Ela corria loucamente pelas ruas de Tóquio depois de ter trocado de roupa em três movimentos, largando o quimono no meio das tendas e saindo de calcinha e sutiã estampados de golfinhos rosas atrás do seu uniforme da Academia de Kyoto. Sorte que não havia ninguém nos vestiário, exceto aquela velhinha que consertava a obi de todo mundo, o que deu no mesmo.

Atravessou sinas fechados, quase foi atropelada e quando chegou naquele imenso edifício que antes era um templo budista, adentrou o lugar como se o próprio demônio estivesse correndo atrás dela. Olhou em seu relógio de pulso, que não passava de um velho relógio amarrado em uma fita preta de cetim de baixa qualidade, e descobriu que só estava atrasada...

...uma hora.

Mas por fim, tudo havia dado certo para a menina. A professora foi compreensiva com a história que contou, que incrivelmente foi a verdadeira em que ela havia sido chamada para ser garçonete na festa de noivado do filho da Sra. Taisho. A Sra. Takane nem pediu mais explicações depois que escutou o nome da mulher que estava dando aquela festa na praça das cerejeiras, pegou o trabalho da menina e corrigiu ali mesmo.

Sorrindo aliviada, suas colegas se aproximaram perguntando o que havia acontecido para ela ter se atrasado tanto. Sakura Kirei era uma grande amiga de escola, e de estudo na biblioteca, vinda de uma família de classe média em que os pais eram advogados. Também havia entrado na Academia de Kyoto por merecimento. Seus olhos castanho-claro eram doces demais para o cabelo pintado de loiro, e sabe como é, japonesa com cabelo loiro não era lá muito... enfim. Cada um sabe o que faz, não é?

Não é?

– Onde você estava, doidinha? – Sakura perguntou preocupada enquanto mudava o turno das professoras – Você mesmo não diz que coloca o despertador às cinco da manhã?

Rin jogou a mochila em cima da carteira, era só o início da manhã e já estava cansada.

– Sabe aqueles filmes em que uma pessoa tá passando e surge uma oportunidade louca? – começou tentando raciocinar o que havia acabado de acontecer, gerando dúvidas que ficaram estampadas na testa da amiga – Quero dizer, quando menos se espera acaba caindo de pára-quedas em uma situação inusitada.

– É melhor me falar logo, enfeitar demais me deixa com sono – sugeriu curiosa – E... você nunca usa coques altos com enfeites de flores, ainda mais com as que tem meu nome. Nunca te vi usando-as, pelo menos.

Usava muito quando criança, mas hoje acho que não fica bem em mim.

Mas ela não iria contar algo tão íntimo assim para sua amiga, mesmo sendo uma amiga próxima. Certas coisas ela preferia guardar no fundo do seu coração do que deixar explícito seus dramas e lembranças, era mais fácil alguém compreendê-la se ficasse de boca fechada.

Levou sua mão até o enfeite e retirou-o rapidamente, colocando-o na mochila antes mesmo de parar para observá-lo de perto. Ainda não sabia de onde havia arranjado coragem para sair de lá sem pedir desculpas aos convidados, e seus empregadores, principalmente ao youkai deslumbrante em que todo o champanhe francês acabou virando em seu colo.

– ...e aí fiquei tão enlouquecida que saí de lá correndo – Sakura ria com todas as suas forças enquanto Rin fazia uma cara de que deveria ter pedido desculpas, um arrependimento passou a existir dentro dela. Não deveria ter largado todas as coisas daquele jeito, poderia simplesmente ter retirado aquela bandeja bonita de cima do colo do youkai bonito – Joguei os tamancos na grama e corri contra o tempo. Acho que as pessoas me acharam louca de pedra.

– Bem... – Sakura ponderou - ...a família Taisho é conhecida por ser imprevisível. Geralmente eles estão preparados para tudo, e...

– Você conhece esse povo? – interrompeu-a surpresa.

Ela deu de ombros, o longo cabelo loiro estava lisérrimo da raíz até as pontas.

– A firma que minha mãe defende está sendo processada pelos Taisho, então, segundo ela, são duros na queda – respondeu sentando-se após a professora adentrar a sala – Não creio que eles lembrarão de você e dessa desfeita, somos apenas insetos na teia deles, como diz meu pai.

– Bem... talvez sejamos.

