As duas semanas seguintes transcorreram na mais absoluta tranqüilidade. Mais à vontade, Lily teve tempo para analisar profundamente o comentário de James sobre o negligé. Não era da natureza dele fazer esse tipo de observação. Seu humor era mais sutil, mais seco. Ciente disso, ela estava mais do que curiosa para saber exatamente o que ele quisera dizer.

James podia estar apenas brincando, como costumava fazer quando ela era uma garota. Ou procurando dizer-lhe, de maneira velada, que não a queria ver andando pela casa com aquela camisola transparente. Como se ela fosse capaz de exceder-se a tal ponto!

A camisola e o negligé estavam na cômoda, ainda envoltos em seda. Não conseguia imaginar-se usando coisas tão sofisticadas. Achava que devia haver uma ocasião especial para isso. Qual, não sabia dizer. Sabia apenas que gostava de olhá-los de vez em quando e acariciar a seda macia com a ponta dos dedos, pensando como James reagiria se a visse naqueles trajes. Como cunhado ou como qualquer homem?

Ainda perdida em divagações, começou a movimentar-se em torno da mesa da cozinha, deixando-a posta para dois. James era o homem que queria, que sempre quisera. Trazia-o dentro do coração desde criança. E, agora, parecia que todos os seus sonhos de adolescente voltavam de repente, impetuosamente, com uma força que não podia controlar. Talvez por estarem vivendo na mesma casa. Mas não era uma intimidade real. Era quase como uma brincadeira de faz-de-conta. E Lily queria a realidade.

Suspirando, abriu o forno e experimentou o assado com o garfo. Tivera um dia cheio, mas não estava cansada. Sua vida, afinal, parecia tomar um rumo ordenado. Animada com essa mudança, fora matricular-se na universidade local, escolhendo duas matérias que a ocupassem apenas duas vezes por semana.

Alegrava-se com a perspectiva de voltar a estudar. Era como se o amanhã assomasse à sua frente. Amanhã poderia retomar contato com a vida. Haveria tanta coisa para fazer, para compartilhar... Mas o único homem com quem gostaria de dividir tudo não a via como mulher... Apenas como cunhada.

James oferecera-lhe amizade e ajuda financeira. Mas isso não era o bastante. Ao voltar da faculdade, estava eufórica. Sentira a necessidade de dividir sua alegria com alguém. De abraçar e ser abraçada, na mais instintiva das reações humanas.

Às vezes pensava se não estava perseguindo um sonho que não podia materializar-se. Fora casada com Jeremy e embora tivessem tido uma vida confusa, nunca duvidara do amor dele. No começo de suas vidas em comum, ele se mostrara muito carinhoso. Ainda assim, não chegara a encontrar nisso um motivo para sentir-se feliz. E, apesar de ter se esforçado muito, nunca se realizara inteiramente como mulher.

O casamento acabara muito antes do acidente de Jeremy, embora ninguém soubesse disso. Sentia-se totalmente sozinha. Não tinha amigos, nem do sexo masculino nem do feminino. A famosa camaradagem do show business não parecia existir... pelo menos para ela.

O que a retivera ao lado dele fora um sentimento de solidariedade. Sabia que Jeremy vivia com medo de sentir-se perdido sem ela. E o problema era justamente essa sensibilidade doentia. Mais do que qualquer outra coisa, Jeremy era um fraco. Precisava de mais garantias de segurança do que ela. Mesmo no último ano de casados, quando ele conhecera outra mulher.

Não sentira ciúmes. Nem havia por quê. Ao contrário, ficara feliz por Jeremy, esperando que esse novo amor fosse melhor para ele. Possivelmente, ele a deixaria livre, desde que se sentisse seguro.

Fora isso o que lhe dissera na noite do acidente, implorando-o para que fosse razoável. Infelizmente, estava muito preocupada com o seu próprio futuro e não procurara controlá-lo como devia. Depois de uma discussão final, Jeremy saíra correndo de casa, no meio da noite chuvosa, zangado demais para ter condições de guiar.

O acidente fora traumatizante. Sentira-se perdida pela primeira vez na vida, e culpada por ter perdido a paciência. Se não tivesse forçado a situação, talvez o desenlace fosse outro. Sentira-se também culpada por não ter dito a verdade à família dele. Não mentira, realmente. Apenas omitira certos detalhes. De qualquer modo, de nada teria adiantado. Jeremy estava morto,

Mas James, o que ele pensaria se tivesse conhecimento da culpa que lhe cabia pela morte de Jeremy? Apesar das diferenças que os separavam, os dois irmãos nutriam um profundo afeto um pelo outro. James se mostraria tão bondoso com ela, se soubesse da verdade? Talvez se arrependesse amargamente de tê-la convidado a viver na casa dele.

