Ia cair neve em Konoha esse ano?

A respiração de Sasuke saiu em mechas opalinas. Fazia anos que não nevava em Konoha, mas o fim de novembro se aproximava, as temperaturas caíam e as pessoas colocavam cada vez mais roupas. Ele se perguntava se esse seria o ano. O ar estava diferentemente gelado.

Era quase o crepúsculo. Ele já tinha terminado o trabalho do dia, temendo que amanhã ele fosse requisitado para serviços administrativos, sendo responsável pela Unidade de Transação de Medicamentos Organizados e conselheiro do Hokage. E ainda, ele tinha combinado de treinar com Menma de manhã. Ele pelo menos começaria o dia chutando o traseiro de Menma. Um sorriso maligno surgiu em seu rosto.

- Você teria dado um ótimo gênio do mal. - Chouji disse, se esgueirando para o lado dele e acendendo um cigarro.

- Sou um gênio do romance, lembra?

- Sei, mas agora você é só um solitário sem afeto. - Chouji resmungou.

- O quê?

- Esqueça. Ouça, talvez precisemos de seus olhos em Hinata.

Sasuke quase grunhiu. Uma hora falam pra ficar longe dela, outra querem ele perto.

- Por que?

- Você leu o relatório dela?

- Não.

- Bem, precisamos que você avalie se ela está bem para voltar ao trabalho ativo.

- Eu não sou um maldito psicólogo.

- Leia o relatório dela. - Chouji empurrou um monte de arquivos no peito de Sasuke, tentando evitar terminar a frase chamando-o de imbecil. - Depois que terminar isso, leia minha proposta. Vai descobrir que ela será útil na sua unidade. Me deixe saber o que acha e vejamos se Menma aprova.

- Mas, ela já é líder do clã.

- Ela deu o posto pra irmã. Leia a porra do relatório.

Chouji saiu, deixando Sasuke parado no meio do pátio como uma gárgula, seu rosto moldado com uma careta. Estava começando a ter dor de cabeça. Ele começou a andar sem rumo, colocando seu casaco preto de gola alta, para se proteger do frio. Ele poderia beber uma xícara de um chá de crisântemo fervente. Mas, estava tão cansado do comportamento de Hinata.

Quanto mais ele pensava nisso, mais ele via que Ino estava certa. Ela não era da conta dele e seu comportamento a respeito dela era embaraçoso, já que ele só havia voltado a ter contato com ela há algumas semanas. Quando pensava nisso, percebia o quão profundamente a amizade dela o afetava, e a lembrança disso o afetava ainda mais.

Era uma amizade diferente, do tipo que ele nunca tivera antes, ele ponderou e teve a suspeita de que era porque ELE havia procurado por aquilo. Foi ele quem retomou uma conversação com ela, ele foi quem a convidou para jantar quando a viu chorando no rio, ele foi quem insistiu para ela ajudá-lo com a casa, e, embora ela fosse quem ofereceu o chá, foi ele quem aceitou. Ele se abriu mais para ela do que qualquer um em sua vida desde os tempos que passou ao lado de sua mãe e seu irmão.

Mas, algo tremeu dentro dele enquanto ele refletia sobre isso. Ela não ligava e nem apreciava a amizade deles do jeito que ele o fazia. Ela nunca ligou. Quando estavam na academia, quando eram adolescentes, quando estava casada com Menma, ele era apenas um personagem secundário. Ela podia falar com ele, mas nunca o procurou pra isso. E era tão fraca perto do que mostrava para o mundo! Como ela podia se abater pela morte do filho quando estava claro que Menma havia seguido em frente? Patético! Como ninjas, foram treinados para camuflar suas emoções, não para ser engolidos por elas. E ela não percebia que ele estava tentando e se permitindo ser verdadeiro com ela, tanto que, quanto mais ele fazia isso, mais ela se afundava dentro de si mesma. Ela era a única com quem ele ousou trazer a memória de Itachi. E ela nunca disse o que houve entre ela e Menma. Eles estavam perdendo uma parte fundamental do entender um do outro e por causa disso ele percebeu que ele nunca teria o direito de chamá-la de amiga ou qualquer coisa além disso. Ele mal a conheça. Esqueça aquela bobagem de "nos conhecermos será uma consequência", quando ela apenas se interessava por ele "de vez em quando".

