Capítulo Dois]
Eu não acho que alguma vez eu corri tão rápido em toda minha vida. Eu passei direto por Pierre, sem nem uma palavra, ou sequer um olhar em sua direção (isso é mentira, eu olhei). Ele tentou me parar, mas eu apenas corri porta à fora e eu não parei de correr até que tivesse saído da vizinhança de Chuck. Eu escondi minhas mãos nos meus bolsos e comecei a andar, deixando a raiva ir se dissipando lentamente, enquanto eu me acalmava.
Sério, isso não era tão ruim. Eu vinha, secretamente, esperando trombar com Pierre, apenas para que ele pudesse ver quão bravo eu ainda estava com ele, sobre tudo. Mas o nervosismo! Chuck tinha dito a ele para ficar afastado e eu sabia disso. Eu o forcei a fazer isso por telefone, então eu poderia ouvir.
Enquanto eu andava, eu imaginei a surpresa de Pierre em me ver. Eu sabia que ele não estava esperando me ver na casa de Chuck, por que Chuck tinha me prometido que Pierre não sabia que eu estava em Montreal. Pelo jeito que ele reagiu, entretanto, eu sabia que ele tinha sentindo minha falta quase tanto quanto eu senti falta dele.
Mas isso não queria dizer que eu ia perdoá-lo. Meu coração ainda estava em pedaços por causa dele, e já fazia cinco anos! Eu não tinha namorado mais ninguém desde ele e não tinha planos de me juntar a comunidade de namorados tão cedo. E já fazia cinco anos!
Honestamente? Eu não culpava realmente Pierre por me deixar em pedaços. Eu mereci isso. Eu tinha sido muito pegajoso, muito atencioso, muito amoroso. Eu tinha deixado que minhas emoções entrassem no caminho da banda, o que tinha causado o termino dela, em primeiro lugar. Eu estava disposta a me entregar completamente a ele, mas tudo o que ele quis foi um simples caso de seis anos.
Sério, era minha culpa. Eu vinha me culpando antes mesmo disso acontecer, desde antes Pierre quebrar meu coração, minha alma, minha vontade de sequer tentar. Eu não o culpada. Eu não conseguia. Ele era muito perfeito para ter intencionado me machucar do jeito que ele havia.
Eu estava andando no meio da rua St. Catherine, mil milhas de onde eu precisava estar. Os carros buzinavam para mim várias vezes e as pessoas gritavam comigo em uma mistura de línguas. Eu, entretanto, não me movi para fora do meu caminho. Eu estava no meu próprio mundo, imerso em pensamentos para me importar se eu seria atingido por um carro ou não.
Eu estava no cruzamento, antes que alguém viesse atrás de mim. Eu fiquei surpreso em ver que não era o próprio Pierre, nem mesmo Chuck. Era Sebastien. Eu me perguntei sobre a escolha deles de quem mandar. Sebastien era o único que sabia menos sobre todo o assunto Pierre-e-eu. Na verdade, ele não sabia de nada, até onde eu sabia. A não ser que alguém tenha explicado, enquanto eu estava afastado.
-Dave. – Sebastien disse calmamente, me estimulando a entrar em seu carro. Eu o fiz sem muita luta. Eu sabia que a história iria sair sozinha no momento em que ele me perguntasse sobre isso. – Você está bem?
-Eu... Não.
-Sinto muito. Quer falar sobre isso?
Sim, sim, sim, sim!
-Não realmente.
-Tudo bem, então. Você não tem que falar.
Eu o agradeci silenciosamente e descansei minha cabeça contra a janela. Era um silêncio confortável, que eu não queria quebrar, mas eu sabia que Sebastien merecia saber a história. Ele merecia saber por que a banda tinha terminado, por que a vida dele estava de pernas pro ar.
-Seb... – eu finalmente disse. – Eu sei que você está morrendo para saber.
-Estou, sim.
-Se importa em dirigir por um tempo?
-Sem problemas. – ele pegou a próxima saída e foi para a estrada, se afastando da casa de Chuck.
-Bem, antes de tudo, eu apenas voltei para Montreal, por que o Chuck me implorou. Vocês estão indo tão bem sem mim... Chuck está tendo um filho, Jeff está feliz com sua família e você... Eu nem perguntei sobre você. Como está sua vida?
-Está bem, eu acho. Vida é vida.
-Isso é bom... Mas enfim. Eu sei que você sabia sobre Pierre e eu, certo?
-Sim. Vocês estavam namorando, por cinco ou seis anos, certo?
Eu assenti: - Eu realmente não sei o que aconteceu. Em um dia, tudo estava perfeito e, aí, no outro tudo desmoronou. Machucou tanto e eu apenas não conseguia ficar no mesmo cômodo que ele... Eu não queria que isso afetasse vocês tanto quanto afetou. Eu acho que eu sou culpado, por ter saído da banda.
Sebastien balançou sua cabeça, com um pequeno sorriso em seu rosto.
-O quê?
-Você ainda é uma diva.
-Você não me culpa?
-Por que eu iria te culpar, David? Nós fomos cortados da gravadora. Coisas acontecem.