Mas Rin não estava confiante quanto a isso, a mestra de cerimônias e o youkai que servia de segurança deixaram bem claro o quanto a Sra. Taisho tinha o gênio difícil de lidar. Não devo me preocupar com isso, minha vida é totalmente diferente da dela... não tinha mesmo que pensar naquilo.

– É, - começou convencida de que aquilo seria esquecido – não passa de uma bobagem. Ainda hoje eles já estarão falando mal de outra coisa, né?

Sakura assentiu antes de sentar em seu lugar, a professora já estava dando matéria e Rin já tinha chegado atrasada. O melhor a fazer em toda a sua vida sempre foi estudar, não seria agora que ela iria interromper este hábito. Esvaziando a cabeça, o que era até fácil para a menina, voltou seu raciocínio para as aulas de japonês. As provas seriam daqui duas semanas.

(...)

Havia resolvido não ficar mais que meia hora naquela festa de noivado mais falsa do que a cara da sua namorada, só presenciaria aquele festival de horrores por respeito ao seu tão bizarro pai. Nunca pensou que as coisas poderiam decair tanto na família Taisho, e assim está sendo exatamente do jeito que sua mãe falara que seria caso o pai se casasse com a humana. Não era uma simples humana, Izayoi pertencia à família do Imperador do Japão e sabia as regras de etiqueta de como se portar perante a sociedade, mas continuava sendo humana. Depois que o meio-irmão resolveu engravidar a humana, aí que os jornalistas comemoraram os dramas familiares deles. Estavam tão expostos que Sesshoumaru preferia o sossego de sua propriedade bem longe do centro de Tóquio.

E foi nessa meia hora que uma garçonete derrubou champanhe em seu colo, e o mais absurdo era que a menina mal parecia notar que havia atingido alguém. Apenas ficou parada olhando para nada, gritando sobre raios de trabalho de escola, o que logo chamou a atenção dos demais. Era uma menina, nem menstruada ela deveria ser, e claro que os comentários do youkais mais velho, e tarados, logo foram destacados após a fuga da menina. Nada restou para Sesshoumaru, a não ser se limpar com um guardanapo extremamente fino feito em seda indiana da cor azul-celeste.

Aquela menina nem pediu desculpas.

Era uma descuidada, de fato. Mas também não parecia lembrar de seu pagamento.

– Sabe quem é ela, Sr. Sesshoumaru? – perguntou um empresário youkai que administrava os bens da família Mitsubishi, desviando o necessário para o próprio bolso.

A expressão facial do youkai permaneceu a mesma de sempre.

Eu tenho cara de quem sabe?

Sesshoumaru não se lembrava de ter participado da rede de intrigas que Izayoi tanto gostava de frequentar.

– Não.

Kagura chegou rapidamente com uma taça de vinho branco na mão esquerda, passando a sua mão direita nos ombros do namorado.

– Está tudo bem, Sesshoumaru? – perguntou mais curiosa do que preocupada, aquilo nunca que iria abalar a sua auto-confiança. Seria ridículo que ela pensasse que Lorde Sesshoumaru seria afetado por champanhe derramado no colo. Que situação estúpida... – Vi o que aquela pirralha fez. Quantos anos que ela tem?

Acha que eu sei?

– Não sei – respondeu simplesmente. Não queria iniciar uma discussão com a sua estúpida namorada em um local tão público, principalmente como mesmo público que participava da feira de vaidades da madrasta.

Kagura tomou um bom gole do vinho branco, parecia pensativa quanto ao assunto.

– Sabe, Sesshoumaru... – começou a falar estranhamente - ...acho que Izayoi passou dos limites. Aquela menina não parecia ter quinze anos.

Como se você se importasse.

– Pois é.

Kagura só procurava apontar as falhas da mulher para 'rebaixá-la' ao seu nível.

Mulheres.

Sesshoumaru ainda não entendia exatamente como elas funcionavam, mas a experiência lhe deu sinais de que quanto mais poder um homem tem, mais mulheres cairão em seus pés. Era uma espécie de experiência própria. Kagura era exatamente como essas mulheres que namoravam youkais como ele, mestras em festas e carismáticas para contornar qualquer situação. Provavelmente aprenderam com as gueixas no quesito de submissão e entretenimento, sendo indispensável para uma mulher da alta sociedade falar mil idiomas, dançar como uma bailarina francesa e discursar como uma americana hipócrita. As coisas eram assim no mundo dele.

