A partir daquela noite, houve uma mudança radical no comportamento de ambos. Vivendo na mesma casa, era difícil esquivarem-se à convivência, mas Lily deu um jeito de evitar os momentos de intimidade. Viam-se apenas nas horas das refeições. Quase não se falavam, nem se olhavam, separados embora juntos, cada um imerso em seus próprios pensamentos. Depois do jantar, faziam-se apenas uma companhia silenciosa, antes de se retirarem para os seus respectivos quartos.

Felizmente, também James passara a evitá-la. Tratava-a bem, porém ficava a distância, frio e pleno de domínio. Raramente puxava conversa que envolvesse assuntos pessoais, e parecia determinado a continuar assim.

Estabelecida a trégua, Lily dedicara-se de corpo e alma ao trabalho. Queria deixar tudo pronto para quando os móveis chegassem. Entretanto, essa atividade física não impedia sua mente de trabalhar freneticamente. Censurava-se por seu comportamento ousado, aquilo lhe dava a sensação de ter cometido um pecado, mas não podia negar seus efeitos. Seus sonhos eram agora repletos de fantasias sexuais envolvendo James. Pela manhã, acordava exausta de tanto lutar com o sono.

Não podia fugir ao fato de que não o procurava só para ser confortada. O primeiro beijo podia ter sido apenas isso. Mas o segundo... O modo como ele lhe tomara a boca, como a tocara, e o modo como ela se abrira para ele... Nada disso podia ser logicamente explicado.

Não era mais uma criança. Já vivera o suficiente para saber algo sobre os homens, sobre o sexo. Podia não dar importância a um olhar, a um toque, até mesmo a um beijo. Mas quando um homem estava excitado, sabia que outras coisas mais estavam em jogo. E, embora isso inspirasse alguma esperança ao seu coração ansioso, estava assustada.

Não podia correr o risco de ser novamente rejeitada por James. E todo o tempo, no fundo de sua mente, havia medo. Medo que o sofrimento antigo voltasse, medo da revolta e da raiva que inevitavelmente se seguiriam.

Passado era o tempo em que ela tentara se convencer de que não fora a rejeição de James que a fizera cair nos braços de Jeremy. A verdade era que as coisas que ele lhe dissera naquela triste manhã fizeram em mil pedaços todos os seus sonhos de adolescente.

Suspirando, relembrou seu primeiro ímpeto de paixão. Amava-o desde criança, quando decidira que ele seria o homem de sua vida. E ter feito amor com ele naquela longínqua noite de Quatro de Julho significara tudo para ela. Ficara louca de alegria e chegara até a acreditar que ficariam juntos para sempre. Mas o sonho havia perdurado só até o dia seguinte. Quando desmoronara, ficara arrasada. Para ela, não havia mais passado, presente ou futuro. Havia apenas o vazio.

Permitira que Jeremy o preenchesse, aceitando sua companhia e deixando-se amar. Sem vontade própria, tomando e não se dando. Não feliz, não infeliz, más o coração pesado e vazio. Levara anos para sair daquele entorpecimento. Quando conseguira, procurara reconstruir sua vida da melhor maneira possível, lutando para que seu casamento desse certo. A essa altura, porém, o dano já era irremediável. Para ambos.

Chegara até ali, vencendo a mágoa, a indiferença e até mesmo o horror da morte de Jeremy. Não podia, não queria ver-se lutando novamente para preservar o direito de ser ela mesma. Não podia apaixonar-se de novo por James. Não, a menos que houvesse uma esperança de que ele fosse capaz de retribuir seus sentimentos.

E esse era o problema. Não tinha a menor idéia do que ele sentia ou pensava. James sempre tivera essa habilidade de esconder seus sentimentos atrás daqueles enigmáticos olhos castanhos. E se não soubesse compreender o que eles diziam? Ou se eles lhe diziam alguma coisa que ela ignorava?

Desde o episódio na sala de bilhar, não esperava dele nenhuma perturbação reveladora. Ele achava-se preparado e em guarda, e assim reprimia todo sentimento que pudesse traí-lo. Escolhia as palavras cuidadosamente e mostrava-se exageradamente educado. Não agüentava mais tanta educação. Se aquele desfiar de por favor e obrigado continuasse, gritaria de ódio, quebraria alguma coisa!

