A grande mesa do pequeno apartamento de Bella já estava posta. Garfos, pratos, facas, taças... O vinho já havia sido escolhido. "O preferido do Lorde" Bella havia dito ao elfo doméstico. Até mesmo a iluminação havia sido posta de modo que agradasse ao Lorde. Regulus mantinha-se sentado em um dos sofás de Bella, rodando um anel que tinha no dedo anelar da mão esquerda. Vestia uma simples camisa branca e calças pretas. Ria-se todo da preocupação da prima em tornar tudo perfeito. Que grande importância tinha esse convidado? Era óbvio que já tinha ouvido falar do tal Lorde, mas de qualquer maneira não o impressionava muito.
Bella, por sua vez, havia se vestido de maneira esplendorosa. Um belo vestido preto que deixava suas costas aparecendo. Queria causar boa impressão para o Lorde. Virou-se para Regulus. Como ele podia estar tão calmo? Bella aproximou-se e tocou o rosto do primo com afeição.
-Estás pronto? –perguntou.
-Estou. –respondeu Regulus, parando de rodar o anel.
-Onde estão o paletó e a gravata? –perguntou inquisitorialmente.
-Ora Bella, não vejo necessidade. –respondeu displicente.
-Só deixo por ser você! –falou com um sorriso -Não é que tu és realmente belíssimo, meu primo! –disse Bella, passando os dedos pelos cabelos de Regulus e observando-o com atenção.
-Tu que és maravilhosa. –respondeu Regulus com um sorriso e beijando a mão de sua amada prima.
-A campainha! –disse Bella alarmando-se. –Seja bem-vindo, Milorde. –disse Bella fazendo uma exagerada reverência.
-Obrigado pelo convite Bella –respondeu Voldemort beijando a mão da garota enquanto encarava Regulus.
-Deixe-me apresentá-lo. Esse é meu primo Regulus. Regulus este é Lorde Voldemort.
-É um prazer –respondeu Regulus com um sorriso.
-O prazer é todo meu - disse Voldemort com um sorriso sádico e malicioso no rosto.
-Vamos nos sentar, então.
-Bella me contou que viestes morar aqui devido à morte de seus pais, não é, Sr. Black?
-Sim, senhor. –respondeu Regulus educadamente –Na realidade foi devido à morte de minha mã pai já morreu há muito tempo. Bella, então, ofereceu-me para ficar em sua casa. Não podia negar. Nada nego à minha bela e adorada prima. –terminou, beijando a mão de Bella e olhando-a com ternura.
-Percebo que são bem próximos.
-Apenas Bella me restou, Milorde. Toda minha família se esvaiu. Sirius, meu irmão, como o senhor já deve saber, nem ao menos quer me ver. Nem a mim, nem a nenhum Black.
-Entendo.
-Deixemos de falar sobre família. –disse Bellatriz percebendo que o assunto não estava de muito fluindo. –Conte ao lorde, Regulus, sobre seus novos dotes artísticos.
-Ora, Bella, não são grande coisa.
-Pois diga, estou interessado. –falou Voldemort olhando atentamente para os dois primos.
-Regulus começou a desenhar. –falou Bellatriz orgulhosa.
-Ora, Bella, sabes muito bem que tenho motivos para isso. Estou apaixonado, Milorde. –confessou Regulus.
-Apaixonado? A garota é tua namorada?
-Não senhor. –respondeu Regulus com um quê de frustração. –Vi-a apenas uma vez, no velório de minha mãe. Era tão bela, Milorde. Tão delicada, parecia até mesmo frágil. Foi como se eu avistasse o sagrado. Um anjo, entendes, Milorde?
-Como não! –respondeu Voldemort –Aprecio o belo tanto quanto você.
-Ela não havia me visto. Corri até onde se encontrava. E falei com ela. Disse-lhe que a achava bela. Às vezes, simplesmente não me contenho. Falei que parecia um anjo, o meu anjo. Milorde, ela se virou para mim, seus olhos azuis brilhavam como estrelas, e disse que o anjo ali era eu. Eu apenas sorri, fiquei sem reação. O senhor já ficou assim? Quero dizer, já se viu acuado e sentiu-se feliz por isso? Ora, não digas que não! É a melhor sensação do mundo. Ela, então, disse que tinha que ir, havia pessoas esperando por ela. Eu perguntei se nos veríamos de novo. Ela disse que se Deus assim quisesse. –Voldemort soltou um muxoxo -Ri-me do comentário. E ela já estava indo, quando eu a segurei e perguntei se ela iria me esquecer. Ela disse que não, mas que provavelmente eu iria. Então me deu esse anel. –terminou mostrando um anel prata em seu anelar esquerdo.
