Lily abriu os olhos para a luz do sol que se derramava sobre o tapete e chegava até a cama. Tornou a fechá-los, ainda sonolenta, relutando em sair daquele torpor doce e prolongado. Quando a lembrança da noite anterior aflorou-lhe à mente, enterrou a cabeça no travesseiro e a custo resistiu ao impulso de cobrir a cabeça com o lençol. Agira como uma doida!

— Ah, dane-se! — murmurou de repente, jogando as cobertas para um lado.

Levantou-se e sentiu no mesmo instante uma dor aguda nas têmporas. Foi cambaleando pára o banheiro e examinou a prateleira de remédios do armário. Pegou o vidro de aspirinas e engoliu duas. Antes de ir para o chuveiro, parou diante do espelho, procurando alguma evidência de seu estado de espírito abalado. Não havia nada. Ao contrário, sua pele estava luminosa e perfeita, a testa alta e lisa era a mesma de sempre, assim como os cabelos ruivos e a boca generosa.

"Sou a mesma", pensou, totalmente inconsciente dos olhos inchados pelas lágrimas que derramara.

Meteu-se debaixo do chuveiro e abriu a água ao máximo, encontrando prazer num banho que espancava para longe as lembranças desagradáveis. Fez uma rápida toalete e sentou-se na cama, esperando que a aspirina acabasse com a sua dor de cabeça. Depois tratou de arrumar tudo. Recolheu e dobrou as roupas espalhadas pelo quarto, deixando de lado a camisola azul. Cuidaria dela mais tarde.

Enfiou uma calça jeans e um suéter folgado que pertencera a Jeremy, achando que era a coisa mais certa a fazer. Sentia-se tão próxima dele aquela manhã como se sentira em certa manhã de tantos anos atrás, após o rompimento com James. Jeremy permanecera ao seu lado então, confortara-a, mostrara-se o amigo de que precisava.

Era estranho, mas o suéter dava-lhe a mesma sensação de bem-estar. Havia, porém, alguma coisa diferente desta vez. Não era mais aquela adolescente. Deixara de sê-lo quando se casara com Jeremy. Estava mais controlada agora e mais determinada a não se deixar levar pelas emoções.

Não sabia ao certo o que devia esperar, mas dessa vez estava preparada para lutar. Lutar contra o passado, lutar contra James e até consigo mesma, se fosse preciso. Com essa disposição de ânimo, desceu para a cozinha. Estava vazia. Olhou para o relógio. Passava das dez. James já devia ter saído para o trabalho. Sentiu a tensão interior ressurgir e achou que um café ajudaria. Preparou um bem forte e tomou-o fumegante, bem devagar, e sentiu-se melhor.

Serviu-se de uma segunda xícara e com ela na mão, dirigiu-se para o escritório de James. Encontrou-o como o deixara na véspera. Arrumou rapidamente tudo. Não restava agora o menor indício do que se passara ali. Ia fechar a porta, quando se deu conta de que o sofá havia desaparecido. Onde poderia estar? James não iria carregá-lo nas costas...

Movida por uma energia mental que desafiava sua lassidão física, mudou de roupa e maquiou-se cuidadosamente, procurando apagar os vestígios de sua extravagância. Era o seu primeiro dia de trabalho no escritório e queria apresentar-se da melhor maneira possível. Na noite anterior, após a discussão final com James, decidira adiar a sua estréia. Mas, agora, estava decidida a ir. O destino do sofá intrigava-a. Não podia esperar até a noite para saber o que havia sido feito dele.

A caminho da porta, apanhou a jaqueta de couro. O sol estava a pino e o céu azul, completamente sem nuvens. Mas havia no ar um prenuncio de inverno. Sentou-se atrás do volante e deixou que seus olhos vagassem pelos arredores. Os carvalhos tinham adquirido um novo colorido. Mais um tom juntara-se às folhas mutantes, aprofundando os dourados e os avermelhados, concedendo à manhã um toque de magia.

Tinha a sensação de que alguma coisa estava para acontecer, algo de vivo e estimulante pairava subitamente no ar. Aspirou-o fundo, compreendendo, talvez intuitivamente, que haveria uma explicação de algum tipo entre ela e James, algo que lhes desse a segurança de que teriam um futuro calmo pela frente.