– Será que isso sairá naqueles sites sensacionalistas? – Kagura insistiu no assunto novamente – Estou curiosa quanto a isso.

Sesshoumaru se levantou da cadeira, toda sua roupa estavam com o cheiro do champanhe impregnado, e ainda não havia secado. Olhando para os lados, a festa voltou a seguir seu rumo mas sua mente estava repleta de dúvidas... inesperadas. Por mais que o cheiro da bebida estivesse dominando o seu olfato sensível, os resquícios do perfume daquela menina haviam sido gravados profundamente no youkai.

Doce... e ingênuo.

Não passava de uma menina mesmo.

A lembrança dos olhos castanho-escuro o fez rir internamente, parecia ser uma menina esquisita embora muito responsável. Afastou-se da festa dando uma desculpa de que precisava se limpar e, mais que depressa, entrou em seu Porsche negro e deu a partida. Ficou apenas vinte minutos naquele inferno, sabia que seu pai chamaria a atenção na próxima vez que tivesse a oportunidade. Por mais que o champanhe ainda estivesse impregnado em seu corpo, não conseguia parar de pensar no perfume inocente daquela menina que se enfiou sem-querer naquela festa. O cabelo negro estava preso em um coque enfeitado com as mesmas flores de cerejeira das outras garçonetes, mas era curioso que o real cheiro dela se assemelhava com o perfume de uma dessas flores.

Ela não deve ter quinze anos.

Sesshoumaru também reparou quando a menina saiu desajeitadamente da tenda de funcionários vestindo o uniforme da prestigiada Academia de Kyoto, mostrando que ela realmente era uma aluna aplicada, um diferencial em sua educação. Até mesmo um youkai era barrado naquela escola, tendo que provar o seu talento e dedicação. Talvez por isso que aquela menina parou naquele canto de Tóquio, a Academia de Kyoto estava localizado ali perto.

Duas ruas de onde estou.

Em um momento insano, e estúpido, temido youkai deixou a curiosidade lhe vencer facilmente. A verdade era que ele desejava vê-la mais uma vez para ter certeza de que seu cheiro era aquele, um cheiro que o... esquece. Era difícil admitir tais coisas, principalmente ela sendo uma humana. Seu interesse não passava de mera curiosidade, e apenas checar o local que ela estuda podia ser normal.

Procurando uma justificativa decente para lhe convencer do que fazia, Sesshoumaru deu a volta em vários quarteirões, passou por seis sinais de trânsito e finalmente estacionou em uma vaga de frente para a Academia de Kyoto, que ficava em Tóquio. Eram contradições esquisitas que nem ele, com seus trezentos anos de existência, conseguia entender.

E ali Sesshoumaru esperou.

O seu celular tocou e logo viu que sua namorada o procurava. Não atendeu, então checou as mensagens e ela havia deixado seis delas em sua caixa de entrada. Celular e outras tecnologias eram extremamente úteis, mas Sesshoumaru sinceramente sentia falta da época em que as pessoas não ficavam controlando as outras utilizando tais aparelhos.

Após dez minutos, outra ligação.

Pai.

Resolveu não atender, sabia que ele lhe passaria um sermão por ter saído daquele jeito da festa de noivado do estúpido do Inuyasha. Sesshoumaru tinha idade o suficiente para saber como direcionar a própria vida, mas o pai frequentemente esquecia deste pequeno detalhe.

E ali o youkai ficou... e esperou.

(...)

Saía da Academia de Kyoto, que fica em Tóquio, andando a passos curtos e tranquilos pelo jardim que era a porta de entrada do edifício. Tudo muito discreto, como a ocasião sempre pede no caso da Academia. Prestou atenção nas aulas e fez os exercícios como sempre, mas algo em sua consciência a incomodava ligeiramente. Deveria ter pedido desculpas ao youkai bonito, não foi nada educado sair de lá sem falar nada... mas seu susto havia sido tão forte que nem lembrou disto.

Cresceu no orfanato sob um regime rígido de boas maneiras, se fizesse algo de errado, logo seria castigada. Se acertasse alguma coisa, ninguém a premiaria porque não importava o que fizessem dentro do orfanato, a vida real que a premiaria com suas boa educação. Pelo menos era assim que a inocente Rin raciocinava, pensando que a vida real se baseava em seguir regras. Sakura já tinha saído porque seu ônibus partia antes do dela, então só andar tranquilamente pelos arredores.