-Nós fomos cortados por que Pierre e eu não conseguíamos trabalhar juntos!
-Às vezes, coisas assim irão acontecer. Coisas boas não duram para sempre. Foi uma boa jornada. Eu aproveitei enquanto durou. Mas... Eu não acho que eu desistiria do meu filho para que a banda voltasse, desculpe.
-Você tem um filho?
-Sim. Ele tem quatro anos. Fofo, também.
-Mas você é gay. – eu disse, sem intencionar que isso saísse tão... Propositalmente.
-Como eu disse, coisas acontecem. E um dia você é deixado com um bebê nas suas costas. O que um cara faz?
-Onde está a mãe dele?
-Cadeia, ruas, eu não sei realmente.
-Parece que todos vocês estão indo bem... Vocês todos têm filhos. Eu estou com ciúmes.
-David, você é tão ADD. O que você estava dizendo?
Eu pensei por um momento, afastando o pensando de Sebastien-é-pai da minha cabeça e me concentrando no que eu estava dizendo antes. Eu finalmente me encontrei e continuei meu discurso.
-Então, nós fomos cortados da gravadora. Essa foi a última vez que eu vi vocês por cinco anos. E, aí, Chuck me convidou e eu não consegui dizer não. Eu senti falta de todos vocês...
-Prossiga... – ele me lembrou.
-Oh, certo... Bem, antes da gravadora nos cortar, antes de Pierre e eu terminarmos, as coisas estavam bem. Eu lembro do dia em que tudo ficou ruim. Eu queria não lembrar. Eu queria poder apenas bloquear isso da minha cabeça, para sempre.
-O que aconteceu?
-Nós estávamos fazendo a turnê européia, o primeiro dia da turnê. Eu estava trabalhando com alguém da turma do som, para fazer o melhor show, por que nós íamos fazer a turnê por dois meses e eu queria que começasse bem. Eu lembro que eu esqueci minha jaqueta no meu quarto de hotel, e estava bem frio, então eu fui até o hotel buscá-la.
"Eu lembro de passar a chave na porta rapidamente, tentando voltar para o meu trabalho com o cara do som. Eu entrei e peguei minha jaqueta. Tudo teria ficado bem se eu tivesse apenas ido embora. Se eu apenas tivesse fechado a porta... Mas eu não o fiz. Eu ouvi Pierre no telefone, falando com alguém."
-Com quem ele estava falando?
-Eu não sei... Eu apenas escutei um pouco, antes de sair do quarto. Ele nem sabia que eu o ouvi no telefone. Ele e a outra pessoa estavam falando sobre mim e Pierre ficava dizendo que ele ia 'terminar logo' e que 'poderiam ficar juntos assim que estivesse terminado'.
-Como você sabe sobre o que ele estava falando?
-Eu apenas sei, Seb. Ele ainda não sabe que eu o ouvi no telefone. Eu voltei para o meu quarto aquela noite e fingi que estava tudo bem, me preparando para ele terminar comigo a qualquer momento. Ele não fez isso, entretanto. Todos os dias depois disso, havia uma rachadura que ia ficando mais e mais funda entre nós, até que finalmente eu não agüentei mais ficar perto dele.
-E eventualmente você apenas foi embora. – Sebastien disse por mim.
-Sim, eu parti. Ele parou de me ligar depois de um ano, e parou de me mandar e-mails depois de dois anos. O ponto é, ele sabe exatamente o que ele fez de errado. Ele admitiu ter me traído em vários e-mails... Eu li todos eles, mesmo que ele não pensasse que eu o fiz. Ainda machuca tanto, Seb...
-Eu sei, David. Sinto muito.
-Eu deveria ser aquele que sente muito! Eu deixei amor e raiva entrar no caminho do que realmente importava: meus amigos. Eu não tinha nenhum direito em tirar a banda de vocês, e ainda assim eu o fiz.
-Você não intencionou. – Sebastien tencionou.
-Mas eu ainda o fiz. Acidente ou não, eu fiz.
Sebastien ficou em silêncio por um longe tempo. Eu estava preocupado que ele me odiaria, que ele nunca iria querer falar comigo novamente, depois de saber a verdade. Finalmente, entretanto, ele apenas deu de ombros.
-Que seja.
-O que isso significa? – eu perguntei.
-Nós não podemos mudar o passado. Sem mais Simple Plan para nós. Nós todos temos filhos e estamos muito velhos. Eu nem quero mais fazer a banda. Mas... Isso não quer dizer que você pode deixar seu relacionamento com Pierre do jeito que está. Você tem que confrontá-lo.
-Mas eu não quero!
-Eu sei... Mas você nunca vai se perdoar se você não o confrontar. Confie em mim, David. Você quer falar com Pierre. Ele pode te dizer que foi tudo um mau entendido.
-Ele não vai. E mesmo que fosse, isso ainda não muda o fato de que ele me traiu.
-Sim, ele traiu. E ele admitiu isso. Pelo menos, ele não está se fazendo de idiota.
