. Folgou a gravata e serviu-se uma dose de whisky. Sua esposa veio a passos rápidos do interior da casa saber o que o havia tirado do sério.

- O que foi, querido? O que passa? A quem vais matar?

- O idiota do meu contador! – discou um numero em seu celular, o copo na outra mão – Eu disse a ele para aumentar a oferta da oficina, agora vem um qualquer e alugar por uma mixaria!

Após alguns segundos esperando que sua ligação fosse atendida, gritou quando do outro lado alguém finalmente recebera a chamada:

- Jango, venha aqui imediatamente! – rosnou – Não! Eu o quero aqui agora! – bateu o telefone.

...

- Meu deus, a água!

Esmeralda, vestindo um par de luvas para trabalhos com terra, entrou em sua arrumada cozinha carregando alguns buques de lindas flores vermelhas. Ao som de uma música qualquer, esquecera-se completamente que havia posto água para um chá. Jogando as rosas na mesa, e livrando-se das luvas, correu até o fogão e desligou a chaleira.

- Por pouco não queimo a panela! – satisfeita.

- Ahhhh!

Eiri entrava naquele momento carregada de vasos, vasinhos e vasões e quase escorregara na terra que, descuidada, sua amiga havia deixado cair.

- Desculpa, Eiri! É que escapou da sacola! – as mãos na cabeça, muito atarefada.

- Filha, tenha cuidado! – sua mãe entrou em cena, um vestido simples, avental. Loura, alta, Margarida ainda mantinha a beleza da juventude. – Você anda muito distraída ultimamente!

- Não é para tanto, mamãe! – afastando as coisas para um canto e deixando livre um espaço da mesa para que sentassem.

- Não se preocupe dona Margarida, eu já busco uma vassoura para secar o piso! – falou Eiri, indo até a área de serviço.

- Não, não, Eiri! – pediu Esmeralda – Ajude-me a terminar de organizar o pedido e depois limpas o piso!

- Mas por que tanta pressa? – perguntou sua mãe, segurando 3 xícaras.

- É que temos que entregar um pedido ao senhor Fujiro!

- Menos mal que tens muito trabalho se não este mês estaríamos a pão e água! Como se já não bastasse, bate com o carro ontem, o único que temos!

- Não foi minha culpa, mamãe! – disse a jovem correndo contra o tempo – Eu estava parada, o idiota deu marcha ré e me imprensou!

- Com tantos problemas que temos, você ainda arranja mais um! Quem é foi esse idiota?

- Não sei quem foi aquele idiota!

- E você nem para pedir para que Page o concerto! – falou a Eiri que, assustada, balançou a cabeça.

- Mas se ele bateu e se foi? – perguntou a mocinha. – Nem deu tempo de fazer nada, dona Margarida!

- Mamãe, por favor, cala a boca! Já temos tanto pra fazer! – nervosa.

- Não me mande calar a boca, sou sua mãe e estou certa!

Esmeralda revirou seus olhos a sua companheira que deu de ombros.

...

- Você é um inútil, Jango! Não serve para nada!

O rapaz, balançando nas mãos a chave do carro, fitava ora o brinquedo ora seu chefe com uma enorme vontade de estrangulá-lo.

- Como você deixou que tirassem a oficina de nossas mãos por tão pouco!

- Não entendo por que está tão irritado! – falou o rapaz por sua vez – Este local está desvalorizado! Não vale nem a terça parte do que esses taizinhos pagaram!

- Este lugar vale muito mais que dinheiro para nós, você sabe!

Guilty vasculhou alguns papéis em cima de sua mesa. Jango, mordendo os lábios, cruzou os braços, impotente. Se o enfrentasse, perderia suas regalias.

- Eu já sei! – respondeu após um longo suspiro. – Mas eles ofereceram um bom dinheiro, uma oferta melhor que a nossa, suponho!

- Você já olhou pela janela? – Guilty principiava a perder o resto da quase inexistente paciência de que dispunha. – Parecem um bando de vira-latas com um carro caindo aos pedaços! De onde diabos acha que irão tirar dinheiro para pagar o aluguel?

Jango passou as mãos pelos cabelos morenos e as pousou na cintura. Guilty caminhou até a janela e olhando através do vidro, pediu:

- Quero que você descubra de onde saíram esses ai! Quero saber já!

...

- Ficaram lindos os ramos!

Disse Eiri, correndo ao lado da amiga, também carregada de vasos e buques.

- Como sempre, amiga! – falou Esmeralda, com falsa modéstia.

Ambas terminaram de carregar o carro e puseram-se a entrar nele.

- Foi eu que ensinei tudo, filha1 – falou Margarida da porta, muito orgulhosa de suas prendas.