Teve uma leve sensação que estava sendo observada, mas olhou para todos os lados e não viu ninguém. Todo mundo parecia ocupado demais em seus problemas, mal ligando para a presença de uma menina como ela nas ruas de Tóquio. Rin pensava a respeito do que as pessoas tanto pensavam, se preocupavam e o que fariam caso algo de ruim acontecesse de repente.

Como virar órfã.

Não lembrava dos pais, portanto, não tinha como alimentar ressentimentos.

Olhou no relógio em seu pulso, já estava na hora de pegar o metrô. As próximas duas semanas seriam extremamente difíceis, as provas logo estariam batendo a sua porta e não poderia permitir nenhuma distração naquele momento. Rin respirou fundo antes de partir, mas antes observou o pôr do sol com um sorriso no rosto. Fazia tempo que não via o sol tão bonito quanto agora.

(...)

Fazia tempo que Sesshoumaru não via algo tão bonito.

Pare com isso.

Se sentiu um pedófilo nojento ao vê-la usando o uniforme amarelo e negro da Academia de Kyoto, ou seja, de acordo com as vestes a menina não estava no ensino médio ainda. Kagura estava certa quando disse que Izayoi estava louca ao permitir que uma menina trabalhasse ao invés de estar estudando. O problema era que o próprio Sesshoumaru não conseguia parar de analisá-la, principalmente depois de vê-lo admirando o pôr do sol de uma forma tão simplista.

Ela sorri como se aquilo fosse algo maravilhoso.

Talvez o sol fosse algo maravilhoso, mas em seus trezentos anos de vida certas coisas não eram tão bonitas quanto antes. Era verdade o que diziam: todo youkai que vive centenas de anos tem a sensação de que as pequenas coisas da vida são ignoradas automaticamente por causa do cotidiano. Essa frase nunca fez tanto sentido para aquele Sesshoumaru como agora. Os olhos da menina brilhavam e o longo cabelo solto dançava ao ritmo do vento.

Reparou a biblioteca que ela carregava nas mãos.

Ela estuda muito, ou parece estudar, e precisa de trabalho.

Era uma conotação fácil, porque pra quem sabe ler, um pingo é letra.

Será que ela tem carência de coisas básicas?

Era o jeito mais delicado de se perguntar a respeito das condições financeiras dela. Mesmo dentro de si, Sesshoumaru não ousava usar de má educação com ela. Era até ridículo pensar neste aspecto porque ele nunca foi um youkai que respeita os outros mesmo com ninguém ouvindo sua consciência matutar. Logo o youkai se perdeu em meio seus pensamentos, e questionamentos, deixando a menina ir para sabe-se lá onde.

Respirou calmamente, a raiva que sentiu após perceber que não tinha pistas de onde ela morava foi... irracional.

O que está acontecendo comigo?!

Sesshoumaru detesta humanos... ou detestava. Sentia uma certa conexão com aquela menina, mas não o tipo de coisa que poderia se comparar à Kagura ou suas antigas namoradas. Ela derrubou bebida em seu colo, juntamente com as taças de cristal árabe e a bandeja de prata, e era ele que a procurava? Deveria ser o contrário! Indignado com suas atitudes, Sesshoumaru logo caiu em si que era melhor voltar para casa. Nem iria visitar o pai naquela noite, preferia jantar sozinho e meditar. O que aconteceu naquele dia era para ser enterrado e nunca mais visto.

É uma promessa, Sesshoumaru.

(...)

Rin ainda tinha a sensação que alguém a observava escondido, então procurou atrás das árvores, postes e arbustos que ficavam por perto da Academia de Kyoto. Que fica em Tóquio. Não achou ninguém e ainda ficou taxada de esquizofrênica para as pessoas que passam por ela. Três semanas se passaram desde que cagou na festa de noivado do filho de Izayoi Taisho. Procurou saber a respeito dessa família com o passar dos dias, e como não tinha internet no orfanato por motivos disciplinares, teve que xeretar na escola mesmo.

A família Taisho era, ao contrário do que ela pensara, composta por poucos membros. O homem da casa havia se casado com uma youkai alto nível e teve um filho com ela, mas depois de centenas de anos conheceu uma humana e resolveu casar com ela. O youkai até tentou ficar com as duas, mas ambas pareciam ter um temperamento nada pacífico. Acabou que a primeira esposa de InuTaisho abandonou o Japão para morar nos alpes suíços com um youkai alemão extremamente rico, deixando o filho já crescido, Sesshoumaru Taisho, ou melhor, o abandonando.

