Sasuke não tinha visto ela na sala de missões. Nem na Academia. Nem na biblioteca. Nem no mercado ou nos campos de treinamento. Ele nem tinha percebido que ele estava procurando por ela até uma semana e meia depois daquela noite, quando ele estava sentado no escritório do Hokage com o próprio Menma, Sakura e Chouji. Foi então que surgiu a abrupta vontade da pergunta:
- Onde está Hinata? Em missão?
- O quê? - Menma perguntou, confuso. Chouji encarou o Uchiha, irritado pela reunião que se estenderia mais que o necessário. Sakura olhou para Sasuke astutamente.
- Eu não vejo ela por aí faz algum tempo.
- Desde quando você liga pra ela? - Menma perguntou, mais confuso do que estava acostumado.
Sasuke não sabia a resposta para a pergunta do Hokage. Chouji e Sakura encaravam os dois. Ao não pensar em resposta nenhuma, se virou e se retirou do escritório.
- Ei! Maldito! Estamos em uma reunião!
- Isso significa que a reunião acabou? - Disse Chouji, fechando seu bloco de notas e se levantando para sair.
- O quê? Não. Que merda... O que está acontecendo com esse imbecil? - Ele murmurou a última parte. Detestava ficar confuso. Olhou para sua esposa, suplicante.
- Ele não disse que ia comprar uma casa dela?
- Ah, é. O contrato não deve ter dado certo. Então ele pode ter despertado a raiva dela e fodido toda a compra.
- Espero que sim... - Ela resmungou.
- O quê?
- Não, nada. Devo remarcar a reunião?
Menma a encarou por um instante. Tinha ideia do que o comentário queria dizer. Mas, aquele era o momento de arquivar aquele assunto, as discussões deveriam ser mais tardias.
Hinata ficara verdadeiramente chateada e furiosa com a conversa de Sasuke naquela noite. Tão nervosa que ela realmente foi treinar. Um treino pesado, de quase uma noite inteira, sem o uso do byakugan. Estava dolorida, exausta e ferida, fisicamente. No âmbito emocional, se sentia melhor. Bem melhor.
Faziam seis semanas desde seu último encontro com ele. Ela viu-o algumas vezes, não que ele pudesse dizer o mesmo. Usando seu doujutsu, ela deu algumas espiadas em Uchiha Sasuke, se punindo mentalmente após cada uma delas.
Com o tempo que passou, a Hyuuga teve tempo para pensar e analisar a situação: Ele estava bêbado. Claro como água. Ela também diria besteiras se estivesse. Claro que não justificava ele ter sido um completo imbecil, mas, ainda sim, era só um homem bêbado. O tapa foi por justa causa, não pediria perdão. Mas, se alguém tinha que bancar a pessoa madura e oferecer uma oferta de paz, que fosse ela. Armada com comida do restaurante acima da livraria, ela seguiu seu caminho para a casa dele.
Ela trouxe o suficiente, porque ele havia contratado uma equipe genin para ajudá-lo com a manutenção de seu telhado. O maldito Uchiha estava sentado em cima de uma pedra do quintal, provavelmente descansando, enquanto o jounin que acompanhava a equipe dormia a sombra de uma árvore.
Sasuke ficou bastante surpreso em vê-la e tentou não demonstrar. Estava feliz em vê-la, também. Mas, não diria isso a ela. A verdade é que nas últimas semanas se pagara pensando se nunca mais a veria. Afinal, ele estava sem jeito para ir até ela. E ela era... Hinata.
- Hina...
- É Hinata, pra você. - Ela disse, sem realmente olhar para ele. - Trouxe almoço.
Ela caminhou até onde ele estava, tirou um lençol da bolsa e estendeu no chão, antes de se sentar e colocar ali seis tigelas, acompanhadas de hashis.
- Andou me espionando?
- Claro que não, idiota. Você entrou no meu campo de visão.
- Ah.
Ela não conhecia o jounin, que parecia uma versão mais alta e magra de Asuma. Ele e os gennin almoçaram com eles, afirmando hiperbolicamente que aquela era a melhor coisa que eles já comeram. Sasuke riu quando elogiaram Hinata pela refeição, recebendo desaprovação da parte dela. Ela indicou o restaurante de uma forma tão polida que confundiu o Uchiha. Ainda sim, ele não disse nada, confundindo Hinata, em retribuição.
O jounin voltou a dormir e as crianças voltaram ao trabalho no telhado. Sasuke permaneceu descansando no lençol com Hinata sentada ao seu lado. Ela, sutilmente, tentou se levantar para ir embora. Ele notou. Ambos acabaram se encarando. Estavam perto. Era estranho, como a maioria das coisas pareciam ser pra eles, ultimamente.
