Capítulo 04

O grupo com vários homens, entre eles o mecânico, caminhou per entre o barro que existia pelo caminho, atravessando mato alto e caminhos estreitos, até o momento que eles chegaram ao lado da represa. Eles viam a água barrenta do rio calma e tranqüila, tocando nas pedras também calmas e tranqüilas.

O chefe chegou bem próximo ao leito do rio e tentava encontrar algum indício na represa de que ela poderia estar danificada, com a mão direita sobre a testa como se tentasse esconder seus olhos do sol, apesar do dia nublado, porem sua vista não estava encontrando nada de arranhão ou outro problema na represa cinza. Ele pensou na possibilidade de subir na represa para verificar mais de perto, mas sentiu um remoído no estomago por causa do medo de subir em algo que poderia estar quebrado. Ele apontou o dedo para um jovem de 19 anos, que estava com o dedo dentro do seu nariz, e disse com a sua característica voz fina:

- Você, sobe lá na represa e veja se consegue ver alguma coisa encima dela.

O rapaz parou com a faxina, escutou, franzindo a testa, e respondeu, colocando o mesmo dedo indicado no peito, como se apontasse para si:

- Eu?

- Sim você. Alguém tem que subir na represa para ver como ela esta.

O jovem subiu sobre as pedras. No meio da barragem, que tinha por volta de 50 passos largos, o jovem parou e começou a espiar. O mecânico gritou, com o pé esquerdo pisando no início da represa, e a outra sobre o chão:

- Está vendo ou sentindo alguma coisa errada?

O garoto respondeu:

- Não.

Neste exato momento, todos da região começaram a escutar a água do rio bem próximo da represa chacoalhar. Todos pararam para ver. De repente, foi a vez de escutar estalos de pedra. O garoto sentia o chão que pisava tremendo levemente, mas aumentando de intensidade. Ele arregalou os olhos e saiu correndo na direção da margem, gritando de medo:

- Sim, tem algo estranho sim.

Nas pedras do lado oposto ao do rio, nas rochas da represa que ficava do lado seco, começaram a surgir pequeninas rachaduras, que aos poucos, quebrava e aumentavam de tamanho. Listras escuras de rachadura espalhavam pela represa, sobe a vista de todos, como se uma maligna aranha tecesse sua teia. Quando a rachadura conseguiu alcançar o topo da represa, todos começaram a sentir o chão tremer, e os sons foram ficando cada vez mais forte.

O pai de Teo começou a sentir a sua perna tremer e percebeu o que acontecia. Parado, completamente estático, sem saber muito que fazer, ele comentou com a voz fraca:

- A represa está ruindo diante dos nossos olhos.

Ouve-se uma grande explosão. Pedaços menores de pedras voaram para todas as direções. De repente, a grande massa de água marrom começou a mexer. O som estrondoso de água em queda livre, como a das cachoeiras mais fortes do reino da terra, ecoou por todo o ar. Pingos de água voaram para todos os lados, molhando as roupas e os rostos de muito dos convidados. Neste exato momento, uma parede enorme de água se locomovia na direção da pequena vila.

O marido de Jusata ficou parado, sentindo o seu sangue secar das suas veias, seu coração para de bater, quase no silêncio mortal do medo, e sua vista piscar pontos pretos. Sua energia parecia estar escorrendo de seu corpo e indo para terra. Seus braços suavam frios e sua costa estava encharcado de suor. Seus olhos não tinham mais nenhuma umidade, estava opaco, sem vida, olhando para longe. Sentiu suas pernas perderem a energia e a tremerem quase sem energia. Ele caiu de joelho por causa da falta de força. Por fim abaixou a cabeça, colocando suas mãos em seu rosto, tampando os olhos e começou a derramar rios de lágrimas, no meio de soluços e choros angustiantes.

E o rio continuava a sua jornada, arrancando árvores, pedras, animais e qualquer coisa que estava sobre o seu caminho.

Jusata caminhava completamente ignorante do que acontecia rio acima. Porem, por precaução, ela voltou para a sua casa, pretendendo ficar com o pequeno Teo em algum lugar mais no alto, talvez na pequena caverna que seu marido o pediu em casamento pela primeira vez.

Ela atravessou a porta, e viu a mesma sala de sempre: cadeiras de madeira, de assento com travesseiros; enfeites comprados em Ba-Sing-Sei, como vasos enormes e caros, estátua de um tigre e um quadro de uma tempestade; tapete vindo da nação do fogo, nas suas cores vermelhas. No teto, o telhado era apoiado por uma grande viga de madeira clara, bem grossa e de certa idade.

