Eu tenho desculpa? Não, não tenho.

Queria escrever algo familiar — ou até doce — para esse capítulo, sorry, not sorry.

Estou me estendendo mais do que pretendia — ou deveria — mas, neste ponto da história, essas pequenas cenas eram a única coisa que fazia sentido para mim.


Viu-se incapaz de dormir; sentia-se desconfortável no Templo de Sagitário. Revirava-se de um lado para o outro da cama que resolveu tornar-se estranha e inconvenientemente incômoda naquela noite. A inquietude levou-o à quinta daquelas casas: Leão.

Conhecia aquela casa como a sua própria. Pouco depois de ser sagrado Cavaleiro de Leão, Aiolia insistia que precisava dormir no templo protegida por Aiolos, que não conseguiria dormir sozinho, mesmo depois de um longo sermão sobre a recém-adquirida responsabilidade.

Aiolos sabia que Aiolia era apenas uma criança, porém, e encontrou uma solução: mudar-se temporariamente para o Templo de Leão. Sentiu-se nostálgico. Bateu levemente a imensa porta do quarto do irmão.

Por vezes, perdia-se em conjecturas. Imaginava que jamais veria novamente os leões dourados entalhados na madeira pesada daquela porta. Imaginava que demoraria para reencontrar Aiolia. Imaginava que Shion não insistiria naquela ideia absurda. Imaginava que sequer experimentaria os lábios de Shura.

Imaginava que não viveria tempo o suficiente para experimentar toda aquela nova vida; todas aquelas pequenas maravilhas que pareciam descortinar-se à frente dos seus olhos pela primeira vez.

— Aiolia, está acordado?

Aiolia atendeu prontamente ao chamado, trajado com um pijama cuja camisa trazia a figura estilizada de um leão sonolento, a expressão atordoada desfazendo-se — quase de imediato — enquanto ele tomava a postura de um sentinela.

— Algo errado? Precisam de mim?

Rir-se do próprio irmão foi inevitável para Aiolos de Sagitário.

— Fique calmo, maninho, não estamos sob ataque.

Incapaz de se conter, o mais novo dos irmãos fez uma careta de desagrado. Aiolos afagou-lhe os cabelos.

"Quase como nos velhos tempos", recordou-se.

— Então essa não é hora de acordar os outros, Aiolos... — Leão resmungou, um tanto insatisfeito devido ao sono interrompido.

—Não consigo dormir. — Aiolos confessou. Era algo embaraçoso dizê-la, quando na verdade era ele costumava escutar aquela frase. Parecia errado inverter a ordem. Assim como parecia errado ouvir sermões de Aiolia.

Finalmente resignado com a noite perdida, o cavaleiro de Leão suspirou. Se o irmão estava enfrentando problemas, ele o ajudaria: devia-lhe aquilo. E, sobretudo, havia admiração e amor por Aiolos em seu coração.

— Vai me contar o que há de errado, Aiolos, ou me deixará novamente sem respostas?

Sagitário poderia fingir que o péssimo humor do irmão devia-se ao roubo de seu precioso sono, após seu turno no patrulhamento noturno. Conhecia a verdade, porém. A acusação sobre omitir fatos importantes era uma constante sempre pronta a escapar dos lábios do cavaleiro de Leão. Aiolos respirou fundo, tentando não ser irônico com o irmão.

Sentados à pequena mesa na copa do templo de Leão, compartilharam um silêncio amargo. Aiolos não fazia ideia da dimensão que a sua ausência tomou para o irmão. Desfez-se daquele silêncio rapidamente.

— "Somos dois adultos agora"... — Repetia as exatas palavras de Aiolia. — A verdade é que precisamos conversar. Sempre precisamos, e eu me calei, e me desculpe, Aiolia!

— Certo. — Aiolia cedeu secamente.

— Você já esteve apaixonado?

O caçula revirou os olhos. Em parte porque imaginava o conteúdo da conversa que se seguiria, e em parte pela aparente incapacidade de Aiolos de continuar o raciocínio por mais de um minuto. E, finalmente, em uma parte maior ainda, por ter sido retirado da cama para… aquilo.