Pelo menos é o que esse jornal sensacionalista fala.

Rin prendeu o ar quando viu a foto do tal Sesshoumaru na internet.

Meu. Deus. Do. Céu.

De tantas pessoas para ser indelicada, ocorreu justo com o herdeiro dos Taisho?!

Não achou tantas informações assim dele, apenas que era formado em uma porrada de cursos durante suas três centenas de anos. Trabalhava atualmente como administrador das empresas Taisho no ramo de armas (possuindo uma suspeita ligação com a Yakuza... ui), psicofármacos, petrolíferas, indústrias de porte grande, dentre outras coisas. Rin gostaria de saber o que são essas outras coisas, mas só as que viu pareciam ter...

...tudo a ver.

Olá, vendo armas e remédios para dormir.

Já o hanyou tinha uma história extensa, e pior, pública. O rapaz, que também era muito bonito, parecia já ter feito tudo com apenas vinte e quatro anos. Parou cinco vezes em uma clínica de reabilitação alegando insônia crítica, mas aí que entra o irmão, oras. Eles são donos de laboratórios de psicofármacos!

Será que era insônia mesmo?

Segundo a internet, hanyous são difíceis de se reproduzirem pois não acham a mulher certa para ser compatível com sua genética. Sabe-se lá o que isso quer dizer. Agora o tal do Inuyasha achou uma adolescente de dezesseis anos que engravidou logo de cara, o que, segundo o jornal, não foi uma surpresa tão grande para os pais.

Viciado em sexo.

Na visão da menina, como alguém poderia ser viciado em sexo?

Tem tanta graça assim?

Com o noivado do hanyou chegando, fizeram uma reportagem especial colocando a família Taisho como os Kennedy dos Estados Unidos. Rin piscou algumas vezes, sabia que a família dos cabelos prateados era poderosa, mas não tanto assim.

Meu Deus! Derrubei champanhe num dos homens mais poderosos da Ásia!

O temperamento da Sra. Taisho que parecia ser extremamente difícil, surgindo boatos a respeito de destratar seus funcionários e até mesmo arranjar briga com as secretárias do marido. Então era de família mesmo, o hanyou não era encrenqueiro assim do nada. A genética também ajuda nisso.

Ao todo, muitos problemas familiares e nada do primogênito. Reservado, apenas a namorada de longas décadas aparecia nas festas da sociedade. Descrito como 'frio e distante', Sesshoumaru Taisho realmente era esquisitão... mas lindo.

Após o final das semanas de provas, todas as meninas haviam ido para a sorveteria mais badalada de Tóquio para comemorar, ou não, os próprios desempenhos escolares. Rin deu uma desculpa que tinha que voltar mais cedo para o orfanato, mas todas sabiam a verdade. A menina nem tinha dinheiro para lanchar na cantina caríssima da Academia, muito menos resolver tomar sorvete italiano vendido em dólares. Era bem longe do que Rin poderia imaginar para si, então apenas se sentou em um banco em frente à Academia e respirou fundo. Não sabia exatamente o que fazer no momento pois não poderia voltar para o orfanato tão cedo, não tinha muito o que fazer por lá a não ser aguentar os chiliques alheios. Não podiam ver televisão, muito menos ter acesso à internet. Era um lugar que usava apenas para dormir, e ficava o dia inteiro longe com muita satisfação.

Um vento frio soprou, fazendo seus cabelos dançarem no ar... mas após alguns segundos que notou a presença de alguém em sua frente. Tomou um choque quando percebeu que era um determinado youkai com cabelos longos e prateados, olhos cor de mel e a típica expressão que ostentava em cada foto que Rin viu pela internet. Era inconfundível. A sensação de imponência era real, mas também era uma pessoa que parecia ser completamente impenetrável.

– Humm... – por que ele não fala nada? - ...oi?

Os mesmos olhos frios, assim como a expressão de que irá matar alguém caso o atrapalhe em seja lá o que estiver fazendo.

– Oi.

Rin piscou algumas vezes tentando compreender o lado bizarro daquela situação.

– Eu... – ela começou indecisa do que falar - ...deixei cair champanhe em você, né?

O youkai de alto nível assentiu levemente.