Porem não encontrou aquilo que procurava, o pequeno Teo. Ela então gritou, enquanto pegava alguns pedaços de panos para enrolar suas coisas que levaria para a caverna:

- Teo, cadê você? Vamos, apareça, nós precisamos ir. Teo, menino levado, apareça logo. A mamãe não está para brincadeira.

O garotinho ria, escondido debaixo de uma enorme mesa de madeira. A mãe logo escutou o som do sorriso abafado e olhou debaixo da mesa.

- Vamos, não temos tempo para brincadeiras, temos que ir – disse ela, pegando-o com as mãos segurando o quadril do menino e puxando-o para fora.

Ela o segurou no colo, colocou algumas frutas nos pedaços de pano e quando se preparava para sair, colocando o menino no chão e ajeitando a comida, ela começou a sentir outro tremor, mas desta vez bem diferente ao tremor anterior. Em seguida, um forte barulho de água e gritos desesperados da sua vizinha ecoava pela casa. Ela saiu da sua casa rapidamente, segurando Teo pela sua pequena mãozinha, quando pode ver no horizonte, no começo da vila, uma enorme parede de água se aproximando na velocidade de um raio.

Ela sentiu o medo subindo pela sua coluna, dominando seus músculos e fazendo seu coração bombear o sangue rapidamente para todos os órgãos. Com a respiração "a mil", largando a comida, que caia e rolava no chão, e pegando o garoto no colo, disse para si mesma:

- Pelos espíritos das águas, estamos perdidos!

Sem pensar, ela correu na direção da escada, sentindo o aumento do tremor e o som da água. Ela subiu a outra escada, que dá direto no alçapão, próximo ao telhado, sentindo as paredes tremerem como se fossem feitos de vidro. O barulho ensurdecedor da água já dominava o ambiente. Quando os dois conseguiram alcançar o alçapão, uma grande, forte e poderosa pancada de água fez a casa toda estremecer. Enormes volumes de água invadiam a sala de sua morada, destruindo todos os objetos existentes, como o vaso e as cadeiras. A água subiu nos quartos, destruindo qualquer coisa que pudesse ser quebrado. Lascas de madeira voavam por todo o local, derrubando pedaços de madeira da parede e coisas pessoais.

A mulher estava deitada sobre o corpo de Teo, este chorando assustado, sem saber o que acontecia ou para onde olhava. Ela olhava para a porta do alçapão, rezando para que a água não a atravessasse. Mas ela podia ouvir a água subindo os andares como um estouro de rinocerontes-bufalos descontrolados. O barulho era ensurdecedor. A água continuou por mais alguns minutos, fazendo tremer toda a estrutura da casa de madeira, sem pausa nem descanso. Aos poucos, porem, a água começou a esvazia, o barulho diminuía. Mas a casa continuava a tremer.

Ela se levantou, suspirando aliviada pela água ter passado e não ter levado sua residência embora. Teo continuou de barriga no chão, chorando com a boca bem aberta, e de rosto colado no chão. Ela abaixou, levantando o menino pelo ombro e com muito cuidado, e olhou nos olhos de Teo, bem próximo, encostando sua testa na de seu filho, e disse com a voz tentando ser tranqüilizadora, mas nitidamente agitada:

- Já passou, já passou. Calma querido.

Porem neste exato momento, um enorme e agudo rangido soou sobre a cabeça dos dois. Ela olhou para cima rapidamente e viu a enorme viga de sustentação trincando e se mexendo. Em seguida, as paredes tremeram como nunca e começaram a cair para dentro da casa. Ela teve a esperteza de jogar o seu corpo por cima do seu filho, agarrando-o o mais forte possível. A enorme tora de madeira quebrou e caiu sobre os dois. Em seguida, todas as paredes da casa. Em menos de um minuto, a residência estava no chão e era apenas entulho de madeira.

A mulher sentiu uma tremenda dor na sua costa, sufocante e angustiante. Ela conseguia sentir seus ossos sendo esmagado, pedaço de sua coluna sendo partida ao meio e lanças de madeira penetrando sua carne. Ela gritou o mais alto possível, a dor era insuportável... até que ela passou, e tudo mais passou. Sem dor, sem gritos, sem problemas. Ela havia morrido.

Teo sentia o corpo macio de sua mão sobre ele, sentiu também uma forte e poderosa pancada na região de seu quadril. Não sabia de onde vinha, não sabia de onde veio. Apenas uma forte dor aguda. Sua vista começou a escurecer e então, desmaiou.