-Regulus não consegue parar de falar em tal moça, Milorde. Ando até mesmo curiosa por conhecê-la. E agora tenta desenhá-la.
-Em vão. –falou Regulus chateado. –Nunca conseguirei expressar toda sua beleza.
-E se a visse de novo, Sr. Black, que farias?
-Chame-me de Regulus, Milorde,já te vejo como amigo. Se eu a visse, ora, eu faria o óbvio: beijá-la-ia, amá-la-ia e ainda me casaria com ela.
-E se ela não te aceitasse? –perguntou Voldemort.
Regulus franziu o cenho.
-Isso não iria acontecer, Milorde.
-Ora, Regulus, já pensastes que tal moça pode muito bem rejeitá-lo?
-Milorde, isso partiria meu coração. –disse com a feição tristonha.
-Serias capaz de tomá-la a força?
-O que estás a perguntar? Obrigá-la? Nunca, milorde. –respondeu indignado. –Todas as minhas garotas foram conquistadas pelo convencimento. Com essa não seria diferente.
-Mas assim terias o que queria.
-Ora, Milorde, eu nunca seria capaz.
-Poderia forçá-la a amá-lo. –disse Bella tocando o antebraço do primo.
-Isso não seria amor! –respondeu Regulus indignado.
-Ora , Regulus, amor não é o mar de rosas que parece. Sabes bem disso, acredito. E as mulheres, perdoe-me pelo comentário Bella, elas não amam como nós, elas apenas se interessam por alguém, mas logo perdem o interesse, ficando caprichosas e humilhando aquele que lhe dedica tanto amor. Já se a obrigasse a amá-lo, ela seria temerosa e não lhe desobedeceria. Ficaria à sua mercê.
-Ora, Milorde, não concordo. Que achas melhor? Dar-te-ei três opções, três tipos de homens e quero que os defina. O tipo A, ao ver a mulher amada, pensa duas vezes e não vai ter com ela por qualquer motivo por nós desconhecidos. O homem B, ao ver a mulher amada, a agarra e toma-a para si com violência e força, tendo plena consciência de que ela não poderia se defender. Já o homem C, ao vê-la, aproxima-se e convence-a de que ele é o único que a faria feliz, podendo, desse modo, amá-la sem ser rejeitado. Qual achas o melhor?
-O B, Regulus.
-Não o entendo, Milorde. Prefere ter a mulher apenas de corpo, tê-la infeliz ao seu lado, sendo que pode tê-la de corpo e alma? O homem B é tão covarde quanto o A, Milorde.
-Ai que você se engana, Regulus. O homem B é o mais poderoso dos três. Ele pode impor sua vontade à conduta alheia. O amor da mulher é totalmente dependente da vontade de tal homem. O mais forte é o mais poderoso.
-Ora, Milorde, não pode sê-lo! Se o mais forte fosse o mais poderoso nós seríamos governados pelos gigantes! O poder, Milorde, está na capacidade de convencimento. Poderoso é aquele que através de argumentos impõe sua vontade.
-Não se engane, Regulus. Quando digo o mais forte não me refiro ao de maior força física, mas sim ao mais capaz.
-Isso não muda nada, Milorde.
-Pois, muda. Provar-te-ei que o homem C é apenas espécie da qual o homem B é gênero.
-Milorde, isso é absurdo.
-Regulus, acompanhe meu raciocínio. O homem C, que como eu pude perceber você nele se enquadra, conquista a mulher através de seu poder de convencimento, estou certo?
-Estás, Milorde. Com certeza é assim que acontece.
-Pois então, Regulus, como eu mesmo havia dito, o convencimento é um poder, ou seja, o homem que assim conquista uma mulher é o mais capaz dentre todos os outros homens em argumentar. Vê se te parece mais claro. Há vários homens tentando convencer tal garota de que ele seria o melhor para ela. Mas apenas um conseguirá tê-la, não estou certo?
-É forçoso.
-Então, apenas aquele que se mostra mais capaz terá o amor de tal mulher. E do mesmo modo que o homem B ele se aproveita da fraqueza da mulher.
-Como se aproveita de sua fraqueza, Milorde?
