Capítulo Três

'Muito' nem chegava perto de quantas pessoas estavam na festa de Chuck. Pelo menos todos os seus (e meus) amigos, sua mãe, suas avós, suas irmãs, quase todas as mulheres de Montreal, pelo menos quinze homens que não queriam estar ali, dezessete crianças desordeiras e o que parecia ser um bilhão de presentes.

Talvez fosse apenas eu, mas eu estava certo de que ser gay era uma coisa boa. Isso significava nunca ter filhos que iriam me espreitar e cutucar com uma vara. Significava nunca ter um chá de bebê e convidar toda Montreal. Significava que eu estava seguro de ter que crescer. Nesse exato momento, eu poderia quase jurar que eu odiava Chuck por ter me arrastado para fora do meu buraco em Nova York.

Chuck, entretanto, freqüentemente me mandava mensagens, mostrando o quanto ele apreciava eu estar lá, enquanto ele abria os presentes do bebê e tinha mil mulheres reunidas ao redor dele e explicando exatamente para o que uma frada era.

Chuck tinha contratado um cozinheiro para fazer a comida de todos, desde que seu pai estava atualmente desaparecido (cof, covarde demais para ir a um chá de bebê, cof). Eu tinha que admitir que esse era um dos melhores hambúrgueres que eu já tinha comido, o que queria dizer muito, por que eu já tinha comido um monte de hambúrgueres no último ano. Eu poderia dizer que todos também estavam gostando da comida, por que estava bem mais quieto do que antes, quando havia apenas alguns sanduíches.

Por volta das cinco horas, Chuck me pegou tentando escapar para o quarto de hospede. Ao invés de me fazer sair, ele apenas se juntou a mim.

-Finalmente. – ele suspirou/sussurrou.

-Não agüenta o alvoroço do bebê?

-Eu não achei que dezoito bilhões de pessoas iriam realmente vir!

Eu apenas sorri.

-Eu esperava apenas minha mãe e irmãs. Mas minha mão contou para minha avó, que contou para suas amigas, que contaram para suas filhas, que contaram para todo o resto! Você sabe quanto dinheiro eu estou gastando apenas nos cachorros quentes?

-Me divirta.

-Muito, David. Um monte.

Eu apenas balancei minha cabeça. Chuck era louco, às vezes. Isso era o que eu mais senti falta nele: seus surtos aleatórios de espontaneidade.

-Bem, em uma hora isso vai acabar. – eu o encorajei.

-Uma hora? Uma hora inteira?!

Eu rolei meus olhos e o empurrei de volta para sua própria festa. Ele me encarou, enquanto eu voltava para o quarto de hospedes e me jogava na cama. Eu estava cansado, talvez cansado o bastante para dormir um pouco.

Eu acordei três horas mais tarde, quando a casa toda estava quieta. Eu achei que todos já haviam ido embora e apenas Chuck ficara para limpar a bagunça. Como seu convidado, eu decidi que era meu trabalho ajudar a arrumar a casa. Eu me forcei a sair da cama e andei na direção da sala de estar, onde eu sabia que Chuck estaria. Eu notei, entretanto, que a casa já havia sido limpa.

Eu estava quase na sala de estar, quando eu ouvi duas vozes. Eu conhecia as duas. Uma pertencia a Chuck, e a outra a Pierre Bouvier. Eu quase sai correndo instantaneamente, mas eu me forcei a ficar ali e escutar suas palavras.

-... sei, Chuck. Eu apenas não sei mais o que fazer.

-Você tem apenas que deixar isso ir, amigo. Às vezes, coisas afastam as pessoas e elas nunca voltam ao normal. Isso é chamado de vida.

-Yeah, bem, a vida é uma droga.

-Como se eu já não soubesse essa.

-Chuck... Eu estou preocupado com isso. É tudo o que eu consigo fazer.

-Desculpe, Pierre. Eu não posso te ajudar. Você estragou as coisas sozinho… Se você e David sequer se falarem novamente, vai ser nos termos dele, no tempo dele.

-Isso é tão fodido. – Pierre gemeu. – Por que isso aconteceu comigo?

-Eu estou bem certo que isso aconteceu com todos. Talvez era apenas hora para isso acontecer. Talvez estivéssemos muito velhos para o jogo e os Deuses do Punk-Rock sabiam disso. Esse foi o jeito deles de nos tirar do jogo.

-Você e suas analogias.

Os dois ficaram em silêncio e eu esperava que Pierre o quebrasse. Chuck, entretanto, foi quem o fez.

