Capítulo 5 - Uma segunda chance
(Miguel's POV)
O dia infernal na escola começara mal. Eu realmente duvido que alguém saiba o quão entediante é refazer o Ensino Médio mais de uma vez, quando se tem a cabeça de um cara de quase quarenta, corpo de um de vinte e três e é obrigado a fingir que tem dezoito. Ao meu redor, adolescentes cheios de hormônios me enchiam a paciência. Dentro de mim, o calor já inumano se multiplicava por dez, em meio à fúria, raiva e Inveja. Inveja. Até quando aquele sanguessuga desgraçado passaria por cima de mim e sairia vencendo, até quando eu seria o coitadinho que guardava o rabinho entre as pernas e seria digno da pena dos outros?
Porque era isso o que acontecia, todos sentiam pena de mim. Desde a vadia da Chastity, com quem tantas vezes eu fui pra cama, até Koko, que era uma irmã para mim. Até mesmo Bernardo, que mal saíra das fraldas, quando se transformava, deixava transparecer suas condolências. Isso só contribuía para o enorme buraco negro, de piche, que inundava meu peito e o tornava mais pesado que chumbo, fazendo com que houvessem horas que eu desejava simplesmente arrancá-lo do peito. Eu convivia com ele desde o pior dia da minha vida, o dia que a dor e a cólera se apossaram de mim de tal forma que eu nãi imaginara ser possível. Era mil vezes pior que ser espancado, ou mordido, ou esfaqueado. Eu preferia ser escalpelado e queimado vivo, a ter a certeza mais aterrorizadora de toda a minha vida: minha razão de viver estava morta.
Ah, claro. E como se não bastasse, para o maldito ex-humano e atual 'olhos dourados' havia a certeza de que ela voltaria. Mas para mim, não, claro que não. Porque, afinal, quem se importaria em voltar para um cara a quem a impressão te obrigou a amar? E quem se importaria com os sentimentos de um cara que nem é humano por todo o tempo? Eu te digo: pode não parecer, mas músculos não são sinônimo de falta de sentimentos. Eu tenho os meus. E sofro por isso, mesmo que não demonstre, como o francês retardado que fez questão de berrar e gritar e até ter que ser preso em um porão por muito tempo. Ao contrário dele, não gosto de infectar os outros com a minha tristeza. E também ao contrário dele, eu nunca mais teria meu coração de volta.
Depois de uma aula de Aritmética e outra de Inglês, esta última com Caled, fui, também junto com ele, para a próxima: Biologia. Caled, ao contrário de Henri, era um cara legal, que logo se juntou à mim e à Bernardo, como companheiro de zonas e distrações necessárias. O outro sanguessuga da família, Sam, namorado de Moory, era um tanto quanto reservado e preferia se juntar ao também quase mudo e tão mané quanto, Henri. Quero dizer, não quis ofender Sam, devo-lhe desculpas. Não tenho nada contra ele, mas a raiva se tornou um sentimento natural para mim, nesses últimos tempos. O patriarca, Einar, também é legal. Foi ele quem me ensinou a jogar futebol americano, em troca de aulas de futebol de verdade. Como já disse anteriormente, todos eram legais comigo por pena. E as receitas gostosas e brasileiríssimas feitas por Blanche e Moory só me deixavam ainda mais convencido de que eu continuava preferindo morrer a ter que suportar os olhares doces em cima de mim.
Voltando à escola, entramos na sala de aula, e os olhos automaticamente se voltaram para nós. Bufei e fiz cara de mal, enquanto Caled ria e revirava os olhos.
"Controle seu humor, irmão, eles só estão sendo receptivos.", disse assimq ue nos sentamos, aldo a lado, nas últimas carteiras do canto direito da sala.
Encostei minha cabeça na parede e fechei ainda mais a cara. "Mande-os serem receptivos na puta que pariu."
Ele ainda estava rindo quando ela entrou na sala, tão arrumada e cheirosa quanto qualquer patricinha loira e rica tem que, obrigatoriamente, estar. Cerrei meus dentes, e meus punhos se fecharam automaticamente.
"Vai fazer isso até seu coração entrar em colapso e estourar?"
"Vai pra puta que pariu, seu loiro de merda."
"Seus palavrões não estão muito originais hoje, brother.", o filho da mãe retrucou, rindo "Seja sociável uma vez na vida, mané. Ela merece. É Claudia. Voltou para nós. Tá lembrado?"
A garota nos localizou no fundo da sala, deu um meio sorriso e vinha andando em nossa direção, balançando suas curvas bizarramente perfeitas e idênticas às de Claudia. Apertei ainda mais os dentes e transformei minha boca em uma linha.
