Quando Sakura se revirou na cama de manhã, ela se esticou para ver que nos números verdes do rádio-relógio o horário marcado era um pouco depois das duas e meia da manhã. Ela olhou para a direita e viu que Menma não estava na cama com ela. Deu uma olhada para a porta do banheiro, sem que os brilhantes e verdes números saíssem de seu campo de visão, notando que seu marido também não estava no banheiro. Ela ouviu um barulho vindo da cozinha. Ela se levantou relutante, deu uma olhada nos gêmeos, que dormiam pacificamente, e ousou procurar Menma pela casa. Ela o encontrou sentado na varanda, olhando para o jardim quase morto. Ele bebericava uma cerveja.

- Você está bem?

- Huh? Sim. Eu só... - Ele tomou um gole da cerveja ao invés de dar uma resposta clara.

Ela se sentou ao lado dele.

- Menma, já passam das duas e meia da madrugada. Você chegou do trabalho as dez e meia e os gêmeos nos deixaram acordados até a uma. Nosso dia normalmente começa as quatro ou cinco da manhã. O que está te mantendo acordado? E não me dia que é a energia de Kurama ou algo assim. Vamos esclarecer isso pra que possamos voltar a dormir, okay?

Ele lhe deu um meio sorriso, como ela era prática.

- A missão pra qual eu mandei a Hinata... Eu não sei. Acho que fiz merda.

- O que quer dizer? Ela está bem?

- Acho que sim. Não recebi nenhuma mensagem de perigo ainda, mas não devia ter mandado ela pra essa missão. Não sozinha.

- Bem, faz um tempo que ela não sai em missões. Mas, ela é uma ninja. E é osso duro de roer. Aposto que ela ficou feliz em sair em missão.

- Eu sei disso também. É só... - Menma não sabia como dizer a Sakura o que passava em sua cabeça.

- Que tipo de missão é essa?

- Faz parte da maior contra-insurgência no País dos Pinheiros. Eu a mandei para reconhecer uma parte específica das florestas e rastrear alguém em particular. Ouvi uns rumores que eu tinha de confirmar.

- Menma, por que a mandou numa missão de rank-s sozinha? Você não disse que a situação em Mori No Kuni estava ficando extremamente perigosa?

Menma pareceu se enrugar como papel na água. Assim que o atrito com Sasuke esfriou, ele se arrependeu amargamente de enviar Hinata naquela missão. Ele não tinha como dizer para Sakura que ele estava com tanto ciúme que teve que mandá-la em uma missão. Ele não podia contar isso para ela.

Ele, basicamente, tinha de passar as próximas três semanas oscilando entre se arrepender e ficar irritado com Sasuke. De vez em quando, sentia ambas as emoções ao mesmo tempo. Ele não era complicado, mas mal conseguia traduzir ambas as emoções em suas expressões, então ele acabava com meia expressão e todos perguntando se ele estava bem, especialmente nas sessões de brigas com Sasuke, que deixavam o Uchiha ainda mais antipático por cada semana que Hinata ainda não havia retornado. Mas, ele sabia que o que mais o incomodava era que ele não podia dizer diretamente para Sasuke para parar de se preocupar com a Hyuuga, para para com a agitação e os rosnados porque ela estava em uma missão perigosa, porque ela não era da conta dele. Ele não podia dizer isso sem admitir seus verdadeiros sentimentos e ferir algumas pessoas no processo. Então, ele não dizia nada, deixando essas palavras queimando no seu peito, como indigestão.

- Eu preparei uma Força de Reação Rápida, e eles estão prontos para uma operação de resgate ao primeiro sinal. - Ele protestou, tentando acreditar que aquela resposta era boa o bastante.

- Ugh! Menma! - Ela cerrou os punhos em para um soco, e Menma esperou pelo impacto, que não veio. Quando olhou para ela, suas mãos estavam fechadas em cima de suas pernas, ela olhava para frente com a respiração pesada. Ele podia ver as engrenagens trabalhando na cabeça dela, e respondeu a pergunta antes mesmo dela perguntar.

- Eu a mandei nessa missão porque achei que ela daria conta do recado. - Ele mentiu. Seus pulmões pareciam mais pesados do que seu estômago podia suportar quando Sakura olhou para ele. Seu olhar dizia: "Sério? Você quer que eu acredite nisso?"

- Então, você não tem nada a se preocupar. - Ela disse, apenas.

Ele olhou para ela. Ela não ia lhe dar um sermão? Ela também estava vendo o comportamento passivo-agressivo de Sasuke; as palavras não ditas que estavam entre ambos os homens. Ela sorriu e se levantou, puxando-o para se levantar também.

- Deveria vir para a cama.

Ele a seguiu, relutante. Sua mente estava um pouco mais tranquila que há cinco minutos. Além de qualquer coisa, ele se sentia vazio. O orgulho mataria seu casamento. Já havia matado o primeiro. Ele desejava não repetir o erro, mas já parecia que eles estavam presos em um relacionamento covarde; ambos estavam com medo de pisar no frágil coração um do outro.


- S-Sasuke-kun!

