o.O.o

o.O.o

Ela sentia falta de seus adorados sais de banho japoneses. Submersa na banheira de mármore branco, June se deliciava depois de dois largos dias de viagem. Suspirou, dando um gostoso mergulho e levantando-se, enrolou-se em seu roupão de banho de seda e enxugando seus longos cabelos louros, saiu do banheiro dirigindo-se ao seu quarto. Já era tarde e o que mais desejava era deitar em sua cama e dormir.

- Quantos vestidos de festa!

Ao abrir a porta do dormitório, deparara-se com sua prima de criação. Kira remexia em suas malas e já havia retirado várias de suas roupas, que estavam espalhadas pela cama. A loira, com a mão ainda pregada na maçaneta da porta, tomou fôlego para completar o percurso e fechar a mesma.

- O que você está fazendo, Kira? – indagou, atirando-se sobre ela e tomando-lhe das mãos um vestido de linho azul. – Saia do meu quarto, por favor!

- Estão lindas as sua roupas, priminha! – seguia a jovem morena, desviando-se da outra com uma Peça nas mãos.

- Solte minhas coisas! – irritava-se June.

- Só estou vendo...- disse Kira, agora admirando um belo par de sapatos - ...Teu namorado ganha tanto assim para presentear-te com coisas tão caras?

- Sai daqui! – gritou June, empurrando-a com força.

- Não me toque! – rosnou Kira.

- Ok, não te toco, mas por favor, saia do quarto agora! – pediu, abrindo a porta e convidando-a a sair.

- Olha só, seu passaporte...- falou a outra, tomando do objeto em cima da cama.

- Me dá meu passaporte, Kira! – June arrancou o documento das mãos da prima.

- Qual é a tua, hein? – Kira encarou-a com desprezo – Convencer o meu pai a me internar para que fiques com tudo, como fez a patética da tua tia?

- Você está doente, Kira! – June guardou o passaporte em sua bolsa. – Não sabe o que diz! Por favor, saia, eu quero descansar!

Kira esboçou um sorriso irônico e saindo, fechou a porta atrás de si. Mas para surpresa de June, que ficara dentro, algo havia rodado na fechadura. Kira a havia trancado. Correu até a mesma e forçando-a, não pode abri-la.

- Kira! – pediu – Kira, abra essa porta imediatamente! – batendo.

Do lado de fora, a linda garota de longos cabelos negros sorria triunfante, braços cruzados.

- O que está acontecendo? – Sayuri escutara os gritos – Por que a June está gritando?

Sem responder, a menina, olhando-a com profundo sarcasmo, afastou-se, pé ante pé, até desaparecer no fim do corredor.

- Não acredito! – June levou as mãos á cabeça. De repente escutou que algo de novo se movia na fechadura. – Tia! – exclamou.

- June, querida, o que foi? Você tá bem?

- Sim, eu to bem! A idiota da Kira me trancou aqui dentro!

- Viu o que eu disse? Tá pior do que nunca! June...- sentou-se na cama chamando a sobrinha -...Você tem certeza que quer voltar para Tóquio? Eu adoraria tê-la junto a mim, mas não sei se será bom pra você!

- Eu já tomei minha decisão, tia!

- Mas querida, você já tinha uma vida estruturada em Nova York! Que sentido tem voltar a este inferno?

- A Kira tem suas fases! Quando está normal, é até simpática! – June irônica.

- Sim, mas os períodos de normalidade são cada vez mais curtos! – Sayuri suspirou.

- Tia, não posso deixar que ela comande minha vida! Eu devo tanto a senhora! Me criou desde menina, quando perdi meus pais!

- Eu sei...- Sayuri sorriu -...Mas quero que penses bem! Agora te deixo para que descanses!

Beijou-a nos cabelos e saiu, fechando a porta.

...

- E quando pretendes contar?

Core, sentada na mesa diante de Margarida, fazia-lhe confidencias das novidades na casa vizinha. Com a pergunta, a senhora de radiosa beleza, cuja maturidade acentuou, encolheu-se.

- Minha vida está bem assim, Core!

- Você não durará para sempre! – disse a empregada – É preciso fazê-lo! Só terás paz quando contares a verdade a Esmeralda! Ela precisa saber que é filha do Guilty Corleone!

Margarida, apressadamente, fez-lhe um gesto de silencio.