-Ora, Regulus, com plena certeza, muitos dos argumentos utilizados ou foram vazios de qualquer conteúdo ou eram forçosamente inválidos, inverídicos. O homem que conquista a mulher pelo convencimento aproveita-se de sua ingenuidade. É um tipo de homem B, no entanto, mais sujeito a falhas.
-O que dizes? Fico assustado com seus argumentos! Não consigo me ver como um homem B!
-Pois tu o és! E fique contente por isso. –falou Voldemort com um sorriso.
-Ora, Milorde, sinto-me um tirano agora.
-Não poderia sentir-se melhor. –respondeu Voldemort.
-Como podes dizer algo semelhante, Milorde? Como eu não poderia me sentir melhor?
-O tirano é o homem mais feliz, Regulus.
-Como pode sê-lo? –perguntou Regulus indignado.
-Ora, Regulus, consegues ver um homem que tem tudo que quer como infeliz? É forçoso que seja feliz! Terá todas as mulheres que quiser, todo dinheiro que precisar, todos objetos que assim desejar. É forçoso que seja feliz!
-Não consigo ver de tal maneira, Milorde. Tal idéia não entra em minha cabeça. Como poderia ser feliz se de todas as mulheres que tem nunca terá uma por inteiro. Será que por amar tal mulher não se sentirá infeliz com a infelicidade dela?
-Ora, Regulus, não seja tão sonhador. Sabes que todos somos egoístas, auto-interessados se preferir esse termo. As pessoas só pensam em si mesmas. A infelicidade alheia sempre é menor que a nossa, é sempre efêmera e desimportante. O homem tirano nunca perceberia que vive com uma mulher infeliz, viveria na ilusão de fazê-la feliz. Ela mesma o faria pensar assim. Ela o teme, mas prefere parecer que o ama.
-Milorde, ainda não compreendo.
-Um dia compreenderás! Ainda és muito novo, meu caro. Ainda tens muito que aprender. Mas acredito que por hoje é o suficiente. Bella, obrigado pelo maravilhoso jantar. –disse Voldemort levantando-se.
-Foi um prazer recebê-lo, Milorde.
-Regulus, foi um prazer conhecer-te. –falou, apertando a mão do garoto.
-O prazer foi meu. –disse Regulus pensativo. –Gostaria que ficasses mais. Ainda tenho infinitas dúvidas acerca do que discutíamos anteriormente.
-Regulus, seria uma falta de educação a minha se ficasse até altas horas na casa de uma donzela. Melhor que eu me vá e amanhã nós conversaremos.
-Ótimo, Milorde. –respondeu Regulus entusiasmado. –Aqui, as oito?
-Prefiro que tu vás à minha casa, meu caro.
-Por mim não há problema. –respondeu Regulus de prontidão.
-Se quiseres ir Bella, fique à vontade. –convidou Voldemort.
-Prefiro não atrapalhar a conversa dos homens. –disse Bellatriz com um sorriso.
-Então, fica assim: você, Regulus, amanhã as oito em minha casa.
-Está certo, Milorde. Até.
-Por que continuas pensativo, meu primo? –perguntou Bella ao perceber que Regulus jazia sentado com a mão no queixo, fitando a parede.
-Tu me achas um tirano? –perguntou.
-Ora, meu querido –disse Bella sentando-se ao seu lado –Veja pelo lado bom, tu serás dono de feitos grandiosos, não serás medíocre, meu primo, um futuro promissor te aguarda.
-Ora, Bella, tu não respondestes minha questão. Achas-me ou não um tirano?
-Na acepção do lorde, sim, eu te acho um tirano em potencial.
-Não me vejo como um.
-Ora, meu primo, eu nunca hei de conhecer alguém mais capaz que tu. És o garoto mais inteligente que conheço, não há feitiço que tu não sejas capaz de fazer, és belo, és rico, és nobre, és sangue-puro, estás fadado a ser grande! Se tu não dominares o mundo, não sei quem o poderia fazer. Basta usares o que tem.
-Que direito tenho eu de valer-me de tais características para impor minha vontade?
-Tens o direito dos extraordinários, meu querido. Tu podes tudo.
Regulus apenas balançou a cabeça.
-Pára de ver o tirano como alguém ruim, Regulus. Ele não o é. Essa acepção é dada por aqueles que não podem sê-lo. Aqueles que não são extraordinários.
-Se tu dizes...
-Vai dormir, agora. Amanhã conversarás com o Lorde a respeito.
-Boa noite, Bella.
-Boa noite, querido.