Absorta nessas divagações, Lily nem se deu conta do vulto alto e musculoso que parará no limiar da porta entreaberta e a observava com o olhar atento. Por isso, deu um salto, quando ouviu uma voz grave às suas costas.

— O cheiro está delicioso.

Era James. Ela voltou-se lentamente, lutando contra a vontade de dar-lhe um beijo de boas-vindas.

— Com esse friozinho, achei que seria uma noite adequada para um bom assado — disse-lhe.

O tempo esfriara e havia no ar um prenuncio de outono. Pela manhã, quando saíra, sentira o vento gelado penetrar-lhe nos ossos e voltara para casa correndo, em busca de um suéter. Acostumada com os dias ensolarados da Califórnia, achava essa mudança de temperatura brusca demais.

James colocou a pasta e o paletó na cadeira e aproximou-se.

— Você vai ter que se acostumar de novo com o frio. O que irá fazer, quando a temperatura cair ainda mais?

— Uma boa canja — ela disse com um sorriso, enquanto abria o forno para verificar o assado e as batatas. — E chocolate quente para tomar diante da lareira acesa.

James imaginava a cena. A neve caindo lá fora e, dentro de casa, o fogo doméstico da lareira. Era uma perspectiva agradável.

— Vai ser maravilhoso.

Lily observou-o de soslaio. Seus olhos castanhos estavam sonhadores. Em que estaria pensando? Provavelmente em algo prático, como a necessidade de cortar lenha para a lareira. Certamente, não neles dois sentados lado a lado, aquecendo-se ao calor das chamas...

— O jantar não vai demorar — anunciou, arrancando-se dos devaneios.

James consultou seu relógio de pulso.

— De quanto tempo disponho?

— Meia hora, talvez.

— Vou aproveitar para fazer um pouco de ginástica.

Lily percebeu-lhe a expressão tensa e encorajou-o.

— Faça isso. Eu o chamarei, quando o jantar estiver na mesa.

James subiu os degraus de dois em dois, indo ao seu quarto. Despiu-se rapidamente, trocando o terno formal por short e camiseta. Depois desceu para a sala de ginástica. Enquanto ajustava os pesos e deitava-se de costas, começou a pensar em Lily. Desde que ela chegara, pusera-se a seguir com mais afinco o programa de exercícios físicos. Seu corpo, ao menos, se beneficiaria com a crescente frustração de suas emoções.

Não havia dúvida. O trabalho no escritório mais os exercícios puxados deixavam-no exausto a ponto de cair na cama e dormir imediatamente... em vez de ficar com os olhos abertos no escuro, com o rosto de Lily se insinuando a todo o instante em seus pensamentos.

Movimentou os pesos com mais energia. Gotículas de transpiração brotaram de seu peito, depois de sua testa, enquanto continuava a trabalhar os músculos das pernas e do abdômen. Os exercícios ajudavam, mas não resolviam o problema. Além do mais, não poderia continuar naquele ritmo para sempre. Era de matar uma pessoa. Só havia uma solução para isso, excelente e que o aquecia mais do que a ginástica. Mas...

A verdade era que gostava de chegar em casa e encontrá-la na cozinha, com o sorriso que se acendia em seu rosto ao vê-lo. Era algo fora de moda e talvez um tanto machista, mas a idéia de sabê-la esperando por ele ao final de um dia exaustivo, produzia-lhe uma profunda sensação de bem-estar.

Era estranho que se sentisse assim, porque nunca tivera o menor pendor pela vida doméstica. No passado, houvera muitas mulheres com quem poderia ter se casado. Mas mesmo quando alguma o entusiasmava mais, mesmo quando percebia mais claramente sua superioridade em comparação com as outras, mesmo então o casamento tinha para ele algo de assustador. Talvez possuísse alguma falha que o tornava inadaptável à vida de casado.

Mas, após a chegada de Lily, começara a perceber que viver com alguém não era a carga insuportável que sempre imaginara. Sua presença ali estava se constituindo numa grande experiência em todos os sentidos.

