Caius pov
Talvez
um dia eu serei um homem honesto
Até agora estou fazendo o
melhor que eu posso
Longas estradas, longos dias, do nascer ao
pôr do sol
Nascer ao pôr do sol
Sonhe, irmão, enquanto
você pode
Sonhe, irmã, eu espero que você encontre aquele
Eu via o ódio queimando no fundo de seus olhos. Ela não chorava, não mais me desafiava ou ia contra as minhas ordens, mas a semente da revolta estava lançada e era nutrida diariamente. Athena era perigosa, sorrateira como um gato de rua. Mesmo quando não falava, ou parecia ignorar a movimentação ao seu redor, ela calculava seu próximo passo.
Seduzi-la era uma tarefa difícil. Às vezes ela atuava tão bem em seu número de fragilidade que eu chagava a acreditar no progresso. Aro me alertou algumas vezes sobre a habilidade de dissimulação dela, mas eu não dei ouvidos. Somente Dydime parecia ter algum afeto genuíno da escrava, mas isso não foi o bastante.
Aparentemente ela reparou em algum padrão nas minhas saídas para caçar, assim como meus sentidos apurados. Eu me sentia seguro em saber que ela ficava trancada em meus aposentos, mas as vezes em que ela atendeu ao chamado de Dydime lhe permitiam uma maior conhecimento da planta da casa.
Bastou uma oportunidade para que ela usasse seu plano friamente calculado. Ainda não sei como, mas Athenodora conseguiu escapar e foi esperta o bastante para o fazer minutos antes do nascer do sol de um dia claro. Ela se escondeu em carroças, zanzou pelo mercado onde seu cheiro se misturava com o de outros humanos e tentou sair da cidade, tomando o cuidado de estar sempre em áreas movimentadas o bastante para que eu não pudesse agir sem chamar atenção.
Ela foi perfeita, mas nem mesmo ela conseguiria parar o sol e impedir a noite de me ajudar. Assim que Nyx cobriu a terra com seu manto eu me lancei na busca pela minha escrava fugitiva, minha Athena. Não foi difícil encontrá-la quando tínhamos em nossa guarda um rastreador.
Nós a encurralamos em um beco quando ela saiu de uma hospedaria. Ela tentou correr, mas foi inútil. Depois de capturá-la voltamos para casa e eu fiz questão de que ela fosse acorrentada. O meu ódio pela insubordinação dela era indescritível, mas não era nada comparado a angustia de quase tê-la perdido. Cogitar a idéia de vê-la morta, ou de não vê-la nunca mais me atormentava ao ponto de beirar a mais absoluta neurose.
Por mais que o ato dela justificasse uma punição exemplar decretada por Aro, ou até mesmo uma ordem para transformá-la, isso não aconteceu num primeiro momento. Com tudo, eu mesmo me encarreguei de puni-la.
Ela foi acorrentada nua sobre uma mesa. Costas e nádegas expostas, uma visão que turvava meu objetivo. Eu não usaria o chicote para evitar que ela sangrasse. Com uma verga eu a açoitei por vinte vezes, até que o cheiro de sangue começasse a ficar mais evidente, e a cada grito dela eu sentia um prazer e desejo monstruoso de que ela não fosse mais humana e eu pudesse possuí-la ali mesmo.
Terminado o açoite eu me inclinei sobre o corpo nu dela. As lágrimas marcavam o rosto vermelho enquanto ela tremia de frio com a proximidade dos corpos.
- Abusou de minha paciência, Athena. – sussurrei – Esta é apenas parte da punição por ter fugido.
- Me mate. – ela pediu com a voz embargada – Me mate logo!
- Isso é algo que eu não farei! – rugi – Implore e suplique o quanto quiser, mas a morte não virá para você! – eu a soltei e cobri com meu manto.
Todas
nossas vidas cobertas pelas areias do tempo
Gaste seus dias
cheios de vazio
Gaste seus anos cheios de solidão
Desperdiçando
amor numa carícia desesperada
Sombras rodopiantes de
noites
Sonhe, irmão, enquanto você pode
Sonhe, irmã, eu
espero que você encontre aquele
Deixei a sala furioso e quando cheguei a sala dos tronos os olhos de meus irmãos caíram sobre mim. Sulpicia me achava louco, Marcus estava confuso por minhas ações serem tão opostas aos meus sentimentos. Dydime estava horrorizada com minha atitude e eu não a culpava por isso. Mas era Aro meu verdadeiro problema.
