James estava a ponto de enlouquecer! Reconhecia que a decisão dela de manter as coisas nas devidas proporções era sensata. Não podiam prosseguir assim, levados por uma sensualidade que não sabiam aonde ia dar. O passado era ainda uma barreira formidável a separá-los. Por mais que fizessem, não conseguiam rompê-la.
A conversa que haviam tido esclarecera alguns pontos. Jamais supusera que Lily fosse capaz de falar tão francamente de si mesma. Nesse aspecto, isso representara um avanço em seu difícil relacionamento, o que o fazia sentir-se um pouco mais seguro em relação a ela.
"Graças ao sofá", pensou, com amarga satisfação.
Mas a ânsia que fervia dentro dele não se aplacava. Os últimos dias tinham sido um inferno. Esse acordo ridículo estava pondo à prova os seus nervos. Andava com a sensibilidade em carne viva. Principalmente porque não podia dar dois passos pela casa sem topar com ela ou com sinais de sua presença, denunciada pelo leve toque feminino no arranjo das pequenas coisas. Nesses momentos, despia-a mentalmente e via-a como a vira no escritório, gloriosa na sua nudez dourada pela luz.
Uma crescente frustração já fazia parte de sua vida. Desejava-a loucamente. Pensava nela o tempo todo durante o dia e à noite, levava sua imagem para o sonho.
Isso deixava claro que a centelha que se acendera entre eles nove anos atrás, e que fora abafada com o decorrer do tempo por falta de combustível, crescera e se tornara uma labareda de paixão incontrolável.
A razão lhe dizia friamente que aquela história de governanta era uma desculpa. Aceitara-a como fato consumado porque Lily não iria voltar atrás da decisão que tomara. Conhecia-a o bastante para saber que sua discordância poderia provocar um rompimento irreparável. Não. Isso não. Pouco importava que as coisas entre eles estivessem indo de mal a pior. Não ia arriscar-se a perdê-la.
Era difícil explicar por que essa idéia o perturbava tanto. Alguma coisa estava acontecendo, profunda e importante. Algo que não podia ser justificado pelas necessidades do corpo, pelo desejo que sentia por ela. Mas pensaria nisso depois.
O que o preocupava agora era que, a despeito de toda a sua boa vontade, o arranjo não estava funcionando. Não podiam simplesmente voltar ao ponto de partida. Não, depois de terem se beijado, tocado, acariciado em tão apaixonado delírio.
Aquela manhã, quando Lily descera embrulhada no roupão, os pés metidos nos chinelinhos vermelhos, os cabelos presos no alto exalando perfume do banho, sua vontade fora de levá-la direto para a cama e fazer amor com ela de forma simples, maravilhosa.
Mas não fez nada disso. Sentou-se à mesa da cozinha e concentrou-se na leitura do jornal. Ela preparou o desjejum, mas não o olhou quando serviu o café, e levou sua xícara para a pia, para tomá-lo longe dele.
James estava determinado a acabar com aquilo o mais depressa possível. Caso contrário, explodiria!
— Lily — chamou com voz conciliatória. Ela forçou um sorriso.
— Que é James?
— Não há nenhum motivo para não nos comportarmos como gente civilizada.
— Nenhum — ela concordou delicadamente.
— Então faça o favor de sentar-se.
Lily apanhou a xícara de café e sentou-se diante dele. Serviu-se de panquecas, regou-as com mel e pôs-se a comer. Mas toda vez que erguia os olhos do prato, via-se provocada por seu olhar desafiador.
— Que é que há, James?
— Francamente, não entendo a pergunta!
— Por que está me olhando desse jeito? Já estou ficando nervosa.
Os olhos castanhos dele faiscaram de raiva.
— Não posso?
Lily aguentou-lhe firme o olhar. Mas não tinha dúvida de que se ele estendesse a mão agora e a tocasse, todas as suas resoluções cairiam por terra.
— Você quer alguma coisa?
— Sim, quero.
— Então fale. É alguma coisa relacionada com o jantar desta noite?