Eu dei de ombros. Eu não queria falar com Pierre. Depois de cinco anos, eu não achava que nós saberíamos sobre o que falar. Claro que há o óbvio – 'hey, como você tem estado, wow, você tem dez filhos!', que parece ser o que está acontecendo com todos da banda ultimamente – e, então, nós falaríamos sobre o novo bebê de Chuck e Jeff ser um pai e até mesmo a paternidade de Sebastien. Era pelo menos um minuto de conversa, certo?
Mas ainda assim. Falar com ele significava que eu teria que me render. Eu perderia a aposta silenciosa de quem cederia primeiro. Então meus motivos são idiotas. Me processe.
-Eu não quero falar com ele. – eu disse finalmente.
-Eu não posso te obrigar... Mas talvez você devesse saber algo sobre ele, antes que você fique todo chateado sobre isso.
-O quê?
-Bem... Ele não ficou com ninguém desde você.
Eu balancei minha cabeça: - Você está mentindo. Por que ele faria isso?
-Ele não sabia por que você estava bravo com ele, David! Ele permaneceu fiel a você por todo esse tempo, apenas para provar que ele era bom, afinal.
-Então ele poder ser fiel por cinco anos, mas não em uma turnê?
Sebastien encolheu os ombros.
-Eu só estou falando o que eu vi.
Eu suspirei e assenti. Isso ainda não mudava as coisas, mas me fazia pensar um pouco mais. Talvez dizer a ele que nós tínhamos terminado fosse o bastante para fazê-lo seguir em frente. Eu tinha seguido em frente (não realmente, mas pelo bem do argumento!), então por que ele não podia?
-Não machuque seu cérebro pensando muito. – Sebastien brincou, o que me fez sorrir.
-Oh, cale a boca. Isso não é hora!
Nós rimos o bastante para me fazer esquecer meus problemas com Pierre. Eu tinha um sorriso no meu rosto, até nós voltarmos para a rua de Chuck e pararmos na frente da casa dele. Eu estava quase tentado a pedir para Sebastien me levar para o aeroporto, mas eu tinha prometido Chuck que eu ficaria. Então, eu estava ficando. Eu não quebrava promessas.
Eu suspirei profundamente e sai do carro de Sebastien, andando para dentro da casa com ele atrás de mim. Eu meio que esperava que Pierre se atacasse contra mim e se recusasse a me largar, mas eu fiquei surpreso ao ver que ele nem sequer estava lá. Jeff e Chuck estavam montando o berço do bebê e Pierre já tinha ido embora com seu caminhão. Eu estava seguro.
-Você está bem? – Chuck perguntou.
-Sim. Bem.
-Vamos, eu vou arrumar o quarto de hospedes.
Eu nem sequer argumentei. Chuck me levou até seu quarto e me jogou um lençol do armário. Eu tinha intencionado ficar em um hotel, enquanto ajudava Chuck, mas ele estava inflexível sobre eu passar a noite ali.
-David... Eu sinto muito. – ele começou.
-Está tudo bem. De verdade.
-Eu sabia que você não queria vê-lo... Eu devia tê-lo feito ir embora.
-Eventualmente eu vou falar com ele, Chuck. Eu não posso ser protegido do meu passado para sempre.
-Eu sei. Mas eu queria que você fizesse isso nos seus próprios termos, não nos dele. Ele sequer tem direito de falar com você.
-É... Eu acho.
Chuck ficou em silêncio por um tempo: - Você devia tê-lo visto, Dave... Eu não acho que eu já o tenha visto tão ferido.
-Isso não está ajudando a me fazer me sentir melhor!
-Desculpe, desculpe.
Nós nos juntamos aos nossos amigos no quarto do bebê e, então, nós quatro assistimos a um jogo de hockey e um filme, comemos pizza na sala de estar do Chuck até quase duas da manhã. Sebastien levou Jeff para casa, deixando apenas Chuck e eu, sozinhos novamente.
-É melhor nós irmos descansar. – ele disse finalmente.
-Por quê?
-Amanhã é um grande dia.
-O que vai acontecer amanhã?
-Chá de bebê. – Chuck disse, um sorriso aparecendo em seu rosto.
-Um o quê?
-Sim. Eu estou dando a festa aqui. Chá de bebê. Monte de crianças, monte de velhos amigos. Pessoas. Interação. Apenas o que você precisa.
-E Pierre? Ele vai estar aqui.
-Nah. Ele não gosta de festas desse tipo.
Eu assenti.
-Okay. Eu acho. Que horas que vai ser?
-Quando as pessoas começarem a aparecer, eu acho.
-Natalie vai estar aqui?
-Psh, é, ta bom. Eu não a quero perto da minha casa, mesmo que ela esteja convidada.
-Essa vai ser a festa mais estranha em que eu já estive, não é?
-Eu não sei... A pós festa da pós festa do Warper Tour foi bem estranha.
Eu rolei meus olhos e fui para o quarto de hospedes, depois de dizer boa noite a Chuck. Ele estava certo. Eu ia precisar estar descansado se eu ia estar ao redor de um monte de gente no chá de bebê dele.
