O espanhol estava atônito. Desvencilhou-se de Aiolos com um suspiro, deparando-se com um sagitariano muito sério. Não era uma brincadeira muito bem elaborada do grego, definitivamente. Permaneceu alguns segundos observando o rosto do outro. Os cabelos curtos cor de mel moviam-se ao sabor da brisa, e poderia jurar que vira dois fios grisalhos entre eles. Os olhos de verde profundo faiscavam. Incapaz de conter as lágrimas, deu as costas ao amigo.

- Shura, olhe para mim! - Abraçou-o por trás, resmungando. Passou os indicadores pela face do espanhol, secando-lhe as lágrimas. - Ou não olhe...

Aproximou os lábios da orelha de Shura.

- Sinto muito se fiz algo inapropriado. Sinto muito mesmo.

O capricorniano remexeu-se dentro do abraço, que se afrouxou, e ficou de frente para o grego. Corou ao encará-lo novamente e desviou o olhar, retomando a costumeira expressão sisuda.

- Você não fez nada de errado, Aiolos. - Precisou lutar contra o pranto novamente, a voz deixando transparecer dor e culpa. - Nada pior do que já fiz a você.

- Shura, Shura...

Bagunçou os cabelos do mais novo com as mãos, deixando escapar um suspiro. Voltar à vida mostrava-se mais complicado que imaginara. Todos modificaram-se naqueles treze anos de ausência, e Aiolos sentia-se como uma criança tola em meio a eles, com um corpo de quem estivera vivo por todo aquele tempo. De forma alguma culpava Shura por tudo o que passara. A não ser, claro, por aquela atração absurda e recém-descoberta.

Recostou-se em no tronco de uma árvore, os olhos ainda fixos no companheiro. Shura, por sua vez, também o observava, mantendo certa distância.

Ao vê-lo largado tão despreocupadamente sobre a grama, o espanhol pensou na facilidade que teria para odiá-lo. Detestava aquelas maneiras desprendidas, o riso fácil que ele mostrava apenas ao irmão ou a Shura, a pouca importância que o grego parecia dar ao passado...

- Shura... - Aiolos o chamava novamente, o tom carregado de preocupação.

"Também detesto a maneira como ele me chama!"

- O que pretende com tudo isso?

- Já te ocorreu que estamos destinados um ao outro?

Capricórnio espantou-se. O grego, aparentemente, de fato se entregara à loucura! Ou estaria apenas bêbado? A tarefa de lidar com a vergonha e com a culpa, e de quebra ainda encarar Aiolos, era muito mais difícil do que qualquer missão que já tivesse cumprido. Era ainda mais difícil do que a morte, Shura ousaria dizer.

- Não te entendo, Aiolos.

- Ah... Entende, sim! Você é um homem bastante inteligente e é óbvio que compreendeu uma pergunta bastante simples.

Sentou-se ao lado do Cavaleiro de Sagitário, calculando bem a distância entre eles: não estava disposto a cultivar ainda mais confusões dentro de si, tumultos causados pelos atos do sagitariano.

- Estou mudado, Aiolos. - Declarou, após um longo silêncio.

O grego aproximou-se do espanhol. Fazia questão de tocar o outro, para o infortúnio de Shura. E o maldito sabia exatamente onde levar as mãos - que encontravam-se sobre as coxas dele - para deixar o capricorniano sem graça.

- Conte-me sobre as suas mudanças, então. Por Atena, Shura, somos amigos!

- Não somos, Aiolos! Não podemos ser! Não desde que eu... Desde que eu...

- O gato comeu a sua língua? Se não consegue dizer, eu direi para você: desde que você esteve sob o domínio do Saga e não teve escolha, a não ser me matar. - Aiolos dizia friamente, não se importando com aquele passado. Afinal, perdoara Saga publicamente. E perdoaria o espanhol por dez mil vezes, se necessário. - E isso realmente não importa, Shura. Não percebe? Eu não poderia estar mais feliz!

- Feliz? - Shura rebateu, quando conseguiu reencontrar a voz. - O que quer dizer com feliz?