Tomada de estranha excitação, deu a partida e seguiu pelos intrincados caminhos que conduziam ao centro da cidade. Sentiu, pela primeira vez desde a sua chegada, que tinha voltado de fato para casa.

— O Sr. Potter está em reunião — disse-lhe a secretária, quando entrou no escritório.

Lily não se surpreendeu. James era um homem muito ocupado.

— Obrigada, srta. Carson — agradeceu, mas experimentou uma estranha sensação de inutilidade.

Sentou-se à sua mesa e ocupou-se com a pilha de papéis colocados à sua frente e com os fichários encostados à parede. Já passava das cinco, quando ergueu a vista. Juntou os papéis, guardou-os numa pasta e levantou-se, dando por encerrado o seu dia de trabalho.

Antes de sair, passou pelo toalete, refrescou-se e renovou a maquiagem, achando que um pouco de blush não faria mal algum às suas faces pálidas. Ao voltar para a área de recepção, avistou James conversando com um de seus assistentes.

Ele viu-a e não pôde dissimular a surpresa. Parou de falar e encaminhou-se para ela. Parecia ter passado a noite sem dormir. O rosto estava abatido e os olhos se mostravam injetados. Sem uma palavra, tomou-a pelo braço e escoltou-a até o corredor vazio.

— Não sabiá que você estava aqui. Por que decidiu vir? — perguntou, dando um profundo suspiro.

— Achei que você queria conversar.

James olhou-a demoradamente e afinal disse:

— Tem razão, é melhor conversarmos.

— Quando? A hora do jantar?

Ele sacudiu a cabeça energicamente.

— Em casa, não. Vamos a algum lugar.

— Onde?

— Há alguns restaurantes neste quarteirão. Você conhece o Portobello? Não fica muito longe daqui.

— Conheço, sim.

— Ótimo. Então vamos nos encontrar lá às seis e meia. É uma hora tranqüila.

— Seis e meia — repetiu Lily. — Estarei lá.

— Até logo — ele disse, dando alguns passos na direção do escritório.

— James — ela chamou. Ele parou e virou-se.

— Sim?

— O que fez com o sofá?

— Doei-o a uma instituição de caridade. Telefonei para que viessem buscá-lo imediatamente.

— Por que não tomou essa providência antes?

— Só descobri tarde demais que tinha de fazer espaço para o sofá novo que vai chegar — ele disse com voz controlada.

Permaneceram num pesado silêncio que pareceu durar um tempo enorme.

— Sei como deve estar se sentindo — ele tornou, afinal. — Desculpe-me. Não queria magoá-la.

— Não precisava desculpar-se. Foi tanto culpa minha quanto sua. Eu não conhecia as regras do jogo.

— Não foi um jogo.

Lily fitou-o por um longo momento.

— Isso já passou e não tem mais importância.


O restaurante estava praticamente vazio, quando ela chegou. Havia um pianista tocando na área do bar, perto da entrada. Umas poucas pessoas sentadas em torno do piano curtiam seus drinques. Lily passou por elas e o maitre adiantou-se, fazendo uma mesura.

— O Sr. Potter já está à sua espera.

Lily seguiu-o até a mesa habitual de James. Ficava junto à parede, separando o restaurante do bar, a localização mais importante da casa. Quando ela se aproximou, ele levantou-se e esperou que ela se sentasse ao seu lado.

— Sobre o que você quer conversar? — foi logo perguntando Lily.

James suspirou.

— Que pressa é essa?

—Pensei que o que você tinha para me dizer fosse urgente.

— Não é tão urgente assim. Vamos antes fazer o pedido.

O garçom aproximou-se com o cardápio.

— O contrafilé está muito bom — ele sugeriu.

— Traga dois. Mas, primeiro, quero um scotch duplo com gelo.

— Para mim, apenas água mineral — disse Lily. James sorriu, irônico.

— Vinho demais ontem à noite?

— Um pouco demais de tudo, James.

— A noite de ontem foi um erro — ele afirmou inesperadamente. — Eu quis me desculpar, mas você não me abriu a porta.

Um sorriso amargo aflorou aos lábios de Lily. "Claro que a noite de ontem foi um erro!" Queria que não tivesse acontecido e tentara esquecer o ímpeto de paixão que os arrastara. Mas tudo estava ainda nítido em sua mente.