— Aiolos, você não precisa fazer volteios. Todos sabem que você está caidinho, mano. — Leão exibia uma fisionomia divertida.

As feições do cavaleiro de Sagitário contraíram-se em desagrado.

— Não é engraçado, Aiolia! E se a sua paixão colocasse em risco o seu dever?

Leão abafou o riso com as mãos. Seu tão sábio e admirável irmão quase parecia outra pessoa.

— Você vem buscar conselhos comigo? Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para isso.

Aiolos apertou ainda mais os próprios lábios.

— Mas é a pessoa mais próxima de mim.

— Poderia buscar o conselho de Shura. Ele tem todos aqueles defeitos que nós dois conhecemos de perto demais, mas é alguém razoável.

— Não quando ele está diretamente envolvido.

Uma gargalhada breve e seca foi a resposta de Aiolia.

— Se ele não conseguisse se isentar, Aiolos, não teria...

Aiolos sentiu os músculos contraírem-se em resposta, e forçou-se a relaxar.

— Não ouse!

— Desculpe.

Se havia alguma tensão entre os irmãos, esta desinstalou-se tão rapidamente quanto surgira.

Ambos voltaram a atenção para os tímidos raios de sol que se insinuavam pelas janelas da copa.

— Me parece que é hora de irmos ao trabalho. Posso oferecer algo para você?

— Depois dessa longa noite, um café me cairia bem. Mas não sei se devo confiar em você pilotando um fogão, Aiolia.

Imediatamente Aiolos levou um cutucão nas costelas. A dor provocou resmungos por parte dele.

— Não sou mais uma criança, Aiolos de Sagitário.

Aiolia dirigiu-se ao fogão de sua casa. Ocasionalmente lançava olhares de esguelha para o irmão, cujos dedos tamborilavam a mesa sem parar. Não demorou a voltar para a mesa com duas xícaras do líquido escuro e fumegante.

— Certo. Hora de contar para o seu querido irmão mais novo o que, além desse dramalhão, te trouxe aqui.

— Não estou fazendo drama, Aiolia.

— No que está pensando? — A voz grave de seu irmão mais novo reverberou.

— Nas minhas respostas.

Aiolia ergueu uma sobrancelha e meneou a cabeça.

— Você está ainda mais estranho, agora que voltou.

— Talvez… E talvez seja necessário.

— Eu não disse nada demais. Disse?

Aiolos sacudiu a cabeça. Apoiou os cotovelos na mesa e cobriu o rosto com as mãos. Pela primeira vez, desejou não ter todas aquelas imagens tão nítidas em sua mente.

Mais do o que verde dos vales, ou a aridez da extensão dos montes cujos cumes pareciam esculpidos em pedra, o que captava a sua atenção era a luz suave dos primeiros raios solares.

O rio nas proximidades também parecia despertar, elevando a voz em perfeita harmonia com o vento que passou, brevemente, por mestra e discípulo. Eram mais do que estudante e professora, contudo: eram mãe e filho.

— Você deve controlar sua respiração, Aiolos. Só então dispare. E não hesite.

O garoto sentiu a longa trança acobreada roçar sobre seu ombro. Manteve-se impassível, porém, e disparou a flecha.

Orseis inspecionou o alvo de madeira, com a flecha cravada com precisão em seu centro. Fez um gesto de aprovação para Aiolos e, muito veloz, aproximou-se. O borrão colorido com cheiro de flores campestres se marcaria para sempre na memória da criança.

Antes que Aiolos pudesse largar o arco, ela o rodopiou no ar, como se fosse um bebê e não um garoto com seus seis anos.

Ela o elogiou, depositou-lhe um beijo na bochecha, e aquela era a maior felicidade que ele conhecera.

A gargalhada infantil ainda ecoava, quando despertou. Sozinho.

Seria o tipo de sonho que possuía o potencial de confortá-lo, porém apenas deixou-o com a impressão de um vazio persistente, tal como aquele que lhe apagava partes da memória.