No entanto, havia leves indícios de que esse distanciamento era apenas aparente. As vezes surpreendia-o olhando para ela. Nesses instantes, um sorriso quase imperceptível suavizava-lhe os traços duros.

Diante disso, não sabia o que pensar. Qual era a verdade? Seu respeitoso cunhado estava apenas querendo ajudá-la a pôr-se de pé emocional e financeiramente? Se não era isso o que seria? Estaria atraído por ela como mulher, desejando-a como mulher?

Apesar dessa confusão interior, sentia-se dominada por uma excitação que a impelia cada vez mais de encontro à consciência sexual. Estranho, porque nunca se sentira particularmente atraída pelo sexo, como muitas mulheres. Durante o tempo em que estivera casada com Jeremy, insegura sobre aquelas novas sensações, procurava conter o impulso de explorá-las e ficara sem realmente saber o que queria descobrir.

Mas após suas reações às carícias de James compreendera subitamente o porquê disso. Era ele. Sua presença, máscula e vigorosa, despertava-lhe a necessidade de experimentar coisas mais adivinhadas do que sabidas. Era como se ele tivesse tocado uma profunda nascente dentro dela, algo que ela nem sabia existir.

Quando, porém, estava perto dele, continha seus impulsos, mantendo-se reservada e prudente. Não confiava mais em si mesma e procurava ficar a distância sempre que possível. Ele também não se aproximava. Era um solitário dentro de sua fortaleza.

Mas, na terça-feira, empolgada com a perspectiva de sua primeira aula noturna, teve um súbito desejo de compartilhar essa alegria com alguém. Com quem quer que fosse... até mesmo com James. Especialmente com James.

Resolveu procurá-lo fazendo-lhe uma surpresa: apareceria no escritório. Tinha uma boa desculpa para isso, devia-lhe um almoço. Seria também uma oportunidade de ouro para acabar com a situação incômoda dos últimos dias. O ambiente neutro do escritório talvez facilitasse o entendimento entre eles.

Pensando nisso, preparou uma porção de coisas gostosas, inclusive a torta de chocolate preferida de James, e colocou tudo numa cesta de piquenique. A caminho do escritório, parou num fast food e reforçou o cardápio com uma boa salada mista.

Ao chegar, não havia ninguém na recepção para anunciá-la. Assim, foi direto ao escritório de James e bateu à porta. Uma voz que ela reconheceu como a dele convidou-a a entrar. Ele estava sentado à sua mesa, com um homem que ela não conhecia sentado à sua frente.

— Desculpem-me — murmurou, confusa. — Voltarei mais tarde.

O outro homem levantou-se imediatamente.

— Entre, por favor — ele convidou, avançando para ela com a mão estendida. — Sou Sirius Black. E você é?...

— Lily Potter — ela completou, apertando-lhe a mão. Sirius Black... o nome não lhe era estranho. Devia ser o cliente sobre o qual James lhe falara. Ou melhor, o cliente que ele esperava fazer. Lançou-lhe um olhar interrogativo. James fez um sinal de assentimento e ela entrou.

Ele não esperou que a porta se fechasse, para perguntar:

— O que posso fazer por você, Lily?

Falara com a maior polidez, mas ela soube, pela linha inflexível de seus maxilares, que devia ir embora. Sentindo-se uma tola, murmurou:

— Oh, nada. Eu estava passando pelas vizinhanças e...

— O que você traz aí? — interrompeu-a Black, apontando para a cesta. — Não será o almoço?

Lily voltou-se para ele com um sorriso.

— Bem... é isso mesmo. Um almoço-piquenique. Ou algo parecido.

— Uma grande idéia, Lily, mas estamos tratando de negócios — explicou James. — Talvez uma próxima vez.

— Claro!

— O que há aí é suficiente para três? — perguntou Black.

Houve surpresa no rosto de Lily.

— É sim.

— Ótimo! Vamos fazer uma pausa, Potter. E experimentar o que sua linda esposa preparou.

— Lily não é minha esposa — disse James, visivelmente constrangido.

Ela colheu uma fugaz expressão no rosto dele, mas não conseguiu captar seu significado. Pareceu-lhe que traía uma certa amargura, porém como saber? Quis desviar a vista, mas não conseguiu. Sentia-se como que hipnotizada, alheia a qualquer coisa a seu redor.

Agora, sua única vontade era aproximar-se dele e curvar-se para beijá-lo com o mesmo vigor selvagem, a mesma paixão com que ele a beijara dias antes. Vibrava ainda de desejo e entreabriu os lábios, numa inconsciente antecipação.