A razão invadiu sua mente por um segundo, lembrando-o que ele já fizera a mesma coisa quando algumas pessoas procuravam a sua amizade, mas logo colocou o pensamento de lado. Ele preferia pensar nela como egoísta, fraca e falsa. As últimas palavras dela ressoaram em sua mente. "Não se dê ao trabalho de se preocupar comigo, Uchiha". Bem, ele não se daria ao trabalho, então!

Ele começou o mesmo processo que usara após a morte de seus pais e Itachi(Curar-se da infecção), pintar tudo de preto e disfarçar a dor com álcool, treino e mulheres. Ele jogou no lixo a última xícara que restou. Jogou todo o chá que tinha comprado para ela. Pensou em vender a casa de fazenda, mas tinha passado tanto tempo trabalhando nela que, simplesmente, decidiu levantar um muro alto em volta dela. Alto o bastante para que ele não visse o telhado da casa dela, mesmo que subisse no próprio telhado. E, finalmente, não a visitou quando Menma a trouxe de volta. Não importava que estavam dizendo que Menma havia encontrado-a em um estado de quase morte. Ele jogara um balde de tinta preta em sua mente. Ela havia voltado há um mês, mas cérebro dele estava negro como o fundo de um poço e seu coração duro como o aço de sua katana.

Ele foi treinar.


- Tome um copo por dia. - Hanabi disse para Hinata enquanto entregava-a um copo cheio de um líquido verde e grosso.

Hoje era o dia em que as bandagens seriam retiradas de seus olhos. Hinata se sentou avidamente, mesmo que um pouco relutante em saber que deveria tomar a tola mistura que seu pai insistiu ser boa para seus olhos. Hinata grunhiu.

Ela estava com as bandagens há quase um mês, graças a tensão ocular que sofreu naquela desastrosa missão. Quando Chouji veio vê-la, ele dissera que não fora tão ruim quanto ela pensava que havia sido.

A luz começou a entrar levemente pelas bandagens enquanto elas eram removidas. Hinata piscou lentamente e viu os olhos luminosos de sua irmã olhando para si.

- Como se sente?

- Ótima.

Hanabi olhou a irmã. Ignorando que a irmã tinha sofrido desidratação, disinteria e exaustão de chakra, ela não podia evitar de perceber que, recentemente, Hinata havia encontrado um novo jeito de levantar a cabeça. Não fisicamente, mas espiritualmente e emocionalmente. Afinal, ela havia deixado o posto que estava acabando com ela. Há dois anos, desde a morte de seu sobrinho, Hanabi viu a irmã acabar consigo mesma e aquilo doía, porque nada parecia ter força e poder de fazer sua irmã voltar a brilhar. As vezes via pequenos momentos de luz. Ela até se lembrava de ter visto sua irmã sorrindo com Uchiha Sasuke numa tarde chuvosa. Uchiha Sasuke, de todas as pessoas! Hinata passou a evitar a maior parte da companhia durante dois anos e agora ela sorria e tomava chá com Uchiha Sasuke! Mas, durante aquele mês, depois de seu retorno, havia uma aura estranha a seu redor.

- Certo. É bom ouvir isso. Sakura-san disse que viria após a troca de turno no hospital.

- Está bem... - Ela foi interrompida.

- Eu sei. Eu já disse a ela que eu cuidaria de você. Mas, não sei porque, Menma insistiu que ela cuidasse de você. Hmph! Está jogando sal na ferida. Hyuugas deveriam cuidar de olhos Hyuuga.

