Não encontrou Camus na Casa de Aquário. Onde ele estava não era mistério. A biblioteca do Grande Mestre fora avariada ao longo dos confrontos, e a responsabilidade de restaurar parte dos registros recaíra também sobre o aquariano.

Distraído e praticamente falando sozinho, não notou que chegara em Peixes.

- Deixe de rabugice! – Afrodite bradou, após quase ser atropelado pelo outro cavaleiro, e permitir a passagem de um Aiolos resmungão.

- É o seu dever, ele disse. Dever, dever... Desculpe, Afrodite! – Tentou sorrir para o cavaleiro de Peixes, mas concluiu que fora mal-sucedido, pelo olhar repreensivo que o sueco lançou.

- E pare de falar sozinho, está parecendo um louco!

Mal percebeu as escadarias, piscando repetidamente ao perceber que estava no Décimo Terceiro Templo. Shion mantinha-se majestoso, adornado com as roupas e jóias de Patriarca, embora sua figura esguia parecesse ainda mais magra.

O Cavaleiro de Sagitário tomou a postura de reverência: um dos joelhos flexionado à frente de seu corpo, o outro tocando o chão, a cabeça baixa. Sob a luz dos archotes do salão, as asas douradas projetavam imensas sombras.

- Levante-se, Aiolos, e me acompanhe.

Encaminharam-se à biblioteca daquele templo, onde encontravam-se os cavaleiros de Áries, Virgem e Aquário. Shion não precisou proferir palavras para dispensá-los, e eles reverenciaram o Patriarca, liberando o espaço.

Shion assumira uma postura severa. Era necessário. Lidar com guerreiros destemidos e mantê-los na linha cobrava tal preço. Também era necessário distanciar o sagitariano das preocupações mundanas, mesmo que isto significasse o completo isolamento por algum tempo. Uma semana seria razoável.

- Creio que não compreendi muito bem, Grande Mestre. Por quanto tempo devo ficar lá?

- Por uma semana, Aiolos de Sagitário.

Aiolos tentava pensar que Shion não estava ensandecido, como diziam pelo Santuário. Havia motivos de sobra para enlouquecer o Grande Mestre: o renascimento estava complicado para todos, Dohko simplesmente desaparecera depois de Asgard, e a tentativa de unir os mais poderosos guerreiros sob seu comando estava fadada ao desastre.

E ali estava o cavaleiro de Sagitário, com o manto de Shion nas mãos e ordens de passar uma semana em Star Hill. A situação era surreal demais para o sagitariano. Shion deixou escapar um longo suspiro.

- Sei que você não está gostando disso, Aiolos. Mas será tempo o suficiente para que você reflita sem distrações.

Era impossível esconder qualquer coisa do ariano. Não que ele estivesse se esforçando para disfarçar sua reaproximação. Ou a sua paixão por Shura de Capricórnio.

- São ordens, senhor. Eu as acatarei. – Sua voz saía num tom calmo, apesar do nó na garganta. Isolamento não o agradava. E, quando pensava em todas as coisas que queria dizer, em todas as coisas que queria ouvir de Shura e de seu irmão mais novo, mais tentadora parecia a ideia de escapulir da obrigação.

"Só falta eu bater continência... De onde tirei "são ordens, senhor, então as acatarei?" Agora só tenho essa opção."

Não que ele fizesse diferente, se houvesse outra opção. Não. Apesar da relativa inexperiência, Aiolos de Sagitário sabia agir muito bem quando se tratava de suas obrigações.

- Aiolos... – Shion tinha uma expressão entristecida. – Você tem lembranças anteriores ao dia em que você em que você e Aiolia chegaram ao Santuário?

- Não, senhor. – O sagitariano meneou a cabeça em negativa. – Não muitas.

- Você sabe o motivo?

Aiolos estava confuso. O que Shion pretendia com aquelas perguntas? Pior ainda: o cavaleiro de Sagitário não compreendia as intenções do Grande Mestre com tais perguntas.

- Também não.

Shion movia-se em torno da longa mesa, colocada no centro da ampla biblioteca. Vê-lo inquieto era coisa raríssima, e profundamente perturbadora. Aiolos perguntou-se quantos segredos o Grande Mestre poderia guardar, para que seu rosto estivesse sempre estampado com aquela melancolia. Ou, naquele momento, com aflição.