- Não! Isso nunca!

- Algum dia ela vai descobrir, Margarida, e é melhor que seja por ti!

- Eu decido isso, Core! Eu sou a mãe!

Naquele momento Esmeralda abriu a porta, assustando as duas mulheres.

- Filha, já é tarde! Por que tanta demora?

- Um amigo revistou o carro, disse que tinha conserto, mas vai sair um pouco caro! Mas eu já resolvi!

Jogou a bolsa sobre o sofá.

- Não me diga que entregaste o carro? – Margarida com a mão no coração.

- Não, mamãe! – sorriu esta – Já consegui o dinheiro para pagar o conserto!

- E de onde você tirou? – desconfiada.

- Um amigo! – disse a loirinha, tomando um copo de água.

- Que amigo, Esmeralda? – Margarida foi até ela, olhando-a com medo.

- Guilty Corleone me emprestou o dinheiro!

- Guilty! – gritou a mãe – E desde quando te dei permissão para pedir qualquer coisa a ele?

- Ora, mamãe! Preciso do carro para trabalhar! Além disso sou maior, não preciso mais da sua permissão para cuidar de algo que é meu! – respondeu entre o sério e o brincalhão.

- Mas...- a mãe surtando -...Você está muito atrevida, menina! Não me obedece mais! – para Core – Não sei o que lhe passa!

- Ele até perguntou pela senhora! – Esmeralda a fitou com olhar risonho e perscrutador.

- Foi? – a mãe, ainda que tentasse disfarçar, interessara-se pelo dito. – E o que ele disse?

- Nada demais! – a loirinha deu de ombros para testar a figura materna – Perguntou: E como vai a dona daqueles lindos olhos verdes? – Esmeralda teatralizava.

Margarida fez uma cara de "Ah, que é isso?", um sorriso nos lábios, enquanto a filha ia falando. Seus olhos exprimiam falsa modéstia.

- E aqueles sedosos cabelos louros! – seguia a filha, atinando para as reações quase eufóricas da mãe – Aquela pele macia e as coxas grossas e...

Parou de repente, um sorriso sarcástico na face, enquanto a doce Margarida parecia sonhadora, um ar idiota na cara. Dando-se conta, voltou a si, fechando a cara e encarando a filha como se tivesse sido pega em flagrante.

- Ora... – disse - ...Que homem grosso! Um verdadeiro mentiroso! – falou – Não acredite em nada do que ele falar, porque é do tipo linguarudo!

- Mamãe, não seja falsa! – Esmeralda atacou – Esse homem te agrada! Você gosta dele!

Margarida abriu a boca teatralmente, mas não achou que dizer.

- Não adianta dizer que não! – atalhou a filha – Desde menina que escuto você falar dele, só há algo que não sei ao certo! – encarou-a – Passou algo entre vocês?

- Algo? Como assim algo? – Margarida desviou o olhar – Ora, me respeite! Eu sou mulher de ter "algo" com algum homem?

- É! – a filha fez pose de superior – Passou ou não passou?

- Por que você não vai tomar um banho? Já está na hora de criança ir para a cama! – disse-lhe a mãe, como se falasse com uma menininha.

Voltou a sentar-se no sofá, bastante transtornada. Esmeralda, agarrando sua bolsa, ainda com um olhar divertido no rosto, soltou um beijo para a mucama, que sorriu, e correu ao seu quarto.

- Eu espero não cruzar com este homem! – rogou Margarida.

...

Sentado a mesa, Ikki dava atenção ao prato de macarrão a sua frente. Não parecia muito satisfeito com o que via. Pegou o garfo e fez algumas tentativas. Por fim, com cara de asco, soltou o talher e tomou de seu copo com vinho.

- Quem fez esta porcaria? – perguntou.

Hyoga, do seu lugar, levantou alguns fios de macarrão com o seu garfo. Mas o seu semblante não era dos melhores. Uma careta se desenhou em seu rosto, soltando o utensílio.

- Isso está um horror! – comentou.

- Fiz o meu melhor! – falou Seiya, o único a mesa que parecia comer com satisfação, ainda que falsa. – Nunca cozinhei na vida! A prática traz a perfeição!

- E a diarréia também! – disse Ikki com sua conhecida ironia.

- Eu acho que exagerei no sal! – falou Seiya, desistindo da refeição. – Então, qual a segunda opção!