- Você precisa parar de tomar remédio para as dores dos outros, Koi-san. - Hinata chamou a atenção de sua irmã carinhosamente, fazendo-a corar e rir pelo velho apelido. Estava feliz que sua irmã ainda estava por perto para chamá-la assim.

- Quer caminhar um pouco?

- Talvez mais tarde.

Hanabi deu a sua irmã um sorriso fraco. Queria puxar sua irmã pela mão e e tirá-la de qualquer fosse a cova que ela caísse. O que quer estivesse mantendo a cabeça de Hinata baixa, estava machucando-a fisicamente. Ela sempre foi pálida, mas, por mais ou menos um ano, o azul de suas veias estava visível em sua pele. Suas emoções aparentes nunca chegavam aos seus olhos, que estavam duros e cansados a maior parte do tempo. Ela não sabia o que fazer.

- Está certo, então. - Ela disse, pesarosamente.


Sakura lentamente fez seu caminho até o complexo Hyuuga. Eram quase seis horas da tarde e ela havia finalizado seu turno no hospital há duas horas atrás, mas ela conseguiu encontrar várias pequenas coisas pra fazer até não conseguir atrasar mais sua visita a Hinata. Ela não tinha problemas em ser a médica de Hinata(mesmo que fosse Menma que insistira), ela só desejava que pudesse cuidar de Hinata sem que ela tivesse o conhecimento de que Sakura era a médica.

Já era estranho entre elas antes de tudo que aconteceu, mas agora era muito mais. Ela nunca sabia bem o que dizer. E Hinata sempre agia como se fosse neutra a ela, não como uma amiga. Aquilo machucava o orgulho de Sakura, ou o que restava dele.

A empregada escoltou Sakura até a porta do quarto de Hinata, que estava entreaberta o bastante para Sakura ouvir:

- ...sei porque, Menma insistiu que ela cuidasse de você. Hmph! Está jogando sal na ferida. Hyuugas deveriam cuidar de olhos Hyuuga.

- Você precisa parar de tomar remédio para as dores dos outros, Koi-san. - Hinata chamou a atenção de sua irmã carinhosamente, fazendo-a rir.

- Quer caminhar um pouco?

- Talvez mais tarde.

- Está certo, então.

A empregada poderia ter interrompido a qualquer momento, mas, ao invés disso, ela se ajoelhou ao lado da porta e só pareceu reagir quando Hanabi abriu a porta. Hanabi parecia mais do que um pouco surpresa de ver Sakura e a empregada paradas ali. O olhar que a nova líder Hyuuga deu para a empregada foi de arrancar lágrimas dos olhos e derreter a carne dos ossos. Foi apenas um olhar fugaz antes de direcionar seu olhar para Sakura e dar-lhe um pequeno sorriso.

- Hanabi-sama, Haruno-san está aqui para examinar Hinata-sama. - A empregada se curvou profundamente, sua testa quase encostando no chão.

- É claro. Entre, Sakura-san. Vou deixá-las a sós para fazer seu trabalho.

- Obrigada.

- Haruno. - Hinata disse assim que ficaram sozinhas.

Sakura quis grunhir. Hinata era tão neutra a ela agora. As duas se lembravam daquela vez em que ficaram bêbadas, na cozinha desta mesma casa.

- Você tá bem, Haruno? - Hinata perguntou. Elas estavam se afogando em doses de sake por mais ou menos uma hora. Ninguém estava por perto. Sakura estava bem no meio do caminho para ficar "um pouco bêbada". Na verdade, ela já tinha passado de "um pouco bêbada" há umas seis doses atrás.

- Eu? Melhor impossível. - Hinata lançou um olhar e Sakura sorriu. - Sempre intuitiva, Hinata.

- Você só é uma leitura fácil.

- Desde que você e Menma se divorciaram, tem sido... Eu não sei... Tem feito eu me perguntar se eu um dia vou achar alguém, sabe? Quer dizer, vocês dois eram perfeitos um para o outro. Eram melhores amigos e muito parecidos. Vocês combinavam. Então, se vocês não conseguiram, qual a esperança para o resto de nós?

