As cinco e meia da manhã, Sasuke já estava acordado. Ele olhou para sua janela. As cortinas estavam fechadas, mas o sol já queria espiar por elas. O verão foi bastante quente. Faziam semanas que ele sentia a necessidade de dormir com cobertas sobre ele.
Se levantou e meditou um pouco, por mais ou menos meia hora. Desde que fizera seus vinte anos, se obrigava a meditar, por mais chato que achasse. Depois, foi ao banheiro e, por volta de vinte para as sete e já tinha completado sua rotina matinal. Café da manhã foram sobras de arroz que Sakura havia trazido há dois dias atrás. Tinham um gosto ruim quando ela trouxe, estava pior naquele momento. Mesmo assim, ele comeu. Estava com preguiça de cozinhar. Agora que Sakura e Menma estavam casados havia comida, por pior que fosse. Diferente de antes de Hinata e Menma seguirem caminhos separados.
Hinata.
Sasuke concluiu que sua falta de articulação do dia anterior fora resultado de uma re-atração momentânea por Hinata. Assim como na casa de fazenda, a perfeita iluminação, o momento perfeito e o humor dele naquele dia que o deixou atordoado com a visão dela. Tinha certeza que se a visse naquela manhã ela seria a mesma mulher mal-humorada, explosiva e... Bonita, de sempre. Sasuke quase suspirou. Ele não queria se sentir atraído por ela, não de novo. Menma diria que...
Sasuke fez uma pausa. Assim como para Hinata, qualquer menção a ex-esposa era um tabu para Menma. Por algum motivo, para Sakura era ainda pior. Sasuke não tinha certeza se Sakura estava tomando as dores de Menma e por isso se sentia incomodada por qualquer menção a Hinata ou ela simplesmente não gostava que falassem da ex do marido dela.
E, por falar em assuntos tabu, Sasuke olhou o calendário. Era o aniversário da morte de seu afilhado.
Ele a viu de longe. Ela estava no túmulo, seu rosto sério enquanto olhava para a lápide. Havia dois buquês em homenagem. Ele deduziu que Sakura deixara os lírios, como sempre, e Hinata as hortênsias brancas e azuis. Ele se aproximou dela, quieto.
- Bom dia, Uchiha.
Ele não ficou surpreso. Com aqueles olhos ela devia tê-lo visto quando deixou sua casa, ele imaginou.
- Bom dia.
Ele pousou o buquê de rosas brancas ao lado dela e deu um passo para trás. O cemitério era em uma colina. Ele circulou o olhar e viu o centro de Konoha acordando diante dele. O cemitério público - as fofocas diziam que a primeira grande briga havia sido sobre onde enterrá-lo: No cemitério particular dos Hyuuga ou aqui. Sasuke se perguntou se a amargura no coração de Menma começou naquele ponto.
Ela ainda estava de joelhos. Não estava chorando, mas havia marcas de lágrimas em seu rosto, que ela fez questão de limpar.
- Tudo o que tenho são dúvidas. - Ela murmurou para o túmulo de seu filho.
- Sei como se sente. - Sentiu um pico de chakra e olhou em direção das árvores, quando olhou para ela, soube que ela também tinha sentido, embora parecesse normal. Ela começou a se levantar, mas, surpreendentemente, parecia incapaz. Tropeçou. Sasuke a ajudou antes que ela caísse. Era estranho vê-la fraca daquela forma.
- Hinata...
Sasuke olhou para cima e viu que Menma finalmente havia chegado. Obviamente, ela já tinha visto ele. Sasuke tentava colocá-la na vertical, mas ela estava de joelhos e parecia que nunca ia se levantar. Menma correu para ajudá-la a ficar de pé. Com a força de Sasuke e Menma combinadas, eles a levantaram e até a levantaram há alguns centímetros do chão.
- Está mais leve, Hinata. - Menma soltou-a, deixando-a apoiada inteiramente em Sasuke. Hinata não dizia nada. Ela parecia incapaz de existir, por um momento. Se Sasuke a soltasse, a certeza era de que ela cairia.
- Ei. - Sasuke chamou-a, com preocupação bastante aparente. Ele não gostava do visual dela naquele momento. Ela estava muito pálida. Nunca a vira daquele jeito.
- Hinata? Hinata! Hinata! - Aparentemente, a voz de Menma parecia tirá-la desse estado de fraqueza impenetrável.
- Não precisa gritar, cara. - Sasuke disse, Menma nem deu ouvidos. Ele agarrou a mão de sua ex-esposa. Ela apertou sua mão.
- Hinata, você está bem?
Hinata olhou para ele, depois para baixo, depois para sua mão na dele e soltou a mão. Menma se endireitou, repreendeu sua preocupação e voltou a seu rosto neutro de sempre, assim como ela voltou para seu rosto sério. Sasuke percebeu que estavam decididos a não ter nada um com o outro. Ele sentiu um vazio que não podia explicar. Era como ver o casamento deles se desfazendo, tudo de novo, em três segundos.
Hinata, endurecida e novamente forte, se virou e foi embora, sem dizer uma palavra para qualquer um dos homens ali.
- As coisas saíram do controle. - Sasuke ouviu Menma murmurar.