- Pedirei umas pizzas! – disse Hyoga, pegando o telefone. – Tá afim, Ikki?

- Perdi a fome! O que eu queria era saber como está meu irmão!

Ikki aproximou-se da pequena varanda. Levantou o braço, apoiando-se no umbral. Observava aquela bonita noite de verão, um vento fresco correndo-lhe pelo cabelo. De repente, como que por instinto, sua mão buscou a correntinha que trazia pendurada ao pescoço desde menino. E seus pensamentos convergiram para ela.

- Esmeralda...- sussurrou -...Como fazer-te recordar o que vivemos?

Hyoga também havia se levantado e afastando-se um pouco para efetuar a ligação, caminhou até a janela que ficava numa área mais afastada da casa. Nunca havia percebido mas, ou porque a luz sendo apagada chamou-lhe a atenção ou talvez a vista daquele busto maia o fizera esquecer do que estava fazendo, a verdade é que viu-a aproximar-se da janela do aposento defronte ao lugar onde estava, numa semi-penumbra, fechar as cortinas translucidas...

Ela o havia visto também. June estava de calça jeans, mas já se havia livrado da parte de cima. Um belo sutiã branco guardava os fartos seios. Olharam-se surpresos, cada um da sua janela. Até que ela, com um sorriso, decidiu por afastar-se dali. Hyoga engoliu em seco e voltou a sua antiga missão.

... No dia seguinte...

- Bom, eu já estou saindo! – anunciou Shiryu pegando a chave do carro – Seiya, não esqueça de ir até a fundação Raio de Luz! Eu marquei um encontro com a neta do velho Kido! Você será meu representante!

- E você, por acaso, me deixa esquecer? – falou Seiya, uma torrada na boca, com cara de tédio – Sempre me dá as piores partes!

- Sei que não vai me decepcionar! – sorriu o chinês – Trago noticias do Shun! – saiu e fechou a porta.

- Nem diz aonde vai! – comentou consigo – E eu tenho de aturar TPM de menininha mimada! Hunf! – levantou-se e entrou no banheiro.

Na oficina, Hyoga e Ikki, temporariamente assumindo quase todos os horários, abriam as portas ao primeiro dia de trabalho.

- Bom...- Ikki bateu as mãos com disposição -...Creio que em alguns minutos nosso "primeiro cliente" entrará por esta porta! – olhar insinuante – Eu vou começar a organizar as prateleiras! Hyoga você podia dar uma limpada por aqui!

- Qual é, Ikki! – Hyoga, mãos na cintura, cara de machão – Quer que eu esfregue o chão, espane as paredes...!

- Não pedi isso, mas se você tiver a fim de fazer, seria muito bom! – respondeu Ikki com desdém, sem olhar para o companheiro.

- Quem foi que disse que você dá as ordens por aqui? - o loiro cruzou os braços.

- A idade! – Ikki abriu os braços com tom obvio – Sou o mais velho, é normal que vocês, crianças, tenham de obedecer! – encarou-o – E calados!

Virando-se para as ferramentas, o rebelde Amamiya pôs-se a separá-las. Hyoga, balbuciando para si mesmo algumas palavras impronunciáveis, saiu do estabelecimento com uma vassoura na mão e começou a limpar a calçada. Naquele momento o barulho de um carro chamou sua atenção. Virando-se para trás viu, através da janela do motorista que havia sido aberta, o busto de uma deusa maia, o mesmo da noite anterior, porém mais nítido, louro e radiante, a dar a partida num belo modelo digno de uma tela de cinema.

Parou instantaneamente o que fazia, observando a moça que parecia ter alguma dificuldade para fazer funcionar o veiculo.

- Acostumada a ser levada! – disse-lhe ela quando notou que ele percebera seu embaraço.

Hyoga sorriu e a viu finalmente ganhar velocidade, virando o carro na primeira esquina.

...

- Já to indo, mãe! – disse Esmeralda, carregada de flores.

- Vai sair sem comer, filha? – perguntou a mãe, sentada a mesa, uma quente xícara de chá a sua frente. – Vai terminar desmaiando! Mulher magra demais não arranja marido!