James pareceu ler seus pensamentos, porque ficou tenso. Seus olhos pareciam dizer: "Aqui não, Lily".

E ela perguntou silenciosamente: "Onde... quando, James?"

Black clareou a garganta e Lily obrigou-se a olhá-lo e a explicar:

— Sou a viúva do irmão de James.

— Queira desculpar-me pelo engano. ― Ela sorriu.

— E um engano que todos cometem. ― Ele retribuiu o sorriso.

— O que há em sua cesta, Lily? — quis saber Black. — Posso chamá-la de Lily, não posso?

— Naturalmente, Sr. Black — ela concedeu com um sorriso. — Há muitas coisas boas em minha cesta.

— Ótimo! E me chame de Sirius, sim? — ele disse, com uma voz cordial.— Agora vamos comer, Potter. Estou faminto.

James olhou-o, incerto sobre o que fazer. O último assunto da agenda estava ainda em discussão. Acabou capitulando.

— Está bem, Black. Aonde gostaria de ir? ― Sirius olhou-o com alguma surpresa.

— Há algum inconveniente em ficarmos aqui?

— Oh, não!

— Fico contente com isso — disse Lily. — Creio que vai gostar de meu almoço, Sirius.

Simpatizara imediatamente com ele. Havia espontaneidade no seu olhar, no seu sorriso. Seu aperto de mão firme dissera-lhe que ele era um homem em quem se podia confiar. Sirius também parecia gostar dela. Valendo-se disso, talvez, pudesse ajudar um pouco James.

E se havia uma coisa que ela aprendera, viajando pelo país com Jeremy, era tratar com desconhecidos. Adquirira uma habilidade especial para iniciar uma conversa agradável e sentir-se perfeitamente à vontade com quem quer que fosse. Nesse sentido, completava James. Ele era um gênio dos negócios e ela socialmente traquejada. Com um pouco de sorte, poderia transformar sua entrada desastrada em algo positivo.

Empolgada com essa idéia, começou a esvaziar a cesta de piquenique. James saiu de trás da escrivaninha e parou ao seu lado. Sentiu o coração alucinado, ao perceber o calor que transparecia naqueles olhos castanhos. Foi preciso muito esforço para abaixar a cabeça e continuar a tarefa.

Não o vira naquela manhã, não compartilhavam mais a primeira refeição. E vê-lo agora, tão perto de si e tão bonito num impecável terno cinza carvão, fazia-a sentir a mesma alegria empolgante da primeira tarde. Ah, se ele soubesse!...

James a contemplava em silêncio, possuído de um sentimento estranho, algo que ele não podia explicar. Conhecia o motivo do retraimento dela e, se tivesse um pouco de juízo, deixaria que esse afastamento servisse para esfriar as coisas entre eles. Ao contrário, porém, estava ridiculamente orgulhoso pelo modo como ela reagira às suas carícias.

Durante aquela semana, passara horas a fio analisando a experiência erótica que tinham vivido, procurando convencer-se de que ela reagira daquele modo porque se sentia solitária, precisava de alguém que lhe desse carinhos. E, por uma coincidência, ele era o único homem disponível.

Essa explicação não só não o convencera, como, curiosamente, despertara-lhe uma porção de velhas recordações daquele verão de dor e de ternura, de selvagens sensações físicas e de cruciantes lutas de consciência. Ainda agora não podia esquecer as verdadeiras agonias de ciúme que sentira, quando a via ao lado de Jeremy.

Fora um exame inútil e penoso, mesmo porque Lily correspondera aos seus carinhos tão naturalmente, com tão desinibida paixão, que não podia estar pensando em outro. Não. O que ela sentira naquele momento sentira-o por ele. Fora uma emoção verdadeira.

Mas havia sido diferente? Especial?

Custara-lhe afastar tais pensamentos naquela noite. E nos dias e noites que se seguiram. Queria que tivesse sido diferente e mais especial do que tudo que Lily tivesse experimentado antes. Podia ser bobagem, mas teria achado maravilhoso saber que ela nunca o esquecera.

E esse era o xis do problema. Embora ele tivesse sido o seu primeiro amor, ela fora, durante longos nove anos, a esposa de Jeremy. Isso o incomodava, tomava-o pequeno, humilhado. E por um motivo muito simples: desejava-a inteiramente, de corpo e alma. Toda para si. Não queria três numa cama. Não queria o fantasma de Jeremy entre eles, quando fizessem amor. Não haveria intimidade nem mesmo calor.

