Capítulo 2: Batalha na Floresta Sombria
No dia seguinte, levantaram-se cedo e começaram a caminhar.
"Bolas, afinal não comi carne nenhuma..." queixou-se Gabriel.
"Paciência. Temos de continuar, senão pela altura que chegarmos ao castelo do Tomás Touro, já eles estão casados e em lua-de-mel." disse Vanda.
"Não exageres." disse Gabriel. "Então, raptaram a tua mãe num dia e no outro partimos logo para a salvar. Se o Tomás Touro a raptou, ainda deve estar a fazer o seu caminho para o castelo. Ainda há-de demorar alguns dias a lá chegar."
"Pois, mas ele é mais rápido que nós e tem um avanço. Se bem que a minha mãe não deve estar a facilitar as coisas. Espero que lhe dê umas cornadas."
O grupinho continuou a andar durante todo o dia e à noite pararam e sentaram-se perto de umas árvores.
"Então Patareca, acabámos por não te perguntar uma coisa. Não deixaste a tua família para trás ao vires connosco?" perguntou Vanda.
"Eu não tenho família. A minha mãe morreu pouco tempo depois de eu nascer. Caiu-lhe um vaso de flores na cabeça. Coitada, era azarada como eu." disse Patareca. "E pronto, eu fui criada pelo Marcelino Mocho, que é o bibliotecário da aldeia. Nunca conheci o meu pai, nem sei quem ele é."
"Coitada de ti." disse Vanda. "Bem... eu também nunca conheci o meu pai, mas tenho a minha mãe ou pelo menos tinha, até ela ser raptada, mas vou salvá-la!"
"Os meus pais só gostam do meu irmão mais velho." disse Gabriel. "E a minha mãe nem ama o meu pai e anda a trai-lo com o cão padeiro."
"Os meus pais são uns porcos. Ah, quer dizer, porcos e badalhocos. Expulsaram-me a mim e aos meus irmãos de casa. Enfim, parece que todos temos pais problemáticos." disse Pedro.
"Ou que não conhecemos." disse Patareca. "Mas pronto, o Marcelino Mocho agora não estava na aldeia. Tenho pena de não me ter despedido dele. Quando voltar vai ficar desapontado por eu não estar lá, mas foi melhor assim."
Nesse momento, eles ouviram o barulho de folhas a serem pisadas e levantaram-se. Não demorou muito para a raposa Rita aparecer, acompanhada de um grande morcego.
"Aha! Apanhei-vos!" gritou a raposa, contente. "Agora é que vos vou matar. Agora tenho um aliado, o Malaquias Morcego. Malaquias, vamos a eles!"
"Está bem." concordou Malaquias, voando na direcção do grupo, com Rita a correr a seu lado.
"Pessoal, atacar!" gritou Gabriel.
Gabriel saltou e atirou-se contra o morcego. Pedro começou a tremer e Vanda pôs-se frente a frente com a raposa Rita.
"Vais morrer, vaca. E eu vou comer uns bifes!"
A raposa aproximou-se, mas Vanda desviou-se.
"Toma lá! Lambidela de Vaca!"
Rita ficou atordoada com a lambidela e no momento seguinte levou com um ovo na cabeça, atirado por Patareca.
"Toma lá!" gritou ela, desta vez atirando uma pedra.
Rita levou com a pedra na cabeça e guinchou, saindo dali a correr.
"Eu volto!" gritou ela.
Gabriel tinha ferido o morcego Malaquias numa asa e quando o morcego viu Rita a fugir, apressou-se a voar atrás dela, o mais rapidamente que pôde.
"Bolas, aquela raposa é chata." disse Vanda, zangada. "Não nos deixa em paz."
"Mas nós vencemo-la sempre." disse Gabriel, contente.
Depois, o grupo voltou a deitar-se e, já sem a raposa e o morcego por perto, adormeceram.
O grupinho continuou a sua viagem no dia seguinte. Um dia e meio depois, começaram a avistar a Floresta Sombria ao longe. Quase ao final do dia, chegaram à orla da floresta.
Ali erguia-se uma casa de tamanho médio, que tinha uma grande tabuleta por cima da porta, que dizia, Estalagem das Manas Galinhas.
"Já está a ficar escuro. Não nos vamos aventurar na floresta agora, pois não?" perguntou Pedro, tremendo.