- Vinte e oito anos atrás, eu cometi um erro catastrófico. Não pretendo repeti-lo. – O Patriarca suspirou. Pensava no pesado segredo que carregara por tanto tempo. - É uma história que diz respeito a você e a seu irmão...

- Devo chamá-lo? – Prontificou-se. De imediato, arrependeu-se: parecera apressado. Na verdade, ele pensava que poderia fazer de tudo para fugir dali, embora sua honra o obrigasse a permanecer.

- Não, Aiolos. Permaneça aqui e me escute. Depois eu me entenderei com o seu irmão.

O Grande Mestre não suavizou qualquer parte daquela história, tampouco a própria culpa. Contou-a do início, quando encontrou uma pequena garota ferida e assustada; jovem demais para saber o que acontecera a ela, e sozinha demais para saber aonde ir. Criou-a como se fosse sua filha, e um dia ela decidiu seguir o caminho das amazonas.

Tudo o que amazona possuía da vida anterior ao Santuário era o próprio nome: Orseis. Tornou-se uma mulher honrada e determinada, empenhada em deixar a criança assustada para trás. Era uma guerreira poderosa, e estrategista competente.

O que nem ela, nem Shion sabiam, era que ela despertaria e viveria uma paixão com um outro cavaleiro. Naquela época, os estatutos ainda eram ainda rígidos. Orseis não quebrou apenas aquele que a impedia de relacionar-se, e as consequências de suas ações impediam que o Grande Mestre a acobertasse.

Carregar uma criança, nas condições de vida impostas aos guerreiros de Atena, era no mínimo imprudente.

Apenas então, com Aiolos à sua frente, e sabendo do grande sacrifício que ele fizera, Shion percebeu que jamais poderia exigir outra atitude de Orseis. Por quantas vezes ele, tão poderoso aos olhos dos seus comandados, não se entregou a noites de culpa por enviá-la a uma missão suicida?

Mesmo após o término da missão, a amazona não retornara. Enviara cartas para o Santuário, justificando sua estadia nos Montes Pindo: a ameaça, segundo ela, fora neutralizada, mas não exterminada. Não tardou até que Shion descobrisse que Orseis dera à luz a mais uma criança, outro menino. Porém, distante do Santuário, daquela vez ela não encontrou punições pelas mãos do Grande Mestre.

Sagitário sentiu-se atingido com um golpe. A história que Shion contava mesclava-se com as lembranças enterradas no fundo de sua memória. Crescera sabendo das histórias de abandono de muitos de seus companheiros, e sempre assumira que também ele e Aiolia poderiam ser frutos indesejados. Intimamente, sabia tratar-se de uma suposição errônea, mas a falta de recordações não o ajudava.

As palavras de Shion descortinaram um passado que sequer parecia pertencer a Aiolos. Desejou agarrar-se àquelas lembranças, porém a voz do Grande Mestre chamava-o de volta à realidade.

- Aiolos, seu controle sobre seu cosmo era assustador, para alguém da sua idade, quando você chegou aqui. Evidentemente, não vi apenas o seu cosmo...

- Muitos se tornam cavaleiros de ouro naquela idade, Mestre Shion. – Aiolos parecia mais interessado em encarar as sombras das asas no chão do que ser obrigado a fitar Shion. – Não é nada extraordinário, se formos pensar nisso.

- Não deixou de me impressionar. Você sempre foi cheio de qualidades admiráveis. Orseis, sua mãe, teria se orgulhado muito de você. E do seu irmão também, evidentemente.

Seguiu-se um longo silêncio. Aiolos vasculhava a memória, buscava quaisquer outras lembranças da mãe, da vida anterior ao Santuário. Nada. Via a culpa estampada nos olhos do Patriarca, mas o sagitariano recusava-se a acreditar nas hipóteses que sua mente maquinava.

– Não é feito meu. – Shion declarou, como se lesse os pensamentos de Aiolos. – Você pode superar esse bloqueio facilmente e sabe disso.

Aiolos lembrava-se das mãos da mãe segurando as suas, da repreensão quando ele errou o alvo, de quando ela entregou-lhe uma outra flecha, juntamente com encorajamentos.

- Eu jurei que não cometeria o mesmo erro, Aiolos. Confie em mim quando digo que a missão que estou confiando a você não é impossível. – Shion suspirou. Aiolos mostrava-se mais resistente do que previra. – Necessito de alguém confiável, enquanto eu estiver fora. E você é plenamente capaz.