-David vai acordar logo. Eu não acho que você deveria estar aqui quando ele acordar.

-Yeah, eu sei.

-Então... A gente se vê?

-Acho que sim. Feliz... Chá de bebê. – Pierre disse, antes de ir embora.

Assim que ele se foi, eu me fiz presente. Chuck olhou para mim tristemente, sabendo que eu ouvi toda a conversa.

-Ele está tão triste. – ele comentou.

-Eu sei.

-Nós dois sabemos que você quer ir atrás dele.

-Yeah, eu quero. Mas esse é um lado de mim que nunca pensa direito. O outro lado de mim quer apenas deixá-lo ir e esquecer que ele existe.

-Todas as feridas cicatrizam em algum momento. Cinco anos, dez anos. Um milhão. Algum dia, você irá perdoá-lo.

-Eu provavelmente vou. Mas isso não muda as coisas. Mesmo que eu o perdoasse, nós nunca ficaríamos juntos novamente, e isso é tudo o que eu realmente quero.

-David, se é o que você quer, então por que não ir atrás disso?

-Uma vez traidor, sempre traidor, Chuck.

-Talvez você devesse primeiro ouvir o lado dele.

-Você está ficando do lado dele também? – eu exigi.

-Não. Ele estava totalmente errado no que ele fez. Mas... Apenas deixe-o explicar antes de você ficar bravo.

Eu encolhi os ombros. O que Pierre possivelmente teria como desculpa?

-Bem, eu estou cansado. – Chuck disse. – Então, eu vou tomar banho e ir dormir. 'Noite, Dave.

Eu disse boa noite e o observei ir para seu quarto. Quando ele estava lá dentro, eu virei minha atenção para o noticiário da meia noite e, então, o desliguei. Eu estava cansado e tinha um monte de coisas para pensar.

Às três da manhã, Chuck socou a minha porta. Eu tropecei para fora da cama e fui até a porta, abrindo-a, esperando que ele estivesse morrendo no chão.

-O que foi?

-Natalie... Ela está em trabalho de parto! Ela está tendo o bebê agora…

-Sério?

-Sério!

-Bem, então vá!

-Eu... Yeah. Certo. Eu tenho que ir.

Eu rolei meus olhos e o apressei até a porta.

-Eu vou pedir para o Sebastien me levar lá mais tarde. – eu avisei.

Chuck foi embora um momento mais tarde. Eu instantaneamente peguei meu celular e mandei uma mensagem para Jeff, para dizer a ele o que estava acontecendo e, então, liguei para Sebastien. Ele atendeu, grogue, mas acordou assim que eu disse a ele o que tinha acontecido. Ele prometeu que estaria aqui em menos de dez minutos.

Eu o encontrei na entrada da garagem e nós nos apressamos para o hospital. Apenas Jeff parecia ver uma falha em nosso plano, por que ele me respondeu a mensagem vinte minutos mais tarde. Eu liguei para ele.

-Por que, porra, você está indo para o hospital? É apenas um bebê. E nem sequer é seu!

-Bem, Chuck é nosso amigo. Ele vai precisar de alguém para segurá-lo, quando ele desmaiar.

-Tem razão... Okay. Ótimo. Você venceu. Eu vou estar aí logo.

Nós desligamos. Sebastien estava procurando por uma vaga no estacionamento e finalmente encontrou uma. Nos apressamos a entrar no hospital e perguntamos pela ala da maternidade. Nós fomos encaminhados para a sala de espera da maternidade, onde Chuck estava. Ele estava andando em círculos, como vários outros futuros pais estavam fazendo. Eu o forcei a se sentar.

-Ela vai ficar bem, Chuck. – eu disse.

-Yeah. Como se eu me importasse. Eu apenas quero que Casey fique bem…

-Eu tenho certeza de que ele/ela/isso vai ficar bem.

Ele me olhou com raiva.

-Desculpe, desculpe. Sua criança ficará bem.

Ele não falou por um longo tempo. Sebastien e eu nos sentamos ao lado dele, observando os médicos trazerem os bebês para ver seus pais. Natalie não estava pronta para dar a luz, então nós esperamos e esperamos. As mensagens de texto chegavam de todos que Chuck conhecia e ele as mandava de volta com respostas simples.

Por volta das cinco da manhã, Chuck gemeu audivelmente para seu telefone.

-O que foi?

-Uh, David... Pierre está vindo para cá.

-Ele o quê?