James não respondeu logo. Muitas coisas lhe passavam pela cabeça. Sirius e Marlene viriam jantar com eles aquela noite. Estivera esperando por isso havia muito, mas agora que era chegado o momento, percebia que preferia ficar sozinho com Lily. Queria aproveitar a calma do fim de semana para fazer-lhe ver o absurdo de uma situação que só ela podia pôr termo.
— Não se trata disso — disse-lhe com uma calma que não traduzia sua agitação interior.
— Bem — ela disse, levantando-se e pondo-se a tirar a mesa. — Se houver alguma coisa que você quer que eu faça, é só dizer.
— Quero que me chame de Sr. Potter.
Lily fitou-o boquiaberta. Será que tinha ouvido bem?
― Quê?
A expressão de James era de indiferença.
— Não é assim que os empregados dirigem-se aos seus patrões?
Lily recuou até a pia, com ar vencido. Escutara bem: ele queria humilhá-la.
— James!
Ele ficou furioso.
— James? Não gosta de Sr. Potter? Por quê? É formal demais?
Ela suspirou:
— Bem é que...
Pouco importava que ele estivesse irritado. Parado diante dela, os olhos refletindo a luz da manhã, ele era realmente o homem mais bonito que Lily já tinha visto. Hipnotizada pelo olhar mágico, em vez de sentir ódio e desprezo, foi tomada pelo impulso quase irresistível de correr para os braços dele, apoiar a cabeça no peito forte, implorar-lhe os beijos e as carícias. Mas sabia que se não lutasse com todas as forças contra essa onda de desejos que a invadia, estaria irremediavelmente perdida.
Voltou-se lentamente e colocou os pratos usados dentro da pia. Seu coração começou a bater mais forte, quando percebeu que ele se aproximava. Estava bem atrás dela, perto o suficiente para que lhe sentisse o calor do corpo.
Reconhecia que James tinha certa razão para estar zangado. Mas queria que ele a deixasse em paz, não era forte como parecia. Amando-o como o amava! Aqueles últimos dias de polida formalidade tinham sido uma tortura. O trabalho ajudava, porém à noite a angústia vinha à tona. Então, os olhos arregalados na escuridão, ela se revirava na cama até o dia amanhecer, esperando que aquela sensação de vazio tivesse um fim.
— Lily...
Ela não se virou. E quando ele passou os braços em torno dela e deslizou as mãos por dentro do robe, procurou resistir, afastando o corpo.
— Por favor, James!— pediu ofegante.
Antes que ela tentasse fugir, James imobilizou-a contra o seu corpo e beijou-lhe a nuca.
— Por favor o quê? Por favor não me toque? Não sou tão bom como você nesse tipo de coisa. — Ele inclinou-se para a frente e murmurou-lhe ao ouvido: — Não quer fazer amor comigo?
— Agora? — ela perguntou, espantada. James tomou-lhe os seios nas mãos em concha.
— Agora. Mais tarde. Esta noite. Amanhã... sempre!
— Não!
— Mentira! Sei que está morrendo de vontade. Veja só como está arrepiada!
"Ele tem razão", pensou Lily. Era uma força poderosa que a arrastava. Uma sensação que anulava qualquer possibilidade de resistência. Apoiou-se nele, vencida.
James apertou-lhe os bicos dos seios.
— Adoro o modo como o seu corpo reage às minhas carícias.
— James... — ela murmurou, os seios arfantes. Ele desceu a mão pelo ventre liso e macio, pousou-a sobre o púbis e com gentileza separou os pêlos macios. Então, subitamente, enfiou um dedo nela. Foi rápido, inesperado e excitante. Lily começou a esfregar-se contra seu membro, que endurecia rapidamente, encorajando-o.
Abruptamente, ele retirou o dedo e voltou-a para si, pressionando-a entre a pia e o seu corpo.
— Quero você, Lily.
— Eu também quero você. Mas...
— Nada de mas. Por uma vez ao menos, não diga nada, não pense em nada. Deixe as coisas simplesmente acontecerem. E beije-me.
Ela o beijou com a boca aberta, sofregamente, demorando no beijo. James manteve-a firmemente junto de si, tão perto que os bicos dos seios lhe raspavam a camisa, e saboreou-o até saciar-se. Sentiu a mão dela procurá-lo e deixou que seu corpo se aquecesse àquele contato. Então desligou-se dela e acompanhou-lhe os movimentos com a boca entreaberta e a respiração ofegante.