- Com todo o respeito, Grande Mestre... Fora?

- Sim. – Shion não precisava de palavras para expressar sua dor e sua preocupação; sua face o entregava. – Dohko ainda não retornou ao posto. Eu devo procurá-lo.

Para Aiolos, aquilo dizia tudo. Passou a compreender melhor, naquele momento, aqueles que diziam que Shion estava enlouquecido de saudades de Libra. Alguns acrescentavam uma paixão de séculos, nas histórias que contavam e repassavam.

- Então é isto? Trata-se de uma medida desesperada para entregar o posto? Para executar uma missão que qualquer outro seria capaz de cumprir?

- Desta vez, desconsiderarei a insubordinação, Aiolos. Apenas desta vez. – Shion nunca pareceu tão ameaçador aos olhos do cavaleiro de Sagitário, com sua voz sibilante e investido de divino poder. – Deve partir para Star Hill hoje mesmo. Eu o acompanharei nos três primeiros dias.

- Poderei...

- Se despedir de Aiolia? É claro. – O Grande Mestre levantou-se, os braços cruzados à frente do corpo, e o olhar fixo em Aiolos. – Pode se despedir de Shura também, mas seja breve. Assim ficará mais fácil manter-se afastado.

Despediu-se de Shion com uma mesura. Foi tomado por súbita pressa, após o anúncio do que considerou um castigo.

Surpreendeu-se ao encontrar Aiolia e Shura, em silêncio, aguardando por ele em Sagitário.

– E então? – O leonino foi o primeiro a manifestar-se.

– Ficarei uma semana fora. E não tenho ideia do que Shion pretende depois disso. – O desânimo era evidente. Aiolos aguardara por muito tempo pelo reencontro, finalmente conseguia desfrutar da nova vida, em paz com seus companheiros e irmãos. Desejava companhia, e fora condenado ao isolamento temporário.

– Uma semana passa rápido, Aiolos. – Shura tentou confortá-lo. – Quando você vai?

– Tão logo eu termine de me despedir de vocês dois.

– Tão rápido assim? – Aiolia parecia tão contrariado quanto Aiolos. – De qualquer forma, são ordens... Não pode descumpri-las.

– Eu sei, eu sei... – Perguntou-se quem parecia o irmão mais velho ali, vendo o mais novo assumir tamanha seriedade naquilo que falava. Sorriu para as duas pessoas que mais amava. – Não mentirei: não gosto, mas obedecerei.

Em uma rara, e portanto preciosa, demonstração de afeto, Shura acariciou os cabelos e os ombros do sagitariano. Sem importar com a presença de Aiolia, deu-lhe um beijo de despedida.

– Nós estaremos esperando por você. – Era uma promessa da parte do espanhol.

Sem querer prolongar a despedida, o cavaleiro de Sagitário utilizou-se de sua velocidade sobre-humana para encontrar-se com Shion, ao sopé de Star Hill. Nenhum dos dois teve dificuldades para alcançar o topo.

– Sempre senti que eu nunca tive um preparo adequado. – O Patriarca observava as estrelas. Há quanto tempo não tinham incidentes? Estava profundamente agradecido aos deuses, naquele momento. – Aliás, nenhum dos meus antecessores o teve. Quando eu o indiquei, tinha em mente deixá-lo pronto para tudo, Aiolos. Infelizmente não pude fazê-lo, na época.

– Não consigo acreditar que a escolha ainda seja mesma, até hoje... Os outros são tão bem preparados quanto eu, ou até melhor preparados! E todos agora têm idade para assumir o posto!

Shion mirou o cavaleiro em silêncio.

– Aiolos, existem missões que apenas uma determinada pessoa é capaz de cumprir. – "Por isso enviei Orseis àquela missão sem volta, por isso estou partindo em busca de Dohko", completou, apenas em pensamento. – Ainda hoje, o único capaz de me substituir é você.

– Por que viemos para Star Hill? Por que precisamos desse isolamento? – Eram muito mais do que simples questionamentos proferidos por Sagitário; eram lamentos.

Compreendia as dúvidas de Aiolos. Talvez mais do que ninguém.

– Há muita coisa que você desconhece. É por esta razão que está aqui.

– Nós dois sabemos que não se trata apenas disso. – Aiolos retrucou, sabendo estar correto.

– Não... – O Grande Mestre respondeu-o calmamente. – Não quero que você se distraia.

– Então é isto que é o amor, uma distração?