Hinata deu um meio sorriso quase irônico, mas Sakura mal percebeu a dor que estava nos olhos pálidos. Ela não via seu relacionamento com Menma nem perto de chegar a perfeição, em momento algum e achava até divertido que as pessoas os vissem como algum tipo de almas gêmeas.

- Menma e eu éramos pessoas normais que se amavam, apenas. - Ela pegou a garrafa de sake, serviu mais uma dose para Sakura e repetiu a ação para si mesma. As duas beberam as doses em um gole.

- Bem, não acho que as pessoas viam vocês assim. Vocês dois eram o que nos dava esperança. Vocês me davam esperança.

- Com o Uchiha, não é?

Sakura corou.

- Talvez? É. Ele só me vê como uma conquista. Não me vê assim, nem mesmo um pouco. Mas, olhem pra você e Menma. Ele não te via assim no começo, mas ele te deu uma chance. Isso é tudo que eu quero: Uma chance com Sasuke-kun, pra saber se teria dado certo.

Hinata não sabia o que dizer. Ela sentia pena de Sakura. Pessoalmente, ela pensava que o Uchiha era uma causa perdida. Uma causa perdida no fundo do mar. Numa fenda dentro do mar. Dentro do estômago de um peixe abissal. Mas, ela nunca diria aquilo em voz alta para Sakura. Ela colocou uma dose para a rosada, ela retribuiu o favor. Elas engoliram. De novo.

- Então, não desista dele. - Hinata sabia o quão hipócrita estava sendo. Ela até esperou que Sakura percebesse. Hanabi perceberia. Mas, Hanabi não estava ali e ela era bem mais resistente ao álcool que Sakura.

- É só que... O Sasuke-kun é tão imbecil! Eu preciso de um cara... Um cara como Menma!

Hinata derrubou o sake sobre a mesa ao invés do copo de Sakura.

- O quê?

- Não, não. Não me entenda mal. Eu só quis dizer que gostaria de um cara como Menma. Um cara que me respeitasse. Sasuke-kun tem meu coração, mas eu preciso de alguém como Menma.

Hinata rapidamente secou a poça de sake com a toalha mais próxima. Ela colocou mais uma dose para Sakura, que retribuiu. Sakura virou sua dose de uma vez, sem perceber que Hinata só encostara os lábios na borda do copo. Ficaram em silêncio por um tempo. Sakura bebendo, Hinata molhando os lábios. Sakura deitou a cabeça na mesa.

- Haruno, você... Sente alguma coisa por Menma? - Sua voz estava tão séria que ficou surpresa de Sakura não estranhar.

Sakura tossiu e levantou a cabeça para encarar Hinata. Seus olhos verdes estavam manchados.

- Sim. Não. Talvez. Sim. Sempre amei Sasuke. E Menma sempre ocupou um lugar especial pra mim. Eu não sei. Eu acho que amo os dois. Não sei.

- Eu acho que você deveria ir para casa, Sakura-san. Você está bêbada. - Tanto Hinata quanto Sakura olharam na direção da voz e viram Hanabi parada na porta da cozinha. Hinata nunca ficou tão agradecida em ver a irmã.

- Eu levo ela pra casa.

- Não, você deveria deixar que um dos empregados a escoltasse, onee-san. - Hanabi foi até ela e sussurrou.

- Eu faço isso.

- Por que está fazendo isso? Você não é gentil assim.

- Eu sei como ela se sente. Ela não sabe o que quer.

- Ela quer uma boa pancada na cabeça. - Hanabi sussurrou de volta. Hinata se esquecia de como eram parecidas.

- Tá tudo certo, Koi-san. Eu faço. Estou bem. Se apoie em mim, Haruno. - Hinata disse enquanto se levantava. Ela andou para o outro lado da mesa e levantou Sakura num movimento... E depois, a deixou cair. - Haruno, eu disse pra se apoiar, caralho. - Hinata disse enquanto pegava a mulher novamente. Hanabi bufou.

