Disclamer: Saint Seiya e seus personagens não me pertencem. Direitos reservados aos seus detentores.
Comentários da autora: Este capítulo muda um pouco o tom leve da fic, mas não se preocupem, pretendo voltar as minhas origens, entretanto o tema pede um pouco de reflexão. Este capítulo não foi betado, então perdoem possíveis erros.
Agradecimentos pra lá de especiais: Áries Sin, amiga querida, pelos toques quanto a finalização do capítulo. Theka Dreams e Lhu-Chan por me aguentarem no MSN tentando saber o que fazer com essa história.
Boa leitura! E.. please... não deixem de comentar!!
O filho do Escorpião II
Camus olhou bem para a mulher a sua frente. Era belíssima. No fundo sentiu-se envaidecido pela mulher que fora desprezada por Milo. Fechou os olhos, afastando qualquer tipo de sentimento tentando concentrar-se. O escorpiano olhava para ambos catatônico, jogado na cadeira.
- Bom, acho que temos um problema aqui. A senhora diz que tem um filho dele, ele nada diz e eu, sinceramente, apesar de compreender de certa maneira o que aqui acontece, gostaria de ter mais detalhes antes de emitir qualquer opinião. Para tanto creio que devemos conversar de maneira civilizada, e não creio que este seja o lugar nem o momento mais apropriado. Mas, se a senhora tem um filho de dois anos, onde ele se encontra?
Antes mesmo que a mulher pudesse falar alguma coisa seu telefone tocou. Ela atendeu nervosamente.
- O QUE?! Não é possível! Irei imediatamente! – desligou o telefone e virou-se para Camus – Acho que você tem razão. Precisamos conversar, mas não posso agora. – Virou-se apressadamente para ir embora.
- Espere. Como poderei encontrá-la? E, não me respondeu onde está a criança.
- Onde está a criança?! Esta peste de dois anos acabou de quebrar uma cadeira de madeira sobre a professora da creche! – abriu a bolsa nervosamente e tirou um cartão – Eis o meu telefone. Não creio que ele vá me ligar, mas... deixa pra lá, preciso ver meu pequeno e o que realmente aconteceu.
Da mesma maneira atabalhoada que a mulher apareceu, sumiu. Camus ficou mudo com o cartão na mão. O cérebro a analisar o mais friamente possível a situação. Uma criança de dois anos que quebra uma cadeira de madeira sobre uma pessoa adulta só poderia mesmo ser filha de Milo. O mesmo gênio e a mesma força. Começava a ficar com pena da mulher. Agarrou o amante pelo braço.
- Vamos embora agora.
Os lanches ficaram abandonados sobre a mesa praticamente intactos. Milo seguia Camus como um zumbi sem compreender o que o outro falava. Sua cabeça só conseguia atinar uma única frase. "Eu tenho um filho, como isso foi possível?" Entrou no carro silencioso. Jogou as bolsas de compras no banco traseiro automaticamente. Não tardaram muito a chegar ao Santuário. Subiram diretamente para o templo de Escorpião sem dar atenção aos demais. Finalmente, sentado no sofá, ou melhor seria dizer, jogado sobre o sofá, pronunciou a primeira frase coerente.
- Camus, e agora?
Camus suspirou. Já perdoara Milo pelos erros passados. Adiantaria alguma coisa repreendê-lo agora? Apesar de saber a resposta, as palavras escapuliram de sua boca sem que pudesse controlar.
- E AGORA?! Eu tenho sempre que resolver as besteiras que VOCÊ faz? Seja homem ao menos um vez na vida! Faça alguma coisa. Ignore, grite, berre, assuma a besteira que fez, case-se com ela. Não importa o quê, mas faça alguma coisa, Milo!! Será que nunca é capaz de pensar nas conseqüências do que faz? Nunca ouviu falar naquele negócio de borracha que as pessoas comumente chamam "camisinha"? – Camus estava vermelho, exaltado, caminhava de um lado para o outro como se isso pudesse resolver alguma coisa. Calou-se quando viu as lágrimas abundantes do amado.
- Eu não sei que atitude tomar. Se a criança é realmente meu filho, eu não sei o que pode acontecer e, quanto à camisinha, eu usei sim, mas estourou! Merda, Camus! Merda, merda, merda! Eu sei que fui irresponsável, inconseqüente e qualquer outra coisa do gênero que queira me acusar, mas eu mudei e por isso estou confuso. Se fosse naquela época eu simplesmente diria a ela para abortar ou me esquecer. Mas hoje não! Não sou mais assim! – o discurso foi interrompido por um soluço dolorido. Um filho! Tinha um filho! Seu sangue!