James olhou-a e sufocou um suspiro. Em seus olhos havia uma estranha expressão de tristeza. Ela devia estar ainda chocada com o incidente da véspera. Não tivera nenhuma intenção de provocá-lo. Ao contrário. Sentira as mesmas necessidades que ela, os mesmos anseios. Estava pronto e ela parecia tão ansiosa... Ainda não compreendia o que o levara a interromper aquele instante mágico... Tudo fora tão absurdo e tão rápido!

Porém sua aversão ao sofá era verdadeira. Podia ser idiota e até mesmo infantil, mas queria a realidade do presente para ambos. Nada que o lembrasse do passado e muito menos da cena ocorrida nove anos atrás. E acreditara que Lily pudesse compreendê-lo. Como poderia supor que, durante todas aquelas semanas, ela não houvesse reconhecido o sofá?

Fora penoso. Ouvira-a chorar desesperadamente e aquilo lhe causara profunda perturbação. Quisera confortá-la, mas nada pudera fazer. Ela estava fechada em seu quarto e não o deixara entrar. E pelo resto da noite, insone, ele continuara a ouvir os seus soluços.

Semicerrou os olhos, recordando suas palavras: "Eu vou me casar com você, James". Lily tinha doze anos quando dissera isso. Seu rosto estava muito sério, o verde de seus olhos muito profundo e a voz com que falara era a de uma pessoa adulta. Devia ter acreditado nela. Haveria menos sofrimento em suas vidas, se houvesse procedido assim.

Em vez disso, empurrara-a para os braços de Jeremy. Empurrara-a, ou ela fora de bom grado para os braços dele?

Por que se casara com ele? Se lhe perguntasse, ela lhe diria a verdade?

Era esse o propósito do jantar: descobrir a verdade, suprimir as suas dúvidas de uma vez por todas, compreender sua própria insegurança em relação àquele casamento. Não poderia prosseguir, se não se livrasse antes do entulho do passado.

O garçom trouxe as bebidas e Lily tornou:

— Não acha que está na hora de colocarmos tudo em pratos limpos?

— Sim, acho.

— Sobre o que você quer falar, James?

— Quero falar de você e de mim. — Ele inclinou-se para a frente. — E de Jeremy.

Lily sentiu um frio na boca do estômago.

— Nossa conversa não devia ter nada a ver com Jeremy.

James procurou tomar fôlego para falar:

— Ao contrário. Tem tudo a ver, Lily. Eu, você e... Jeremy. Você sabe disso, eu sei e se Jeremy estivesse vivo, concordaria comigo. Estivemos evitando o assunto por muito tempo. Jeremy sempre esteve entre nós. E sempre estará. O que aconteceu ontem à noite é prova disso.

Lily respirou fundo.

— O que você quer saber a respeito de Jeremy?

— Por que se casou com ele? ― Ela desviou a vista.

— Por que as pessoas se casam?

— Porque se amam. Não é isso o que você está querendo dizer? Que amava tanto Jeremy que é penoso para você tocar nesse assunto?

— James...

— Não é assim?

— Jeremy foi embora. Para mim, é muito difícil falar dele. Especialmente com você.

— Especialmente comigo... Por quê?

— Você é irmão dele.

— E você era a esposa dele. E esse é um dos problemas de nosso relacionamento. Não discuta — ele disse, erguendo a mão. — Você sabe que é verdade. Não podemos nos envolver até não esclarecermos isso.

Lily o olhou, incrédula.

— Não podemos nos envolver, James? Já estamos metidos nisso até o pescoço!

James apoiou-se ao espaldar da cadeira, um amplo sorriso estampado no rosto.

— Finalmente você entendeu isso. Finalmente!

— Por que finalmente?

— O sofá...

— Outra vez o sofá? — ela disse, começando a ficar irritada. Aquilo não tinha o menor sentido!

— Mas eu quero falar sobre o que aconteceu naquele sofá. Há nove anos e ontem à noite. Foi a mesma coisa.

Por um momento, Lily se sentiu dominada pela raiva. Será que ele pensava que podia brincar com ela? Mas no mesmo instante a raiva desapareceu. Ele era sincero no que dizia.