Hinata não soube porque tentou iniciar uma conversa.
- Eles já aprenderam a canalizar chakra para os pés? - Ela perguntou, ligeiramente preocupada ao ver um dos moleques cambaleando em cima do telhado.
- Não, mas não deve demorar. Dá pra perceber.
Sasuke tentou não sorrir, sem sucesso.
Pelas seis da tarde, o jounin e seus alunos empacotaram tudo para ir embora, sentindo dores no corpo. Claro, que um deles estava dolorido porque havia dormido demais.
Sasuke e Hinata entraram para inspecionar o trabalho feito visto de dentro. No terceiro andar, Hinata percebeu que ele já havia mudado as janelas as de madeira pelas de metal. Hinata se aproximou de uma delas, daquela altura, podia ver o telhado de sua própria casa.
- Viu? Dá pra justificar o trabalho infantil.
Hinata ergueu uma sobrancelha para ele, quem ele estava querendo enganar bancando o canalha de novo?
- As mãos pequenas dão um acabamento melhor.
- Você não é tão desprezível assim. - Ela murmurou, pensando que não seria ouvida.
- Não, não sou. Só estou sendo o idiota que esperam que eu seja.
- Está ficando forçado.
- Vamos verificar isso lá de cima. - Ele saiu pela janela, ela o seguiu, ficando surpresa ao ver uma mão para ajudá-la. Ela olhou para Sasuke. Não era novidade ele sustentar um sorrisinho diabólico.
- Acha que eu vou cair de novo?
- Uma vez é acidente, duas é hábito, três é ação do inimigo. Só quero evitar um ataque Hyuuga.
Ela rolou os olhos e saiu sem aceitar a ajuda dele.
- Sempre soube que tinha a melhor das intenções.
- Sempre.
Ele sorriu pra ela. Ela deu de ombros.
A vista era espetacular. O céu se tornava rosa escarlate, por cima de um fundo azul bebê com raios dourados por todo o lugar. Via-se a silhueta corada das montanhas e podia se ouvir uma gentil brisa balançando os bambus, próximo ao caminho de pedra que levava ao complexo Hyuuga.
Sasuke se perguntava se ele podia mesmo fazer aquilo. Morar no campo. Seu apartamento afundado estava no coração de Konoha, no alvoroço da cidade, com barulho em todo lugar; lindo e distrativo barulho. Mas, ao estar no telhado com Hinata, ele sentia uma presença imóvel que ele não sentia há tempos. No fundo, ele se sentia estranhamente otimista.
Hinata, por mais incrível que parecesse, apreciava a vista. E se perguntava porque ela mesma não tinha ficado com esta casa. Era o lugar perfeito para a... família que ela não tinha mais. E para refrescar a cabeça antes que tivesse um colapso nervoso.
Os olhos treinados do Uchiha notaram o olhar perdido dela, o jeito como mordia o lábio inferior e as sobrancelhas subitamente franzidas. Ele não fazia ideia do que se passava na cabeça dela, mas parecia que ela estava prestes a entrar em pensamentos negros e depressivos. Ele se lembrou da expressão dolorosa de seu último encontro, e achou que deveria tentar se desculpar... ou se explicar.
- Eu bebi demais da última vez. - Ele disse, singularmente calmo. A brisa que soprava fez o cabelo dela dançar.
- Jura? Se não dissesse eu não perceberia. - A ironia dela doeu. - Mesmo assim, eu devia ter sido mais paciente. Foi mal.
- Você está se desculpando? - Ele pareceu bastante surpreso. - Não devia.
- Assim como você? - A brisa estava gelada, mas ela não se incomodou. Jogou a cabeça para trás, gostava daquela sensação. Um súbito sopro forte mandou os cabelos dela contra o rosto dele. Ele gostava do cheiro. Ele suspirou, fazendo-a pensar que ele iria pedir perdão. Ele não pediu.
- Eu estava em missão. Quando voltei vocês já tinham enterrado... - Ele deixou sua sentença suspensa no ar. Ele achava incomum ele estar se importando tanto. Que ele se sentia culpado por só estar ligando pra isso agora. Ele se lembrava como se sentiu quando pensou que ninguém ligava para a morte de Itachi. - Você e Menma já tinham se divorciado. Nem naquela época e nem agora alguém me explica o que aconteceu para as coisas serem assim. A gente parou de se falar quando vocês começaram a namorar, mas você era parte do grupo. Você, Kakashi, Menma, Sakura e eu. Nós éramos parte de um grupo. A dinâmica mudou. Eu não tinha uma família há muito tempo e meu irmão me disse para não jogar fora a próxima família que eu conseguisse. Família é importante pra mim, ao contrário do que todos pensam. Você era parte da família. O grupo mudou sem eu saber o porquê e eu não sabia o que fazer pra consertar.