Camus secou delicadamente o rosto de Milo. Suspirou. Ele realmente mudara. Nunca mais fizera nada que pudesse ser seriamente repreendido. Saía sim, mas voltava em horário normal, parara de beber exageradamente, dedicava-se aos treinos, resolvera cursar a Universidade e estava se tornando um ótimo biólogo. Estava sendo injusto.
- Desculpe.
- Não deve se desculpar. Você tem razão. Estamos nervosos demais, confusos demais, todavia creio que precisamos deixar as acusações de lado. Camus, vai me abandonar?
- Te abandonar? Enlouqueceu de vez?
- Você tem todo o direito de fazê-lo...
- E vontade também, que isso fique claro. Só que não irei deixá-lo, eu não suportaria viver longe de você, a não ser que queira casar-se com a mãe de seu filho.
Silêncio. Ambos calaram-se. Estavam começando a trilhar um caminho perigoso demais, que talvez não tivesse volta. Mãos se entrelaçaram. Olhos se encontraram. Amor. Abraçaram-se. Os cabelos se misturaram, as lágrimas se misturaram. Separaram-se dolorosamente.
- Camus, vamos parar de falar besteira, de pensar besteira. Eu o vi conversando com ela. O que você acha, a criança que ela falava deve ser mesmo minha?
- Eu tenho certeza absoluta. – Camus então contou a Milo o curto diálogo que tivera com a mulher antes dela evaporar.
- Tudo isso parece um pesadelo, mas as evidências não enganam. Preciso ligar para ela.
- Precisa sim. Quer que eu o acompanhe, ou prefere resolver esse assunto sozinho?
- Camus, este assunto, no final das contas, diz respeito a nós dois, mas eu tenho que resolvê-lo. Se você quiser me acompanhar, será muito bem vindo. Caso ache melhor não, não irei forçá-lo ou repreendê-lo.
- Pois eu faço questão de estar junto, nem que seja para ajudá-la a matá-lo.
Milo sorriu com o gracejo. A convivência estava fazendo muito bem aos dois. Ele mesmo estava mais centrado, por outro lado, Camus abrira-se mais para a vida.
A tarde findara, a noite caíra e os encontrara da mesma maneira, sentados no sofá, catatônicos, cada um ensimesmado em suas próprias reflexões. Um estrondo foi ouvido no Templo de Escorpião. Chuva. Milo levantou-se, rumou para a varanda. A tempestade que assolava o Santuário parecia uma ironia. Deixou que a chuva molhasse seu corpo e se misturasse com as lágrimas. Estava na hora de deixar de ser covarde. Camus apenas o observava de longe. A mudança de menino para homem era perceptível, palpável. O Cavaleiro de Escorpião voltara para dentro do templo, não se preocupando com as gotas que molhavam o assoalho. Pegou o cartão sobre a mesa. Dra. Catarina Nikolaievich, terapeuta. Discou para o telefone que estava sob o nome.
- Boa Noite, sou eu, Miro. Estou ligando para que possamos conversar acerca do assunto que ficou inacabado hoje no shopping.
Só ele sabia o quanto aquelas palavras eram difíceis de serem proferidas. Queria acordar daquele pesadelo e ao mesmo tempo desejava que a criança fosse sua. Gostaria de ter uma pessoa que fosse sangue do seu sangue e, gostaria de poder dar a esta pessoa o que não tivera quando mais necessitara.
"Pensei que não fosse ligar, me surpreendeu, ponto para você. Realmente precisamos conversar. Peço desculpas pela minha reação no shopping, mas você não faz idéia do que se tornou a minha vida desde que o pequeno Hector nasceu. Amo meu filho, mas ele é diferente de qualquer criança que jamais vi."
Milo compreendia a mulher mais do que ela mesma era capaz. Uma criança com sangue de cavaleiro, com cosmo de cavaleiro. O avô de Saori adotara centenas de crianças através da fundação, mas poucos foram aqueles que tinham condições de serem cavaleiros. Era raro, especial e difícil para quem não conhecia o poder do cosmo.
- Faço idéia que sim, se realmente for meu filho. Você nunca me achou porque realmente existem coisas na minha vida que não posso contar a qualquer pessoa. Você terá de saber, mas tem de estar pronta a acreditar no inacreditável.