- Onee-san, você com certeza está confusa.

- Vejo que já tirou as bandagens. Está pronta para que eu a examine? - Sakura perguntou com um sorriso. Hinata afirmou com a cabeça. Sakura sentiu seu estômago se revirando.


Hinata foi dar uma caminhada mais tarde, mas estava sozinha. Ela checou brevemente com sua kekkei genkai(deveria estar descansando os olhos, mas ninguém a impediria), e supôs que Sasuke não estava na casa de fazenda. Ela deixou os portões ocidentais e começou um lento passeio pelo caminho de pedras e bambu, que o levaria até sua casa. Tudo isso enquanto tomava uns goles daquela mistura verde horrível, que seu pai a obrigou a colocar numa garrafa de plástico. Se qualquer um a perguntasse porque ela estava indo para lá, ela não conseguiria responder.

A pesar do fato de que ela estava mais ou menos cega no último mês, ela notou que ele não havia visitado-a. Primeiro ela pensou que ele não ia gostar de visitá-la se tivesse muita gente por perto, afinal, ele era outra pessoa quando estava com ela. Mais ou menos. Mas, fato é que nas primeiras duas semanas, seu quarto estava lotado de seus amigos, e ela ficou surpresa que eles ainda ligassem para ela, mesmo que gradualmente ela tivesse se afastado deles nos últimos dois anos. Shino, Kiba e Akamaru a fizeram rir até ela precisar fazer xixi. Ino e Tenten a fizeram lembrar que ela ainda tinha amigas mulheres. Mesmo que uma quase não falasse e a outra estivesse sempre machucada. Shikamaru... Bem, ele trouxe muita comida e um sorriso besta no rosto.

Menma não apareceu. Ela não queria pensar no porque ele não veio... Toda vez que fazia isso sentia a força da depressão puxando-a direto pra ele, para adivinhar o porquê. Ela não queria ir até ele. Ela forçou seu pensamento a ir a outros lugares propositalmente, e ele ia para a outra força que a puxava: Sasuke.

Sasuke não queria vê-la com a multidão? Ou não queria atenção, pela primeira vez na vida? Hinata ouvia todas as conversas. Ela sentia o cheiro de chá de crisântemo que os empregados na casa preparavam, antecipando a chegada dele. Sem que ela os instruísse. Todo dia que ele não aparecia, ela ouvia as fofocas e os sussurrares sobre o que estava acontecendo com aquele relacionamento. E sim, ela sabia o que diziam: Que ele tinha intenções com ela, que ela era mais uma conquista, que loucos se atraem por loucos, que ela estava tentando irritar o Hokage. E a conversa mudara algumas semanas depois de ela estar de volta: Ele não podia lidar com o passado dela, ela é obsessiva, ela ainda ama o Hokage e o ciúme fervia entre os dois homens. Ela se perguntou se ele tinha ouvido as mesmas coisas que ela. Se esse era o caso, não era a toa que ele não a visitou. Quer dizer, boatos não eram um terreno desconhecido para Sasuke. Mas, se ela estava desconcertada com aquilo, ele provavelmente estava também. Não é?

Por outro lado, estava grata sem a visita dele. Quando ela estava parada naquela água repugnante, com a perna quebrada e o chakra empobrecido, ela ouviu a voz dele. Ela ouviu ele dizendo para se concentrar. Aquilo foi tão estranho e surreal. Por que estava pensando nele? Alguma coisa sobre aquilo fazia-a se sentir incerta e culpada. Ela até queria agradecer a ele, mas não queria contar sobre isso. Ele nem iria acreditar. Ela já tinha se arrependido em colocar aquilo no relatório dela, não que ele fosse ler, mas nunca se sabe. Ela não queria passar a impressão errada. Então, ela também não o procurou.

