Enfeitiçando Morcegos

por Marmaduke Scarlet

"Eu não vou fazer isso. Não vou, não vou, não vou."

Revirei os olhos. Era a qüinquagésima vez que a Lily dizia isso em dez minutos. O que complicava um pouco a minha vida, visto que eu não poderia fazer aquilo sozinho.

Bom, na verdade, acho até que poderia, mas ia me levar um milhão de anos e bom, o trabalho também era dela.

"Ah, pelo amor de Merlin, Lily, não é tão complicado."

"Crueldade com os animais", ela disse, "Isso é uma crueldade com os animais. Me recuso a fazer parte".

"Nós não vamos machucá-los, Lily" respondi, tentando convence-la. É claro que aquilo não ia causar nenhum dano aos pobres dos bichinhos – a não ser, talvez, privá-los de uma noite ao ar livre, mas, se é verdade que morcegos vivem uns trinta anos, uma noite não era um sacrifício assim tão grande. Sinceramente, ela achava mesmo que eu ia me comprometer a fazer algo que machucasse meus amigos da Floresta? Se alguém aqui defende os direitos dos animais, sou eu.

"Por que não podemos usar... sei lá... dobraduras de papel?"

"Você sabe fazer dobraduras em forma de morcego?" Por favor, diga que não. O trabalho já é bem grande do jeito que está – se ainda tivermos que fazer bilhões de dobraduras, eu vou me matar. Sério. Vou me jogar da torre de Astronomia. Eu e os malditos morcegos.

Por outro lado, não vou me surpreender se ela disser que sabe – Lily Evans sabe fazer tudo. Juro. Nunca vi nada igual. A garota consegue identificar diferentes tipos de cercas-vivas, assoviar o hino da Inglaterra e xingar em russo! Pessoas com esse tipo de talento poderiam facilmente saber fazer dobraduras em forma de morcego, sabe.

"Ah... na verdade, não". Ela disse, um pouco desconcertada.

Obrigado, Merlin!

"Então, você quer começar?" perguntei, depois de alguns segundos de silêncio entre nós.

"Isso é ilegal!" ela exclamou de repente, sorrindo radiante. Francamente, Lily. Para uma monitora-chefe certinha, você se anima demais com coisas ilegais. "É sério, James, não podemos fazer isso", ela continuou, toda animada por ter achado algo que nos impedisse de continuar – ou começar, melhor dizendo, já que nós estamos parados aqui faz uns quinze minutos e nem começamos.

"Decretos da Vida Silvestre e Zona Rural. Pune qualquer um que perturbar um morcego ou seu ninho com pesada multa". Ok, ela está tirando com a minha cara agora. "Se a polícia descobrir, estamos ferrados", cantarolou alegremente.

Ah, sério?

"Hm, detesto ter que quebrar isso para você, querida, mas estamos em Hogwarts – a polícia trouxa nunca vai conseguir chegar aqui. E não há nenhum ato idiota desses na lei bruxa". Bom, não tenho certeza dessa última parte, para ser bem sincero. Nunca estudei atentamente a lei bruxa. Mas certamente não deve ter uma bobagem dessas – morcegos são um símbolo do dia das Bruxas! Como nós iríamos comemorar nosso dia sem eles?

"Ah", ela disse, parecendo sinceramente decepcionada. Mudei o peso do corpo de um pé para o outro, e olhei no relógio. Cinco e vinte.

"Daqui a pouco Flitwick deve estar chegando com as abóboras".

Ela deu um sorrisinho.

"Não é meio surreal, isso de organizar o banquete de Halloween? Quero dizer, 'daqui a pouco o Flitwick deve estar chegando com as abóboras'! Não se espera abóboras em uma festa".

"Bom, é dia das Bruxas", digo, dando de ombros.

Lily fica uns segundos em silêncio, pensativa. Tenho vontade de dizer que ela está linda hoje, de jeans e camiseta preta, mas me controlo. Ela não aprecia esse tipo de demonstração de afeto, e de qualquer modo, ia ficar meio chato, porque somos amigos agora, e amigos não dizem esse tipo de coisa uns para os outros. Quero dizer, chegar e falar 'você está linda hoje' meio que implica interesses românticos, o que vai contra a natureza de uma relação estritamente platônica, como é a nossa e... Ah, quem é que eu estou enganando!? Ainda sou muito a fim dela, por mais patético e idiota que isso possa parecer.

E sim, é patético e idiota porque obviamente não há futuro nenhum para nós dois fora das linhas do 'estritamente platônico'. E o fato dela ter parado de sair com Bertram Aubrey depois que nós começamos a nos falar mais (ou melhor, depois de nós termos evoluído nosso relacionamento para uma quase-amizade) não quer dizer absolutamente nada. Deprimente, eu sei.

"Você tem certeza que os morcegos não vão sofrer?"

"Juro solenemente que não" digo, de maneira meio idiota, porque ela obviamente não sabe as implicações de fazer o juramento maroto.