- Me diga, irmão. – Aro falou com voz grave e sombria – PRO QUE MOTIVO ELA AINDA VIVE?!
- Foi você quem me deu a escrava e o poder de fazer dela o que eu desejasse. – respondi ainda contido.
- Isso antes, quando eu confiei em sua capacidade de discernimento! – Aro rugiu – Você a deixou escapar! Colocou nosso segredo em risco e por muito pouco não feriu a lei que tanto ama!
- Não acontecerá outra vez. – respondi baixo, como uma criança que acaba de ser repreendida pelo pai zangado.
- É CLARO QUE NÃO ACONTECERÁ! – Aro se atirou contra mim, me lançando contra a parede de mármore. – Eu mesmo vou matá-la! – nessa hora meu resquício de razão se esvaiu e quando dei por mim eu já havia arremessado meu irmão pela sala e meus dentes estavam a milímetros do pescoço dele.
- ELA É MINHA! – minha voz era um trovão – Se encostar nela eu mesmo arrancarei a sua cabeça, Aro!
- Como ousa me ameaçar?! Ingráto miserável! Somos sua família! Eu sou a lei do nosso mundo! – Aro gritava ainda imobilizado.
- Tente fazer mal ao que me pertence e eu não só lhe darei as costas, como também vou lutar para que perca tudo o que ama! Poder, riqueza, sua coleção de talentos, até mesmo sua amada esposa! Destruirei tudo!
- Caius, já chega! – Marcus me afastou de Aro e Dydime veio com ele tentando me acalmar. Sulpicia se colocou entre mim e Aro com os dentes a mostra e sedenta para me atacar.
- Não encoste em meu marido outra vez! – ela gritou – É tudo culpa da maldita escrava humana!
- Cale a boca, Supicia! – rebati.
- Não fale com a minha esposa neste tom! – Aro ordenou enquanto abraçava a mulher – Não vou matar sua preciosa escrava, mas ela não pode e NÃO VAI permanecer humana! Seu castigo pela imprudência e incompetência é transformá-la. O que fará com ela depois não me interessa. Case-se com ela, continue usando-a como escrava, liberte-a, mas humana ela não permanecerá! – respirei fundo tentando recuperar a calma. Meu tempo havia acabado e eu não iria nem contra a lei nem contra meus irmãos.
Aro tinha razão. Eu fui incapaz de controlar uma humana e minha obsessão por ela havia turvado meu discernimento. Athena havia criado sua própria sentença e eu teria que executá-la. Quando voltei ao quarto ela havia caído no sono agitado da exaustão, as costas ainda estavam vermelhas pela surra.
Me aproximei dela sem fazer barulho algum. Toquei as marcas da verga com meus dedos frios, mas ela não despertou. Me inclinei sobre ela e rocei meus lábios contra o pescoço antes que eu permitisse que meus caninos fossem enterrados na carne tenra.
O sabor doce inundou minha boca como um jorro de fogo e prazer líquido, enquanto eu me agarrava ao corpo dela, descontrolado pelo gosto luxurioso do sangue. Meus olhos não viam, meus ouvidos não escutavam. Tudo estava enterrado num mundo fora de foco e só o corpo débil em meus braços, o grito excruciante e o gosto único pareciam reais. Era paraíso e o inferno ao mesmo tempo. Mas a pesar do frenesi e do descontrole, eu consegui parar.
Na batalha entre o meu desejo por seu sangue e meu desejo por ela, já não era mais possível para eu imaginar um dia sem a presença dela. Athena abriu os olhos e de sua boca saiu o grito aterrorizante da transformação. Segurei sua mão e permaneci ao lado dela, ouvindo o som angustiante de uma vida sendo transformada. O coração acelerado lutava contra o veneno implacável que queimava em suas veias, fazendo com que ela sentisse a sensação de ter seu corpo lambido por chamas invisíveis. Gritos eram inúteis, inevitavelmente acabávamos desistindo deles quando se mostravam como apenas uma forma desnecessária de gasto de energia e não tinham qualquer efeito sobre a dor. Fiquei imóvel ao lado dela por exatos três dias.
Estaria ao lado dela quando seus olhos fossem vermelhos e sua pele marmorizada. Seria eu seu guia na imortalidade, seu guardião, seu deus protetor. A jovem Perséfone seria recebida de braços abertos em meu inferno particular. Eu e ela seriamos os senhores da morte.