Ino gritou assustada quando ele abriu a porta do apartamento com a katana desembainhada em mãos. Para dar crédito a ela, a tímida Yamanaka não tinha se rendido com os braços no ar, mas já estava armada com uma kunai, aguardando o ataque para batalhar com ele, se fosse necessário.

Então ele baixou a guarda e deu um passo para o lado, deixando-a entrar. Se sentia culpado por assustar Ino, e surpreso que ela tivesse se armado para batalhar contra ele.

- V-você quase me matou de susto! A-aconteceu alguma coisa? - Ela disse, enquanto guardava a kunai e tirava os sapatos para entrar.

- Desculpa, a Karin estava aqui. - Ele sorriu e não explicou mais nada, e nem precisava. Ela não gostava da ruiva, que tinha problemas de personalidade e não parecia confiável. Sem falar de obcecada e fingindo não o ser. Ino não gostava de pessoas que mentiam para si mesmas.

- E-eu entendo. - Sasuke não sabia ler Ino muito bem, mas, de alguma forma, parecia que existia alguém de quem a loira não gostava, e era Karin. - O que ela fez?

Sasuke tinha preguiça de contar como sua relação com Karin era de um homem e um mosquito. Ele colocou sua espada na bainha e, logo depois, em cima da mesinha de centro. Ele tinha suas dúvidas de porque Ino estava ali. Sabia que não fazia sentido ela estar ali para tentar "atacá-lo", não era do gênero dela. Mas, Ino talvez tivesse dúvidas sobre a relação dele com Hinata.

- O que veio fazer aqui?

- P-podemos tomar alguma coisa?

Ele estranhou. Aquilo não era bem a cara dela, mas a companhia de Ino era agradável, então, foi procurar algo para oferecer a ela. Ele raramente recebia visitas durante o dia, então tinha de pensar em algo sem álcool, porque se tratava de Ino. Foi aí que se lembrou das tardes de chá com Hinata.

Ele tinha comprado chaleiras para o caso dela decidisse passar na casa dele, aí poderiam beber chá, como de costume. Eles sempre iam a casa dela por um bom motivo, ela sabia fazer chá. Mas, em todo caso, se um dia ela precisasse estar longe de casa e fosse tomar chá com ele, haveria material para isso, então se preparou comprando duas chaleiras de porcelana com um design simples de pinheiros e nuvens douradas. E, mesmo que nas tardes com Hinata ele descobrisse que seu chás favoritos eram branco e vermelho, ele comprou folhas de chá verde, que ele sabia que ela gostava.

Agora sabia o que servir para Ino. Ela só havia vindo em seu apartamento uma ou duas vezes, para entregar mensagens ou convidá-lo para sair com o pessoal, então nunca teve tempo de oferecer nada a ela. Ele a viu se sentando, e sabia que aquilo era um aviso para entretê-la. Ele colocou a água para ferver e procurou as folhas de chá, colocando ambas, a água quente e as folhas, na chaleira. Só aí ele percebeu que ele não tinha perguntado a ela se ela queria chá.

Ino olhou para as chaleiras e entreabriu a boca, surpresa. Ela deu um pequeno sorriso, mas logo se ajeitou em seu assento e mudou sua expressão para uma mais neutra.

Sasuke se virou para ela e, de repente, ela esqueceu o que ia dizer. Ela se esquecia o quão bonito ele era, de vez em quando.

- O quê?

Ele também conseguia ser péssimo em situações sociais, se não fossem do gênero romântico. Ela corou com os pensamentos.

- E-eu não sabia que gostava de chá, Sasuke-kun. - Ele deu um meio sorriso enquanto servia um pouco de chá a ela. Depois se sentou e cruzou os braços, enquanto esperava descobrir o porque dela estar ali. - H-hinata-chan é uma pessoa reservada, sabia? - Sasuke de alguma forma sabia que ela ia falar sobre Hinata. Assim com Suigetsu e Karin. Suigetsu veio parabenizá-lo por ter amolecido o coração da ex-mulher mal-humorada e voluptuosa do Hokage. E, Karin veio para dizer que "de todas as suas conquistas baratas, aquela era a mais perigosa" e ela teria de tomar providências drásticas se aquilo com Hinata continuasse. Ele quase tomou providências drásticas sobre Karin se meter em sua vida. E isso explicava a katana. - E-estão todos comentando dos rumores... D-de sua mudança de comportamento, desde que Hinata-chan está em missão. - Sasuke a deu um olhar divertido, e ela se sentia com medo e vergonha de continuar, mas decidiu ser corajosa. - S-sasuke-kun, quais são suas i-intenções com Hinata-chan?

- Intenções? - Ele sorriu, Ino estava quase tremendo, mas tentava ao máximo estar firme.

- S-sim. - Ela disse, fugindo do sorriso dele e olhando para a xícara de chá. - H-hinata-chan é reservada e tem muitos problemas, embora tente não demonstrar. S-se tem alguma intenção, deveria deixá-la clara, por causa de toda essa faladeira negativa...

- Faladeira negativa?