Na noite seguinte, suas incursões oníricas tomaram rumos mais sombrios.

Reconheceu o mesmo formato e o mesmo tom de verde de seus próprios olhos no rosto de uma mulher que se distanciava. O padrão trançado dos cabelos deu-lhe a certeza sobre a identidade dela.

Vislumbrou-a, em postura reverente perante Shion, e do diálogo entre eles captou apenas duas palavras.

— Erínias.

A segunda perdera-se no momento em que tentou seguir vozes que mesclavam-se e confundiam-se. Tais vozes ainda ecoavam na mente de Aiolos, horas após o seu despertar.

Julgara, em determinado momento, que aquilo era uma elaborada prova imposta por Shion. Forçou-se a abandonar tais pensamentos, pois aquilo parecia exagerado mesmo perante os altos padrões do Patriarca, além de parecer-lhe um golpe baixo e injusto. Talvez, ponderou, fosse apenas o peso de suas próprias memórias.

Sabia que Shion agia com as melhores intenções, e que deveria cumprir as ordens. Entretanto, se a intenção era curar-lhe a mente, o retiro forçado parecia uma péssima ideia.

Aiolos imaginou estar enlouquecendo, e aquele era apenas o segundo dia isolado do mundo exterior. Como Shion conseguia passar dias ali, a fim de observar o movimento das estrelas?

Quando saiu do cômodo pequeno, com ares ainda mais espartanos do que as acomodações dos aprendizes, flagrou o olhar perdido que o Grande Mestre lançava para o céu.

— Para alguém sentindo o peso destes dias, e sabendo que não existem urgências, eu teria esperado que você despertasse bem mais tarde.

Inclinou o tronco em uma mesura. Sentou-se, então, sobre uma das bordas do monte, encarando o abismo abaixo.

— Ainda não compreendo... Sou um homem feito para a ação, não para o comando.

Aiolos ergueu os olhos para o ariano. Ele havia perdido parte dos modos tão solenes. A energia parecia mais leve.

— E é exatamente por isto que você ainda é a opção mais adequada, Aiolos.

— Sinto que nossos dias serão longos, Mestre Shion.

Shion sorriu-lhe. O olhar, no entanto, ainda parecia distante.

— De fato. Mas teremos tempo.

O tempo pareceu encolher-se, conforme os dias arrastavam-se. E, então, quando estava prestes a se acostumar ao silêncio e aos embates de sua própria mente — na vigília ou no sono — viu-se livre.

Seus sonhos, e mesmo aquela semana em Star Hill, eram passado, entretanto, e a rotina começava a encaixar-se novamente.

Mesmo o convite declinado de Shura era passado, forçou-se a lembrar.

Ainda precisaria enfrentá-lo, contudo. Não imaginava que uma rejeição por parte do cavaleiro de Capricórnio pudesse feri-lo tanto.

Se racionalizasse, no entanto, descobriria que não era uma rejeição. Aquele era Shura, afinal e, por mais conturbada que estivesse a relação entre eles, amor e companheirismo eram constantes.

— Aiolos, você está com parafusos a menos? Nunca te vi tão distraído.

— Eu... — Menou a cabeça, como se o gesto espantasse o incômodo. Sorriu para o irmão. — Ainda temos algum tempo antes dos treinos.

— O que está querendo aprontar, agora?

— Você é bastante sentimental. Será que, por acaso, recolheu meus pertences pessoais naquela noite?

— Sentimental? Se enxerga, Aiolos! Olha quem fala!

— Lembra-se daquele antigo álbum de fotografias? — Aiolos prosseguiu, alheio às palavras do irmão.

— Está comigo.

Quando Aiolia sorriu, Aiolos julgou ter visto algo de doce e quase infantil na expressão.

Em questão de minutos, já reviravam páginas repletas de memórias. Aiolos deleitava-se, ao apontar para as fotos de Aiolia, quando o último ainda era bebê, e rir das caretas de indignação que o irmão fazia.

Demoravam-se, em quieta contemplação, quando a figura de Orseis surgia em meio ao quebra-cabeças de recordações.