– Err... – continuou, mas agora estava encabulada - ...foi sem-querer.

Ele assentiu novamente, e um silêncio reinou por alguns minutos.

– Qual o seu nome? – Sesshoumaru perguntou em voz baixa, mas algumas pessoas já sabiam quem era aquele youkai que conversava calmamente com uma menina.

– Rin – respondeu em um dar de ombros, fazendo a sobrancelha do youkai se erguer – O que foi?

– Nome completo, Rin – insistiu Sesshoumaru, parecia que ele nem desconfiava quem era ela... mas como poderia, sua jumenta?

– Só Rin – respondeu desconcertada – Não tenho sobrenome, mal sei o dia que nasci.

Se o youkai ficou surpreso com a resposta, ela não saberia dizer. A estabilidade da frieza facial dele era algo admirável, mas ainda assim esquisito.

Ele deveria sorrir, tem uma família que o acolhe e comida quentinha no estômago.

– Quantos anos tem, Rin? – perguntou novamente.

Ainda confusa com a situação, ela demorou um pouco para responder.

– Tenho catorze.

Mais alguns segundos de silêncio, mas agora as pessoas já olhavam descaradamente para o youkai. É claro que Sesshoumaru Taisho seria reconhecido em qualquer canto, era o Taisho mais importante da atualidade. O interessante era que o próprio youkai parecia perdido em meio seus pensamentos, e quando se deu conta de que estavam sendo observados, deu as costas à ela.

– Vou te levar em casa... – ela ia recusar, mas... - ...e isto é uma ordem. Espere aí.

E agora Rin esperava o youkai, sentindo-se tão estúpida quanto qualquer outra pessoa em seu lugar. Primeiro ela derruba bebida nele, e agora ele que quer levá-la em casa? Ela não via aquilo como uma vingança, não parecia. Deu de ombros, as pessoas já não olhavam para ela como antes.

A vida dele deve ser bem difícil.

Todo mundo quer ser notado, mas assim é demais. Invasão de privacidade é algo grave.

Um carro preto que, aparentemente, custa o orfanato inteiro, parou brevemente em sua frente. Se fosse uma menina cautelosa, já teria corrido dali há um bom tempo, mas sendo a obediente e idiota Rin, apenas obedeceu os comandandos do tal Sesshoumaru. Não que fosse idiota obedecê-lo, mas nem o conhecia direito. Levaria uma bronca da diretora do orfanato caso essa história chegue em seus ouvidos.

Adentrou o luxuoso carro timidamente, colocando o cinto em seguida. O ar-condicionado estava ligado mesmo com o vento fresco lá fora. Logo notou que a idéia não era sentir frio ou calor, mas deixar os vidros fechados para que ninguém os visse do lado de fora. Reparou também que o youkai vestia um terno feito sob medida, negro como a noite.

– Não precisa me levar até... – ela parou quando ia mencionar o 'orfanato' – Quero dizer, é só me deixar no metrô.

Mas ele sequer olhou.

– Não. – parecia decidido – Diga onde mora que te levarei até lá.

– Mas... – sentiu o olhar âmbar queimando em sua pele, então suspirou - ...não tenho casa.

Isso Sesshoumaru Taisho não esperava. Ele lançou-lhe um olhar surpreso, nem teve tempo de esconder o quão incrédulo estava com aquela revelação. Eles iam e vinham no centro de Tóquio enquanto isso, parecendo até que Rin passeava por aí como se fosse uma turista.

– Então...? – Sesshoumaru nem formulou uma frase. Será que ele era tão preguiçoso assim?

– Não vivo na rua, tenho cara de mendiga? – perguntou bufando – Moro em um orfanato na saída de Tóquio – notou que aqueles olhos intensos pediam mais especificação de sua situação – Não tenho ninguém.

– Entendo – falou estranhamente, não parecia do seu feitio 'entender' alguém – Chegou a conhecer seus pais, Rin?

Ela balançou a cabeça.

– Não tenho a mínima idéia de quem eram ou o que faziam – explicou – Vivo no orfanato desde que me entendo por gente.

– Então é uma menina inteligente, e dedicada, passar na Academia de Kyoto não é para qualquer um – é isso mesmo? Ele está falando coisas para cortar essa situação chata? – De lá que surgem os melhores estudantes do país, um dos principais engenheiros da empresa se formou nessa Academia.