— Não foi a mesma coisa. Há nove anos eu era uma mocinha ingênua.

— E ontem à noite...

— Ontem eu era Lily Potter, a viúva de Jeremy Potter e isso é um fato que não pode ser ignorado. — Ela o fitou nos olhos. — Você quer a verdade, não é? A verdade, James, é que eu não tenho nenhum problema com o sofá. Você, sim.

Isso o deixou mudo e Lily percebeu que o tinha tocado num ponto sensível. Podia continuar. Podia lembrá-lo de que não fora ela que guardara o sofá por tantos anos. Mas preferiu não lhe mostrar o óbvio. Talvez fosse melhor para ambos não desenterrar o passado.

O jantar chegou e James esperou que o impassível garçom os servisse e se afastasse.

— Você tem razão — ele admitiu.

Lily tornou a fitá-lo. Havia agora nos olhos dele uma tristeza que nunca vira antes.

— Passaram-se nove anos. Para que revolver tudo novamente?

Mas ele insistiu:

— O problema é meu. Não consigo chegar a um acordo comigo mesmo. Eu amava meu irmão. Você pode não acreditar porque havia uma espécie de antagonismo entre nós, mas fomos muito amigos na juventude. Eu teria feito qualquer coisa por ele. E fiz. Até mesmo...

— O que, James? — ela perguntou, percebendo subitamente que algo muito importante estava para ser dito.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não há nada para dizer.

— Há, sim. Vejo isso em seus olhos. É algo que diz respeito a mim. — Ela fez uma pausa. — É isso?

— Seria melhor não tocar mais nesse assunto.

— Fale James.

— Não vai adiantar nada.

— Também não adiantaria nada falar sobre meu casamento com Jeremy, mas ainda assim você quer saber. Eu também quero saber. A verdade.

Ele rendeu-se.

— Está bem. Mas se não gostar do que vai ouvir, não diga que eu não avisei.

— Vá em frente, James.

— Aconteceu naquela noite de verão, depois de termos feito amor. Jeremy chegou assim que você saiu. Percebi que ele queria falar. Ele não era de falar muito comigo, mas nessa noite tinha tomado algumas cervejas a mais e acho que isso ajudou. Falou-se sobre a banda e sua vontade de percorrer o país. E falou-me sobre você.

Lily encarou-o, admirada.

— Que foi que ele disse?

— Disse que estava apaixonado por você.

— Impossível! Jeremy e eu éramos apenas amigos.

— Talvez ele tivesse deixado apenas presumir isso. Mas o fato era que ele amava você.

O garçom chegou para retirar os pratos.

— Café? — ofereceu.

Ambos assentiram. Depois que ele se afastou, Lily fez um esforço para reatar a conversa.

— Continue — pediu.

— Você pode imaginar o resto. Não consegui dizer o que havia entre nós. Não, depois de ele ter-se exposto tanto, pondo a nu a sua alma. Era a primeira vez que isso acontecia. Ouvi-o e tomei uma decisão.

— Deixou a voz do sangue falar mais alto.

— Sim, foi o que eu fiz.

— E no dia seguinte foi à minha casa e disse-me que, para o meu próprio bem, era preciso terminar com aquele romance.

Ele suspirou:

— Sim e arrependi-me amargamente mais tarde.

Havia martelos batendo na cabeça de Lily.

— Só mais uma pergunta, James. Você sentia alguma coisa por mim naquela ocasião?

— Você sabe que sim — ele disse e parecia sincero.

— Eu não sei nada. Sei apenas o que você disse naquela manhã, quando me deixou.

— Paguei pelo meu erro. Tenho sentido remorsos desde então. — Ele procurou-lhe a mão por cima da mesa. — Sinto muito.

— Tarde demais para isso — ela disse, retraindo-se.

— Procure entender. Ele era meu irmão e você a garota da casa ao lado. Pensei que você fosse superar isso. Acha que eu teria feito o que fiz se soubesse que iria colocá-la numa posição absolutamente intolerável?

— Acho que você levou muito a sério suas obrigações de irmão.