Ela suspira, e passa as mãos pelo rosto, cansada.

"Tá, vamos enfeitiçar essas porcariazinhas, então".

"'Porcariazinhas'? Ué, Lily, não era você que até cinco minutos atrás estava defendendo os morcegos, e agora está os chamando assim?" provoco.

"Ah, cala a boca" ela diz, mas não está brava. "Começa você".

Dou de ombros, indiferente, e começo a trabalhar. A gente tem que ter um certo cuidado ao lidar com morcegos, porque esses bichos são meio ariscos, e tem garras e dentes pontiagudos, o que não é uma boa combinação.

"Será que esses morcegos são hematófagos?" Lily pergunta, de repente.

"Acho que não. Eu li em algum lugar que só uns dois por cento das espécies conhecidas de morcegos se alimentam de sangue. A maioria deles comem frutas e pequenos insetos.".

"Como é que você sabe tanto sobre a alimentação dos morcegos?" ela me pergunta, em tom meio brincalhão. Opa, terreno perigoso. A verdade é que eu sei do que os morcegos se alimentam porque eles comem praticamente as mesmas coisas que os cervos – que, eu não sei se você sabe, mas tem uma alimentação bem específica, já que não conseguimos digerir alimentação fibrosa. Então é meio que bom saber quem está concorrendo com você na hora de comer, instinto de sobrevivência e tal, sabe como é.

"Minha mãe é tonganesa".

"Sua mãe é o quê?!"

"Tonganesa", repito. "Nativa de Tonga, um Estado da Polinésia. Os morcegos são sagrados lá – o povo pensa que eles são manifestações físicas de almas separadas do corpo ou algo do tipo".

"Sério?" Lily pergunta, assombrada.

"Não", respondo, e começo a rir. Ela me dá um tapa no braço. "Mas a parte dos morcegos é verdade. Eles realmente são sagrados em Tonga".

"Idiota", ela resmunga, rindo. Então voltamos a um silêncio confortável.

"Você vai ter que me pagar uma cerveja a próxima vez que formos ao Três Vassouras".

"Por quê!?" pergunto, sinceramente confuso. Só para começo de conversa, nós nunca fomos juntos ao Três Vassouras. É claro, nos encontramos lá dentro mais do que algumas vezes, o que não é muito difícil, já que ele é o único pub decente em Hogsmeade inteira (o Cabeça de Javali merece seu crédito por servir Uísque de Fogo para estudantes, mas o serviço lá é péssimo, sem falar na clientela, que também não é lá muito bacana, se você entende o que eu quero dizer).

"Porque eu estou fazendo isso por sua causa, você sabe", ela diz, despreocupada como se estivesse comentando sobre o tempo. 'Estou fazendo isso por você. Você acha que chove esse final de semana?'.

O que é que se responde a uma coisa dessas, aliás? Algo que não ultrapasse as linhas do 'estritamente platônico', quero dizer, mas que também não cague com o potencial não-platônico da conversa.

"Fiquei com pena de você, aqui sozinho enfeitiçando uns dez milhões de morcegos para esvoaçarem pelo teto do salão Principal durante o banquete do dia das Bruxas". Pena. Se o potencial não-platônico dessa conversa pudesse ser medido em graus Celsius, acabaria de bater a marca de 89,2ºC negativos, a temperatura mais fria já registrada na história. "E ah, sua companhia nem é tão ruim assim".

"Obrigado, me sinto lisonjeado", digo, irônico. Ela ri.

"Deveria. De qualquer forma, você vai ter que me pegar uma cerveja na próxima visita a Hogsmeade".

"Lamento, mas só vou poder fazer isso se você for comigo na próxima visita. E se eu me recordo bem, você ia sair com a Lula Gigante antes de fazer isso". De onde saiu isso, santo Deus? O que é que me deu para lembrar daquele episódio infeliz do quinto ano justo agora?

Acho que fui mordido por um desses morcegos. E estou com hidrofobia. Morcegos transmitem hidrofobia. Loucura é um sintoma de quem está com hidrofobia, certo? De repente seria bom eu sair agora, antes que eu me humilhe mais, para ir ver a madame Ponfray. Se estiver mesmo com hidrofobia, devo ter tipo mais uns quatro dias de vida. Cada segundo conta.

"Bom, digamos que a Lula não foi exatamente uma boa companhia para encontros", Lily diz, corando um pouco. "Muito escorregadia".

Nós rimos, e eu não consigo acreditar na minha própria sorte.

Vou sair com Lily Evans.

Tudo bem, ainda não é nada oficial, e ela não negou que a Lula Gigante viria primeiro em sua escala de preferências, mas já é algo, certo? Uma cerveja é uma cerveja, e um encontro é um encontro, afinal de contas.

Talvez as pessoas tenham de fato razão em fazer festas e sair pedindo doces, e o dia 31 de outubro seja mesmo especial.

Porque parece que pequenos milagres só acontecem no dia das Bruxas, sabe?