Nas lentas horas da noite, entregava-se fria e criticamente ao exame da questão e chegara à conclusão de que devia voltar ao plano original: ajudar Lily a reerguer-se, estimulando-a a dar um rumo à sua vida.

Quando ela estivesse preparada para andar com suas próprias pernas, deixaria que enfrentasse o mundo.

Mas, como sempre, Lily não cooperava. Ainda há pouco, irrompera no escritório com um sorriso doce estampado no rosto e uma cesta enfiada no braço, enchendo tudo com a sua presença. Como podia lutar contra ela? Como podia lutar consigo mesmo, quando cada fibra de seu ser voltava-se para ela como uma planta para a luz do sol?

Quando a vira à porta do escritório, tivera vontade de beijá-la e torcer-lhe o pescoço ao mesmo tempo. Não se atrevera a dizer-lhe coisa alguma, mas achara que ela tinha por obrigação saber que o escritório não era lugar para piqueniques! Porém, quando a encarara, a sua irritação subitamente se convertera numa ternura cálida, que amolecera o seu coração.

Seguiu-a involuntariamente com os olhos, acompanhando-lhe os movimentos, enquanto Sirius a ajudava a estender a toalha axadrezada sobre a mesa. Havia sem dúvida uma qualidade magnética nela. Sirius parecia encantado. Falava sem parar de coisas sem importância, como se a conhecesse de longa data.

Devia ser também a aguda compreensão que Lily parecia possuir das pessoas. Algo muito além do que seria de se esperar de alguém tão inexperiente no trato com homens de negócios. A prova era que ela conseguira imprimir um ar de domesticidade ao escritório, transformando-o subitamente numa sala de visitas. Estava sinceramente admirado!

Sirius viu-o pensativo e disse baixinho a Lily:

— Homem brilhante o seu cunhado. Pena que não saiba se divertir. — Ele baixou a voz para um sussurro confidencial. — Não confio muito nas pessoas que não sabem se divertir.

Lily acolheu a observação com uma risadinha.

— Ele sabe se divertir, sim! ― Sirius olhou-a com ar de dúvida.

— E você acredita nisso?

— Claro que acredito! Quer ver? ― Ousadamente, ela aproximou-se de James, desabotoou-lhe o colarinho e afrouxou o nó da gravata. Notou a tensão que isso provocou imediatamente. Mas pouco a pouco ele foi se acalmando.

— Sente-se mais à vontade? — perguntou-lhe.

— Sim.

— Feche os olhos e vamos começar.

Seus dedos eram leves como plumas nas têmporas dele.

— Está se sentindo melhor?

— Muito melhor. — James tomou-lhe a mão e seus dedos se entrelaçaram.

Lily voltou-se para Sirius com um sorriso.

— Aí está, Sirius. Completamente descontraído!

— Ótimo!

— James é uma pessoa excepcional — ela continuou. — Eu lhe confiaria a minha vida. ― O sorriso de Sirius foi imediato.

— Essa moça vale um tesouro, Potter. Espero que você saiba apreciá-la como ela merece.

— Posso lhe garantir que eu a aprecio muito, Black. ― Sirius assentiu, enquanto se sentava à mesa.

— Muito bem. — Ele parecia estar com muita fome, pois começou logo a comer. — Como é? Vocês dois não vão comer também?

Daí a instantes estavam os três sentados à mesa, comendo o que havia.

— Ótimo — disse Sirius, abrindo outra lata de cerveja. — Você fez tudo sozinha?

Lily sorriu sem nenhuma afetação.

— Quase tudo.

Sirius deu outra mordida na coxa de galinha e comentou:

— Muito melhor do que a comida desses restaurantes famosos.

— Obrigada.

James sentiu-se na obrigação de perguntar:

— Sua esposa não o acompanhou na viagem?

— Oh, sim! Deve estar em Nova York, visitando as lojas da Quinta Avenida. Marlene é louca por compras.

— Gostaria muito de conhecê-la.

— Mas claro! Vai ter logo essa oportunidade.

— Ótimo, Black.

Sirius parou de comer e ergueu os olhos para ele.

— Faça como Lily e me chame pelo nome.