Gostava de ver a mesa bem posta e de consumir uma refeição quente à noite, em vez de comer alguma coisa, apressadamente, a caminho de casa. Além disso, Lily fazia questão de levantar-se cedo e preparar-lhe também o café da manhã. E tinha que admitir que vê-la sentada diante dele, compartilhando de sua primeira refeição, era um prazer além de um incentivo a começar bem o dia.

Pensou o que faria sem ela. Em pouco tempo, Lily se instalara em sua vida, o que era ótimo. Mas queria mais, muito mais...

— Quer experimentar, para ver se está no ponto?

James virou a cabeça. Lily estava a poucos passos dele, com um pratinho numa das mãos e um garfo na outra.

— Claro!

Ergueu-se e Lily abaixou-se para ele. Sua respiração acelerou-se, quando ela aproximou o garfo de sua boca. Abriu-a com o olhar fixo nela, alongando o pescoço.

Lily tinha a impressão de que estava rolando num turbilhão, dentro daqueles olhos castanhos. Por que viera ali? Devia ter esperado por ele lá em cima ou tê-lo chamado do alto da escada. Seus cuidados não se justificavam.

Mas não conseguira conter-se. A força que a atraía para James era muito forte. Queria estar sempre no mesmo lugar em que ele se encontrava. Porém vê-lo assim, transpirando masculinidade, era infligir-se uma tortura, alimentar fantasias que não tinham base na realidade.

Ele exalava um cheiro excitante, com o suor brotando de sua testa, braços e pernas. E o calor que vinha dele parecia subir de um forno. Um tremor subiu-lhe pelas pernas e não conseguiu dominá-lo.

— Está bom? — perguntou, depois de um desesperado esforço para controlar-se.

Ele terminou de comer o último pedaço, antes de responder:

— Perfeito.

Lily apanhou uma toalha e pôs-se a enxugá-lo.

— Você está todo suado.

James não fez nenhum movimento para impedir que ela lhe enxugasse o rosto e os braços. Era tão bom... E quase não resistiu à tentação de agarrá-la pela cintura, aninhá-la contra si, sentir-lhe os seios através da camiseta e os quadris arredondados na palma das mãos.

— Vou tomar um banho rápido de chuveiro. Estarei pronto dentro de alguns minutos — disse por fim, a vontade louca controlada à última hora.

Lily endireitou-se bruscamente.

— Não precisa apressar-se. Vou deixar o assado no forno aquecido — disse.

Ao erguer-se, esbarrou nela e, quase sem pensar, um pedido de desculpas aflorou aos seus lábios.

— Sinto muito — disse, agarrando-se a seu braço para não perder o equilíbrio.

— Não há problema.

Lily ficou imóvel. O calor da mão dele insinuava por todo o seu corpo um fogo abrasador. Queria que ele a beijasse e implorou-o com os olhos. Mas quando viu o rosto dele chegar cada vez mais perto, voltou a si. O que estava fazendo? Receosa de que aquele começo os fizesse perder a cabeça, deu um passo para trás, rompendo o contato mágico.

— Não vou demorar — ele murmurou.

Ela assentiu, incapaz de falar. Permaneceu ali por mais alguns minutos. Então voltou-se e subiu lentamente as escadas, de volta à cozinha. Ali, estaria a salvo de seu mundo de fantasias.

James estava aborrecido consigo mesmo quando entrou diretamente debaixo do jato de água quente. Onde estava com a cabeça? Respirou fundo e esperou que o calor se espalhasse como um bálsamo por seus músculos tensos. Já mais calmo, começou a analisar a situação.

Estivera a ponto de beijá-la, imaginando ver um convite nos olhos dela. Uma loucura! Violentamente, fechou a água quente e abriu a fria, ficando imóvel sob o jato gelado para acalmar os últimos resquícios de desejo que ainda estremeciam seus nervos. Saiu então do chuveiro e enrolou-se na toalha. Esfregou-se até ficar seco e depois vestiu calça clara e camisa esporte.

Quando chegou à cozinha, o assado fatiado e decorado com salsinha triunfava no centro da mesa. O aroma da comida despertou-lhe o apetite. Não sabia que estava com tanta fome. Mas enquanto olhava para Lily debruçada sobre a pia, não pôde deixar de pensar se fizera bem em convidá-la a vir morar em sua casa. Pela primeira vez desde que aquilo tudo começara, teve consciência do peso de sua decisão e ficou dividido por sentimentos contraditórios, inconciliáveis.