-Yeah. Então, ou você tem que ir ou agüenta isso. Eu realmente espero que você agüente, entretanto, por que eu preciso de você aqui!

Eu suspirei e prendi minha respiração. Chuck precisava de mim mais do que eu não queria falar com Pierre. Eu agüentaria.

-Se ele tentar fazer qualquer coisa, que não mostrar preocupação com você, eu vou embora. – eu disse.

-Obrigado! Obrigado! Obrigado! – Chuck disse, me abraçando até que eu não conseguisse respirar.

Eu me esparramei no banco em que estava sentado e fechei meus olhos. Se Pierre ia estar aqui, então eu poderia ao menos dormir para adiar o encontro.

Eu não o vi até uma hora mais tarde, quando ele chegou. Ele se sentou próximo a Chuck e tentou me ignorar, assim como eu estava fazendo com ele. Jeff e Sebastien trocaram olhares, sentando entre Pierre e eu, então nós não começaríamos algo no hospital.

-Como ela está indo? – Pierre perguntou.

-Eu não sei. Ninguém me diz nada. – Chuck suspirou.

-Bem, minha mãe ficou dezesseis horas em trabalho de parto, com Jay. Talvez ela demore esse tempo.

-Deus, eu espero que não. Eu estou tão cansado desse hospital!

-Descanse, Chuck. – Pierre disse. – Eu te acordo quando o médico aparecer com novidades.

-Promete?

-É claro.

Chuck descansou sua cabeça contra a parede e, momentos mais tarde, estava dormindo. A sala de espera estava silenciosa sem suas reclamações e eu me perguntei quanto tempo Pierre ou eu poderíamos ficar sem falar um com o outro. Eu sabia que conseguia segurar por um milhão de anos. Pierre, entretanto, era fraco. Ele ia ceder em uma hora, ou menos.

Quando Sebastien mal conseguia manter seus olhos abertos e Jeff já estava adormecido, eu decidi ir pegar café. Eu estava na metade do caminho até a loja, quando Pierre me alcançou.

-Hey. – ele disse simplesmente.

-Hey. – eu respondi.

-Eu... Uh... Como você tem estado?

-Bem. Você?

-Não tão bem, mas chegando lá.

Eu assenti e continuei andando.

-Eu sinto muito. – Pierre finalmente disse.

-Okay.

-Okay? Isso é tudo?

-Sim. Okay. Eu não quero falar sobre isso. Okay. Ótimo.

-Mas… David… Faz cinco anos desde a última vez em que eu te vi!

-Yeah. Por uma boa razão.

-Por favor, me deixe explicar.

-Não hora nem lugar para você me explicar, Pierre. Talvez quando Chuck levar o bebê para casa e tudo estiver estabilizado. Ou talvez quando eu estiver de volta a Nova York. Ou talvez nunca. Mas não agora.

-Eu não acho que posso agüentar tanto.

-Bem, você vai ter que agüentar, por que eu não estou falando com você nada sobre o passado, entendeu?

Ele assentiu.

-E aproveitando, por que você me seguiu?

-Eu preciso de café.

-Ótimo, então. Pegue seu café e vamos voltar, antes que Chuck saiba que nós saímos de lá.

Pierre concordou e apenas alguns momentos mais tarde, nós estávamos voltando para a área da maternidade. Eu desejei que eles se apressassem e colocassem a coisa para fora de Natalie. Eu queria ir para casa!

Nós acabamos esperando até o meio dia do próximo dia, antes do médico sair e dizer a Chuck que ele poderia ver seu filho. Nós quatro – Pierre, Jeff, Sebastien e eu – esperamos pacientemente, enquanto ainda meio adormecidos. Vinte minutos mais tarde, Chuck voltou com um enorme sorriso em seu rosto.

-O quê? – eu perguntei primeiro.

-É um menino. E ele é tão fofo! Vocês têm que vir ver!

Nós o seguimos para a sala onde o filho de Chuck – wow, é estranho dizer isso – estava sendo limpo e vestido. Nós podíamos vê-lo através de uma janela, embora apenas Chuck tivesse os olhos marejados.

-Ele é bem fofo... – eu finalmente disse. – Para um bebê.

Jeff e Sebastien me cutucaram. Era claro que eu era o único que não tinha idéia do que fazer com um bebê. Por que Chuck tinha m convidada para ficar, mesmo?

-Eu vou voltar para casa. – eu disse para Chuck. – Você precisa de algo antes de eu ir?