"Ele tem razão." concordou Gabriel. "Esta estalagem parece convidativa. Devíamos passar aqui a noite."
"Vocês só pensam em descansar. Temos de andar rapidamente para chegarmos ao castelo do Tomás Touro. Não há tempo para descansos." disse Vanda, zangada.
"Desculpem lá, mas se a tua mãe foi raptada e, apesar de se saber que o Tomás Touro tem um castelo longe daqui, como é que podem ter a certeza de que ele foi para o castelo?" perguntou Patareca. "Ele pode muito bem ter ido para outro lugar qualquer."
Os outros ficaram silenciosos, sem saber o que responder. Vanda abanou a cabeça.
"Tu... tens razão... não tinha pensado nisso, mas ele pode muito bem ter ido para outro lugar e, nesse caso, a nossa viagem será em vão e eu não conseguirei salvar a minha mãe."
Vanda ficou subitamente desanimada. Gabriel aproximou-se dela.
"Ei, não fiques assim. Tenho a certeza de que a tua mãe foi levada para o castelo. Vamos encontrá-la e salvá-la. Acredita que sim." disse ele.
Vanda olhou para o amigo e acenou afirmativamente, mas mesmo assim ainda sem grande entusiasmo. Pedro não sabia o que dizer.
"Bem, olhem, se está aqui esta estalagem e o Tomás Touro, se foi para o castelo, teve de passar por aqui. Talvez na estalagem nos consigam informar se os viram a passar por aqui." disse Patareca.
Vanda pareceu subitamente mais animada.
"Tens razão! Vamos perguntar e ficamos logo a saber. Patareca, és um génio!"
"Ora, não é nada de especial. Apenas pensei nas coisas mais lógicas. Se bem que, tendo eu sido criada por um mocho bibliotecário, tenho uma certa dose de inteligência forçada em mim."
"Vamos lá entrar na estalagem." disse Vanda.
Os quatro amigos caminharam para dentro da estalagem, que era um espaço acolhedor, quase totalmente feito de madeira. Os quatro dirigiram-se a um balcão, onde uma galinha de penas brancas e castanhas estava a escrever num papel.
"Boa noite." disse Vanda.
A galinha tirou os olhos do papel e sorriu-lhes.
"Boa noite. Não estava à espera de mais hóspedes para hoje, mas ainda bem que apareceram." disse ela, sorrindo. "Eu sou a Guiomar Galinha. Eu e a minha irmã Gustava somos as donas da estalagem. Somos as manas galinhas. Gostam da estalagem? É acolhedora, não é? Fui eu que a decorei. A minha irmã queria as coisas de maneira diferente, mas eu impus-me. É que ela é muito mandona. Lá por ser mais velha que eu, não quer dizer que tenha sempre razão. Bem, eu também já não vou para nova, mas por isso mesmo tenho de me impor. E sabem, hoje até escolheram uma boa noite para passar aqui. Fiz bolinhos de centeio que estão uma maravilha."
Os quatro amigos entreolharam-se, vendo que Guiomar parecia nunca mais se querer calar.
"Er, desculpe, nós ainda não temos bem a certeza se vamos passar aqui a noite." disse Vanda, interrompendo o monólogo da galinha Guiomar. "Precisávamos de uma informação."
"Uma informação? Ah, claro. Eu sei muitas coisas. Sempre fui muito curiosa. Podem perguntar-me a vida de toda a gente da aldeia Mée, que fica apenas a uns dias de distância e eu sei tudo. Ah, o chefe da aldeia, por exemplo, é um parvalhão. Não gosto nada dele. Sabem que ele quis namorar com a minha irmã Gustava? Claro que ela não quis nada com ele. Também era só o que faltava... e depois há lá uma ovelha chamada Ofélia que é do pior. Está sempre a dizer mentiras. No outro dia disse que eu tinha roubado um saco de milho no mercado. Onde já se viu? Eu a roubar? Sou muito honesta e trabalhadora. Claro que eu me ofendi e dei-lhe logo com um murro nas trombas para ela aprender."
"Claro, claro." disse Vanda, tentando interromper o discurso novamente. "Desculpe, viu passar por aqui uma vaca e um touro ultimamente?"