— Assim, assim...
Quando a ereção se completou, puxou-lhe as calcinhas para baixo e apoiou o membro rígido no centro de seu sexo. Mas não a penetrou. Conteve o desejo e continuou a excitá-la beijando-lhe com lábios sedentos o pescoço, o colo, os seios.
Lily sentia-se enlouquecer, à espera do instante em que ele a completaria.
— Não me torture, James. Entre em mim — ofegou, tomando-o na mão para guiá-lo dentro dela.
— Ainda não — ele murmurou, rouco. — Estamos apenas começando.
Mas ela estava alucinada. Queria mais do que beijos e carícias. Queria senti-lo dentro de si, inteiro.
— James... por favor...
Ele não resistiu àquele apelo nem à força impetuosa que brotava dentro dele. Sentou-a sobre a pia e permaneceu ainda um instante imóvel, preparando-se para desfrutá-la. Então afastou-lhe bem as pernas e entrou devagar. Lily jogou a cabeça para trás e abriu-se toda, como nunca o fizera. Ah, como o amava!
Em algum lugar, de uma distância infinita, um telefone tocou.
— Não atenda! — ela implorou, fechando os braços em torno do pescoço dele e prendendo-o.
Um novo toque e James murmurou, sentindo-lhe nos braços o corpo ardente:
— Não.
Durante um instante, só a respiração ofegante de ambos quebrou o silêncio. Lily fechou os olhos de novo e mergulhou num oceano de prazer. Não ouviu a resposta da secretária eletrônica, não ouviu a resposta do interlocutor do outro lado do fio. Não percebeu que havia alguma coisa no ar até James interromper o ato e retirar-se dela.
Abriu os olhos bruscamente e foi então que ouviu o eco de uma voz feminina.
— ...para lembrá-los que estamos partindo para um cruzeiro de duas semanas... Querida Lily, ficamos muito felizes com sua decisão de aceitar a proposta de James. Jeremy também ficaria...
— Sarah...
Foi como se um jato de água fria lhe batesse no rosto. Lily saltou da pia e fechou o roupão, cheia de pudor. Sentia-se tão envergonhada como se Sarah em pessoa tivesse chegado de improviso para interromper seu ato de amor.
James virou-lhe as costas por um instante para fechar as calças. Quando se voltou para encará-la, viu que ela estava muito pálida.
— Sinto muito — ele murmurou, passando nervosamente a mão pelos cabelos. — Minha mãe tem o péssimo hábito de telefonar nos momentos errados.
— Ou nos momentos certos — observou Lily, dividida por emoções conflitantes. Devia estar agradecida pela interrupção. Seria bem mais penoso prosseguir nos seus propósitos depois de ter feito amor com James.
— Você não está querendo insinuar... — ele começou.
— Por favor, não diga nada — ela sussurrou, fugindo-lhe com os olhos.
James ficou parado ao lado dela.
— Olhe para mim, então — pediu num tom muito gentil.
— Não há necessidade. Já nos olhamos bastante.
— Lily, não se comporte como uma criança! Você sabe que não tenho culpa, mas age como se eu quisesse aborrecê-la ou magoá-la de propósito!
Ela encolheu-se toda.
— De agora em diante, quero que me deixe em paz, James Potter! Só teremos dificuldades e aborrecimentos, se continuarmos assim!
Ele fitou-a por um instante. Depois agarrou o paletó e saiu da cozinha apressadamente, batendo a porta atrás de si. Só então, ela deixou escapar um soluço de angústia.
"Obrigada, Sarah. O aviso chegou em boa hora."
No final da tarde, James entrou na cozinha decidido a falar com Lily. Mas quando a viu debruçada sobre o fogão, ficou mudo. Ela estava com uma aparência fantástica. O vestido preto moldava-lhe as formas com tamanha perfeição, que o suor lhe brotou da testa.
Por um minuto, ficou como que paralisado. De repente, lembrou-se que viera ali com a intenção de tocar no assunto que o preocupava: afastar o constrangimento que se instalara entre ambos aquela manhã, após o importuno telefonema de sua mãe.