- Vivo. Desfrutando de boas companhias como a sua. Por falar nisso... Você, meu amigo, ainda me deve uma explicação.

- Explicação?

- É, Shura... - Aiolos falava calmamente. - Sobre a sua suposta mudança. Para mim, independentemente de qualquer alteração em você, continuará sendo meu eterno melhor amigo.

O corpo o traiu, aumentando a proximidade que mantinha com o sagitariano. Parou ao rememorar costumes e leis.

- Olos, acho que nós não podemos...

- O quê?

O espanhol sentia a fúria se instalando. Na verdade, ele mesmo queria retroceder no tempo e retirar o próprio comentário vago e incompleto.

-Não podemos estar destinados um ao outro.

- E por que não?

- Porque somos guerreiros, somos Cavaleiros de Atena. Porque é errado!

Teria continuado, caso o outro não interrompesse imediatamente com mais uma pergunta. Na verdade, para a mente e para o coração de Sagitário, o amor jamais poderia ser errado.

- Quem disse que é errado?

- Isso importa?

- Claro que sim! A menos que a própria Atena em pessoa venha dizer que é terminantemente proibido manter uma relação amorosa com um companheiro da confraria, não acatarei costume algum!

Shura teve ganas de golpear Aiolos com a Excalibur ali mesmo. O rompante de rebeldia não combinava com o herói que conhecera.

- Nós devemos viver de acordo com as regras, Aiolos! Você, entre todas as pessoas, deveria saber!

- Você viveu por todos esses anos de acordo com as regras. E no que isto resultou para você?

O grego imediatamente levou as mãos à própria boca, arrependido pelas palavras proferidas. Shura limitou-se a se distanciar novamente.

- Desculpe, Shura.

- Já disse a você, não disse?

Apesar da rispidez de Capricórnio, Aiolos adorava observar cada nuance dele. Cada reação. Shura tornara-se um homem imponente, embora irascível. Honrado, também, mesmo que por vezes tenha escolhido as causas erradas.

- Podemos fazer diferente, então. Um jogo! Você responde às minhas perguntas e eu respondo às suas. O que me diz? Você pode começar!

O espanhol ponderou. Poderia ser um jogo perigoso, mas também precisava saber o que se passava com Aiolos.

- Nós o procuramos...

A voz fugia-lhe. Procuraram o Cavaleiro de Sagitário pelas razões errôneas, para que ele tomasse parte em uma trama que destroçou-lhe as almas, para participar da encenação de uma traição. Quanto a Shura... Shura queria apenas a presença dele.

- E não o encontramos. Onde você esteve?

Aiolos suspirou. Levou as mãos ao próprio cabelo, bagunçando-os. O espanhol aprendera, muitos anos antes, que aquela era a maneira de Sagitário demonstrar preocupação. Aquele gesto significava nervosismo. Esboçou um sorriso dirigido apenas ao outro. Aiolos parecia um garoto outra vez, fitando o nada, enquanto tomava coragem para falar.

- É verdade. Imagino que eu pudesse ajudar, se eu estivesse livre... Talvez... Talvez os sacrifícios pudessem ser menores.

- Você estava preso?

- É a minha vez agora, Shura! - O sagitariano censurou-o. - Não exatamente preso, uma vez que minha alma conseguia se libertar, ocasionalmente.

O grego adquiriu uma expressão divertida.

- Digamos que os Elísios não sejam o paraíso que pintam por aí.

- Você esteve nos Elísios durante todo esse tempo?

- É impossível jogar com você, sabia?

Levantou-se, espanando folhas e terra que aderiram ao traje, e ofereceu a mão para Shura. A até então suave brisa transformava-se em ventania, e o céu ateniense se fechava.

- Devemos ir, antes que a tempestade nos pegue. - Aiolos tentava romper o silêncio. - Além do mais, nos ausentamos dos nossos postos há horas. Estou achando que Mestre Shion nos dará puxões de orelha!

A imagem evocava breves momentos de inocência, a infância que mal tiveram. Era estranho recordar-se de simples atitudes infantis apenas porque alguém mencionou os puxões de orelha de Mestre Shion, na opinião do espanhol.