– Então você admite que está amando? – Shion inquiriu. – Cuidado para não tomar um caminho perigoso, Aiolos. Mesmo o amor por um irmão pode colocar um guerreiro em risco...

Aiolos, encolhido a um canto das paredes rochosas de Star Hill, silenciou-se. Quando fitou Shion, percebeu que, mesmo quando ele sorria, ainda parecia triste.

– O amor é a força mais importante do mundo, Aiolos... E também a mais poderosa e sublime, para os deuses e para os mortais, mas é necessário direcioná-lo. Tente pensar no amor como uma arma: é um sentimento ambivalente, e pode nos proteger ou nos ferir. Não quero que você saia ferido novamente. – O Grande Mestre prosseguiu, após uma breve pausa. – Ninguém pode condenar qualquer outro por amar, e os deuses sabem que eu jamais poderia julgar outra pessoa... Infelizmente, nossos destinos exigem enormes sacrifícios.

– Nós já sacrificamos tanto!

– É verdade. Mas precisamos ter em mente que, a qualquer momento, podemos ter uma reviravolta nesta paz que vivemos agora. E, caso não tenhamos mais paz, deveremos nos empenhar em nossos deveres. Nós temos um propósito, que deve ficar acima das nossas paixões pessoais.

– É isto o que está fazendo agora, Mestre Shion? Colocando o propósito acima das paixões? Pelo que sabemos, Dohko pode nem mesmo estar vivo...

– Pare agora, Aiolos! – Shion ordenou. – Se há alguém que conhece o cavaleiro de Libra, esse alguém sou eu. E posso garantir que ele está vivo.

– Não é o suficiente para apressar-se na escolha de um substituto! – Não ousou dar voz aos outros pensamentos. Não considerava-se qualificado para assumir o posto de Shion.

– Aiolos, entenda que eu preciso orientar alguém.

– Não deixo de achar que a escolha seja passional. – Aiolos retrucou. Continuava contrariado com a decisão do ariano.

Shion retirou pergaminhos da pequena biblioteca particular. Devido ao tempo que passou na companhia deles, já sabia exatamente o que encontraria: grego antigo, cálculos astronômicos, mitos que confundiam-se com a história.

– É uma escolha que cabe apenas a mim, Aiolos! Nossa deusa colocou-a em minhas mãos. Ninguém a questionará, nem mesmo você. Estamos entendidos?

O cavaleiro de Sagitário não o respondeu, apenas aguardou as instruções de Shion.

Nos dias subsequentes, o Grande Mestre não poupou esforços no preparo de Aiolos. Ao cair da noite, ambos encontravam-se extenuados. Shion parecia bastante satisfeito com os progressos, ao se despedir de Sagitário na terceira noite.

– Então é isso?

– Voltarei em breve, com ou sem Dohko. Tenho certeza de que ficará bem.

Aiolos duvidava das palavras de Shion. Por toda a sua vida, esteve cercado de pessoas, e a solidão o oprimia terrivelmente. Pensou que não conseguiria parar de pensar em Shura e em Aiolia, porém forçava-se a manter o foco no dever imposto a ele.

Durante os quatro dias seguintes inquietou-se durante o sono. Despertava desolado, ao perceber-se sozinho com suas lembranças.

Sonhava com o Mar Egeu, com ilhas não tão distantes, com os portos e as formações montanhosas na Tessália, e com uma agitação cósmica assustadora para sua percepção de garoto. Uma imensa, perigosa e trágica sombra.

Alimentava-se frugalmente e pouco dormia. Seu abatimento contrastava enormemente com a animação mal-disfarçada de Shion, que acabara de retornar.

– Encontrou-o?

– Verá com seus próprios olhos. Está dispensado, por enquanto. Esteja no Templo de Atena ao amanhecer, Sagitário.

Passada uma semana, Aiolos estava visivelmente abatido. Grandes olheiras conferiam-lhe um aspecto exausto. Também emagrecera naquele curto período de tempo, e as roupas que Shion o obrigou a usar estavam ainda mais folgadas.

Foi em tal estado que chegou a Capricórnio. Não sabia como - ou se - Shura o receberia.

- Foi tão ruim assim, Aiolos? – O guardião da casa manifestou-se. Reparava em cada traço de Aiolos, e achava que conhecia-o bem. Foi tristeza o que notou, quando o sagitariano deixou-se cair nos braços do espanhol. – Vá com calma...