Não se tratava de um álbum volumoso, contudo. Revisitaram aquele passado que lhes parecia distante em menos de uma hora.

Para Aiolos, o dia transcorreu com relativa tranquilidade. Não era exatamente afeito à rotina, mas foi nela que encontrou algum conforto. Naquele momento, sentiu que quase poderia compreender Shura.

Capricórnio ainda era uma constante em sua mente, ao final do dia. Parecia estar evitando a presença de Aiolos, que não vira sequer a sombra de Shura durante todo o dia.

Quando Aiolos decidiu, por fim, confrontá-lo, Shura mantinha os olhos cerrados, a compostura calma e habitual. Aiolos, por sua vez, parecia turbilhonar o ambiente à sua volta.

— Entendo que não queira falar comigo, e talvez você sequer queira me ver, mas…

Se não falasse, se Shura não o escutasse, tinha certeza de que atingiria todas as colunas do décimo templo.

— Você me entendeu mal. Você precisava de espaço.

— Eu precisava de companhia! — Aiolos protestou.

— Você queria companhia. — Shura explanou-lhe calmamente. — E existe um abismo entre querer e necessitar.

Foi a vez de Sagitário cerrar os olhos. Sabia que Shura estava certo, mas não queria admitir — nem para Shura, nem para si.

— Estamos bem, então?

— Diga-me você.

Seus braços envolveram a cintura do espanhol. Aiolos teve o abraço correspondido, e sentiu o contato estreitar-se.

— Estamos bem, Shura.

Shura desvencilhou-se apenas momentaneamente, e apenas para cumprir o intento de acariciar os cabelos de Aiolos, rapidamente retornando ao calor daquele abraço.

— Você deveria dormir, Aiolos. Terá um longo dia amanhã.

— Ainda é cedo.

Sagitário tentou esconder o rosto entre o pescoço e o ombro de Shura, mas foi incapaz de conter o bocejo.

— Cedo, hein?

— Dormirei aqui, se você acha que é tão tarde assim.

O espanhol balbuciou algo ininteligível. Aiolos suspirou.

— Isso significa um "sim"?

Foi a vez de Shura de deixar a cabeça recostar-se contra o ombro de Aiolos. Ocorreu-lhe que sentiria falta daquela proximidade. Percebeu que havia sofrido muito mais do que imaginava com a ausência dele.

— Venha, Aiolos.

Encaminharam-se para os aposentos provativos da décima casa zodiacal, de mãos dadas e a passos lentos.

Refaziam o caminho e reencenavam atos como se nem um ano tivesse se passado desde a noite que tingira suas existências com tragédia.

Aiolos desejava esquecer-se, desejava que Shura fizesse o mesmo.

Mas Shura apegava-se àquelas lembranças, recolhia cada uma delas e revia-lhes minunciosamente. Uma verdade crua. Uma verdade necessária. Esta rotina tornava-lhe aparentemente ainda mais distante, quando Aiolos estava por perto.

Naquela noite, contudo, estava determinado a não permitir que tal processo invadisse seus momentos ao lado de Aiolos.

Quem alcançasse os arredores da casa de Capricórnio, durante aquelas horas, seria capaz de ouvir conversas despretensiosas e risadas. Aqueles que conheciam o Santuário por mais tempo imaginariam se tratar de um retorno ao passado.

Foi entre risos, abraços, e palavras que Aiolos entregou-se a um sono desprovido de sonhos. Adormecera abraçado às pernas de Shura, e tomando a maior parte do espaço da cama.

Shura, divido entre o conhecimento de ser inútil chamá-lo, e o medo de despertá-lo, limitou-se a acomodar melhor o outro. Cobriu a ambos com um lençol de algodão branco e, por fim, aninhou-se junto a Aiolos.

Os primeiros raios da manhã ainda insinuavam-se preguiçosamente. As asas da armadura nunca pareceram-lhe tão pesadas. Desde a brilhante ideia de Shion, Aiolos sentia-se desconfortável. Era inevitável pensar nos desdobramentos daquela mesma escolha, em um passado não tão distante. Sagitário ignorava, no entanto, que parte da tensão dissipava-se: Saga jamais cometeria o mesmo erro duas vezes, e tudo parecia muito mudado.

