Lara Croft

I - Egito, A Grande Pirâmide, 1999

O lugar era escuro e senti que todo o meu corpo doía. A última coisa de que me lembrava era de Werner tentando me salvar, não adiantou muita coisa. Tentei me levantar, mas a dor era tanta que desisti.

"O Paraíso não existe mesmo" Eu ri desse pensamento estúpido, por alguns segundos imaginei que estava morta.

- Não Lara, você não morreu, mas também não está nada bem...

Consegui achar minha lanterna. A cena não era nada agradável. A parte de cima, de onde eu acreditava ter caído estava totalmente escura, obviamente pedras devem ter obstruído a saída, sem contar a altura. Era incrível imaginar que sobrevivi daquela queda. De qualquer forma, minha situação não era das melhores, a areia havia encoberto minhas pernas, que estavam com diversos cortes. A dor que sentia ao tentar me sentar ou levantar vinha de um corte na minha barriga, além da dor de cabeça insuportável.

"Devo ter batido a cabeça em alguma pedra, pelo menos, me lembro de tudo o que aconteceu. Queria ter me esquecido de tudo..."

O lugar em que estava era pequeno, aparentemente não havia saída, mas eu deveria me levantar e procurar atentamente.

- É melhor eu tentar desinfetar esses machucados.

O kit de primeiro-socorro não adiantou muito, estava quebrado e sujo, mas consegui fazer um curativo muito mal feito no corte da barriga.

- Eu espero que Werner esteja feliz!Chore bastante seu maldito, achando que estou morta! – gritei, mancando pelo lugar a procura de alguma saída.

Depois de algum esforço achei uma pedra que poderia ser movida. A dor era enorme, mas consegui movê-la. A outra sala era maior, entretanto não era tão agradável. Era escura ou minha visão estava ficando cada vez mais turva. Fui caminhando lentamente até o que parecia ser um sarcófago de calcário, cada vez enxergando menos. Caí de joelho na frente do sarcófago, segurando-me em suas bordas, mas a dor era intensa. "Pode haver escorpiões aqui Lara! Sua fraca! Levante-se... levante-se...

Eu não sei quanto temo já havia se passado, mas sabia que tinha tombado no chão. A minha cabeça não suportava a dor e desmaiei. Ao acordar percebi que as coisas haviam clareado um pouco, minha cabeça ainda doía, mas agora pude me levantar sem sentir a pontada forte na nuca. A minha vista não estava mais escurecida e pela primeira vez reparei no tamanho da sala onde estava.

- O cheiro não é agradável, no entanto essa sala já deve ter sido muito suntuosa. As colunas estão gastas, aqui deveriam ter inscrições em hieróglifos. Maldição! Não consigo ler nada. Essas colunas tiveram suas inscrições destruídas. Não parece que foi o tempo que fez isso.

Ao longe pude ver o que seria a entrada para essa sala. Estava bloqueada por pedras.

- Alguém realmente não queria que descobrissem esse lugar. Nenhum explorador deve ter visto isso, aliás, são poucos que conhecessem os segredos da Grande Pirâmide, se os arqueólogos imaginassem o que existe dentro dessa pirâmide, um Templo intacto de Hórus! E agora acabo de descobrir outra coisa, de grande valor... E perigo talvez.

As colunas estavam dispostas em forma de círculo, observei atentamente cada coluna, mas era impossível entender o que estava escrito. As paredes também não possuíam qualquer tipo de entalhe. Eram puro calcário, sem figuras religiosas.

No chão havia diversos símbolos que formavam dois círculos, um dentro do outro.

- Ah! Algo que eu possa ler! – mas não tive tanta sorte assim – Estranho... Esses símbolos não são egípcios, nem se parecem com nada que conheça, nem mesmo com os símbolos de Atlântida.

Entretanto, havia uma inscrição que conseguia ler, estava no meio do círculo interno: "O caminho para a escuridão e a luz". Eu gostaria de saber o porquê dessa inscrição. Hieróglifos no meio de símbolos desconhecidos. Esse lugar está escondendo alguma coisa.

O que eu achava ser um sarcófago era na verdade uma mesa. "Talvez para rituais". Manquei até a mesa, não havia nada escrito, nem mesmo figuras.

- Esse lugar não parece ter nenhuma utilidade, não hoje em dia. Preciso achar a saída.

Havia dois dispositivos, parecidos com alavancas, perto da saída bloqueada.

- O que será que elas fazem? Não tenho muita escolha. A minha curiosidade já me trouxe tantos problemas, mas agora isso não vai fazer tanta diferença, se pelo menos isso me ajudar a sair daqui.

Com muito esforço consegui mover as duas alavancas e um barulho veio do fundo da sala, poderia ser alguma porta? Ao me virar observei confusa que os círculos do chão haviam sido levantados, o pequeno girava lentamente dentro do grande que permanecia imóvel. Aparentemente o círculo interno estava com uma coloração mais escura, como se houvesse algo além...

- Um portal? Não duvido de mais nada – respirei profundamente e hesitei por alguns segundos, não sabendo se estava fazendo a coisa certa.

- Isso é ridículo, não necessariamente se eu passar por aquele círculo vou encontrar algo diferente do outro lado... Vamos tentar.