— Está bem, Sirius. Lily e eu ficaríamos honrados se viessem jantar em nossa casa uma noite dessas. Que oportunidade melhor para conhecermos Marlene?

— Seria um prazer — completou Lily. — De verdade.

— Posso lhe adiantar que ela fará um grande assado — tornou James.

Sirius olhou de um para o outro e sorriu.

— Não há como recusar um convite desses. Para quando?

— Quando achar oportuno — disse Lily. — Deixe sua esposa marcar a data.

— Farei isso — prometeu Sirius.

Lily sorriu intimamente. Sentia que tinha conseguido algo mais importante do que combinar um jantar. Olhou para James. Ele compreendeu seu olhar e sorriu, satisfeito, um sorriso que lhe aqueceu o coração. De repente, teve vontade de fazer por ele coisas que o fizessem sorrir para ela assim com mais freqüência.

E um bom modo de começar era não ficar ali mais tempo do que o necessário.

— Foi um prazer, mas já vou indo — disse, levantando-se. — Tenho de me preparar para as aulas desta noite.

Recolheu tudo, arrumou a cesta e voltou-se para os dois homens com um sorriso.

— Feito. Agora posso ir.

Sirius tomou-lhe a mão entre as suas.

— Foi um prazer conversar com você. Estamos combinados, então? Acho que você e Marlene vão se dar às mil maravilhas.

— Tenho certeza que sim — disse Lily, apertando-lhe a mão.

James tomou-a pelo braço e escoltou-a até a ante-sala. Ali, virou-a para si e ergueu-lhe o queixo. Sentia-se empolgado por um novo entusiasmo.

— Parece que você descobriu um novo tipo de comunicação com Sirius — disse, sorrindo.

— Considero isso um elogio.

— E tem a intenção de ser um elogio mesmo.

Lily depositou a cesta no chão e ajeitou-lhe a gravata,

— Não estarei em casa para servir o jantar.

— Não se preocupe comigo. Darei um jeito.

— Deixei algumas coisas na geladeira.

— Ótimo. Estou louco para ir para casa, meter-me num banho e tirar esse cansaço do corpo. — Ele fitou-a com ternura. — Boa sorte para esta noite.

— Para você também — ela murmurou, fazendo um gesto com a cabeça na direção do escritório.

— Vou precisar — ele disse, abrindo-lhe a porta. — Obrigado por tudo. Você foi ótima.

— Está falando sério? Pensei que não tivesse gostado da minha ousadia em meter-me nos seus negócios.

— Confesso que fiquei furioso, quando vi você entrar no escritório.

— E depois?

A expressão do rosto de James não mudou, mas ela teve a impressão de que uma luz se acendera dentro dele, irradiando um calor que a atingia deliciosamente.

— Você tem uma qualidade única, Lily.

— Que qualidade é essa? — perguntou-lhe, com voz trêmula.

— De fazer de qualquer lugar o seu canto. Você parece sentir-se em casa onde quer que esteja.

Lily não soube o que dizer. Estava emocionada demais para falar. Ficaram ali, sorrindo um para o outro como dois velhos conhecidos que a muito não se viam. Então, antes que ela pudesse perceber-lhe a intenção, James inclinou-se e beijou-a na boca. Foi um longo beijo ao mesmo tempo delicado, terno e agradecido.

— Agora vá, Lily — ele disse, antes de voltar-lhe as costas.

Quando a porta fechou-se atrás dela, Lily sentiu uma nova vitalidade pulsar em seu íntimo. Estava orgulhosa, feliz e entusiasmada, pois percebera em James um novo respeito por ela. Quis chamá-lo de volta e abrir seu coração. Mas conteve-se: não era o momento certo.

Saiu do escritório com a impressão de que a cortina de fumaça estava levantada. Poderia dar resultados. Claro, havia ainda muitas coisas a serem ditas. Mas o que, realmente, permanecia entre eles, a não ser a lembrança de Jeremy e a sua sensação de culpa pela morte dele? Nada.

Encaminhou-se para o estacionamento, a cabeça baixa, as idéias em remoinho. Jeremy. Ele fora seu melhor amigo, fora-o desde os seus anos de adolescente. Amara-o como a um irmão, o que era estranho, porque devia ter se sentido assim em relação a James. Mas não havia sido assim. Não era assim.