-Não. Pode ir. Eu vou apenas pedir para Natalie assinar os papéis da custodia e devo chegar em casa por volta das sete, eu acho.

-Certo. Me ligue se algo acontecer.

Eu me despedi de todos e, então, me apressei a sair dali, deixando Pierre observando meu caminho. Eu não queria falar com ele e eu não estava com humor para ser importunado, também. Eu apenas queria ir para a casa de Chuck e dormir pelo resto da minha vida.

Eu comecei a empacotar minhas coisas assim que eu cheguei no quarto de hospedes. Minhas coisas já estavam prontas na hora que ele chegou em casa as seis horas e já tinha agendado um ônibus para me levar para Nova York pela manhã. Eu apenas não conseguia estar na mesma província que Pierre. Nem sequer no mesmo país. Eu apenas não conseguia lidar com isso.

-Indo a algum lugar? – Chuck me perguntou, depois que ele colocou Casey em seu berço.

-Eu preciso ir, Chuck. Eu sinto muito... Mas eu apenas não consigo mais ficar aqui.

-Eu entendo.

-Eu sinto muito, mesmo. Eu nunca quebro promessas... Mas essa eu não consigo manter.

-Vá, David. Está tudo bem.

-Tem certeza?

-Mesmo que eu não estivesse, isso não iria te impedir de partir.

Eu assenti.

-Então, apenas vá. Obrigado por toda sua ajuda, mas nós dois sabemos que você sente falta da sua casa e do seu peixe, e dos seus outros amigos.

Eu assenti mudamente.

-Se eu fosse você, eu apenas esqueceria que Montreal existe. Você está melhor sem qualquer pessoa daqui.

Eu sabia que Chuck estava tentando usar psicologia reversa ou algo assim, em mim, e estava funcionando, mas eu também sabia que eu precisava ir para casa. Eu tinha coisas a fazer, que eu vinha negligenciando, enquanto estava de férias. Era hora de encarar a realidade.

-Quando você vai? – Chuck perguntou quietamente, aceitando que suas palavras não podiam me fazer mudar de idéia.

-Logo cedo.

-Eu vou sentir sua falta...

-Eu sei.

-Eu vou dizer aos outros que você teve que ir... Pelo seu peixe.

-Obrigado, Chuck. – eu disse. – Por tudo.

Ele assentiu e me abraçou brevemente, antes de me deixar dormir. Nós dois tínhamos grandes dias a nossa frente. Eu iria passá-lo em um ônibus e ele iria passá-lo com seu filho recém nascido.

[...]

Eu estava em um ônibus na manhã seguinte às oito. Eu nem sequer me despedi de Chuck, sabendo que ele tentaria me fazer mudar de idéia. Eu não estava no humor para enfrentar meus medos, também, então isso apenas deixava a opção de voltar para Nova York e tentar esquecer as últimas semanas.

Eu queria apenas dormir durante todo o caminho. Eu não queria ter que pensar sobre nada, mas é claro que isso era impossível com meu telefone tocando a cada dez minutos. As dez horas, eu tinha dezesseis chamadas perdidas e dez mensagens de voz. Sem mais nada para fazer, eu comecei a ouvi-las. As quatro primeiras eram de Sebastien. Ele me disse que não gostava do meu jeito de fazer as coisas, mas que ele entendia. As próximas quatro era de Jeff e Chuck, os dois me implorando para voltar. Uma das duas últimas era alguém desligando. A última era de Pierre.

-D-David... Eu acabei de saber pelo Chuck que você está voltando para... De onde quer que você tenha vindo. Ele não me diz. Eu sei que é por minha causa… Eu sinto muito, David. Sinto de verdade. Você tem que entender. Por favor, me deixe te explicar… Eu sei que nada que eu diga pode te fazer me amar novamente, mas eu preciso me justificar… Eu preciso te dizer a verdade. Você não tem idéia do quão ruins esses últimos cinco anos foram, David. Ou talvez, tenha. Eu não sei como me explicar para você, só escrevendo isso tudo, então eu não vou deixar nada de fora. Eu estou escrevendo e Chuck irá te enviar. Por favor, leia minha carta, David. Isso é tudo o que me importa.

Eu suspirei profundamente. Eu tinha que esperar uma semana para a carta chegar e nesse tempo eu não iria fazer nada, além de esperar por ela. Parte de mim sempre quis saber as razões dele, por que ele tinha quebrado meu coração. O que, possivelmente, ele tinha como uma razão justificável?