O Uchiha se virou para o túmulo novamente.
- Ele teria uns quatro anos agora, não teria?
Menma assentiu com a cabeça e se deixou cair de joelhos. Sasuke via aquilo como um dos raros momentos de angústia do amigo. Eles deveriam ter uma reunião hoje com Chouji às onze horas. Sasuke teve a confiança de que poderia desmarcar a reunião. Ninguém tiraria Menma dali antes do meio dia. Ele olhou para o melhor amigo e levou a mão ao seu ombro, uma visão rara de uma prova de amizade entre os dois. Ele sempre estaria lá pra ele, fosse para conversar, encher a cara ou simplesmente não dizer nada. Sasuke era melhor em encher a cara, mas conseguia ajudar com os outros dois itens, também. Apertou o ombro de Menma e, em seguida, se virou para ir embora e deixá-lo sozinho, como ele sabia que o amigo gostaria de ficar.
Sasuke seguiu Hinata por todo o caminho até a velha casa de fazenda. No momento que ele buscou-a, seus olhos estavam secos e ela estava menos parecida com um fantasma. Ainda sim, ela tentava disfarçar a aura de tristeza que a orbitava, era perceptível. Ela o chamou de idiota quando ele fez uma piada. Por algum motivo, aquele "idiota" não soara como os outros.
Eles entraram na casa. Ambos tossiram simultaneamente graças a poeira que levantava.
- Acho que um dos malditos gatos do vizinho pode ter entrado aqui. - Disse Hinata, fazendo uma careta ao sentir o cheiro pútrido e agudo de urina de gato atacando suas narinas.
- É... Acho que sim. - Sasuke riu discretamente. A careta de Hinata era engraçada. Ao receber um olhar assassino da morena, mudou de assunto. - Por que os Hyuuga não cuidam melhor daqui?
- Nós iríamos. Mas, são tantas pessoas falando em comprar nossa casa de fazenda caindo aos pedaços que decidimos deixar assim. - Ela rolou os olhos.
Sasuke olhou para ela. Sarcasmo era outra marca daquela Hyuuga. E, ele, melhor que ninguém, se lembrava do sarcasmo dela. Hinata era bem fácil de ser analisada quando não estava chorando secretamente ou quase caindo de tristeza. Queria ter certeza de que ela estava melhor. E, para analisar alguém com cuidado, ele tinha um recurso. Inadvertidamente, ele ativou seu sharingan.
- Prefere fazer isso em outro momento, Hina...ta? - Ele perguntou, ao perceber o leve tremor em seus dedos. A camada de tristeza pairava nela como o calor do sol em torno de um telhado de metal. Ele conhecia essa sensação muito bem.
- Eu estou bem. Olhe, o piso não parece tão ruim quanto o resto. - Ela disse enquanto ia até a irori. Sasuke a seguiu, parando ao lado dela, ambos olhavam para a fogueira embutida que provavelmente tinha servido de caixinha de areia para o gato.
Eles exploraram o piso térreo e Sasuke observou que o piso de madeira estava arranhado, mas ainda era resistente. A casa em si não era grande, mas o design bem pensado a tornava espaçosa. Teria de trocar todas as portas exteriores e janelas, trocar as portas de papel de seda por vidro, para que a luz pudesse circular, mas parecia uma casa reformável. Nada que ele não desse conta.
Foram até o primeiro andar, onde estavam os quartos. Ambos notaram que ele deveria trabalhar em colocar um encanamento interno. Depois, foram para o segundo piso, onde havia uma pequena sala de armazenamento. A conversa foi sobre onde ele instalaria o banheiro interno ou se ele o manteria separado. Foi quando ouviram o rangido.
Ambos olharam para cima a tempo de ver um pedaço do teto caindo sobre eles. Eles empurraram um ao outro para fora do caminho, enquanto saltavam para trás. No entanto, a força de Sasuke era maior que a de Hinata. Isso resultou na mulher se chocando contra a janela, cedendo o peitoril e caindo chapada no chão. Sasuke correu para a janela. Ela estava deitada no chão.
- Hina!
- É Hinata pra você, Uchiha. - Ela respondeu, um pouco atordoada. Ela não estava preparada para a queda. Sua cabeça girava e suas costas estavam irradiando dor.
- Você consegue se mexer?
Ela assentiu com a cabeça e imediatamente se arrependeu. Sasuke soltou um suspiro de alívio ao ver que não havia aleijado a líder dos Hyuuga no dia do aniversário da morte do filho dela. Ele pulou até ela.
- Eu tenho uma pergunta.
- O quê? - Ela perguntou, tentando se sentar e se sentindo irritada por ele não tê-la ajudado.
- Vai me cobrar uma taxa extra pela claraboia? - Ele riu, sem graça.
Hinata não acreditava no que estava vendo. Uma queda de dois andares e Sasuke Uchiha estava fazendo piadinhas? Uma piada bastante idiota. Que cara mais sem noção.
- Imbecil. - Aquele xingamento sim, era forte, raivoso e explosivo. Chegava aos olhos dela.
Hinata estava brava com ele. Ele não soube o porquê, mas aquilo o fez se sentir bem.