- E quem disse que estou atrás de um! Além disso, ainda não apareceu o amor da minha vida! – sorrindo sarcástica

- Amor não enche barriga! –Margarida nervosa sempre que tocavam naquele assunto. Queria sua filha casada para assegurar-lhe o futuro – Além disso, um marido pode salvar uma moça da ruína! E se não apareceu ninguém é porque você tá magra demais! Um homem gosta de uma mulher que encha uma cama! – falando com ênfase.

- Mamãe, eu saberei a hora e a pessoa certas para mim! Tenho outras coisas na cabeça neste momento para preocupar-me em "encher" uma cama! Prefiro encher a dispensa!

E acenando, abriu a porta com dificuldades e saiu. Margarida suspirou. Temia que Esmeralda passasse pelo mesmo que ela passara. Um bom casamento daria a sua filha a segurança que nunca tivera, ou ao menos assim imaginava. Estava perdida em pensamentos quando a companhia soou. Levantou-se para abrir a porta e seu coração quase saiu-lhe pela boca quando se deparou com a figura enorme e autoritária do senhor Corleone. Por um minuto encararam-se, sem dizer nenhuma palavra. O espanto estava pintado nos olhos da mulher de lindos orbes verdes. Depois de um tempo, foi ele quem, num tom afetuoso, talvez afetuoso demais para sua personalidade, quebrou o silencio.

- Bom dia, Margarida! Como está?

- Bem! – gaguejou, ainda surpreendida – Melhor impossível! – sorriso falso.

- Fazia tempo que não nos víamos, nem parecemos vizinhos! – comentou o homem, tentando parecer cordial.

- Pois é...- ela desconversou -...O senhor tem tanto trabalho, é um homem tão ocupado...

- Por favor...- Guilty olhou-a dentro dos lindos olhos cor de esmeralda - ...Por que me trata por senhor quando sabes que para ti não tenho formalidades?

Margarida engoliu em seco.

- Não me convida para entrar?

- Claro! – disse por fim, bastante embaraçada – Vou tirar um bolo do forno, aceita?

- Adoraria, mas vim só para falar com Esmeralda! – Guilty ingressou na sala simplesmente mobiliada.

- Esmeralda? – Margarida o fitou com olhos amedrontados. – Por que Esmeralda? O que pode um homem tão importante ter para conversar com uma mocinha humilde?

- Pelo que toma, Margarida? – Guilty a encarou, as sobrancelhas franzidas – Não entendo seu tom! Até parece que estou a cortejar a sua filha!

- Bom...- Margarida afastou-se para retirar o bolo, colocando as luvas de cozinha – Você nunca se interessou por ela... – ainda nervosa, mas com um leve tom de insinuação na voz -...É normal que me preocupe, afinal, minha filha é solteira e bonita, pode atrair o olhar de qualquer homem!

- Não duvido! – falou Guilty olhando-a naquela tarefa tão singela, enquanto abria a porta do forno – E sua graciosa beleza decerto herdou de ti! – tom de galanteria – Mas você sabe que tenho muito apreço pela menina, ás vezes até imagino que é minha filha!

Margarida deixou cair ao chão a fumegante forma. Desajeitada, abaixou-se para limpar a sujeira. Metade do bolo ficara espatifado no chão. Guilty prontamente prestou-se para ajudá-la. Seus olhos se cruzaram por um minuto e ficaram mudos, o silencio falando por eles. Foi Margarida que o rompeu, desviando seus olhos para o piso.

- Minha filha não está! Já saiu para o trabalho! Se tiver algo em que eu possa ajudar...

- Tudo bem! – ele sem jeito, levantando-se – Era só para avisar que já estou com a quantia que me havia pedido ontem, me disse o que aconteceu com o carro! – olhava ao redor, completamente desorientado.

- Oras...- Margarida em igual estado - ...Não sei por que foi incomodá-lo!

- Incômodo nenhum! – ratificou Guilty – Sabe que estou sempre pronto para auxiliar no que precisarem! – fitou-a de um modo apaixonado e Margarida o sentiu.

- Bem, não precisava vir até aqui para isso! Podia ter mandado a Core!

- Eu jamais perderia a oportunidade de falar-lhe, Margarida!

Naquele momento bateram a porta. O susto da intromissão os trouxe de volta para a realidade. Guilty puxou o paletó e fazendo um aceno, saiu no momento em que Margarida verificava quem era, encontrando o carteiro.

- Até mais ver! – falou Guilty, desaparecendo através do jardim.

...