Não censurava Lily. A culpa era toda sua. Quando estava perto dela, sentia imediatamente um calor invadir-lhe o corpo e o sexo intumescer. Prova disso era a cena ocorrida algumas horas antes e que o envergonhava. Penetrara-a ali mesmo; em pé, de encontro à pia, como se ela fosse uma qualquer! Onde estava com a cabeça para chegar a tais extremos?
Lily fechou a porta do forno e voltou-se. Suas mãos estavam protegidas por luvas e o impecável vestido por um aventalzinho.
— Oh. — ela fez, corando, quando o viu parado junto à porta. — O jantar está quase pronto.
— Ótimo. Sirius e Marlene devem chegar a qualquer momento. — Uma estranha expressão passou pelos olhos dele. Desapareceu quase antes que ela pudesse compreendê-la. — Está muito bonita hoje, Lily.
— Obrigada, James. Devo dizer que está muito elegante.
— Gostou? — ele perguntou, roçando de leve a mão pela gravata de cetim azul que completava a sóbria elegância do terno cinza.
— Absolutamente alinhado — ela confirmou, com um leve suspiro. James parecia tão seguro de si que quase não podia acreditar que aquele era o mesmo homem que, naquela manhã, se apossara de seu corpo ardente...
— Precisamos conversar — ele dissera, quando chegara do escritório.
— Agora, não. Deixe para mais tarde. Estou muito ocupada — respondera-lhe.
Sabia o que ele iria dizer. Tinham que se comportar como adultos para evitar situações constrangedoras. Concordava com ele. O problema era que nenhuma conversa poderia evitar que o desejasse loucamente.
Aquela manhã, quando tinham começado a fazer amor, tivera a impressão de que seu mundo se completava. James era tudo o que uma mulher podia desejar...
— Sinto muito — ele, interrompendo-lhe as divagações. — Não sei o que deu em mim esta manhã. Descontrolei-me.
Lily tirou as luvas devagar.
— Não pense que a culpa foi toda sua, James.
— Mas fui eu que comecei. Prometo que isso não voltará a acontecer.
Ela o olhou. Ele tinha no rosto aquela expressão determinada que conhecia muito bem.
— Por que diz isso? Iria acontecer de qualquer maneira.
— Você já se machucou por minha causa e eu não quero que isso se repita. A partir de agora, tudo se fará segundo os seus desejos.
— Como assim, James? — ela perguntou em voz baixa.
— Pensei muito e cheguei à conclusão de que o problema é mais meu do que seu. Quero você a todo instante, não nego. Mas só a levarei para a cama se você quiser... e precisar de mim...
Lily teve um vislumbre da verdade e sentiu um arrepio pelo corpo.
— Deixe-me ver se compreendi bem — disse, enquanto retirava a bandeja de canapés da geladeira. — Ocasionalmente, você me deixará compartilhar a sua cama e fará amor comigo. E depois? Terei que voltar para o meu quarto?
A raiva fez latejar as têmporas dele.
— Não era isso o que eu queria dizer!
Os olhos dela brilharam, desafiadores, mas havia insegurança em sua voz.
— Não? Então o que é? Posso também passar a noite a seu lado? Assim seria mais correto?
Ele ficou ainda mais furioso.
— Você está mudando o sentido de minhas palavras!
— Não estou — ela afirmou, humilhada e raivosa. — Você achou que casa e comida não eram suficientes para a pobre Lily e decidiu oferecer-lhe também conforto sexual! Não é isso?
— Pensei que você me conhecesse melhor — ele disse, por entre os dentes cerrados.
Lily empalideceu diante daqueles profundos olhos castanhos!
Nesse instante, a campainha tocou e James voltou-se para atender. Mas ela sabia que o assunto não tinha terminado aí.
O tremor lhe abafava o corpo. Então tudo defenderia da iniciativa dela! Quando precisasse de alguém que lhe satisfizesse as necessidades era só dizer, pois James, o bom cunhado, estaria ali para providenciar o serviço. Pois sim!