Ela pressentiu a presença dele e voltou-se.

— Bem a tempo — disse, com um sorriso.

— Pois é... — ele murmurou, e a secura de sua voz era evidente.

Lily olhou-o e notou logo sua expressão distante, a mesma que ele adotava quando ela se tornava íntima demais. Os profundos olhos castanhos pareciam adverti-la: "Não ultrapasse os limites, Lily. Lembre-se do que aconteceu naquela vez". Com tato e habilidade, James fazia-lhe ver que qualquer intimidade com ele era algo inaceitável.

Sentou-se diante dele e começou a servi-lo.

— Você parece muito cansado. Não teve um bom dia?

— Não, realmente. Trabalhei demais.

— Naquele projeto sobre o qual você me falou? ― James assentiu.

— Esse mesmo.

— O cliente já assinou o contrato?

— Ainda não. Tudo depende de alguns acertos no projeto original.

— Parece que esse contrato é muito importante para você.

— E é mesmo. Obter a conta de Black significará a diferença entre o bom e o ótimo para a minha agência.

— Desejo-lhe boa sorte, então.

— Vamos precisar mais do que isso. Sirius Black é um ótimo negociador. E eu me sentiria mais tranqüilo se não estivéssemos com tanta falta de pessoal. — Ele fez uma pausa e olhou-a. — Você vê algum inconveniente em trabalhar meio período no escritório, como combinamos?

— De maneira alguma! Pensei que sua prioridade fosse a arrumação e a decoração da casa.

— Isso é também importante — ele concordou, entre dois bocados. — Hum... O assado está realmente excelente.

— Que bom que você gostou!

— Talvez você possa preparar algo assim tão delicioso, se eu puder dar um jeito para que Black e a esposa dele venham jantar conosco.

— Naturalmente — ela disse, sorrindo. James acariciou-lhe a mão por cima da mesa.

— Boa menina.

Falaram de uma série de outros assuntos sem importância. Depois da sobremesa, Lily propôs:

— Podemos sair amanhã para comprar o resto dos móveis. Se você não tiver outros compromissos, é claro.

— Sua sugestão é muito boa. Podemos tirar as medidas hoje e ir às compras logo após o café da manhã.

Depois de arrumada a cozinha, James foi buscar um bloco de papel e uma trena. Tomaram as medidas de todas as salas do térreo e então fizeram uma pausa. Lily preparou um chocolate quente, que foram tomar na sala, sentados no tapete, diante da lareira apagada.

— Está ótimo — elogiou James. — Tem um sabor de infância.

Lily animou-se a dizer:

— Havia uma infinidade de boas marcas no supermercado. Não pude resistir.

— Uma compradora impulsiva! — ele brincou. Ela riu.

— Eu? Nunca tive dinheiro o bastante para me tornar uma compradora compulsiva do que quer que fosse!

James ficou sério.

— Sinto muito, Lily. Jeremy era meu irmão e eu o amava, mas nunca aprovei seu estilo de vida.

— Não tem do que se desculpar, James. Você não era responsável por mim.

James sabia que ela estava querendo apenas facilitar as coisas, mas isso serviu para lembrá-lo de que, para Lily, ele era apenas o irmão de Jeremy. Tomou um gole de chocolate e mudou de assunto.

— O que fez hoje? Correu tudo bem?

— Muito bem. Matriculei-me na universidade.

— É maravilhoso, Lily! Por que não me disse nada até agora? Sei o que isso significa para você.

— Estava aguardando o momento certo.

James colocou a xícara na borda da lareira.

— Este é um bom momento. Sou todo ouvidos.

— Serão somente duas aulas por semana, para começar.

— Que matérias escolheu?

O entusiasmo dela voltou, diante desse interesse.

— Pensei em começar com Inglês e História da Arte — disse, esboçando um sorriso.

— Ótima escolha. Mas você não parece muito entusiasmada.

— Oh, mas estou! Não vejo a hora de começar.

— Quando será isso?

— Dentro de suas semanas.

Ele segurou-a pelos ombros e olhou-a com ternura.

— Estou orgulhoso de você, Lily. Jeremy também estaria.

Ela afastou o corpo e recolheu-se em si mesma.

— Acredito que sim.

James notou seu desalentado descambar de ombros.

— Que foi Lily? Disse alguma coisa que não devia?

— Claro que não.

— Incomoda-a falar de Jeremy, é isso. Você sente ainda muita falta dele?