Ao final do terceiro dia o coração se calou num ultimo esforço e pálpebras se ergueram, revelando dois rubis sangrentos. Ela permaneceu deitada por um tempo, deslumbrada com os efeitos de luz e sombras, os grãos de poeira, a nitidez dos sons do outro lado da rua. Athenodora não olhou para mim, mas meus olhos não conseguiam desviar dela.
Não havia na terra alguém como ela. Deusas se enfureceriam por inveja de sua beleza. Magnífica, ela se levantou do leito e flutuou pelo quarto. O farfalhar de suas roupas soava tão harmônico que me lembrava música. Desafiando minha própria sorte, eu fui até ela. Aquela era uma atitude imprudente, mas a própria pele alva me instigava ao toque. Eu a abracei a pesar da confusão que Athena pudesse estar sentindo e da força descontrolada de um recém nascido. Ela não tentou me afastar, mas imagino que até mesmo uma estátua ou uma pilastra do templo teria reagido mais.
- É uma questão de tempo até que se acostume com tudo. – sussurrei para ela – Vou ajudá-la com isso.
- O que fez comigo? – ela perguntou num tom inexpressivo e estranhamente harmônico e claro.
- Lhe dei sementes de romã, mas foram bem mais que seis. – ela acenou com a cabeça compreendendo a metáfora, enquanto seus olhos percorriam cada pedaço do aposento e sua cabeça fazia cálculos inúteis e fascinante num primeiro momento.
- Achei que estava morrendo e que as chamas no inferno estavam tão próximas que lambiam meu corpo, mas o senhor é um homem de palavra. A morte não veio. – ela murmurou – Por que não me matou?
- Eu não poderia. – foi minha resposta. Eu a rodei entre os meus braços para que ela me olhasse – A eternidade é algo insuportável para mim, ou era. Não consigo mais suportá-la, não sem você, Athena.
- Sinto que posso matá-lo agora. Com minhas próprias mãos. – os olhos dela endureceram.
- Está certa, mas o que faria depois de me matar? Quem lhe ensinaria a viver sua nova vida?
- Seus irmãos o vingariam. – ela concluiu o raciocínio – Minha garganta queima. Doi muito! – ela choramingou.
- É a sede. – acariciei o rosto dela – Vamos cuidar disso, mas sempre que se alimentar terá que ser discreta. Os humanos não entendem o que somos.
- Uma vida nas sombras...
- Não estará sozinha. Tudo aquilo que precisar ou desejar, eu providenciarei. – meus dedos pousaram sobre os lábios dela. – Athena...
- O que é, mestre? – minha mão direita alcançou a nuca dela e a trouxe para junto de mim.
- Agora eu posso... – meus lábios roçaram os dela – Beijá-la – então em minha boca tive o fato consumado. O novo sabor de Athenodora me fez esquecer por um momento que algum dia houve um mundo no qual eu me encaixava, uma família a qual eu pertencia. O fim dos tempos havia chegado e havia agora um novo mundo para mim entre os braços dela.
Ainda naquela manhã pedi que algum escravo de menor valor fosse levado à câmara. Foi com horror que Athena percebeu o quão implacável a sede poderia ser. Me assombrava o cuidado que ela tinha com a vítima. Ela era incapaz de refrear o impulso de matar, mas uma vez que a presa estava morta Athenodora a tomava com carinho em seus braços e por meia hora ela permanecia imóvel, com os olhos ainda mais vermelhos, cantando qualquer coisa num esforço de ajudar a alma da indigna pessoa morta a fazer a passagem.
Aquilo me encantava, mas eu não conseguia evitar o ciúme e a inveja que o cuidado dela provocava em mim. Quisera eu ser digno de tal graça.
Todas
nossas vidas cobertas pelas areias do tempo
Os momentos passam e
as linhas estão em sua mão
Em seus olhos eu vejo o desejo
E
o choro desesperado que rasga a noite
Gaste seus dias cheios de
vazio
Gaste seus anos cheios de solidão
Desperdiçando amor
numa carícia desesperada
Sombras rodopiantes de noites
Nota da Autora: É, eu sei que demorei e que o capítulo tá pequeno. Esse é o ponto de mudança e agora Athena finalmente é uma imortal. Se alguém tem esperanças de que o Caius se torne menos obsessivo, ou que ela seja menos traiçoeira, acho bom pararem por aqui. Espero que gostem e comentem. Bjux.