Mas havia alguma coisa de bom naquilo tudo: ele iria deixá-la em paz. No passado, tivera uma vida satisfatória sem sexo. Podia voltar aos velhos tempos e manter-se casta indefinidamente...
Sentia, porém, com o gosto amargo da frustração, que agora a situação não era mais a mesma. Havia outras coisas em jogo, além de sexo. Havia suas esperanças e seus sonhos secretos. Por que então aquela confusa mistura de emoções?
James fizera uma promessa, mas ela fizera essa mesma promessa a si mesma inúmeras vezes. Estava começando a achar que tudo o que conseguiam fazer era conversar, prometer... e depois cair nos braços um do outro.
Exemplo disso era esse avançar e recuar, como se estivessem num campo de batalha. E talvez estivessem mesmo. Mas o que estavam enfrentando eram o fantasma de Jeremy e um passado que não podia ser esquecido. Se fossem honestos e desvelassem o mais íntimo de si mesmos, talvez tudo já estivesse resolvido. Porém nada mais faziam do que fugir de seus receios e ficar ali, proferindo banalidades, sem perceberem como suas palavras eram ocas.
Suspirando fundo, tirou o avental e preparou-se para receber os convidados. Os móveis haviam chegado. Dois anos de espera e a casa de James tornava-se subitamente um lar. Quem iria pensar, três meses antes, quando chegara ali, que ela se tornaria o fator decisivo para que isso acontecesse?
A caminho do escritório, lançou um olhar à mesa na sala de jantar. Estava muito bem posta com uma toalha de linho, louça fina, copos de cristal e travessas de prata. Rosas vermelhas emergiam de um vaso de cristal e a garrafa de Mouton Rotschild já estava aberta.
Satisfeita, alisou o vestido e entrou no escritório. James levantou-se da poltrona e apresentou-a a Marlene. Após as gentilezas habituais, os drinques e os canapés foram servidos. James acendera a lareira e as chamas crepitantes proporcionavam ao ambiente um aconchego doméstico.
— Sirius me disse que você é viúva — começou Marlene com voz gentil, inclinando-se confidencialmente para Lily.
Lily olhou para a elegante mulher de cabelos loiros, olhos azuis e sorriso fácil, e assentiu.
— Meu marido morreu num acidente de carro.
— Terrível!
James levantou-se para tornar a encher o copo de sua convidada.
— Sim, foi terrível — ele confirmou. — Um carro que vinha em sentido contrário atingiu-o de frente. Tinha sido roubado e o motorista abandonou-o e fugiu. A polícia concluiu, pela quantidade de latas vazias de cerveja que foram encontradas, que o homem devia estar embriagado.
Marlene apoiou a mão sobre a de Lily.
— Pobrezinha! Deve ter sido muito difícil para você. ― Uma sombra desceu sobre o rosto de Lily.
— Sim, foi muito difícil. Mas agora estou bem. — Ela sorriu. — Graças a James.
— Ótima pessoa! — disse Sirius, dando um tapinha amigável nas costas de James. — E também um ótimo profissional. Mostrei seu projeto ao meu pessoal e todos ficaram muito impressionados.
Os dois começaram a falar de negócios e Marlene suspirou:
— Ah, os homens!...
Lily propôs:
— Não quer conhecer a casa?
— Com prazer!
Começaram pelo andar térreo. Percorreram o vasto living e a sala de jantar.
— Logo adiante ficam a copa e a cozinha. No subsolo, o salão de jogos, a sala de musculação e a sauna — explicou Lily.
Ela mostrava tudo com entusiasmo. Quando alcançaram o andar superior, comentou:
— Não está ainda pronto. Há dois quartos vazios.
— Poderão destiná-los aos bebês que virão — sugeriu Marlene, com ar misterioso.
Lily mediu bem as palavras, para que soassem com naturalidade.
— Isso é com James. A casa é dele. Eu sou apenas a governanta.
Marlene sorriu.
— Tenho a impressão de que ele se interessa mais por você como mulher do que como governanta.
Lily parou no meio da escada.
— Não é possível.
— É possível, sim! Ele não tira os olhos de você. — Marlene balançou a cabeça. — O pobre homem está aflito.