O passado a chamava novamente. Lily fechou os olhos e viu-se de novo a adolescente de outrora, presumida no falar, mas terrivelmente sincera. Como estava profunda e loucamente apaixonada por James, achara que ele sentia por ela a mesma coisa. E imaginara que essa paixão fosse durar pela vida afora... Abriu os olhos e fitou-o. Para ele, ela não fora mais do que a garota da casa ao lado. Odiava-o agora. Odiava-o principalmente porque o que ele dissera era verdade.

Ele pareceu ler seus pensamentos.

— Você nunca fez algo que a deixou envergonhada? Nunca desejou voltar atrás no tempo para ter uma segunda oportunidade?

A imagem de Jeremy na noite do acidente, balançando nos dedos as chaves do carro, voltaram à mente de Lily.

— Já, sim — ela murmurou, baixando os olhos.

Quantas vezes já não se fizera essas mesmas perguntas! Como podia condenar James por seu comportamento no passado, se ela própria se sentia culpada pelo acidente de Jeremy? Teria algum dia a coragem de lhe dizer que precipitara a morte do irmão? Ele não a perdoaria, tinha certeza, e isso seria nova razão de sofrimento para ela e uma sensação de culpa ainda maior.

Apanhou a bolsa e a jaqueta e levantou-se.

— O que vai fazer? — perguntou James, surpreendido. Fugindo-lhe com os olhos, ela informou:

— Vou para casa.

— Fique, Lily. Precisamos continuar nossa conversa.

— Não há mais nada a dizer.

Ele levantou-se lentamente.

— Você compreendeu meus motivos?

— Compreendi. Muito mais do que você imagina.

Ao chegar em casa, Lily foi direto para o quarto. Despiu-se com gestos mecânicos e vestiu uma camisola simples. Em seguida sentou-se diante do espelho e começou a escovar os cabelos com força, como se quisesse arrancar da mente pensamentos penosos e confusos.

Ao olhar-se com atenção, percebeu que estava terrivelmente pálida e quase por instinto, abriu o decote da camisola, expondo a curva delicada dos seios, onde constatou a presença de mais um sinal deixado pelos lábios de James. A lembrança da cena vivida no sofá invadiu-a de calor.

Soltando um longo suspiro, enfiou-se na cama com seus livros. Isso a forçaria a concentrar-se em outra coisa que não a conversa que tivera com James. Mas foi inútil. Continuava a remoer as mesmas idéias, a repetir as mesmas palavras para si mesma.

Sua intuição não falhara. Houvera uma explicação entre ela e James. Mas não aquela que havia imaginado. Nada do que ele dissera a fazia pensar que um dia ele voltaria para ela. Percebera apenas que havia entre ambos algo mais além da atração sexual. E isso fora tudo.

James estava perturbado. Isso era óbvio. Dissera que queria a verdade, mas não estava ainda preparado para ouvi-la. E a verdade era que ele não podia conciliar o fato de que a desejava com o fato de que ela fora a esposa de seu irmão.

Era um problema aparentemente insolúvel, porque não podiam mudar o passado. Não podiam desfazer o que havia sido feito. Mas ele insistia em corporificar Jeremy, colocando-os entre ambos. Agarrava-se a isso para fugir dela e de si mesmo. Era um absurdo!

Para ela, Jeremy estava morto. Enterrara-o com a mente e com o coração. Embora carregasse ainda a culpa pelo acidente que o vitimara, tinha consciência de que fizera tudo para que seu casamento desse certo. Não dera. Mas não por culpa dela. Nesse sentido, estava com a consciência tranqüila. E considerava essa parte de sua vida definitivamente encerrada. Quanto ao futuro...

Queria James. O que sentia por ele era algo antigo e novo ao mesmo tempo. Desejava-o fisicamente, sempre o desejara, isso era um fato incontestável. Mas desejava também o seu amor. E essa descoberta a deixava confusa e perdida, porque não sabia o que esperar.

Quanto a ele, só podia dizer que estava travando uma batalha inútil consigo mesmo. Queria fazer amor com ela, mas na última hora algo o impedia. E a única coisa que ela podia fazer para fortalecê-lo era despertar-lhe a sensualidade, acender-lhe a chama do desejo.

O que ele via quando a tomava nos braços e a beijava deixando-a em fogo? Via Lily, a mulher que poderia vir a amar, ou via Jeremy flutuando no espaço? Poderia um dia esquecer que ela fora casada com o irmão? Não sabia. O que havia no seu espírito no momento era uma infinita amargura.