- Mas como dizem, mamãe...- a filha virou-se para ela antes de bater a porta -...O aluno sempre supera o mestre!

E sorrindo com sarcasmo, soltou um beijinho e ligou o carro.

- Eu já vou!

- Diga ao senhor Fujiro que apareça! Faz tempo que não o vejo! – gritou a mãe – Você vem comer?

- Creio que não! – engatou a primeira. – Tchau, mãe! Volto pela noite! – partiu.

- Tchau! – gritou sua mãe – E trate de levar esta lata-velha a um mecânico!

...

- Onde está Kira? Não vai tomar o café?

Perguntou Guilty, já sem o paletó, sentado a mesa para a refeição da manhã. Naquele momento serviam-lhe uma xícara de chá de framboesa.

- Disse que não, senhor! – respondeu a empregada, colocando a cesta com os pães. – Falou que se sentia mal!

Naquele momento sua mulher fez-lhe companhia sentando-se ao seu lado. Trazia um esplendido vestido cor creme, condizente com o verão japonês.

- Acho que necessitamos chamar o médico! – falou ele.

- Por favor, Guilty! – a mulher o fitou com sarcasmo e afetação; não se dava bem com a referida garota. – Eu sei muito bem o que tem a tua filha! – pegou uma xícara para si.

- O que quer dizer? – ele a encarou com desafeto.

- Você sabe perfeitamente o que eu quero dizer! – segurou seu olhar – Está assim desde que soube que minha sobrinha vai voltar! E como sabe que chega hoje, creio que enlouqueceu de vez!

- Não permitirei que fale de minha filha dessa forma! – os olhos dele estavam ferozes, mas Sayuri não se intimidou. – Minha filha não é normal! Teve uma infância difícil, nada mais!

- Tudo bem...- deu de ombros -...Não precisa gritar! O que acontece é que tua filha, todo o tempo...

- Chega de dizer "tua filha"! – ele bateu na mesa com força, fazendo-a assustar-se. – Ela e June foram criadas quase como irmãs! E se protejo a Kira é porque é filha de meu primeiro matrimônio e não quero que sinta só nem desprezada por ninguém! Será que não viver bem com ela?

- Eu tento! Por Deus, eu juro que faz 22 anos que eu tento! Mas é quase impossível, Guilty!

O homem, limpando a boca no guardanapo, lançou um olhar a sua esposa que, por sua vez, desistiu da disputa. Sayuri virou-se para seu café e tentou esquecê-lo por um minuto. Precisava correr, o avião de June já devia estar por pousar.

...

Finalmente, após 3 anos de ausência, ela estava de volta e sentia-se no auge de seu encanto. Sua estada nos EUA para terminar seu doutorado fez-lhe muito bem. Estava mais cheia de corpo, vestia-se na moda e sentia-se livre, a independência que o dinheiro dá na juventude. Desceu do avião passando a sala onde retiraria suas bagagens. Chamando um carrinho, pôs todas as suas coisas e indicou o local para onde o ajudante deveria levar. Levara uma sandália de salta, Calça jeans que lhe definiam as pernas, uma blusa soltinha, ombros desnudos e um óculos escuros completando o visual.

- Tia!

Sayuri correu para a sobrinha completamente encantada dela. Estava muito mais mulher do que quando saira há 3 anos atrás.

- Minha querida, quantas saudades! Pensei que tinha me abandonado!

- Abandonar a senhora? Nunca!

Ambas caminharam até o carro, as malas foram postas no compartimento e sorridentes, ingressaram no veiculo que logo se pôs em movimento. June dava um jeito nos longos cabelos loiros enquanto conversava:

- Acho que foi a viagem mais longa da minha vida! Não via a hora de chegar!

- Eu sofri muito mais que você esperando! - comentou Sayuri com cara de sacrificada.

- Tia, não seja exagerada!

- Não é exagero! Kira está pior que nunca desde que sobe que estavas voltando e o pai não faz outra coisa que não está de acordo com tudo que ela faz! Ele crê que ela não é responsável pelos seus atos!

- Bom, eu prometo que ao menos agora você não sofrerá mais por minha culpa! – riu a sobrinha. – Tomei uma decisão importante!

- Qual decisão? – Sayuri apertou os olhos.

- Decidi ficar em Tóquio! Não volto mais para os EUA!

- Mas...- surpresa -...Está falando sério, June?

- Sim, tia! Já estava cansada de viver entre os americanos! Quero passar um tempo aqui, com minha família! Posso encontrar um bom trabalho!