"Uma vaca e um touro? Hum... uma vaca e um touro. Ah! Vim sim! Foi há dois dias... não, três dias. Passaram por aqui há três dias. Lembro-me bem porque foi no dia em que discuti com a minha irmã sobre flores. Ela diz que as rosas são melhores, mas eu gosto mais de margaridas. Se bem que as rosas vermelhas têm o seu charme. Ai, gostava muito que me dessem um ramo de rosas vermelhas. É muito romântico."
"Pois, claro, mas diga-me, para onde é que foram a vaca e o touro?" perguntou Vanda.
"Ah, foram pela floresta. Mas não eram só eles. Vinham acompanhados por alguns bois de aspecto duvidoso. E a coitada da Vaca parecia não estar muito feliz. Eu vi-os só da janela do primeiro andar. Não me viram a mim."
"Bem, pelo menos estamos na pista certa." disse Vanda, mais animada. "E só têm uns dias de avanço."
"Mas olhem lá, porque é que vocês estão interessados em saberem para onde foram a vaca, o touro e os outros bois todos?" perguntou Guiomar, curiosa.
Vanda explicou a situação. Guiomar, que apesar de gostar muito de falar, também gostava de saber tudo, ouviu atentamente a história de Vanda.
"Ah, que aventura! Partires em busca da tua mãe, que foi raptada pelo Tomás Touro. Claro que eu já tinha ouvido falar dele. Quem não tinha, não é? Mas nunca o tinha visto. Coitada da tua mãe, assim raptada e que vai ser forçada a casar. Tens mesmo de a salvar." disse Guiomar, acenando afirmativamente.
"Eu sei. Obrigada pela informação. Pessoal, vamos embora." disse Vanda, virando-se para os outros.
"Esperem. Então, vocês vão meter-se na floresta agora? Está a ficar bastante escuro. E além disso, vocês conhecem a floresta?"
"Não, não conhecemos." respondeu Gabriel.
"Então é melhor ficarem a passar aqui a noite. Depois, amanhã de manhã partem então. É mais seguro, podem ter a certeza. A floresta não se chama Floresta Sombria por ser fácil andar por lá, podem ter a certeza."
Nesse momento, a galinha irmã da Guiomar, Gustava, apareceu.
"Boa noite. Então, vieram para passar aqui a noite? A minha irmã já vos deu as chaves dos quartos ou pôs-se a tagarelar como sempre?" perguntou Gustava.
"Nós não podemos ficar aqui. Temos pouco dinheiro. Dormimos na rua." disse Vanda.
"Não! Claro que não. Não dormem nada na rua. Podem ficar aqui. Olhem, deixo-vos passar aqui a noite de graça. Não têm de pagar nada." disse Guiomar.
"Ei! Mas tu estás maluca, Guiomar?" perguntou Gustava, zangada. "Eles não podem ficar de graça. Assim vamos à falência!"
"É só por uma noite. E eles já viajaram muito, coitadinhos. Precisam de uma boa noite de sono."
"Quero lá saber. Se ficarem cá, têm de pagar."
"Ora, está calada Gustava!" exclamou Guiomar, irritada. "A estalagem também é minha e eu posso convidá-los a passarem cá a noite. Tu és sempre tão azeda, por isso é que ninguém te quer. Coitada aqui da vaquinha, que anda à procura da sua mãe, que foi raptada pelo Tomás Touro. E os outros andam a ajudá-la. O mínimo que podemos fazer é ser boazinhas para eles e dar-lhes alojamento por uma noite."
Gustava bufou de raiva e saiu dali sem dizer nada. Guiomar sorriu aos quatro companheiros.
"Ela é sempre assim, mas no fundo, bem lá no fundo, não é uma má galinha. Bem, vou dar-vos as chaves dos quartos para se instalarem. Depois podem descer que eu preparo-vos alguma coisa para comer." disse Guiomar, sorrindo.
"Obrigado." responderam todos em coro, recebendo duas chaves de Guiomar.
Os quatro amigos subiram umas escadas para o primeiro andar da estalagem. Vanda e Patareca entraram num quarto e Pedro e Gabriel entraram noutro. Vanda pousou a sua mochila no chão e suspirou.