Amparado por Shura, deixou-se envolver pelo perfume desprendido pela pele de Capricórnio. Inebriava-se. Acima de tudo, sentia-se seguro. Havia naufragado na solidão pesada daquela semana, e acabara de retornar à terra firme.

Não demorou para recompor-se da pequena indiscrição. Aprumou-se ao lado de Shura, evitando fitar diretamente o espanhol.

– Shura, você se lembra do dia em que nos conhecemos? – Aiolos sabia ser direto e contundente, quando queria, portanto o espanhol estranhou a pergunta que soava como um subterfúgio.

– Eu te invejei por ter uma família... – Capricórnio lembrava-se muito bem daquele primeiro encontro.

– A primeira coisa que te disse foi que seu nome era estranho, que não parecia vindo da Espanha. Eu deveria ter sido mais gentil.

Shura sequer possuía um nome, antes de Shion encontrá-lo, com dias de vida. O cavaleiro de Capricórnio jamais conhecera outra vida que não fosse a de dentro dos limites do Santuário.

– Nós éramos crianças, Aiolos. Ademais, é passado.

– Queria que você deixasse as suas culpas no passado, também.

Olhares, dúvidas, e certezas se encontravam. Almas e cosmos em harmonia. Aiolos e Shura estavam lado a lado, e era mais do que poderiam esperar. Entre eles, porém, ainda havia o peso dos erros e do passado.

– Quer dizer que estou perdoado?

– Sempre esteve, Shura. – Sagitário disparou.

– Como você pode ser tão despreocupado?

Aiolos assumiu a postura grave, que só era vista quando ele encarnava a função de mestre, durante treinamentos.

– É o que você pensa sobre a minha pessoa, que eu seja um despreocupado? Vindo de você, parece ofensivo!

– Eu não tive a intenção...

– Foi o que imaginei... – Sagitário sorriu.

Shura suspirou longamente. Jamais conseguiria entender o grego. Era uma das características de Aiolos que o fascinavam. Atraíam-se como objetos de polaridades opostas, nada podendo fazer contra o magnetismo irresistível. Formou-se, em ambos, a compreensão de que já não eram apenas amigos. Estavam passos além da amizade, em um caminho sem volta.

– Sinto muito. – Simultaneamente às desculpas, Shura enlaçou a cintura de Aiolos. – Não temos como escapar, temos?

– Você quer escapar? – Sagitário indagou, a pergunta permeada pelo tom provocativo.

– Somos guerreiros, Aiolos. Nós não escapamos. – O espanhol redarguiu. – Por mais perigosa que seja a situação, não temos o direito de fugir ou evitar.

– Mesmo do amor? Quer dizer que não fugirá se eu convidá-lo para uma noite na minha casa?

O cavaleiro de Capricórnio mantinha a habitual expressão solene e impenetrável. Sentia-se um animal pego em uma armadilha, uma vítima do destino, ou de algum capricho dos deuses.

– Não fugirei. – O espanhol assegurou. Não poderia, entretanto, permitir que Aiolos fosse imprudente. – Mas acredito que você tenha um acúmulo de responsabilidades, pelos próximos dias.

Aiolos irritou-se com o comentário, mas fez questão de manter o semblante sereno. Estava aprendendo com Shura, definitivamente.

– Sempre haverá tempo e espaço para você.

A declaração do grego parecia ecoar pelo templo de Capricórnio, ganhando força enquanto Aiolos distanciava-se. Shura teve vontade de acompanhá-lo. Não cedeu ao capricho, porém, e permaneceu em sua casa. Esperaria até o início da manhã para reencontrá-lo.


N.A.: Capítulo altamente viajante, mas eu precisava. Não consegui desempacar enquanto não aceitei a ideia de deixá-lo assim mesmo.

Também pretendia trazê-lo bem mais cedo, bem mais cedo mesmo, mas vocês sabem como é a vida... Acabei me enrolando. De qualquer forma, aqui está.

Acredito que eu já tenha mencionado que a minha intenção inicial era fazer uma short fic... Não consigo me estender muito nas estórias e vocês correm o sério risco de passar mais uns anos esperando se eu resolver escrever mais e mais capítulos. Também fiquei sem muito o que falar, então, logo, logo, a fic terminará.

Orseis, na mitologia, era uma ninfa, e a mãe de Éolo, "filho de Heleno" (se não me engano, o bisavó do Éolo que Odisseu encontra).