Então, por que o evitava? E James, por que fazia a mesma coisa? Por que estavam ambos usando o pretexto de Jeremy para se esquivarem ao trato? Mas seria assim? Não seria ela a única a estar usando a desculpa de Jeremy?

O fato era que tinha deixado escapar várias oportunidades de falar dele com James. E a cada vez, jurara por tudo nesse mundo que no dia seguinte iria contar-lhe a verdade. Contaria tudo como realmente acontecera e finalizaria: "Fui eu que o matei! Pronto, condene-me!"

Sabia, porém, que não o contaria nunca. Uma consciência menos impressionável teria vencido facilmente a situação. Ela, no entanto, não conseguia esquecer a culpa que estava ainda ali, latente em seu íntimo, um ponto dolorido na sua sensibilidade. Decerto remorso pelo fato de que fora a causadora, embora involuntária, da morte de Jeremy. Ele morrera e ela estava viva.

Não, nunca contaria a verdade que a diminuiria aos olhos de James. E isso a deixava aniquilada, fazia-a sentir-se uma fraude. Mas era o preço de sua covardia. Não podia confessar que seu casamento havia sido uma impostura. Não podia admitir que nada fizera para corrigi-la. Porém, como dizer a James que, quando finalmente tomara a iniciativa para acabar com tudo, o resultado tinha sido a morte do irmão dele?

Tinha vindo a Nova Jersey esperando conjurar o fantasma de Jeremy e sentir-se finalmente livre. A cada momento, porém, penetrava mais e mais no passado, um passado denso de recordações torturantes.

Entrou na caminhonete e, os braços apoiados no volante, pensou no que Jeremy lhe teria dito. Teria dito para esquecer. Conhecia-o bem, tanto como se conhecia. Jeremy era um espírito livre, acreditava que todos devessem seguir os ditames de seus corações. E, se estivesse ali, teria com certeza insistido: "vá em frente, baby!"

Mas o problema era que ela nunca se sentira tão livre como Jeremy.

E James? Iria em frente, esqueceria o passado, o único obstáculo que ainda se interpunha entre eles? Poderia vê-la não como a mulher do irmão dele, mas apenas como Lily, a mulher que o amava mais do que a tudo na vida?

Essa incerteza a deprimia. Preferia que ele lhe dissesse, se fosse o caso, que não podia sepultar o passado. Isso a deixaria livre para reunir os destroços de sua vida e partir em busca do mundo diferente em que daí por diante teria de viver.

Uma onda de emoção dominou-a. James significava tanto para ela e tantos modos... Imediatamente, a figura máscula de olhos castanhos e cabelos escuros ocupou sua mente. Seria tão maravilhoso se pudesse ficar e transformar a realidade...

De repente, percebeu que estava se deixando arrastar por pensamentos tristes, como uma folha levada pela correnteza. Não fazia o menor sentido! Nada acontecera para que se desesperasse tanto. Precisava manter a calma, analisar a situação e ver que linha de conduta teria de adotar. Ele fora tão carinhoso na despedida...

Deu a partida e pôs o carro em movimento. Pensaria nisso em casa, com mais vagar. Refletiria muito antes, e com maior clareza, antes de decidir qual seria o próximo passo a dar. Essa idéia vinha martelando-lhe a mente desde sábado à noite, E agora pedia uma resposta, um plano, uma solução.

Enquanto entrava no tráfego, fez um balanço do último período. E foi categórica: as quatro semanas em Nova Jersey tinham sido francamente maravilhosas, apesar dos pesares. Então, para que afligir-se?


Um raio cortou os céus, acompanhado de um violento trovão. Gotas de chuva começaram a cair, rápidas, e em pouco tempo se transformaram numa cortina cintilante. Um cheiro de terra molhada, forte e agradável, penetrou pela janela do carro.

James deixou-se ficar ali, os olhos fixos na única janela iluminada de sua casa, reflexo de uma criatura que se entregara apaixonadamente anos atrás, esperando, de alma aberta, que ele também se abrisse.

Que esperava dele? Que desejava, realmente? Por que resistia?


Que saudadeeeeeeee! Sei que demorei 2 longos meses para postar, mas quem faz facul sabe como é. Não vou responder cada comentário, porque quero postar rapidinho, mas agradeço do fundo do coração a Lady Miss Nothing, Lady Aredhel Anarion e Ninha Souma que comentaram. Ameeeei gente os comments de vocês e para me redimir hoje postareis 2 caps. Beijos gente e até logo.