- Senhor Uehara? – chamou o médico – Senhor Uehara!

Shiryu, sentado num banco da sala de espera, adormecera após ter passado metade da noite em claro. Sabia que era tarefa de Ikki, mas preferia manter o mais velho dos irmãos longe de encrenca. Podia ser que Ikki, criasse uma imensa confusão se algum doutor se recusasse a responder suas perguntas sobre a saúde do irmão caçula. Acordou sobressaltado quando sentiu uma mão sobre seu ombro.

- Sim? – levantando-se – O que houve?

- Por favor, não se alarme! – sorriu o médico. – Seu amigo passou bem a noite!

- Ah, que bom! – sorriu aliviado. Shun havia passado por uma cirurgia.

- Agora o estão levando para a enfermaria! E se todo sai bem, hoje mesmo lhe damos alta!

- Eu posso vê-lo?

- Sim, mas, por favor, não o faça falar muito! Agora, ele pede para ver o irmão!

O médico despediu-se e Shiryu, pegando do celular, discou um número. Do outro lado da linha Ikki atendeu.

- Amamiya? Pode dar um pulo aqui no hospital?

- O que houve com meu irmão, Shiryu? – Ikki bastante sério.

- Foi transferido para a enfermaria! – falou satisfeito – Quer ver você!

Foi só o tempo de desligar o celular, Ikki abandonou as ferramentas que se dispusera a organizar e sem dar satisfação ao companheiro, saiu em disparada para a avenida principal, chamando um taxi no caminho.

- Suyama! – gritou ao chegar, esbaforido, na recepção. – Como ele está?

- Ainda não o vi! Quero que você seja o primeiro a entrar! Você tem o direito, tantos anos sem noticias!

Ikki bateu no ombro do amigo em agradecimento e seguiu na direção que Shiryu havia indicado. Golpeou a porta e abriu-a em seguida. Shun estava recostado na cama, meia alta, vestindo uma roupa azul hospitalar. Tomava seu café da manhã naquele momento. Quando o irmão entrou, acabara de meter a última bolacha na boca e entregava o copo de leite, ainda cheio, para a enfermeira, fazendo sinal de que não o queria.

- Não, Shun! – Ikki entrou no aposento, puxando com sua conhecida "delicadeza" o copo da mão de uma surpreendida mulher, sentou-se na cama do irmão e agregou, severo – Você tem de tomar, precisa estar forte!

E agarrando-o pelo queixo, enfiou-lhe a força o liquido gelado em sua boca, como fazia quando ele era criança e se recusava a comer.

- Vamos! – dizia, enquanto o outro, quase engasgando sorvia a grandes goles o liquido. – Vamos, isso! Você está bem, Shun?

- Depois de quase morrer afogado com leite, sim! – falou o mais novo, depois de beber todo o conteúdo. A enfermeira já os havia deixado. – Mas ainda penso no meu pai adotivo! – tornou-se taciturno.

- Não tema! – falou Ikki, olhando-o – O seu irmão está aqui! Eu o protegerei!

- Você sempre esteve junto a mim quando precisava! – Shun retribuiu seu olhar com carinho. – Meu irmão!

- Sempre estive e sempre estarei! Só temos um ao outro, Shun! E não o chame de pai! – rígido.

- Mas Ikki...- Shun atônito - ...Ele pode ser cruel, mas me deu casa e comida quando ninguém mais nos queria! Sou-lhe grato por isso!

- Não, Shun! Ele te escravizou! O seu pai, o nosso pai morreu há muitos anos, numa armadilha! Você era muito pequeno, não lembra!

- O nosso pai morreu de enfarto, Ikki! – Shun tentava vasculhar nas lembranças.

- Não! – Ikki o encarou com ódio retrospectivo, seu peito doía pela recordação – Nosso pai foi traído, roubado e assassinado pelo homem que agora, juntos, vamos destruir!

- Destruir? – Shun o olhou sem entender – Vamos destruir alguém?

- Guilty Diaz Corleone! – mastigou o nome.

- E quem é esse?

- O canalha que nos tirou tudo que tínhamos por duas vezes! – esbravejou. – Ainda vou vê-lo acabado e rir na cara dele como fez ao nosso pai!

- Ikki, eu não quero fazer parte disso! – Shun falou com tom sério, fazendo seu irmão fechar a cara – Não quero destruir ninguém!