"Aquela galinha foi muito simpática." disse Patareca, sentando-se em cima de uma das duas camas que havia no quarto. "Deixar-nos ficar de graça e ainda nos ir preparar uma refeição."
"Pois é. Pronto, vamos descansar aqui esta noite, mas amanhã temos de partir bem cedo. Não podemos deixar que o Tomás Touro tenha muito avanço."
Patareca acenou afirmativamente, desequilibrou-se e caiu da cama abaixo. Vanda correu para ela.
"Estás bem?" perguntou Vanda.
"Estou. Ai, eu é que sou muito azarenta e desastrada." respondeu Patareca, levantando-se. "Qualquer dia ainda me engasgo a comer uma ervilha e morro."
No quarto de Pedro e Gabriel, os dois já tinham deixado as suas coisas nos lugares.
"Estou cheio de fome." disse Gabriel. "Espero que o jantar seja carne, senão ainda te dou uma mordidela na orelha. Preciso mesmo de comer carne."
Pedro começou a tremer e Gabriel riu-se.
"Estava a brincar. Não vou morder-te, obviamente. Anda lá embora."
Pedro suspirou de alívio e ele e Gabriel saíram do quarto.
Quando o grupinho desceu para jantar, entraram numa sala com várias mesas e sentaram-se. Já havia alguns hóspedes lá sentados, à espera da comida. Gustava apareceu e começou a servir os outros hóspedes. Guiomar apareceu de seguida e pousou uma grande tigela com sopa à frente dos quatros amigos.
"Aqui está. Sopinha faz sempre bem." disse Guiomar, sorrindo.
"Oh, sopa... e eu que queria carne..." disse Gabriel, desanimado.
"A sopa tem pedacinhos de carne burro. É boa. Só não digam nada ao burro que está sentado na mesa ali do fundo, porque está a comer carne dos animais da sua espécie."
Enquanto Patareca, Vanda e Pedro pareciam um pouco hesitantes em comer sopa com carne de burro, Gabriel serviu-se logo e repetiu três vezes.
Depois foram deitar-se. No dia seguinte, teriam de continuar a sua viagem, entrando pela Floresta Sombria.
Quando os quatro amigos se levantaram na manhã seguinte, Guiomar serviu-lhes o pequeno-almoço.
"Comam tudo para terem forças para a viagem." disse ela, abanando a crista.
"Obrigada por tudo, dona Guiomar." agradeceu Patareca.
"Não me chames dona que me faz sentir velha. Eu ainda estou aqui para as curvas. No outro dia até recebi um elogio de um hóspede. Era um galo muito bem parecido, com pinta de rico. Mas pronto, eu não posso pensar em casar-me agora e deixar para aqui a Gustava sozinha para sempre."
Guiomar continuou a falar sem parar até ao final da refeição. Entretanto, Gustava apareceu, continuando aborrecida.
"Então, já estão de partida ou quê?" perguntou ela.
"Não apresses os jovens, Gustava." disse Guiomar, zangada. "Tu és pior que uma ameixa podre a secar ao sol."
"Guiomar, eu exijo respeito! Sou a tua irmã mais velha."
"Isso sei eu, minha galinha chata. Agora deixa-nos mas é em paz."
Patareca, que estava a acabar de dar uma última trinca num pão, engasgou-se e caiu ao chão, começando a sufocar.
"Ai credo! A Patareca está a morrer!" gritou Pedro, em pânico. "Façam alguma coisa!"
Gabriel aproximou-se e saltou para cima de Patareca, que cuspiu o bocado de pão.
"Ufa, foi por pouco." disse Vanda, aliviada. "Estás bem, Patareca?"
Gabriel ajudou Patareca a levantar-se.
"Estou. Obrigada Gabriel, salvaste-me a vida. És o meu herói." disse ela, respirando de alivio e sorrindo.
"Estás a ver, são heróis e bem feitores." disse Guiomar, virando-se para Gustava. "E não sabem o caminho pela floresta, por isso eu vou com eles."
"O quê?" perguntaram todos ao mesmo tempo.
"Vou ser a vossa guia na floresta. Depois de chegarmos ao outro lado, vocês seguem o vosso caminho e eu volto aqui à estalagem." explicou Guiomar.
"Não podemos fazer isso, minha doidivanas! E quem é que me ajuda com os hóspedes? Não consigo fazer tudo sozinha." queixou-se Gustava.