Ela esboçou um leve sorriso.

— Não da maneira que você pensa.

— De que maneira, então?

Lily suspirou. Não queria falar de Jeremy, mas sabia que isso teria de acontecer, mais cedo ou mais tarde.

— Sinto falta... de ter alguém com quem conversar sobre meus problemas.

— Eu estou aqui para isso.

— Para tomar o lugar de Jeremy? — ela perguntou, sem refletir.

James foi tomado de surpresa e sua resposta foi fria e agressiva.

— Não poderia, mesmo que quisesse. E eu não quero.

Lily ergueu o queixo.

— Eu também não haveria de querer.

Ele inclinou-se para a frente e olhou-a bem dentro dos olhos.

— O que você quer, Lily?

Ela suspirou fundo.

— Não sei, James. Estou confusa. Tudo está acontecendo rápido demais.

— Tudo o quê?

— Essa mudança em minha vida. Tantas coisas boas acontecendo... — Um sorriso surgiu nos lábios dela. — E tudo graças à sua generosidade. Estou muito agradecida.

— Não quero sua gratidão.

— Sei disso. Mas eu não conseguiria realizar coisa alguma, se não fosse você — ela disse suavemente.

James descontraiu-se um pouco.

— Está muito enganada, Lily. Eu não tenho nada a ver com isso. Você deve tudo a si mesma. Passou por maus pedaços, mas nunca se deixou abater. Você é muito corajosa.

— Não sou corajosa. Estou mais assustada do que você poderia supor.

Ele puxou-a contra si, num abraço afetuoso, e a cabeça dela aninhou-se com naturalidade em seu ombro.

— Não deve ficar assustada. Estou aqui para tudo o que você precisar. Não somos amigos?

Um sentimento de conforto invadiu Lily.

"Oh, James, se você soubesse quanto preciso de você...", ela quis dizer, cada vez mais consciente daqueles músculos fortes. O aroma que se desprendia do corpo másculo, musgo e almíscar, deixava-a embriagada. Insensivelmente, entreabriu os lábios, num convite silencioso.

"Apenas um beijo de amigos. Por que não?", refletiu James, enquanto a beijava de leve na boca. Mas quando, inesperadamente, ela passou-lhe os braços pelo pescoço e pressionou o corpo contra o dele, ficou sem ação. Olhou-a. Seus olhos verdes estavam semicerrados e neles brilhavam, através das estreitas aberturas das pálpebras, estranhas luzes de prazer. Lily estava lhe pedindo algo mais do que um beijo. Algo que ela não podia exprimir em palavras. Mas seria isso mesmo o que ela queria?

Só havia um meio de saber.

Rodeou-lhe a cintura com o braço e puxou-a para si. Seu rosto estava apenas a um palmo do dela. Deu-lhe tempo para afastar-se, mas ela não o fez. Ao invés disso, ficou imóvel, em expectativa. Lentamente, curvou a cabeça para ela e seus lábios se juntaram. Sentiu-lhe os dentes e, num ímpeto, empolgou-lhe a boca, a língua forçando passagem para o interior macio, que conservava ainda o doce gosto de chocolate. Imediatamente sentiu que estava tendo uma ereção e procurou afastar o corpo, para que ela não percebesse.

Mas Lily já sentira sua força impetuosa. Não se surpreendeu com o impacto e apoiou-se nele, enlanguescida. Ele ergueu-lhe o rosto e tornou a beijá-la na boca, num beijo que não acabava nunca. Ao mesmo tempo, acariciava-lhe os cabelos, os ombros, as costas, num movimento incessante. Ao alcançar-lhe as nádegas, trouxe-a para mais junto de si e ela pôde senti-lo inteirinho, de alto a baixo.

Ele estava excitado, podia ver suas têmporas latejarem. E isso era algo contagiante. Sentiu-se dissolver-se toda por dentro. A cada arremetida de sua língua, o sexo pulsava-lhe docemente, mergulhando-a, afogando-a num agitado mar de delícias.

Os minutos passavam e James não deixava de beijá-la, agora inteiramente dobrado sobre ela. E os seus beijos já não eram mais na sua boca ansiosa, mas nos seios que ele desnudara, roçando-os com a língua, mordiscando-os, deixando-a louca de prazer. Instintivamente, aninhou-se nos joelhos dele, como uma gatinha provocando contatos, e desabotoou-lhe a camisa.