"Tudo que me falou é mentira? Seu nome é mesmo Miro?"
- Nem tudo que falei é mentira, meu nome é Milo ou Miro, depende da pronúncia. Realmente trabalho para uma organização filantrópica, a Fundação Graad, mas tem mais, muito mais. E é esse mais que pode explicar a "diferença" que você vê em seu filho. Ele provavelmente é especial, mas muito mais especial do que você sequer é capaz de sonhar. Está pronta para acreditar?
Catarina emudeceu. O que aquele homem teria a contar, a mostrar, que necessitasse tanto que ela estivesse pronta a acreditar?
"Você é mesmo gay?"
Milo riu. De tudo que ela teria que saber, esse detalhe era o menos relevante. Ela precisava estar pronta para acreditar. Seria confrontada com uma realidade que para a humanidade era apenas lenda. Como contar que já morrera? Como contar que era capaz de circundar o mundo em poucos minutos apenas correndo? Encostou a cabeça na parede. Acalmou-se. Por partes, tudo deveria ser mostrado e explicado por partes, pelo bem da criança, pelo bem de seu filho.
- Sim, sou. Aquele homem que me acompanhava no shopping é meu companheiro. Eu gostaria de conhecer a criança. Você gostaria de conhecer a minha casa?
Ela pensou. E se ele fosse um psicopata qualquer? Se quisesse fazer algum mal a ela e ao filho? Por outro lado, só ele teria as respostas e não conseguia ver ou sentir maldade naquele homem. Não era uma escolha fácil. Deu-se a ele inconseqüentemente, deveria estar pronta para o que o futuro reservara. Entregou-se e ao filho na mão de Deus. Aceitaria a proposta dele.
"Sim, eu gostaria."
- Irei buscá-la. Estarei aí em poucos minutos. Mora no endereço do cartão?
"Sim. Estaremos prontos."
O telefone fora desligado. Estava feito. Agora não tinha mais volta. Em apenas um dia, toda paz, estabilidade e simplicidade que conquistaram fora jogada por terra. Camus olhou para Milo pesaroso. A intimidade deles seria completamente invadida por uma estranha, mas era necessário. Existia uma criança inocente, especial, que não merecia ter o mesmo destino de abandono, dúvidas e dor que eles mesmos tiveram na infância. Deixaram de ser importantes em prol do futuro e quiçá em prol do Santuário e da Deusa.
- Vá, você está fazendo a coisa certa.
- Obrigado. Precisarei muito de seu apoio.
- O terá.
Milo secou-se, vestiu uma roupa simples e discreta. Pegou as chaves do carro. Desceu as escadarias pensando em como explicar quem era, mas não tinha outro jeito, teria de fazê-lo de uma forma ou de outra. Então que fosse logo. Quanto antes as coisas se esclarecessem antes elas se resolveriam, para melhor ou para pior.
-- X --
Hector corria impaciente pelo pequeno apartamento. O espaço não era o suficiente para ele. Um toque de telefone. Ele chegara. Catarina pegou o garoto pelas mãos e desceu as escadas. Um belo carro estava parado à porta de sua residência. Pelo menos, aparentemente, aquele homem poderia ajudá-la a dar uma criação digna para o filho. Não passava necessidade, mas sonhara dar ao filho a melhor educação possível, todas as possibilidades.
Quando a criança se aproximou, Milo sentiu imediatamente o poderoso cosmo que crescia dentro de um menino de apenas dois anos de idade. Certamente era seu filho, não precisava de mais prova alguma. Elevou seu próprio cosmo chamando pelo garoto. Como por encanto, Catarina assistiu atônita uma aura dourada envolver o homem e a criança que acalmou-se como por encanto, andou em direção ao cavaleiro e aninhou-se em seu colo. O filho nunca se aproximava de ninguém, não deixava-se ser tocado por outra pessoa além dela própria e mesmo ela não conseguia acalentá-lo daquela maneira. Sentiu uma ponta de ciúme como se a criança, apesar de ter saído de dentro dela, na verdade, pertencesse àquele desconhecido.
Milo aninhou o pequeno em seu colo. Seu coração abrandou-se. Era seu filho, viu-se quando pequeno. Jurou, naquele momento, que não deixaria que seu rebento sofresse abandono, rejeição, medo de si mesmo. Daria ao filho o amor que todo ser humano merecia ter e mostraria a ele que é possível ser feliz, mesmo com a responsabilidade que a diferença de sua natureza acarretava.
