Capítulo 03

Muitas pessoas estavam amontoadas na praça principal, tentando descobrir o que havia ocorrido, ouvindo o que o mecânico e o chefe da pequena vila tinha para falar. O responsável estava encima de um palco de mármore, agitando os braços como se pedisse para acalmarem, enquanto ele dizia com o tom da voz mais amplificada que ele conseguia:

- Acalmem-se, acalmem-se. Pessoal, isso foi apenas um terremoto.

Uma senhora bem velha, que estava sentada ao lado de uma árvore e tinha na testa um corte que sangrava, perguntou com dificuldade:

- Tem certeza que isso não foi obra de espíritos malignos? Pois se forem, eles poderão voltar.

O cochicho da multidão foi crescendo, até se tornar quase um grito caótico. O professor fechou os olhos, colocou seu braço atrás de sua costa, apontou com o dedo indicador para o alto, falando com toda a segurança e certeza:

- Não minha senhora, isso não foi obra de um espírito furioso. Um terremoto é algo relativamente comum, é apenas um fenômeno da natureza que ocorre quando rochas do interior do planeta estão se movendo.

Um jovem, de bigode grosso e escuro, e que estava de pé, perguntou com o tom de voz desafiador:

- Como o senhor pode saber de tudo isso?

Neste momento, Jusata subiu ao palco, fazendo um pouco de força por ser alto o palco, e então respondeu, com os braços para trás e vergando o corpo para frente:

- Ele sabe disso porque eu falei sobre isso para ele. Na universidade de Ba-Sing-Sei nós aprendemos sobre alguns fenômenos da natureza e o terremoto está entre eles.

A multidão diminuiu com o falatório, e era possível ouvir alguns comentários de aceitação.

O Chefe aproveitou para falar, segurando nas mãos da esposa, como se agradecesse por estar ao seu lado nos momentos mais difíceis:

- Estou dizendo: outro tremor de terra não deve acontecer novamente. Pode sim acontecer outras catástrofes resultantes deste tremor e...

As pessoas ficaram assustadas. Elas se calaram e ficaram olhando uma para as outras. A esposa percebeu a reação das pessoas e colocou a mão na boca do marido, cochichando em sua orelha, fazendo-o sentir bem próximo o seu hálito:

- Não precisa explicar tudo para eles. Você está acalmando-os, não dando uma aula!

O professor calou-se e riu. Ele cochichou no ouvido dela, dando-lhe um abraço:

- Obrigado, não sei como seria minha vida sem você.

Neste momento, a figura do velho camponês surgiu no alto da rua que dava para a praça, correndo e respirando com muita dificuldade, afinal, não estava acostumado a correr por tanto tempo. Ele parou, olhou para a multidão, concentrando sua visão na procura de alguém. Quando ele deparou-se com o palco de mármore, viu o mecânico com sua esposa. Ele, então, falou para si próprio, sentindo o tecido de sua roupa molhada e pesada devido ao suor: " lá esta o maldito chefe da vila".

O camponês parou ao lado do palco e chamava ao homem com "psiu". A mulher ouviu a primeira vez o chamado, mas ao ver o velho, sujo, suado e cansado, ignorou na primeira vez. Mas sua insistência era enorme.

- O que será que este homem tanto quer falar conosco. Não tem educação em respeitar os oradores de uma vila? Vou descer até lá para descobrir o que ele quer – disse Jusata, enquanto largava as mãos do marido e caminhava a passos irritados até a lateral.

Ela ficou de joelho na beirada do palco, e perguntou, com o tom de voz forte e de "poucos amigos":

- O que o senhor quer? Não vê que está atrapalhando?

O velho não respondeu de imediato. Ele colocou suas mãos no joelho, pegando ar para recuperar seu fôlego. Então, mais calmo, e a mulher mais entediada, ele respondeu com a voz atropelada:

- Oras, vim aqui avisar que a maldita barragem lá encima fez um barulho estranho e tremeu de uma forma mais estranha ainda. Parecia até o meu cão-coelho quando tem ataque de pulgas.

A mulher franziu a testa. Ela havia escutado sobre problemas na barragem e sabia que aquilo podia ser perigoso, mas pensou: "será que foi isso que ele quis dizer?". Em seguida, perguntou, com a voz calma e com os olhos fintando os olhos do senhor:

- Você está querendo afirmar que a barragem tem algum tipo de problema, a barragem que irriga o campo da cidade?

- É, esta barragem mesmo, a não ser que tenha outra que eu não saiba.

- Isso pode ser perigoso – pensou Jusata, ficando novamente de pé. Ela foi até ao lado de seu marido, e falou cochichando novamente em seu ouvido, enquanto o segurava pelo braço:

- Meu amor, parece que há algum tipo de problema na barragem. Acho que vocês deveriam dar uma olhada para saber se é algo perigoso mesmo, ou é apenas um exagero de um simples camponês.

O mecânico coçou a barba, olhando para cima, enquanto pensava no que fazer. Então, apontando para alguns homens que estavam ali perto, disse para as pessoas em voz alta:

- Aos conselheiros e aos homens de inteligência, eu os convoco para a ida até a barragem comigo, para uma vistoria de rotina.

Um homem, que estava próximo do palco, mas na esquerda do chefe, levantou a mão e perguntou:

- Mas agora? O que aconteceu?

O cientista respondeu com o sorriso no rosto e descendo do palco com muito cuidado para não cair:

- Não é nada. É apenas para termos certeza que o terremoto não afetou a represa.