- O que te passa? – Ikki explodiu – Este homem matou o nosso pai, fez nossa mãe nos abandonar, nos jogou na rua por duas vezes e você me vem com esse papo pacifista de que não quer destruir ninguém?

- Meu irmão, quando foi que seu coração foi esmagado por tanto ódio? – Shun fitava o irmão de modo afetuoso. – Eu vejo tanta raiva nos seus olhos, que...

- Basta, Shun! É seu dever, se não como homem ao menos como filho, vingar a morte daquele que te deu a vida! Nosso pai foi traído! Nossa mãe foi embora por culpa dele!

- Nossa mãe foi embora porque quis! – atalhou Shun. – Ela teve sua escolha!

- Chega! – rosnou Ikki – Eu pensava que você, durante estes anos vivendo de forma tão cruel, havia se tornado um homem de verdade, mas vejo que você ainda continua o mesmo chorão de sempre, Shun!

- Ikki...

- Eu estarei aqui se quiser se unir a mim para vingarmos a morte do nosso pai, do contrário, não me procure, estarei ocupado, destruindo alguém!

Ikki saiu batendo a porta. Shun suspirou, parece que seu irmão havia mudado pouco a rebeldia que possuía desde menino.

...

- Como vai, minha gatinha?

Esmeralda observava o motor de seu carro quando sentiu que alguém a abraçava por trás. Sorriu, virando o rosto de lado para receber um cálido beijo nos lábios úmidos.

- O que está fazendo? – perguntou o rapaz.

Pedro era alto e adamascado, com uma fisionomia de belo árabe. Tinha olhos esverdeados que floresciam no rosto trigueiro e cabelos negros. Era um imigrante espanhol, assim como Margarida, e a namorado já há 5 meses.

- Fiquei sabendo o que passou ontem! É verdade que o Corleone te emprestou dinheiro?

- Sim! Você sabe que é nosso amigo desde que eu era uma menina!

- E vais conseguir trabalhar sem carro? Como fará as entregas?

- A pé! – disse ela, virando-se para ele. – Por que não veio ontem? – ela cruzou os braços.

- Meu anjo...- Pedro a beijou mais uma vez - ... Tive um dia complicado! Realmente estive sem tempo!

- Foi sua mãe de novo? – grifou a palavra mãe. Já começava por cansar-se das desculpas que ele dava quando resolvia não aparecer.

- No! – disse – Se tivesse sido isso! – explicativo – Um amigo me pediu para trocar de horário com ele ontem e terminei fazendo os dois turnos! – sorriu amarelo. – Dirigi toda noite, estou cansado! Mas posso te ajudar!

Tentou pegar da vasilha com água que ela trazia nas mãos para colocar no automóvel. Esmeralda não permitiu e dando-lhe as costas, dirigiu-se ao carro.

- Se quer ajudar, compra um café, não comi nada ainda!

- Já descobriu quem foi o imbecil que te golpeou?

- Não! – ela disse, abrindo o capô – Parece que este imbecil sumiu da face da terra! – colocando a água.

- Se você quiser, posso levá-lo para a oficina da empresa e você pode usar o dinheiro para outra coisa!

- Não! – ela o encarou – Se por acaso não utilizo o dinheiro no carro, eu o devolverei, Pedro! – fechou o carro. – Agora eu realmente adoraria um café! – sorriu amarela.

- Já te trago!

E beijando-a, afastou-se. Esmeralda o viu partir dando um profundo suspiro de alivio. Já não tinha tanta certeza de seus sentimentos por aquele rapaz. Começava a cansar-se dele.

...

- Onde está Kira, Core? Não vai descer para almoçar?

Família reunida na sala de jantar, Guilty a cabeceira da mesa, sua mulher do seu lado esquerdo e sua sobrinha ao lado desta.

- Já disse que está vindo, senhor! – declarou Core, terminando de pôr a mesa.

- E você June! – Guilty abria seu guardanapo – Como foi na entrevista de trabalho que disse ter feito hoje? Vejo que é eficiente! Mal chegou e já foi chamada!

- A empresa é de um amigo! Liguei pra ele ontem, disse que estava necessitando alguma coisa e bom... Ele não pode fazer milagres, tive que fazer a entrevista como todo mundo!

- E o que disseram? – tornou Guilty, servindo-se de suco.