Uma dor lentamente ressoou em Hinata. Era uma familiar e desconfortável sensação de constrição, algo que estava sugando e tirando a vida dela continuamente. Ela tinha isso há dois anos e isso parecia atacá-la, como um tumor. Toda vez que pensava que tinha incluído Sasuke naquela sua louca "vida pública", cheia de fofocas, a constrição aumentava. E, mesmo que se sentisse machucada por ele esquecê-la rápido, não era como se ela não esperasse por isso. E, também, aquilo era justificável. Ela podia entender.

Quando chegou a casa, ficou um pouco chocada. Parecia que nada tinha sido feito ali há semanas, talvez um mês ou mais. Estava escuro, mas ela podia ver muito bem, já que uma das sessões da parede havia sido removida, para que novas paredes de terra fossem construídas, com a intenção de sobrepô-las numa estrutura de bambu. Isso não havia sido feito e só havia a estrutura de bambu, por qual qualquer um podia olhar.

A última vez que viera ali, fora um dia antes de sair em missão. Ela ajudou a colocar algumas tábuas do chão de volta, as que foram retiradas para colocar o isolamento. Em alguns pontos ela conseguia ver as tábuas de madeira escura por cima das placas de isolamento verde. Em outros pontos não havia nada além de uma fundação de grades, deixado o solo aparece e deixando todo o frio entrar. Falando em frio, ela olhou para o irori.

Acima da lareira afundada, ela podia ver a alavanca em forma de peixe que ela lhe dera para o jizai kagi. O bambu oco estava suspenso no teto e tinha uma corrente de metal com um gancho, que ainda tinha pendurado o tetsubin que ela também havia lhe dado. Ela lembra de ter provocado-o sobre não acertar a cabeça do Hokage com a pesada chaleira de metal preto. Ele não prometeu nada. Ela deu um meio-sorriso melancólico com a memória. Por que aquele idiota parou de trabalhar na casa, ela se perguntava.

Ele não queria mais vê-la, ela se lembrou. Ela nem deveria estar ali. Ela nem poderia inventar uma desculpa caso ele trombasse com ela ali. Ela se virou para voltar para casa, se abraçando para se proteger do frio de Konoha. Ela olhou novamente para o irori e se perguntou se ele voltaria a trabalhar na velha casa.

Ela se virou e quase trombou com ele.

Ela ficou tão surpresa que gritou e deu um pulo para trás. Ele estava tendo a estranha sensação de um deja vú. Pelo menos ela não havia tentado bater nele ou dizer para que não tocasse nela, ele pensou cinicamente.

- Uchiha! O que está fazendo aqui?!

Assim que ela perguntou aquilo, quis engolir as palavras. Ele lhe deu um olhar reservado para Menma: O olhar de você-não-é-tão-estúpida.

- Essa é a minha casa.

- Sim, sim, claro. Eu quis dizer... Esqueça. Eu vou embora. - Ela disse enquanto tentava sair, mas ele continuava em seu caminho. Ela olhou para ele, esperando que abrisse o caminho. Ela teria que lutar com ele para passar? Bem, uma surra em Sasuke viria bem a calhar.

- Por que estava aqui?

Ela preferia dar uma surra nele a responder aquilo.

- Eu... Bem... Eu estava interessada em ver o que tinha feito na casa até agora. - Aquilo foi o melhor que podia pensar.

- Bem, você já viu.

Hinata quase corou. Aquela era sua deixa. Sasuke era um idiota. Aquele era o comportamento que fazia as garotas caírem aos seus pés? Não, obrigada, ela não queria aquilo. Nem podia acreditar que ela tinha gastado tempo pensando nele.

- Certo, então, boa noite. - Ela tentou ir embora mais uma vez, mas ele continuou a bloquear o seu caminho.

- Eu só achei que você estava com saudades de mim.

- O quê?

Sasuke quase riu. A expressão no rosto dela era impagável... Mas, ainda machucava. Ela claramente estava ali só para ver a casa. Se ela quisesse vê-lo podia usar os malditos olhos para encontrá-lo e propositalmente trombar com ele por acidente. Eles não se trombariam por acidente como agora. Ela não estaria se justificando tanto pra deixar claro que ela NÃO estava ali por causa dele.