Tudo ficou escuro novamente, me choquei com o chão.

II – O Outro Lado

- Eu não estava preparada para mais uma queda. Que lugar é esse? Onde está o portal que me trouxe para cá?
Levantei-me e observei o local. Tive um instante de felicidade ao perceber que estava em um morro à noite, havia árvores por toda a parte e um caminho de pedras.

- Eu saí da pirâmide! Que maravilha! Mas... Onde estou?

Minha alegria desapareceu na mesma velocidade em que veio.

- Preciso saber onde estou... Aquele portal estava em uma área supostamente proibida da pirâmide, não posso saber o que me espera.

Estranhamente reparei que não me sentia mal, a minha cabeça não doía mais. Ainda tinha diversos cortes no corpo, mas estava me sentindo bem.

- Acho melhor seguir este caminho, vou observar atentamente este local.

Ao caminhar senti que não estava sozinha, era como se centenas de olhos me observassem, sentindo o meu medo diante do desconhecido. Sentia-me zonza, fraca, como se algo sugasse toda a minha energia, a sensação era horrível, gritei e caí de joelhos. Já estava prestes a desmaiar quando tudo ficou silencioso. A tontura desapareceu. Sentia-me bem novamente. Até mesmo a sensação de estar sendo observada sumira.

- Mas que droga está acontecendo comigo? Desse jeito vou começar a pensar que não deveria ter saído da pirâmide, pelo menos eu sabia que estava no Egito.

Retomei a caminhar, a descida era íngreme. Ao longe notei uma espécie de templo, estava destruído e coberto de ervas. Ao me aproximar da antiga entrada do templo notei uma sombra ao longe, saquei minhas pistolas e caminhei lentamente, tentando distinguir a figura ao longe. Quando estava a poucos metros pude ver que era uma pessoa. Um homem. Vestido com um sobretudo todo azul. Seu cabelo era branco e penteado para cima, mas não aparentava ser velho. Ainda apontava minhas pistolas para o estranho e quando estava prestes a perguntar quem era o sujeito virou-se. De fato, não era um velho, seu rosto era bonito e jovem, apesar da aparentar certa frieza e até mesmo crueldade. Senti-me pesada perto dele, contudo não abaixei minhas armas.

- Quem é você?

- O que quer? – o estranho olhou diretamente nos meus olhos, seu tom era indelicado e frio.

- Você ainda não me respondeu quem é? – continuava apontando minhas armas para o estranho.

- Eu não preciso lhe responder nada. Tire essa arma da minha frente – além da estupidez senti ódio em seus olhos.

Antes de poder responder qualquer coisa ele tirou sua espada da bainha.

- Eu não terei medo em atirar em você se precisar. – meu olhar estava cada vez mais centrado no homem, não queria aparentar medo. Mas ele não parecia intimidado, ele estava apontando a espada na minha direção.

- Por que o portal se abriu?

Fiquei muda, o portal que me trouxe para cá, o que ele poderia saber sobre ele?

- O que você sabe desse portal?Eu preciso de respostas! – falei com raiva, tudo aquilo estava começando a me irritar.

O homem guardou sua espada, continua me fitando com o olhar intimidador e saiu, me deixando com mais dúvidas. Ao invés de segui-lo imediatamente, fiquei parada pensando.

"Tudo isso está me deixando nervosa, quem era aquele homem? Algo me chamou a atenção, me senti diferente perto dele... Esquece, vou continuar por onde ele saiu, quem sabe eu descubro mais alguma coisa, se ele quisesse me matar já teria feito isso."

O caminho por onde o estranho havia desaparecido era coberto por vegetação. Continue até ver ao longe uma luz, "seria uma cidade?" Talvez ele esteja me ajudando... A mata densa desapareceu repentinamente, dando lugar a um ambiente urbano. A escuridão me impedia de ver bem a cidade, mas havia diversos prédios, a aparência era de tristeza, a rua estava deserta. Senti um pouco de esperança, contudo estava em um lugar totalmente desconhecido, e deveria ter cuidado, o primeiro morador desse local não me apareceu muito amistoso.

Caminhei lentamente pela rua suja, havia garrafas quebradas no chão, o cheiro não era agradável, deveria estar na parte mais depredada da cidade. Ao longe notei um vulto se aproximando. Era difícil perceber por causa da escuridão, mas pude notar um sobretudo, antes que o vulto pudesse se aproximar mais me escondi em um beco.

"Será que é aquele cara? O que ele quer? Bom, ele estava vindo nessa direção, talvez ele tenha me notado... De qualquer forma vou me esconder, talvez eu tenha sorte"

Olhei para o vulto novamente, agora era nítido o cabelo branco.

"Ele está se aproximando, dessa vez ele não escapa"

Quando os passos estavam próximos saquei minhas pistolas e virei para o estranho, mas antes que pudesse imaginar qualquer reação, levei um chute na barriga. Caí no chão, escutei alguém falando bem perto de mim, enquanto estava me levantando:

"Então você é a festa? Não pensei que seria tão pouco... – o sujeito se aproximou com um ar sarcástico.

"Que engraçadinho..." – pensei irritada.