Shura observava a paisagem, enquanto caminhavam silenciosamente. O local era bastante familiar. Mesmo a venda que Aiolos colocara-lhe fora proposital: parecia capaz de enxergar com maior nitidez. A encosta já servira como abrigo para ambos. Durante breves fugas, momentos de puro de descanso, quando estavam prestes a retornar de uma missão. Ou quando queriam um treino clandestino, sem a supervisão de seus mestres. Não era um lugar encantador: era desafiador, pois o acesso era difícil. Mas eram as lembranças que faziam o encanto. Com pesar, vislumbrou o perímetro do Santuário.

Era o seu lar, e o de seus companheiros. Voltar para casa, contudo, significava confrontar-se com o escândalo das descobertas, com a própria consciência. Significava um potencial desentendimento com Aiolos.

Para contrariar as previsões e a necessidade de se recolher a pensamentos de Capricórnio, o grego apareceu às portas da Décima Casa Zodiacal durante a noite. Shura permitiu a presença dele. Revivendo um antigo hábito, sentaram-se nas escadarias.

- Mestre Shion quer que eu me prepare. - Permitiu-se confessar, causando estranhamento no outro.

- Mas você está treinando todos os dias, e saberíamos se houvesse ameça!

Com o silêncio, o espanhol deduziu: não se tratava de um treinamento qualquer. Tentava articular os pensamentos, em vão.

- Está longe, hein? - Aiolos interrompeu-o no devaneio.

- Jamais me distraio.

- Eu sei. - O grego abriu um largo e doce sorriso. - Isso não mudou em você.

O moreno tentou ignorar os efeitos que o outro cavaleiro causava. Estava mais taciturno, evitando olhar para o outro homem.

- Quer dizer, então... Eu sou os seus últimos momentos de diversão, Aiolos de Sagitário, e por isso está agindo desse modo comigo? Eu fui uma distração para você?

- Quero declinar.

O choque atingiu em cheio o mais novo. Shion oferecera ao Cavaleiro de Sagitário uma das maiores honras para qualquer integrante da elite dourada do Santuário, e ele simplesmente declinava?

O mesmo efeito de anos não vividos, notado no Cavaleiro de Sagitário, abateu-se contra o Grande Mestre, e ele temia não ter tempo de preparar adequadamente um sucessor. O nome de Aiolos, o escolhido anterior, surgia novamente entre as possibilidades.

- Você deveria aceitar. - Direto, frio e cortante como a lâmina que carregava em seu corpo.

- Não é como se eu fosse a única opção, Shura. E, mesmo antes, havia mais alguém.

Shura revirou os olhos, ainda incrédulo.

- Alguém que efetivamente foi o Grande Mestre, e quase levou o Santuário à ruína.

- Não significa que ele não mereça uma segunda chance. Além do mais... - Aiolos empertigou-se, mimetizando uma postura grave e solene. - "O Patriarca deve ser alguém irrepreensível em todos os aspectos, puro de corpo, alma e coração."

A encenação foi capaz de arrancar um riso discreto do capricorniano.

- Pobre Mestre Shion... - Shura possuía uma capacidade notável para voltar à seriedade. - Ele parece estar definhando de tristeza, Aiolos. Bem que você poderia atender aos apelos dele.

- Minha carne é muito fraca. Além do mais, Mu poderia facilmente substituí-lo! Tenho certeza de que Áries já possui todos os conhecimentos e requisitos necessários para a função. E já tem idade e maturidade suficientes agora.

- Ele é viciado naquele isolamento dele. Você realmente não faz ideia do quanto todos nós mudamos...

Havia mais por trás da insinuação de mudanças alheias, havia saudades não declaradas. E sentimentos... Emoções difíceis de definir.

- Todas as pessoas mudam em algum momento. Parece uma mudança benéfica, para a maior parte de vocês.

- Nem todos se sentem bem. - A objetividade cortante não estava mais presente.

- Como é que dizem, mesmo? Você não está confortável na própria pele, Shura?