- B-bem... Como eu digo isso? E-ela... Ela perdeu quase tudo quando o bebê faleceu. Ela já era líder do clã naquela época. - Os olhos de Sasuke se ampliaram. Ino sabia mais do que ele, e ele queria gritar para que ela lhe contasse tudo. Percebendo que tinha a atenção dele, Ino tomou mais coragem. - Q-quando pediu o divórcio para o Hokage, ela quase perdeu o posto. Pareceu fraca. P-principalmente quando ela cedeu ao pedido dele de enterrar a criança no cemitério público. Ela resistiu bastante e continuou como líder, mas muitos no clã Hyuuga continuam insatisfeitos com isso, aparentemente, ela está inclusa nos insatisfeitos. Ela tinha tudo, e de um momento para outro perdeu o filho e o marido, ficando apenas com o que menos gostaria de ter. As pessoas começaram a falar. A falar muito. E, v-você conhece a Hinata-chan. Ela detesta fofocas. E tende a ficar com raiva. E, como líder, ela não podia explodir, como sempre, porque precisava manter a pose. E, ainda teve que ver Menma afastando-a de missões. N-não que ele estivesse errado. Ela... Ela não estava estável. - Ino respirou fundo antes de continuar. - O importante é que agora ela estava bem. Pessoas haviam esquecido de tudo. M-mas, agora, todos só sabem falar das suas desavessas com Menma, desde que ela foi nessa missão. - Sasuke se perguntou como as pessoas ficaram sabendo disso. - A-as pessoas da sua unidade andam falando de seu comportamento desde que ela saiu da vila. D-dizem que você está fazendo uma... Cena.

- Menma também está preocupado com ela. Como ninguém comenta sobre o comportamento dele?

- E-ele tem direito em se preocupar. Eles estão ligados para sempre. P-podem ter se divorciado, mas é apropriado que ele fique alarmado por causa dela.

Sasuke achava que aquele imbecil não estava só alarmado sobre Hinata, mas ele não disse nada sobre isso.

- Olha, Ino... Hinata e eu somos só... Amigos... Eu acho.

- A-amigos? - Ino nunca vira Sasuke se referindo a nenhuma mulher como amiga dele. Nem mesmo Sakura.

Sasuke não sabia decifrar a expressão de Ino. Hinata via a relação deles de outra forma? Ela dissera alguma coisa para Ino? Agora que parava para pensar, ele nunca tinha definido seu relacionamento com Hinata em voz alta, aquilo soava estranho. Ele nem sabia se Hinata via as coisas daquele jeito. Ela sempre era vista estranhamente avulsa a ele. Sua mente passava a divagar e reconsiderar.

- V-você parece mais... I-interessado... Bem, se tem alguma intenção, deveria esclarecer. - Sasuke rolou os olhos. As coisas estavam saindo do controle. Ele estava ao ponto de mandar Ino embora, quando, enquanto ela tomava um gole de chá, a xícara escapou direto de suas mãos se espatifando no chão. A expressão que ela fez foi como se tivesse acabado de descobrir que sua mãe havia falecido. A mandíbula caída e os olhos muito abertos. Ela deveria estar preocupada com o preço da xícara. - I-isso é... Um sinal muito ruim! - Ela cruzou os dedos. - A-algo ruim vai acontecer... E-estávamos falando de Hinata-chan. Espero que ela esteja bem. M-mesmo que não seja com ela, algo ruim vai acontecer!

- Está certa, Ino, algo ruim vai acontecer. Mas, porque coisas ruins sempre acontecem na vida. Alegria seguida de tristeza e vice-versa. A xícara não significa nada, não está anunciando nada. Coisas ruins acontecem. Coisas boas acontecem. É assim que a vida é. E, você estava quase tremendo ao conversar comigo.

Ino conseguiu achar Sasuke muito ingênuo. Dizer que não acreditava na superstição só atraía maus fluídos diretamente para os braços de Hinata.


Durante um tumultuoso pesadelo, duas manhãs depois, Sasuke foi acordado pelo bater na porta.

- Sasuke, abra!

Menma parecia péssimo e não estava vestido com a roupa de Hokage usual, mas com sua roupa de viagem. A roupa preta de missão com o símbolo dos Uzumaki nas costas. Sasuke ficou em alerta para as más notícias.

- Teme, Hinata mandou alerta de problemas. A FRR já está indo na missão de resgate e eu também estou indo. - Menma deu uma pausa, engolindo em seco antes de continuar. - Você vem? - Ele evitou os olhos de Sasuke.

Sasuke abriu a boca para responder, mas se lembrou da visita recente de Ino. Ele e Hinata ao menos eram amigos? Não se dê ao trabalho de se preocupar comigo. Foram as últimas palavras dela. Ela era tão imparcial a respeito dele...

- Não.

Menma olhou para ele, surpreso, se perguntando o porque da mudança súbita. De todos os momentos para ele parar de ligar...

- Ótimo. Você é o Hokage enquanto eu estiver fora. - E ele se sentiu como se Menma tivesse tirado um chapéu de burro de algum lugar e colocado na cabeça dele antes de ir embora.

Sasuke olhou enquanto Menma desaparecia na escuridão. Ele estava certo. Ela não era da conta dele.