"Calma. Eu ligo à nossa prima Guilhermina para te vir ajudar. Vá lá Gustava, estes miúdos já passaram por alguns dissabores e querem salvar a mãe da Vanda."
Guiomar explicou à irmã sobre a missão de Vanda e dos outros.
"Hum, estou a ver... está bem, vai lá com eles." disse Gustava, encolhendo os ombros. "Mas cuidado. Não me morras por lá, porque os funerais estão muito caros."
E assim, uma hora depois, Vanda, Gabriel, Pedro, Patareca e Guiomar estavam prontos a partir para a Floresta Sombria.
"Tenham cuidado. E não se metam em confusões!" gritou Gustava, ao vê-los afastarem-se.
O grupo entrou na Floresta Sombria e Guiomar levou-os até um trilho.
"Agora vamos seguir o trilho. Há vários por aqui, mas muitos fazem com que se ande em círculos. Como eu conheço bem a floresta, decidi oferecer-me para vos ajudar." explicou Guiomar.
"Obrigada. Foste muito simpática." disse Vanda. "Temos de nos apressar para salvar a minha mãe."
"Vamos chegar a tempo." disse Gabriel, confiante. "Ou então pronto, se chegarmos tarde, pode ser que ainda sobre um pedaço de bolo de noiva para nós."
Vanda lançou-lhe um olhar gelado e Gabriel calou-se.
Não muito longe dali, a raposa Rita e o morcego Malaquias entraram na floresta e não vinham sozinhos. Com eles vinha a raposa Raimunda, uma raposa velhota, mãe da Rita e que tinha uma pala no olho direito.
"Parece impossível, seres vencida por uma vaca, um gato, um porco e uma pata." disse Raimunda, abanando a cabeça. "És uma parvalhona, Rita. És a raposa negra de família!"
"Mãezinha, eles é que são maus..."
"Tu é que devias ser má, cabeça de alho chocho. Mas pronto, eu vou ajudar-te a vingares-te. Mas depois disso, vamos voltar para casa e tu vais casar, que já está na altura."
"Tenho mesmo de casar com o Malaquias?" perguntou Rita, duvidosa.
"Vamos ser muito felizes." disse Malaquias.
"Pois, deve ser. Ainda vou ter de aprender a dormir de cabeça para baixo..."
"Pára de te queixares." resmungou Raimunda. "Mais azar tive eu, que o meu primeiro marido era um texugo e cheirava muito mal. Depois casei com um pintassilgo e comi-o e depois casei com o teu pai e ele fugiu com aquela codorniz toda empertigada..."
"Não vale a pena estares a pensar no passado, mãe. Pensa no futuro. Vamos matar aqueles quatro e comemos todos menos o gato. Vai ser um banquete!"
Mais animados, o grupo de vilões seguiu o seu caminho, para encontrarem e matarem os heróis.
O grupinho dos heróis continuou o seu caminho pelos trilhos. Guiomar conhecia bem a floresta e guiava-os sem hesitar, além de que não parava de falar.
"E depois eu disse-lhe, Zé Galo, lá por tu estares aí a dizer que eu gosto de ti, não quer dizer que seja verdade. Vai mas é chatear outra, seu galo empinado!" exclamou Guiomar, gesticulando. "E foi nessa altura que ele veio na minha direcção, zangado e eu lhe dei um murro na crista. Pensei que ele me ia bater. Nunca cheguei a saber se ia tentar bater-me ou não, mas não lhe dei oportunidade."
"Que história tão... pouco romântica, mas eu gostei na mesma." disse Patareca, com ar sonhador, acabando por tropeçar numa raiz de uma árvore e cair no chão.
Os outros ajudaram-na a levantar-se e seguiram caminho.
"Sabem, temos de ter cuidado, porque a floresta é o território do temível Cícero." disse a Guiomar.
"Quem é esse tal Cícero?" perguntou Vanda, curiosa.
"É um rufia da pior espécie, que controla a floresta. Mas não deve haver perigo, a não ser que causemos problemas na floresta. Sabem, não conheço ninguém que alguma vez tenha visto o Cícero. Isto porque, diz-se que quem o viu, nunca mais voltou para contar como ele era."
Pedro engoliu em seco e estremeceu.