- Nem eu, nem Camus, nem Saga... - Sentiu um nó formar-se na garganta, ao relembrar-se das ações praticadas naquele mesmo Santuário. Mais uma dose de culpa para Shura de Capricórnio.

- Me disseram que vocês não tiveram escolha. Não era uma opção.

Voltou os olhos para a imensidão celeste. O ambiente desprovido de luzes artificiais ao redor do Santuário permitia uma leitura clara das estrelas, porém as nuvens carregadas obscureciam a visão do céu. Grossas gotas de chuva começavam a cair com velocidade crescente. Shura aproximou-se de Aiolos, afastando o cabelo molhado do rosto dele. Enlaçou a cintura do mais velho, e depositou um breve beijo sobre os lábios.

- Talvez seja melhor nos secarmos.

Aiolos ignorou-o solenemente, estreitando o contato dos corpos e aprofundando um outro beijo. Shura afastou-o, resfolegando.

- Alguém pode nos ver.

- E...?

Fuzilou o grego com o olhar. As consequências de ações tão reprováveis, na opinião de Shura, poderiam ser piores do que a morte.

- Sou exclusivamente fiel à nossa deusa, você sabe. Todo o meu ser é devotado ao serviço de proteger Atena. Não posso me dar ao luxo de oferecer nada a você, Aiolos.

A mão firme e gentil do grego ergueu o queixo do outro, provocando um encontro de olhares.

- Não estou pedindo nada.

- Está exigindo! - Bradou, desfazendo o abraço que ele mesmo procurara minutos antes.

- Você fala como se eu pudesse impor a minha vontade a você, Shura. Não posso, jamais poderei.

Eles sabiam bem que a paz jamais era duradoura: sempre havia ameças surgindo. Talvez não fossem imensas como Hades, mas existiam. E dedicavam as vidas, integralmente, à proteção da deusa e da humanidade. Devido à rotina que mantinham, quase não havia espaço para o sentimento. Uma emoção nova e ameaçadora, então, parecia fadada ao desaparecimento.

- Você quer impor a sua vontade até ao Mestre Shion, Aiolos!

- Vai embarcar com ele nessa loucura? Não tenho capacidade para ser o Grande Mestre, Shura! Me sinto um garoto de catorze anos, pelos deuses!

Shura deu as costas para Aiolos. Sentia-se furioso, decepcionado... Apaixonado? Definitivamente, sim. Estava apaixonado. E possivelmente condenado a ser um péssimo soldado.

- Você pode ficar em Capricórnio, se quiser, com uma condição. Vá até o Patriarca, e se entenda com ele. Se não quiser, volte ao seu posto, Aiolos.

Era um pretexto para se ver livre do outro cavaleiro, mesmo momentaneamente. Abraçaria a solidão por algum tempo. Talvez fosse o suficiente para esfriar os ânimos entre ele o sagitariano e, mais ainda, talvez fosse o suficiente para resfriar o corpo. Eram soldados, porém eram também reféns da carne e de suas necessidades.

Sagitário resignou-se. De fato, não poderia deixar Shion sem resposta.

- Se me der licença, Shura de Capricórnio. - A formalidade era uma provocação. - Atravessarei a sua casa.

- Creio que você esteja se esquecendo de um detalhe fundamental. - Os olhos perscrutavam o corpo do mais velho.

- O que? Preciso de dar um beijo para passar pela casa?

Aiolos ouviu um impropério proferido em espanhol, antes de notar que encontrava-se sem a armadura. Recuou para a própria casa e chegou devidamente paramentado minutos depois. Pediu passagem para Shura, que atendeu prontamente.

- Boa sorte, futuro Grande Mestre... - Murmurou, tentando desvencilhar-se das sensações causadas pela proximidade com o grego, um tumulto que começava com a culpa e prometia terminar com amor.


N.A.: Depois de um longo e tenebroso inverno, eis que a luz e a inspiração surgem novamente. Sem dramas, agora: Finalmente! Sinto muito para aqueles que estavam esperando por todos esses anos. E lá vamos nós, rumo a um novo capítulo.