Isso pareceu eletrizá-lo, deixando-o fora de todo controle. Apanhou-a no colo e deitou-a no tapete, passeando os olhos ávidos, vagarosamente, por todo o seu corpo. Um impulso arrebatador dominou-a por completo. Estendeu-lhe os braços, dizendo-lhe com o olhar que se deixaria tomar sem reservas.

Foi como se todas as barreiras que os separavam não existissem mais, só prevalecendo as leis da natureza. James debruçou-se sobre ela e subjugou-a, apertando-a mais e mais contra o peito. Rolaram desvairados pelo tapete, beijando-se, tocando-se, mordendo-se... e foram esbarrar nas xícaras de chocolate, colocadas sobre a borda da lareira. O conteúdo já frio derramou-se sobre o tapete, respingando neles.

Ergueram-se ambos de um salto e ficaram olhando um para o outro. Lily com um misto de vergonha e espanto, e James visivelmente constrangido.

— Desculpe-me — ele murmurou, afastando-a deliberadamente de si.

Lily respirava com dificuldade. Que loucura abandonar-se àquele impulso!

— Eu quero que me perdoe.

Mas antes que pudesse explicar-se, ele deixou-a e encaminhou-se para a cozinha. Voltou instantes depois, com um rolo de toalhas de papel. Como um autômato, Lily apanhou algumas e pôs-se a limpar o tapete com ele. Mas sua vontade era fugir dali, fechar-se no quarto e pensar no que havia acontecido.

Quando o tapete ficou limpo, sentou-se no chão, ainda não refeita das emoções que experimentara. Fora ela que provocara tudo, oferecendo-se. Agira como uma doida! Sentiu o rosto arder de vergonha; com a lembrança da cena.

James percebeu que tinha de dizer alguma. Não se perdoaria se não o fizesse. Estivera a ponto de seduzi-la! O que havia começado com um gesto de ternura transformara-se em algo fora de seu controle, algo que podia ter um efeito devastador sobre aquela criatura tão sensível. Precisava tranqüilizá-la. Precisava assegurá-la de que, apesar do que havia acontecido, ainda era possível manterem uma relação de camaradagem.

— Portei-me como um bruto — disse-lhe. — Sinto muito. Isso não tornará a acontecer.

— Sou eu que lhe devo desculpas. Agi como uma alucinada... como uma viúva â procura de consolo.

— Não diga uma coisa dessas — ele murmurou, tomando-lhe as mãos.

Já estava de posse de seus atos. Agora queria ficar sozinho, analisar melhor seu comportamento e encontrar razões que explicassem por que perdera a cabeça tão rapidamente, tão completamente. Precisava ter certeza de que isso não voltaria a acontecer.

Lily adivinhou o que ele estava pensando e sentiu-se uma intrusa.

— Acho que vá vou indo — murmurou.

— É melhor. Você precisa mudar de roupa — ele observou, referindo-se ao jeans dela, manchados de chocolate.

Ela ergueu-se, feliz por ter uma desculpa de deixá-lo.

— É o que vou fazer. — Da porta virou-se e procurou sorrir. — Não sei por que reagi tão infantilmente a um simples beijo de amigos. Nós nos conhecemos há tanto tempo... Não acha que foi criancice de minha parte?

— Por que se preocupa com isso?

Lily olhou-o por um momento. Depois confessou:

— Quero saber. Preciso saber.

— Pois foi isso, Lily. Uma criancice de sua parte.

Ela respirou fundo, aliviada.

— Estou me sentindo melhor.

Ela parecia tão doce, tão vulnerável, que a custo James resistiu ao impulso de tomá-la nos braços e afagar-lhe os cabelos.

— Acho que teremos de ser pacientes um com o outro.

Lily sorriu, agradecida por ver que ele queria deixá-la à vontade.

— Você nunca foi paciente comigo, James.

— Está aí uma coisa que devo aprender: ser paciente.

— Terá essa oportunidade, medindo-se comigo.

James acompanhou sua saída com os olhos, pensando que nunca ouvira nada mais verdadeiro.


Oi gente! Sei que demorei muito, mas peço que me perdoem, vou tentar ao máximo postar mais rápido. Quero agradecer a Julia Menezes, Lady Miss Nothing e Lady Aredhel Anarion pelos comentários, adorei cada um deles. Beijos, até o próximo cap e um SALVE para quem viu hoje HP e a Ordem da Fênix ;D