Havia uma leve agitação no Santuário. Tratava-se de um acontecimento atípico pois não se tratava de uma ameaça, e as pessoas que iam e vinham de todas as direções exibiam sorrisos animados.

Aiolos vira aquelas cenas apenas uma vez em sua vida. Não demorou até que concluísse o motivo para aquele clima de festa. Atena estava em seu santuário.

Confortava-lhe saber que a deusa estava amadurecida, em pleno domínio de seus poderes divinos. Ela dera-lhe forças para perdoar as traições de seus companheiros. Atena também estava presente, em algum lugar de seu templo. O coração de Aiolos encheu-se de alegria. Sua deusa, a criança que ele salvou, a esperança encarnada.

Mesmo em sua postura de reverência, analisou o ambiente enquanto esperava. Shion e Dohko estavam ali, ocultos pelas paredes de um dos aposentos privativos dos conselheiros, ele pôde sentir pelos cosmos alegres. Impacientou-se, quando a demora se estendeu. Levantou-se, ocasionalmente resvalando as mãos por uma ou outra coluna de mármore. Seus passos o guiaram até uma pesada porta.

Antes mesmo que adentrasse os aposentos dos conselheiros, escutou risadas. A voz de Dohko de Libra, jovem e divertida, chegou-lhe aos ouvidos.

— Não achei que fosse vê-lo com as roupas do Mu algum dia, Shion! — Foi o que Aiolos captou, ao aproximar-se para se apresentar ao ainda Patriarca.

Preferiu não cometer a indiscrição de bater à porta. Recuou e elevou levemente o cosmo, a velha estratégia de anunciar a presença que todos os cavaleiros de ouro utilizavam largamente ao transitar de um templo a outro.

Shion não tardou a aparecer, com as vestes de fato bastante semelhantes às que Mu de Áries costumava trajar. As cores diferiam, porém; branco e verde parecendo muito mais sóbrios do que a combinação de amarelo claro, vinho e verde do jovem Áries.

Com a alma acalentada pelo reencontro, Shion parecia ter reencontrado a altivez comedida que Aiolos atribuía a ele. Dohko, sonolento, esfregava os olhos, alheio à tensão dos olhares trocados pelos outros dois homens.

— Retiro o que disse. Você está mais parecido com o velho Hakurei. Se me permitem, voltarei para a minha casa.

— Não demoraremos. — Shion garantiu. Seu olhar acompanhava cada passo de Libra. Quando ele partiu, voltou a atenção para Aiolos. — Quando você entenderá que isso não é mais necessário? Somos iguais, agora. Levante-se.

Sagitário obedeceu-o. Eram iguais, mas Shion não perdera a mão firme no comando. Aiolos refletia sobre as conversas que teve com o Grande Mestre. Doeu-lhe perceber o sofrimento (e a causa) do sofrimento de seu comandante, e alegrou-se quando ele reencontrou Dohko.

Sorriu, porque aquela reunião entre os mais velhos parecia escrita pelo destino, ou agraciada pelos deuses.

Teve vontade de perguntar a Dohko onde ele esteve, e como Shion o encontrara, embora soubesse que Shion empregaria todo e qualquer recurso, e iria até os confins do inferno... Embora soubesse que a vida concedida a eles parecia ilusória.

Talvez, conjecturou, Dohko tivesse desaparecido por achar que aquela vida pudesse se desfazer em um piscar de olhos.

Percebeu que pensava nestas possibilidades apenas para fugir da tensão que acompanhava o momento. Retomou o foco quando escutou o chamado de Shion.

— Acompanhe-me, Aiolos.

O longo silêncio parecia prestes a quebrar-se, para depois fortalecer-se, causando em Aiolos um desconforto intraduzível. A aproximação da deusa deixou-o aliviado. Não esperava, porém, a recepção efusiva por parte da jovem encarnação de Atena.