- O que você fez, o que aconteceu aqui?
- Isso faz parte do que sou e do que ele é. O nome disso é cosmo. Uma força interna que todo ser humano tem, só que em alguns é mais desenvolvida, este é o meu caso e o caso de nosso filho. Ele é muito novo, não sabe como controlar o cosmo, eu mesmo levei anos para aprender. Eu apenas alinhei a minha energia com a dele e a controlei, por isso ele se acalmou.
- Eu posso fazer isso?
- Talvez, com treino, se quiser, possa desenvolver sua própria cosmo-energia, acredito que a sua não deva ser desprezível, caso contrário a dele não seria tão forte. Mas só Athena poderá dizer alguma coisa. Nunca testei ou treinei uma pessoa adulta. Realmente não saberia afirmar assim, de supetão.
- Athena, a Deusa? Não me faça rir. É apenas mitologia.
- Não, não é. Athena existe, está viva e encarnada. Você irá conhecê-la, bem como a seu Santuário e a seus guardiões. Eu sou um deles. Cavaleiro de Ouro da Constelação de Escorpião. Milo – ou Miro se preferir – Scorpion.
- Não sei se estou pronta para acreditar.
- Se quiser ver acompanhe-me.
Milo entregou o garoto adormecido em seus braços à mãe e entrou no carro. Abriu a porta e aguardou. Para Catarina era tudo muito novo, muito estranho. Resolveu seguir seus instintos e acompanhá-lo. O caminho não foi longo. Chegaram rapidamente a um enorme portão que abriu-se automaticamente. Não conseguia ver muita coisa além, era como se uma bruma escondesse tudo. Milo estacionou o carro.
- Daqui em diante seguiremos a pé. Deixe-me levá-lo são muitas escadas. – pegou a criança nos braços novamente, era leve como uma pluma. – Siga-me. – andou por uma pequena trilha e logo as 12 casas descortinaram-se a frente de uma estupefata mulher.
Observou o semblante de Catarina alterar-se, a surpresa, o susto, a descrença, o medo alternavam-se. Não conseguia supor nem parte do que ela poderia estar sentindo, para ele tudo sempre fora natural. Crescera em um orfanato e ali. Isolado do mundo "real" em sua própria verdade. Sentia necessidade de consolá-la, mas não tinha esse direito. Não deveria magoá-la mais oferecendo algo que nunca poderia dar. Ela precisava aceitar e acreditar por si mesma. Vestiu uma máscara de impassibilidade que estava longe de sentir e começou a narrar, como um atencioso guia turístico.
- Estas são as casas dos guardiões de ouro de Athena, um para cada signo do Zodíaco. Venha, o caminho é longo, caso sinta-se cansada, eu a levo, não há problemas.
- Você agüentaria subir essas escadas comigo e com ele no colo?
- Sem problema algum e muito mais rápido do que você é capaz de supor, mas vamos como pessoas normais.
Começaram a subir as escadas, parando em frente ao templo de Áries. Mu, seu guardião, não encontrava-se em casa, provavelmente estaria em Virgem. Apenas esticou a mão apresentando o primeiro templo do Zodíaco. Pediu passagem a Aldebaran, que simplesmente acenou com a cabeça, percebera algo estranho, sentira o cosmo da criança adormecida, dessa vez Milo estava realmente encrencado. Saga esboçou uma pergunta, mas calou-se diante do olhar de Milo. Tão logo passaram a casa de câncer, Catarina ofegava.
- Deixe-me levá-la.
Ela acenou, sem fôlego até mesmo para responder. A subida até ali fora longa e íngreme. Observou o homem a seu lado, nem mesmo uma leve gota de suor, era como ele não tivesse dado mais de dois passos. Hector continuava adormecido no colo do pai. Milo entregou-o a ela e pegou ambos no colo. Acelerou um pouco o passo, que a ela pareceu uma correria desabalada. Em poucos segundos estava a porta de sua própria casa. Camus os aguardava. Sentira o cosmo do amado a chegar.
- Seja bem vinda a nossa casa. Templo de Escorpião. Sou Camus, o Cavaleiro da Constelação de Aquário. – olhou para mulher sem fôlego a sua frente – Milo, até onde ela subiu sozinha?
- Depois de câncer.
Camus apenas sacudiu a cabeça e abriu passagem, indicou a ela o confortável sofá.
- Vou pegar água, descanse, temos muito tempo aqui.