— Aflito? Não sei o que a senhora está querendo dizer — murmurou Lily, confusa.
— Pode me chamar de Lene, Lily. Os amigos me chamam assim. Mas por que está rodeando o assunto? Dê-lhe o que ele quer. Faça isso, Lily. Fará um bem enorme a vocês dois.
A voz forte de Sirius ecoou de repente pelo vestíbulo.
— Que é que a minha mulher está dizendo?
— Eu estava dando alguns conselhos a Lily — explicou-lhe Lene, quando as duas entraram no escritório.
— Não vá embaraçar Lily, querida. — Sirius voltou-se para James. — Ela costuma fazer isso. Está sempre dando conselhos a todo o mundo.
James sorriu polidamente. Depois ergueu os olhos para Lily.
— Podemos passar para a sala de jantar?
— Quando quiserem — ela disse, grata pela intervenção. O jantar começou bem: uma conversa agradável entre gente simpática. Ao chegarem à sobremesa, Lily percebeu que fizera de Lene Black uma amiga sincera. Mais tarde, enquanto tomavam café, as palavras dela voltaram-lhe à mente: "Dê-lhe o que ele quer..."
Lene fizera isso parecer tão simples! E talvez fosse mesmo. Olhou para James. Ele conversava animadamente com Sirius. Parecia um garoto ao lado do outro. Sentiu por ele um assomo de ternura que nunca sentira antes por outro ser humano. Amava-o tanto... Por que, então, não deixar que o coração falasse mais alto?
"Terei que pensar nisso", refletiu, desviando a vista.
James voltou-se a tempo de surpreender seu olhar furtivo e pôs-se a estudá-la. Ela estava tão linda aquela noite, tão macia e tentadora, tão perfeita no papel de anfitriã, que não podia imaginar a sua casa, a sua vida, sem ela...
— Bem, James, que é que acha? ― Ele voltou-se lentamente para Sirius.
— Que foi que disse?
— Estava combinando com Lene... Não querem passar o fim de semana em Nova York conosco?
— Será maravilhoso! O encerramento perfeito de nossa viagem — disse Lene com entusiasmo.
— E você, Lily, o que acha? — perguntou Sirius.
— Isso é James quem decide — ela respondeu imediatamente,
— Então, James? — tornou Sirius. — Não estou querendo me intrometer em seus assuntos pessoais, mas preciso saber para cancelar outros compromissos.
James teve tempo de considerar sua resposta.
— Por mim, tudo bem.
— Ótimo! — exclamou Sirius. — Você terá a oportunidade de expor suas idéias ao meu pessoal, antes de partirmos para o Texas.
— Poderíamos nos divertir um pouco — sugeriu Lene. — Por que não passam a noite em Nova York? Seria mais prático.
James olhou para Lily.
— Se você não tiver nenhuma objeção...
Uma expressão séria se estampou no rosto dela.
— Nenhuma. Mas é você quem deve tomar a decisão.
— Nesse caso...
— Combinado! — completou Sirius, levantando-se. — Telefone-me para acertarmos os detalhes.
As despedidas começaram e com elas, a renovação da conversa. Enquanto as duas mulheres trocavam as últimas confidencias, Sirius puxou James para um canto.
— Lily é uma preciosidade. Não a deixaria ir, se fosse você.
— Não pretendo deixá-la — retrucou James, as palavras saindo-lhe da boca sem querer. Queria que Lily fizesse parte de sua vida, fossem quais fossem as condições dela.
— Ótimo! Ótimo! — Sirius apertou-lhe efusivamente a mão. Depois voltou-se para a mulher. — Vamos, Lene.
Lily ficou junto à porta, ao lado de James, esperando que os dois entrassem no carro. Acenou com a mão e depois encaminhou-se para a cozinha. Ele seguiu-a para ajudá-la com a louça. Quando tudo ficou pronto, agradeceu-a com calor.
— Foi uma noite maravilhosa. Obrigado.
— Não fiz mais do que a minha obrigação.
— Lene simpatizou com você.
— Também simpatizei com ela — disse Lily, falando o que de fato sentia.
James segurou-a pelo pulso, quando ela fez menção de afastar-se.