Conter a própria emoção tomava-lhe grande parte do autocontrole.

— Levante-se. — Aiolos obedeceu a ordem de Atena e, ao erguer-se, ela o abraçou. — Eu agradeço por tudo o que fez por mim, Aiolos de Sagitário.

— Não foi muito. Além do mais, me alegra ter cumprido o meu dever.

Finalmente consciente sobre a própria e surpreendente efusividade, a deusa soltou o cavaleiro. Shion permanecia em seu solene silêncio.

— Não seja modesto, Aiolos. Você foi um verdadeiro herói.

— Como eu disse, senhorita, era a minha obrigação.

— Todos sabemos que foi mais do que isto, você foi capaz de enxergar a verdade e sacrificar-se por ela. Não quero impor mais um sacrifício, me entenda. E espero que tenhamos Shion por bastante tempo. Mas você deveria ouvi-lo.

Aquele parecia ser um dos piores testes jamais impostos por Shion. Contava poucas vezes em que se sentira realmente acuado, e aquela era uma delas. O que o Grande Mestre pensava, levando-lhe até a presença da própria Atena?

— É um pedido para que eu aceite a proposta dele? No passado, a mesma decisão foi um desastre. Com todo o respeito.

— Considere um pedido pessoal. E, Aiolos... Nós não vivemos o passado, nós vivemos o presente. E, de certa maneira, vivemos também o futuro. — A jovem encarnação da deusa conteve, por um momento. — Parece-me algo que você diria, AIolos de Sagitário. Recomendo que não se preocupe.

Embora sua natureza fosse tolerante e maleável, Aiolos sentia-se exausto. Shion aparentemente recorrera ao último golpe irrecusável. Estava sem saída.

— Se é o meu dever, aceitarei. Apenas temo não estar preparado. Além do mais, se me permite... Não me parece algo urgente.

— Aiolos... — Shion o censuraria, não fosse a intervenção da deusa.

— Não colocaríamos isto em suas mãos se não acreditássemos em suas capacidades. Além do mais, terá orientações e ótimos conselheiros.

A presença e as palavras de Atena acalmaram momentaneamente o coração do cavaleiro de Sagitário. A devoção de Aiolos a ela não conhecia limites, e todos sabiam disto.

Durante a manhã, ao dirigir-se à arena de treinamentos, Aiolos não mais trajava suas habituais roupas de treino ou a armadura dourada. Seu traje e seus ornamentos possuíam peso e gravidade imensos. Pertencera a Shion, e a muitos outros homens heroicos e honrados — e outros nem tanto — antes dele.

As casas de Peixes e de Aquário encontravam-se vazias.

A primeira pessoa que Aiolos viu, após ser paramentado daquela forma, foi Shura.

O sorriso discreto porém radiante do espanhol atingiu Aiolos com mais ímpeto do que um soco no estômago. Toda aquela cena parecia gritar-lhe que se afastariam definitivamente.

Shura fez-lhe uma mesura. Na percepção de Aiolos, ele empregara formalidade demais no gesto.

— Bom dia, Grande Mestre Aiolos.

Imediatamente teve vontade de erguer o cavaleiro de Capricórnio e arrastá-lo dali. Shura pareceu ler seus pensamentos, contudo.

— Sem tratamentos especiais. Sua posição envolve impessoalidade, Aiolos.

Aiolos sentiu o sangue ferver. Então até Shura estava testando seus limites? Massageou as têmporas. Aquilo ainda lhe renderia dores de cabeça. As roupas, que causavam estranheza, pareciam deixar tudo ainda pior.

— Não quero ser uma figura distante, Shura. Para ninguém. Sempre acreditei que todos devem caminhar lado a lado, sem distinções.

Shion, alguns passos atrás, observava e escutava o diálogo com um sorriso. A decisão que tomara fora acertada, afinal. Restava saber como Aiolos reagiria com o transcorrer dos dias.


N.A.: Se fizerem com jeitinho (tehe~), estou sempre aberta a críticas e sugestões.

Espero que a leitura tenha sido agradável.

Até a próxima!