- O mesmo de sempre! – June desimportante – Que vão me chamar! Mas eles nunca chamam! De qualquer forma, estou esperando!

- E em que área está procurando, querida? – foi a vez de Saiyuri mostrar interesse.

- Publicidade, tia! Ainda que meu diploma seja de jornalismo!

- Desculpem pela demora!

A voz de Kira soou através do cômodo. Vestia um bonito vestido de crochê, ricamente bordado. Tomou assento ao lado direito do pai, defronte a madrasta.

- Como está hoje, Kira? – perguntou June, amistosa. Decidira que para viver bem na casa, precisava ganhar a simpatia da prima. Uma tarefa árdua.

- Bem, estou muito bem hoje! – respondeu esta, bastante tranqüila – Eu queria pedir desculpas por meu comportamento ontem! – disse com tom de arrependimento. – Principalmente a você! – olhou para June – Eu fui grossa e você não merecia!

- Tudo bem! – disse June, descrente das intenções da outra – Não foi nada demais!

- Ás vezes eu saio de mim, tenho atitudes que não são muito dignas, mas prometo que não voltarão a repetir-se.

- Ok, acredito em você! – June ofereceu-lhe um sorriso irônico.

- Meu suco de laranja! – atalhou Saiyuri, desfazendo o mordaz silencio que se fez – Acho que Core esqueceu!

Fez menção de levantar-se, mas sua enteada foi mais rápida.

- Pode deixar, Saiyuri! Eu mesmo te preparo um suco de laranja! Também vou querer um! Só um minuto!

E saiu, deixando uma atônita mulher plantada ao pé da mesa. Guilty sorria aprovador e orgulhoso. Saiyuri voltou a sentar-se.

- Não posso acreditar! – comentou com June em voz alta, esquecendo-se do marido tamanha sua surpresa – Está atuando! É uma grande atriz!

- Basta, Saiyuri! – rosnou o marido, fechando a cara.

Saiyuri deu de ombros e entreolhando-se com a sobrinha, preferiu mudar de assunto.

- Posso saber onde vai tão arrumada?

Olhou a sobrinha com um sorriso insinuante. June também tinha um ar alegre na face.

- Já sei! É um novo pretendente!

- Nada mais distante da realidade, tia! – June a olhou carinhosa. Guilty se limitava a observar as duas conversando.

- Vai se encontrar com Brian? – Saiyuri ergueu uma sobrancelha.

- Também não!

- Quando me contarás o que passou? Há um mês me ligavas, dizia que o romance era lindo, que ele era perfeito e agora...

- Terminou, tia! Acabou o conto de fadas! E se Deus quiser, passará muito tempo até que a senhora volte a me ver com um home de novo!

- June! – Guilty interrompeu por um momento a divertida conversa das duas mulheres – Queria explicar o comportamento de minha filha hoje!

A garota o olhou séria, esperando suas palavras. Saiyuri baixou a vista.

- É um assunto de família e muito dolorido. Teve uma infância muito complicada! Nunca falei disso com ninguém, só com sua tia!

- Tio, não precisa me dar qualquer explicação! – falou June, com tato.

- Mas eu quero que você saiba para que a tente entender! Tudo passou em uma noite...- Guilty perdeu-se nas lembranças por um momento -...Uma noite de natal! Kira tinha 6 anos! Estávamos esperando a Ismênia para cear e de repente ela apareceu, com o vestido branco que eu lhe havia dado, toda molhada de gasolina e um castiçal na mão!

Engoliu em seco, recostando-se mais em sua cadeira. Naquele momento, Saiyuri levantou seus olhos para o marido, também ela recordava-se daquele dia, ainda que não tivera presenciado a cena. Ela era a melhor amiga da espartana, como lhe chamavam os empregados.

- "Feliz natal, queridos!" , disse ela e atirou em si a vela que levava, envolvendo-se numa chama interminável! Kira viu tudo!

- Meu Deus! – falou June, realmente assustada – Que coisa horrível! Pobre Kira! Imagino como deve ter sido terrível para ela e para você!

- Sim! Foi verdadeiramente um horror!

Saiyuri, sem dizer nada, levantou-se e seguiu para seu quarto. Guilty calou-se e June ficou a remoer em seus pensamentos os motivos que levariam uma mãe encenar tal espetáculo diante de uma filha de 6 anos.

...