"Ai credo, não quero morrer e ser comido ou transformado em bacon..." murmurou Pedro.
"Connosco todos juntos, não vai haver problema, tenho a certeza." disse Gabriel, confiante.
O grupo continuou a caminhar. Chegaram perto de um dos rios que passava pela floresta, quando de repente, das árvores surgiu o morcego Malaquias e saltou para cima da Patareca, que caiu no chão. A raposa Rita e a sua mãe Raimunda apareceram logo depois, de garras prontas para atacar.
"Cuidado pessoal, eles querem matar-nos!" gritou Vanda.
Gabriel saltou logo na direcção do morcego Malaquias e começou a atacá-lo com as garras, para que ele deixasse Patareca em paz. Pedro começou a correr, enquanto a raposa Rita ia atrás dele.
A velha raposa Raimunda encarou Guiomar e Vanda.
"Vocês humilharam a minha filha. Está bem que ela é um bocado estúpida e burra, mas não a deviam ter humilhado. Agora vão morrer!"
Raimunda atirou-se para a frente, disposta a matar Vanda e Guiomar, mas elas saltaram para o lado. Guiomar baixou-se e gritou.
"Agora vais ver, raposa malvada! Ovo Míssil!"
Guiomar gemeu um pouco e de seguida um ovo saiu a alta velocidade do seu rabo, indo acertar na cara de Raimunda, que ficou atarantada. Vanda aproximou-se a correr.
"Toma lá! Cornada de Vaca!"
Vanda acertou com toda a força em Raimunda, que foi projectada pelo ar e embateu contra uma árvore, ficando estendida no chão.
O morcego Malaquias afastou-se de Patareca quando Gabriel lhe rasgou uma das asas com as garras.
"Vais ver! Garra de Gato!"
"Ultra Som!"
Malaquias emitiu umas ondas sonoras que deixaram Gabriel atordoado. Quando Marcelo se preparava para atacar, Patareca saltou para a frente de Gabriel, com um ovo na mão.
"Deixa-o o Gabriel em paz!" gritou ela, lançando o ovo na direcção de Malaquias.
Como Patareca não tinha muito boa pontaria, o ovo foi acertar numa árvore. De lá caiu uma colmeia, mesmo em cima de Malaquias, que começou a ser atacado por várias abelhas e saltou para o rio.
Pedro continuou a correr, com a raposa Rita atrás dele.
"Volta aqui, porco!" gritou ela. "Vou dar-te umas dentadas!"
Na atrapalhação da corrida, Pedro tropeçou e caiu. Rita saltou sobre ele, mas de seguida ouviu-se um som e Rita caiu ao lado de Pedro, agarrando o nariz. Uma nuvem de mau cheiro começou a formar-se ali.
"Credo! Seu malcheiroso!" gritou ela, continuando a tapar o nariz.
"Ora, eu sou um porco. É o meu ataque de flatulência." disse Pedro. "Só o uso em casos extremos."
Rita começou a sentir-se mal e saltou também para o rio, para se livrar do cheiro.
Vanda e Guiomar aproximaram-se de Raimunda, que se levantou lentamente.
"Vocês ganharam. São fortes. Eu e a minha filha nunca mais vos vamos incomodar." disse Raimunda. "Adeus."
Raimunda correu para o rio e saltou para lá também. Ela, Rita e Malaquias foram levados pelo rio até um grande lago longe dali. Saíram da água e entreolharam-se.
"Bolas, perdemos." disse Rita, zangada.
"E agora, chega de ires atrás daquele grupo. Eles são fortes e pronto. Agora, vais mas é casar com o Malaquias e teres uma ninhada de raposas com asas."
Contrariada, Rita voltou para a sua casa com a sua mãe Raimunda e o seu noivo Malaquias, que apesar de ferido parecia feliz por finalmente se ir casar com Rita.
O grupo dos heróis decidiu continuar a viagem pela Floresta Sombria.
E termina aqui o segundo capítulo. O grupo tem um novo membro, Guiomar, a galinha faladora e conseguiram livrar-se finalmente da raposa Rita, do morcego e de Raimunda. Agora a viagem continua pela floresta. Irão os heróis chegar a tempo de impedir o casamento de Mimosa e Tomás Touro? Não percam o próximo capítulo.