Hinata estava chocada por saber que aquele idiota se sentia assim e ainda mais chocada porque ele tinha admitido aquilo em alta voz para ela. Olhou para ele. Ele estava bem do lado dela. E seu cheiro era de sabonete. Sabonete barato. Seu cabelo ainda era soprado contra ele. Ela puxou-o para trás do outro lado de seu pescoço, para evitar que o atrito continuasse. Ele se sentiu abalado pela ação.
Ela não sabia o que dizer. Queria gritar, como sempre. Perguntar por que ele só se importava agora e onde ele estava quando ela precisava. Mas, não queria agir assim, pela primeira vez.
Ela se preparou para sair dali, mas ele segurou sua mão. Ela puxou a mão de volta para si. Ele não devia ter tocado nela. Não sem convite ou autorização legal. Hinata era complicada, principalmente a respeito dele.
- Não dá pra ser consertado. - Ela disse, sem o olhar.
- Provavelmente. - Ele disse pra si mesmo.
Ela voltou para dentro e ele a seguiu. Ela olhou para o irori e se sentiu culpada. Ele estava se esforçando. Talvez ela também devesse tentar. Era a primeira vez nesses anos que alguém era gentil com ela.
- Logo vai arranjar alguém idiota o bastante pra te aturar aqui, Sasuke. Casas são para famílias. - Era o melhor que ela podia fazer, tentando ser amiga dele.
Ele sorriu, aquela era a Hinata que conhecia. Ela deu um pequeno sorriso de volta.
- Vou te acompanhar até a sua casa.
Sasuke estava estranhamente silencioso enquanto caminhavam. Talvez fosse para deixá-la mais confortável.
- Você deveria aparecer na casa nova qualquer dia desses e me ajudar a aparar o bambu que está perto da minha porta da frente.
Hinata olhou pra ele. Outra tentativa ridícula de estabelecer uma amizade? O lado cínico dela se perguntava se ele não deixaria de conversar com ela de novo. Ela tentava acreditar que não. Mágoas mudavam as pessoas. Mas, ela se lembrou, de que de todas as pessoas, Sasuke era um dos que mais a enchia. Ela deu um sorriso irônico para ele.
- Desistiu do trabalho infantil?
- Suas mãos são provavelmente tão grandes quanto as deles. A diferença é que você é habilidosa.
- E você não teria que me pagar se fosse um favor.
- Exatamente.
- Você parece bem desprezível, quando quer.
Ele riu. Hinata acabou percebendo que ela tinha uma piada interna com Uchiha Sasuke.
- Quer entrar pra tomar sakê ou outra coisa?
Ele ia recusar. Mas, não estava com vontade de ficar sozinho naquele momento.
- Prometi a mim mesmo nunca mais beber quando fosse conversar com você. - Ele riu, sem graça. - Mas, eu aceitaria um pouco de chá, se tiver.
- Chá? - Ela se sentia grata por ele saber corrigir os próprios erros, mas Sasuke bebendo chá?
- É. Meu irmão era viciado em chá.
- Bem, nós temos chá. - Sasuke estava surpreso, cada vez menos ofensas em uma conversa. Estavam evoluindo. Eles entraram na casa e foram para a sala de jantar, que era dividida por painéis de papel de seda. Aquela sala seria grande demais para os dois se não fosse dividida. Haviam alcovas com tapeçarias caras e vasos de cornizo. Era um belo lugar. Uma casa simples, mas muito elegante. O lembrava da casa onde crescera.
- Qual era o tipo de chá favorito de seu irmão? - Ela perguntou enquanto indicava com a cabeça para ele se sentar no tatame e abria as portas que davam para o quintal. Havia um belo jardim e uma grande lagoa. Grande o bastante para ter ilhotas e pontes. Ele se sentia dentro de uma pintura de aquarela.
- Acho que o favorito era chá verde.
- E o seu favorito?
- Eu não sei. Nunca gostei de muita coisa sem álcool.
- Claro que não. - Ela rolou os olhos. Ele não estava ali pelo chá. Aquela criatura era tão solitária quanto ela mesma. Bem, uma mão lava a outra.
- Eu também gosto do verde. Também gosto de crisântemo, camomila e hortelã. - Ele ficou surpreso, não esperava que ela gostasse tanto de chá.
- Bem, posso experimentar esses. - Ela deu um meio sorriso e foi preparar o chá. - Vê se não queima a água!
- Vai se ferrar, Uchiha.
Ela não tinha certeza, mas estava fazendo de Sasuke um amigo.