– Não quero ser engenheira – respondeu sorrindo agradecida pelo tato que ele teve na situação – Quero ser bióloga marinha, mas pode ser de água doce também. Também quero dar aulas, mas é difícil para alguém como eu chegar em um degrau tão alto. Ser professora no Japão exige demais.

Rin cruzou as pernas inconsciente de que esse movimento foi acompanhado pelos olhos âmbar do youkai.

– Nunca diga que não pode fazer algo, Rin – aconselhou-a imediatamente – Se deseja algo, lute até o fim. Muita gente irá tentar te derrubar, mas não deixe com que eles vejam suas fraquezas.

– Por que não, Sr. Sesshoumaru? – perguntou confusa – Nossas fraquezas que permitem que nossa força seja maior do que já é.

Mas ele balançou a cabeça em um movimento simples e rápido... parecendo que ele conhecia o trajeto até o orfanato.

– Fraquezas se chamam 'fraquezas' porque são o nosso ponto fraco – argumentou – O ponto fraco é onde não devemos deixar que ninguém entre sem nossa permissão.

– Entendi... – Rin assentiu, mas tinha vários brotos de curiosidade surgindo em sua mente - ...e quem o Sr. Sesshoumaru permite?

Pela segunda vez o youkai havia sido pego de surpresa.

Parece que não é todo dia que ele é questionado.

– Ninguém – respondeu simples e grosso.

– Mas qual o motivo? – insistiu cada vez mais curiosa – Tem que ter um motivo.

– Eu não tenho um motivo, Rin – respondeu pacientemente – Só não acho que as pessoas mereçam.

Ela soltou uma risadinha cômica.

– O senhor tem medo dos outros – afirmou – Medo de não ser compreendido, aí se fecha em uma nuvem para que ninguém o toque. Tenho catorze anos mas entendo muitas coisas, principalmente quando lido com pessoas como você.

– Não há ninguém como eu – a voz dele ainda estava calmo, fria e paciente... mas Rin duvidava que seu interior estava da mesma forma – Não tenho medo de ser incompreendido, de onde tirou isso?

– Não sei – respondeu sorrindo – Só me ocorreu que deve ser isso que o senhor passa.

– Engano o seu – Sesshoumaru insistiu em negar o que Rin falava, fazendo-a alargar o sorriso – Mas então, o seu nome é Rin e tem catorze anos. Quer ser bióloga marinha, mora em um orfanato e é aplicada nos estudos.

Ela nem viu o tempo voar, aquele carro era tão rápido, e o motorista muito preciso, que levou menos da metade do tempo que ela gastaria só no ônibus. Não entendeu como o youkai localizou aquele local sem que Rin o explicasse, afinal, não era lá muito fácil adentrar aquela propriedade. Teria que ser alguém que conhece o arredores para jogar o carro em estradas de terra.

– E quero lecionar também – adicionou sorrindo enquanto ele a analisava com sua típica expressão facial séria – Fico aqui, Sr. Sesshoumaru. Obrigada pela carona, e por conversar comigo. Ah, é... me desculpe por ser tão desastrada também, não é raro eu derrubar alguma coisa no chão. Boa-noite para o senhor.

Mas antes de sair do carro, sentiu a mão, que é muito maior que a sua, do youkai fechar em seu pulso. Surpresa, ela olhou primeiro para o próprio braço e depois para os olhos âmbar daquele curioso youkai.

– Rin...

Ela ergueu uma sobrancelha.

– Sim? – perguntou – É rude puxar alguém desse jeito, mas eu te perdoô.

– Eu moro a poucos quilômetros daqui, gosto do silêncio do campo e... – ele ignorou-me - ...jante comigo amanhã.

– 'Jantar'? – repetiu confusa – O senhor quer jantar comigo?

– Não me faça repetir – falou arqueando suas sobrancelhas.

Rin nem precisou pensar muito.

– Vai ser divertido! – exclamou animada – Quando eu chegar da Academia...

– ...eu te busco lá – interrompeu-a, soltando o seu pulso lentamente.

Foi o suficiente para Rin passar a noite em claro pensando o que usaria naquele jantar. As únicas roupas que tinha eram as da escola, os pijamas e algumas roupinhas para os dias de lazer do orfanato. Tentaria conseguir um pouco de maquiagem da sua colega de quarto, afinal, não queria que o poderoso Sr. Sesshoumaru desse de cara com uma mendiga.