Sentia que não podia haver futuro para eles, se James não se livrasse das amarras do passado, se não pudesse separar a mulher que ela era agora da outra, a que fora a mulher de seu irmão. Se não pudesse enfim compreender que nenhum fantasma chegaria para interrompê-los.

Era ele, o James separado da metade de si mesmo, que devia mudar. Era ele que devia chegar a um acordo com essa nova mulher. Sofreria menos se não resistisse ao desejo de voltar para ela, não se sentiria tão vazio...

Suas têmporas latejavam. Sentou-se na cama e apertou-as com os dedos para aliviar a dor. Não sabia se conseguiria agüentar aquela tensão. Talvez fosse melhor não fazer mais nada e esquecer tudo. Mas não era nada fácil. Uma boa parte de sua vida, a mais importante, estava ligada a ele. Porém desejo apenas não seria suficiente para manter acesa a chama do interesse. Teria que haver mais do que isso. Ou então nada!

Ouviu o som de passos no vestíbulo de mármore. Os passos chegaram à escada e começaram a subi-la. Um momento depois, houve uma batida discreta na porta.

— Entre — ela disse.

James abriu a porta e avançou. Ela estava com a cabeça apoiada à cabeceira da cama. Seus olhos estavam semicerrados e seu rosto parecia muito pálido à luz do abajur.

— Lily... — começou.

— Não quero falar mais de Jeremy! — ela disse inesperadamente. — Por que não esquece isso?

Ele encolheu os ombros com deliberada indiferença.

— Está bem.

Lily apertou os olhos, surpresa com sua pronta aquiescência.

— Não foi para isso que você veio?

— Eu não a teria incomodado, se fosse por isso. Havia um recado na secretária eletrônica. Os móveis vão chegar amanhã, entre nove da manhã e uma da tarde.

— Oh!... — fez ela.

— Você estará aqui para recebê-los?

— Sim, claro.

— Obrigado — ele disse e voltou-se para sair.

— James?

Ele voltou-se com relutância e ficou olhando para ela.

— Diga, Lily.

— Confirmo tudo o que disse.

— Sobre Jeremy?

— Sim. O que passou, passou e não pode ser modificado. Considero essa parte de minha vida definitivamente encerrada.

Ele deu por um momento a impressão de que ia dizer alguma coisa, mas não disse.

Lily sentiu alguma coisa revoltar-se dentro dela.

Quis gritar: "Sou eu, James! Não sou uma estranha e você não pode ter medo de se abrir comigo!" Mas não podia dizer isso. E como tinha de dizer alguma coisa, repetiu:

— Definitivamente!

James teve vontade de passar-lhe o braço pelos ombros, puxar-lhe a cabeça e beijá-la. Mas não o fez. Ela não veria sinceridade nisso.

— Talvez seja melhor darmos também a noite por encerrada.

— Talvez seja melhor fazermos mais do que isso! — ela gritou impetuosamente, antes que pudesse impedir-se.

James olhou-a com uma expressão de mágoa no rosto, da qual ela não tomou conhecimento. Era agora ou nunca!

— Talvez seja melhor voltarmos ao ponto de partida. Serei apenas a sua governanta, de agora em diante. E nada mais!

James aproximou-se, o rosto pálido, os olhos ardentes.

— Pode não ser tão fácil quanto parece.

— Talvez não, mas é uma condição para que eu permaneça aqui.

Um pequeno tremor no canto da boca dele foi a única indicação de que essa decisão o havia perturbado.

— Se é isso o que você quer...

Lily lutou para conter as lágrimas, mas sentia que elas estavam bem perto de transbordar.

— Sim, é isso o que eu quero — disse, embora seu coração e seu corpo dissessem coisas muito diferentes.

Quando ele voltou-se, quase externou em voz alta o pensamento:

"Não vê que isso é tudo o que eu posso enfrentar, meu querido?"


Oi geeeente! Dessa vez não demorei tanto não é? ;D Muito obrigada a Sra Prongsie e Ninha Souma pelos comentários, adorei gente *-* Dois caps hoje :D Beijos, té mais e Feliz Ano Novo :*