Hinata estava quase fugindo dele. Se sentia um pouco encurralada. Ele se lembrou da lebre que ela havia invocado.

- Saudade? O universo não gira em volta do seu umbigo, Uchiha. - Ela também parecia ter voltado a ser... A Hinata de sempre. Ele acharia aquilo bonitinho, se não fosse um tanto irritante.

- Sua lebre veio até mim.

- Inada-san? Mas... - Ela foi interrompida.

- Menma já tinha ido. Não é como se você precisasse de nós dois pra ter resgatar.

- Eu nem deveria precisar ser resgatada. - Ela resmungou, mas ele ouviu perfeitamente. Ainda estava encurralando ela. Ela quase tropeçou no irori e acabou se sentando perto dele, para disfarçar. Sasuke se sentou no lado oposto a ela. - Uchiha, foi mal pelo o que eu disse antes da missão.

- Foi pra se desculpar que você veio aqui? Seja honesta comigo.

- Eu vim porque... - Porque queria saber se você estava bem, idiota. Porque me sinto sendo puxada em duas direções, mas a outra direção não é onde eu deveria estar, porque eu só queria conversar com alguém que não me encare com pena e arrependimento. Hinata queria falar tudo isso, mas enfim, ela respondeu. - Eu vim porque estava passando por aqui e percebi que as reformas estavam inacabadas.

Ela estava mentindo e ele sabia. Ambos sabiam.

Houve o silêncio constrangedor mais uma vez. Eles só desejavam que uma terceira pessoa intervisse e acabasse com aquele diálogo infernal.

- Talvez devêssemos acender o fogo. Está meio frio. Eu acho que vi um isqueiro em algum lugar...

- Eu posso usar um jutsu, só se afaste um pouco...

Hinata localizou o isqueiro. Estava do outro lado do irori. Ela se curvou para frente para pegá-lo. Sasuke já estava acabando os selos de mão de seu Gokakyu no Jutsu. A bola de fogo era enorme.

- Hinata!

Quando as chamas se apagaram, ele viu Hinata sentada do outro lado do Irori, tocando o próprio rosto para verificar se ainda tinha sobrancelhas. Seu rosto estava coberto de cinzas do irori, já que o katon não tinha feito nada além de acender o fogo, iluminando a sala perigosamente. Menma sempre dissera para ele que o katon era inútil. Nunca em sua vida ele ficara tão feliz que aquele jutsu simplesmente sumia no ar, como se com um sopro do vento. Apenas algumas vezes colocava fogo nas coisas e ele estava aliviado que essa não era uma dessas vezes.

Tão aliviado ele estava, que quando ele olhou para ela, não pode se conter. Um riso contido acabou explodindo e preenchendo a sala.

- O que foi, idiota? - Ela perguntou, irritada com o riso sem motivo.

- Você parece um desenho animado.

Ela conseguiu conter um sorriso. Fazendo um bico.

- Entre isso e me atirar de janelas...

- Duas vezes é um hábito. - Ela deu um meio sorriso para a referência dele.

- Você ainda vai ser a minha ruína, Uchiha. Preciso parar de te ver.

- É, mas você ia acabar sentindo muita falta de mim. Provavelmente ia acabar ouvindo minha voz te chamar.

Hinata o encarou em suspeita, sua cara se fechando.

- Isso é bem impossível. - Ela respondeu com cautela.

- Não foi isso que eu ouvi. - Ela o olhou com dúvida e ele tirou o relatório dela do bolso de sua jaqueta. Hinata arregalou os olhos.

A humilhação!

Ela nem se despediu. Simplesmente desapareceu.

O sorriso ainda estava no rosto de Sasuke horas depois, quando chegou no seu apartamento de merda. E foi aí que ele percebeu duas coisas: Aquela era a primeira vez que ele sorria verdadeiramente em dois meses e ele sentia a falta dela.