— Precisamos terminar a nossa conversa. ― Lily desvencilhou-se dele.
— Não acha que é um pouco tarde? Podemos deixar a conversa para amanhã.
— Tem toda a razão. Peço desculpas.
— Não precisa pedir desculpas. — Ela descontraiu-se. — Oh, James! Estou tão confusa que não sei mais o que pensar. Preciso de algum tempo para pôr minhas idéias em ordem.
Ele suspirou.
— Está bem. Quanto ao fim de semana em Nova York, não se preocupe. Não vou querer fazer nada com você. Terá um quarto só seu. Mas a decisão é sua. Se não quiser ir, telefonarei a Sirius e pedirei desculpas em seu nome.
— Fiquei surpresa. É que simplesmente não estava esperando por isso.
— Sirius é um sujeito muito insistente.
— Faz parte de seu trabalho passar fins de semana com clientes?
— Isso e uma porção de outras coisas. ― Lily fitou-o nos olhos.
— Você quer mesmo que eu vá?
— Você sabe que sim — ele respondeu num sussurro. Incerteza e esperança debatiam-se dentro dela, bloqueando-lhe a fala. Era uma oportunidade única para sepultar o passado e começar a reconstrução de sua vida.
— Nesse caso, irei — disse por fim.
James não tirou os olhos dela, enquanto dizia:
— Há ainda outra coisa, Lily.
— Ainda? — ela exclamou, não se contendo.
— É sobre o que aconteceu esta manhã. O telefonema de minha mãe colocou Jeremy aqui dentro. Isso me perturbou.
— Compreendo perfeitamente. Eu também fiquei perturbada.
— Você sabe que isso pode acontecer de novo, não sabe? Esse era esse justamente o problema. Mais do que qualquer outra coisa. ― As comportas se romperam e os olhos dela ficaram cheios de lágrimas.
— Oh, James, o que vamos fazer?
Ele chegou mais perto e passou-lhe os braços pelos ombros.
— Vou ser paciente, embora a paciência não seja a minha maior virtude, e esperar que você se decida. Depois veremos. — Ele afastou-a de si e olhou-a nos olhos. — Mas lembre-se: caberá a você dar o primeiro passo.
Lily o fitou em silêncio por um momento, antes de perguntar:
— E só o que tem a dizer? ― Ele limitou-se a assentir. — Se não se incomoda, vou ver se descanso um pouco.
— Pense no que eu lhe disse. ― Lily deu um suspiro profundo.
— Está bem, James. Vou pensar.
— Eu posso esperar — ele tornou.
"Eu também", ela quis dizer. "Indefinidamente".
As lágrimas continuavam a enevoar-lhe o rosto, quando se dirigiu para as escadas. Entrou no quarto e ficou olhando para a porta fechada, sentindo o nervosismo crescer-lhe por dentro. "De que tem medo, Lily?", perguntou a si mesma.
James era o que ela mais queria no mundo. Nenhum outro homem seria jamais capaz de provocar-lhe aquela sensação de abandono e loucura, aquele desejo de entregar-se que ele lhe despertava com tanta facilidade. Mas para uma relação a dois ser duradoura teria que existir algo mais profundo do que um contato físico satisfatório. Teria que haver amor. James seria capaz de lhe dar amor?
Lembrou-se das palavras de Lene. "Dê-lhe o que ele deseja"... Mas isso bastaria?
Durante muito tempo, andou pelo quarto, confusa e agitada, até que o cansaço a vencesse por completo. Então despiu-se vagarosamente, vestiu a camisola e deitou-se. Sentia-se inteiramente consumida pela dúvida. Tudo com ela tinha que acontecer sempre assim?
— O que você quer James? — disse em voz alta. Amor? Talvez. Sexo? Sem dúvida. Mas podia dar-lhe o seu corpo como fizera nove anos atrás, com a mesma espontaneidade, com a mesma generosidade, sem nada esperar em troca?
A decisão era dela e só ela seria responsável por isso.
— O que eu quero? — perguntou-se, enquanto as lágrimas lhe banhavam o rosto.
No próximo fim de semana talvez pudesse decifrar o enigma.