- E Brian? – perguntou a tia, oferecendo-lhe um olhar insinuante – Está de acordo com tua decisão? Ou já faz parte da lista dos teus exs?

- Já teremos tempo de conversar sobre isso! – disse June, também insinuante, recostando-se no banco.

...

- Parece que um mecânico miserável faz melhor negócio que você!

Disse Guilty, sentado em sua poltrona, assinando alguns papeis. Jango estava parado a sua frente, as mãos pousadas na escrivaninha.

- Vou tentar falar com o novo dono e lhe ofereço uma quantia que não poderá desprezar!

- Não faça mais nada! – pediu Guilty com desdém. – Deixe este assunto por minha conta! Já haverá tempo para que eu conheça nossos novos vizinhos!

Mas alguns gritos o tiraram de seus devaneios. Levantou-se com sobressalto, Jango dando-lhe passagem. O alarido vinha do quarto de sua filha Kira, parecia estar discutindo com alguém. Guilty entrou, impedindo que a briga entre a garota e a empregada continuasse.

- Core, deixe-a! – falou para a servente.

- É a senhora Sayuri me pediu para por lâmpadas novas no quarto da menina June!

- E o que importa o que ela pediu?

Berrou a garota de cabelos castanhos, tão lisos quanto o linho. O rosto oval, de nariz aquilino lábios finos, grandes olhos amendoados tão negros quanto a asa do corvo.

- Eu sou a filha aqui, a dona da casa! O que há nesta casa é só meu! Diga a ela, papai! – olhou a figura paterna que estava ao seu lado.

- Filha... – Guilty tocou-lhe nos ombros -...Acalme-se! Core, saia! Eu cuido disso!

- Sim, senhor! Com licença!

- Papai, você precisa despedir esta empregada! Ela está sempre me desobedecendo e me maltratando!

- Tudo que você quiser, filha! – Guilty sorriu – Vai ficar tudo bem! Ela está só preparando o quarto de June, que chega hoje, nada mais! Não fica feliz que volte tua prima depois de tanto tempo sozinha aqui? Será uma companhia!

Levantou o rosto da jovem tocando-lhe o queixo anguloso. Kira levava somente uma camisola negra.

- O senhor sabe que não! – respondeu – A família dela arruinou minha vida!

- Ela não fez nada!

- Como não? – olhou-o severa. – Está viva! Eu não necessito uma companhia! E o senhor tampouco necessitava uma nova esposa se tinha minha mãe! Mas Sayuri te encheu a cabeça e assim estamos, infelizes todos!

Afastou a mão paterna de si e saiu, deixando-o só.

...

- Fazia dias que não vinhas!

Margarida, com uma caixa de vime sobre o colo, pintava, delicadamente, as unhas da atarefada Core. A empregada da casa ao lado era sua cliente de longa data e costumava vir pelas tardes para fazer-se ajeitar as mãos.

- Estou cheia de serviço estes dias! June ligou dizendo que estava voltando! Não sei por que não fica de vez nos EUA! Simplificaria as coisas para todos naquela casa!

- Pobre menina, não faz mal a ninguém! – comentou Margarida, dando precisas pinceladas.

- Ela não, mas Kira...- a empregada revirou seus olhos para o céu. – Aquela ficou louca de vez! Ela a odeia! Ainda passará uma tragédia entre elas, escuta o que te digo!

- Eu me pergunto como estará a "primeira dama"! – falou Margarida, dando uma entonação a voz – Sempre tão prolixa! E o "imperador"!

- A senhora Sayuri saiu a buscar a sobrinha, creio que almoçaram fora! E o seu namoradinho... – Core a olhou com sarcasmo.

- Não gosto que falem assim! – Margarida irritou-se, parando o que fazia.

- Mas todos sabem que vocês dois...

- Ele não é meu namorado! Nunca foi! – completou com voz firme, fazendo Core encolher-se – Além disso, ninguém sabe de nada, entendeu Core, principalmente minha filha!

- Desculpa, Margarida!

- Eu que peço desculpas! – a loira suspirou, dera-se conta de sua rispidez – É que já faz 21 anos! E tudo isso já está morto e enterrado! Nem me lembro do que passou! - voltou a pintar-lhe as unhas.

- Bom, o "imperador" está furioso! Parece que compraram a oficina que está em frente e ele a queria! Descontou tudo no pobre do contador! Mas aquele também não vale as meias que veste!

- Core! Core!

Naquele momento, o jardineiro entrara afobado gritando pela empregada.

- Masami! – ela levantou-se, soprando as unhas a fim de que secassem rápido. – Chegaram?

- Sim! Acabaram de entrar! É melhor você correr!

- Margarida, depois nos falamos!

Disse Core, saindo em disparada pela porta. E lá ela ficou, perdida em seus pensamentos que a transportaram há uma época que insistia em esquecer, ainda que não conseguisse.

- Senhorita June!

Gritou Core, entrando e encontrando tia e sobrinha na sala, aos risos, as malas sendo levadas para cima por alguns outros empregados.

- Core! – June a abraçou

- Que alegria vê-la! – disse a empregada – Fez boa viagem?

- Ótima! Estou morrendo de saudades daquele seu bolo de chocolate! – June fez cara de comilona.

- Pois tem um enorme lá dentro só pra você! – riu a serva.

- Olá!

Guilty entrou naquele momento, um sorriso no rosto, braços abertos.

- Bem vinda de volta! – disse.

June aceitou o abraço, ainda que com certa desconfiança. Sabia que o marido de sua tia não era afeito a demonstrações de afeto.

- Obrigada, tio!

- Disse que ficaria definitivamente! – comentou Sayuri, sorrindo.

- O senhor está muito bem, tio!

- bem está você, querida! – falou a tia – Os ares de Nova York!

- Passa algo, tio? – June notara uma leve mudança em seu humor – Está um pouco preocupado!

- Não, não está preocupado!

Kira apareceu de repente ao pé da escada. Já estava vestida decentemente com uma Calça e uma blusinha de verão. Seu semblante era de desprezo enquanto descia os degraus e aproximava-se da cena.

- Está atuando para que eu não me ponha mal! Mas com certeza seu coração deve estar a pular no peito de tanta alegria! Eu sempre soube que ele tinha uma...- insinuante -...preferência por você!

- Kira! – Guilty virou-se para ela.

- Estou mentindo, papai? Está feliz de vê-la? – um riso irônico.

- Controle-se, Kira! – rosnou o pai, agarrando-a pelo braço – Não sabe o que esta dizendo! Não quero intrigas! Deves tratá-la como lhe corresponde!

- Olá, Kira! – June tentou uma aproximação.

- Por que voltou? – Kira cortou-lhe, fazendo-a retroceder.

- Filha!

- Não se preocupe, tio! Ela tem direito em saber! Eu vim para ficar!

- Ficar? – um gesto de falsa aceitação – Quem bom que você vai ficar! Seja bem vinda, então, priminha!

E dando as costas, subiu para seu quarto.

- Vejo que as coisas não mudaram! – comentou June.

- Não, querida! Estão piores! – suspirou Sayuri.

- Venha, June! - convidou Guilty – Sente-se, deve estar cansada! Vais tomar um chá importado da India! Core, pode servir! – gritou.

...

- Então é aqui você vai trabalhar?

Perguntou Ikki, olhando ao redor. Fazia uma certa careta de desdém. Hyoga suspirou e contou até dez antes de responder.

- Nós vamos trabalhar! – grifou o nós.

- Nós? Tá louco! Entendo tanto de mecânica quanto você de mulheres! – cruzou os braços. O outro rangeu os dentes, fechando os punhos.

- Somos uma família agora! – disse Hyoga após alguns minutos, enquanto continuava a organizar as coisas.

- Não tenho família! – Ikki o olhou sério, as mãos na cintura. – Minha única família é meu irmão!

- Mas estamos todos juntos nessa! – Seiya o surpreendeu por trás – E unidos nos vingaremos desse tal Guilty Corleone!

Dizendo isso, Seiya jogou a um lado a ferramenta que trazia ainda cedo e sem virar-se para os amigos, fez menção de sair.

- Seiya! – Hyoga o chamou – E o seu trabalhinho?

Ikki olhou o rapaz recém chegado com curiosa ironia.

- E ele acaso sabe fazer algo mais do que encher o saco! – comentou com sarcasmo.

- Antes de me sacanear, gostosão...- Seiya virou-se para Ikki com rebeldia, fazendo pose de bonzão -...Devia me agradecer por conseguir nossa primeira aproximação com o infeliz que destruiu nossas vidas!

- Primeira aproximação? – Hyoga franziu o cenho.

- O que fez? – perguntou kki, caminhando até a porta e parando ao lado de Seiya.

Também Hyoga, curioso, fora juntar-se aos dois. Ambos olharam na direção do olhar de Seiya e, surpreendidos, viram o carro, último ano, importado, de seu odiado vizinho feito quase em pedaços.

- Como conseguiu isso sem que ninguém te visse? – indagou Ikki, muito surpreso.

- Parece que eu sei fazer algo mais do que encher o saco!

Respondeu Seiya, um sorriso maroto no rosto, afastando-se dali. Hyoga e Ikki entreolharam-se.

o.O.o Continua o.O.o