Ela não era Claudia, nunca seria. Elizabeth Zwecker era simplesmente um clone do exterior da vampira mais perfeita, geniosa e encantadora do mundo. Ela podia ter o mesmo sorriso, mas não tinha o mesmo encanto. Seus olhos verdes não se comparavam ao brilho dourado que relampeava de excitação e ódio, seu rosto não seria capaz de transcrever tão bem as sensações quento o de Claudia era. E seu cheiro. Ah, seu cheiro. Uma mistura de perfume francês, suor de rico, cigarros de menta e vodka, tão pateticamente burguês e típico de uma adolescente mimada, rica e fútil. Era isso o que ela era. E não seria capaz, nunca, de reviver em mim a chama que foi apagada com a morte de Claudia.
Porque os outros podiam pensar que aquela ali era Claudia, que ela tinha voltado. E podia até ser, mas - quer mesmo saber? DANE-SE!
Aquela parte que voltou não era a minha parte de Claudia, era a parte dos Oleander, a Claudia deles. Não era o lado emotivo, sério, grave e até negro que eu conhecia. Nada em seu modo de agir me remetia às nossas conversas, aos segredos e confissões, ao sofrimento dito e sentido por ela, há tantos anos atrás, ao meu lado, quando estava dividida entre a impressão e o amor que sentia pelo outro. Se ela não tivesse morrido, eu estaria ao seu lado até agora. Com ou sem Henri. Eu sabia que Claudia não suportaria viver longe de mim, tal qual eu não suporto mais viver longe dela. E por mais que a garota de vestido de flores seja a cópia exata de Claudia, a vontade de morrer e me juntar à parte da alma dela que me pertencia e não havia reencarnado era enorme, e era o que eu estava quase decidido a fazer.
Quase.
Não posso negar que meu coração saltava um pouco ao ver a imagem que refletia aquela que era o meu verdadeiro amor. Porque ele saltava. E a maldita vontade de chorar, beijá-la e brigar com ela, tudo ao mesmo tempo, aparecia do nada.
Então, na carteira da frente, sorrindo para mim e com a boca pintada de um vermelho tentador, ali estava a cópia.
"Bom dia!"
Caled abriu um sorriso largo. "Hey Liz! Belezinha?"
"Belezona!", deu um beijo no rosto dele e se virou pra mim "Fala, Grope!"
Revirei os olhos à alusão do apelido ridículo, e acenei com a cabeça. Caled pisou no meu pé e, quando olhei pra ele, me lançou um olhar que dizia claramente: 'seja educado com ela, é a Claudia!'. Bufei, mais obedeci. "Bom dia, Liz."
"Acabei de ter aula com o irmão de vocês."
"É mesmo?"
Eu quase ri. "Uau, que coincidência!"
E a partir daí ela e Caled engataram uma conversa animada, me deixando, felizmente, de lado. Quando eu digo que loiros se dão muito melhor entre si, ninguém acredita em mim. Mas é porque ninguém nunca jogou rugby contra Blanche, Einar, Caled e Henri, então ninguém tem o direito de falar nada. O fato é que os dois se deram bem, e eles invariavelmente davam um jeito de me entrosar na conversa, ao que eu repondia com monossilábicos e/ou vagas respostas, lutando para esquecerem da minha presença. A merda é que a garota parecia ter gostado de mim. É, eu me fudi.
O que pode ser pior que sua impressão não querer ser sua namorada, transformar o namorado humano em vampiro, prometer voltar pra ele, morrer, e voltar para o dito cujo mas não ter a decência de ter a impressão novamente com você? Ah, claro. O pior é ela querer ser sua amiga tão desesperadamente que é capaz de chegar ao ponto de, num trabalho em dupla passado pelo professor japonês que a ama, deixar o amigo loiro com quem se deu super bem de lado pra fazer com você. Ótimo, Murphy existe, o Demônio existe e Deus obviamente se esqueceu de mim, se é que ele existe ou um dia se lembrou da existência desse lobisomem idiota aqui.
A minha vontade era socar a cabeça na parede até a escola ruir, cair em cima de todos nós, provocar um dano irreparável no meu cérebro e me deixar de coma, para que eu vá à uma rwalidade paralela, entre a morte a vida, e encontre a parte de Claudia que não reencarnou, para que finalmente possamos ser felizes, como era pra ser desde o início, se não fosse o projeto de francês.
"Você não tem uma irmã gêmea?", perguntei no caminho ao refeitório, onde todos almoçaríamos juntos e eu teria de encenar a peça 'sou um cara legal e não tenho ciúmes pelo fato do babaca do Henri estar quase pegando a patricinha que é a cópia da minha impressão'.
Ela riu, mas não era o riso da minha Claudia. A risada de Liz Zwecker era doce, mas tinha uma pitada fútil e mesquinha que me fazia sentir mal. "Graças a Deus, não! O que te fez pensar nisso?"
"Nada.", respondi de imediato, e logo vi meus 'irmãos' sentados em uma mesa afastada.
Henri e Liz trocaram olhares e sorrisos, meu estômago se contorceu e senti vontade de vomitar. Antes mesmo de chegar à mesa, parei de andar e avisei, com uma voz baixa, à Caled: "Volto pra buscar vocês."
"Onde você vai?", ele quis saber, parando repentinamente.
"Respirar."
-
Dirigi loucamente até uma área de floresta aparecer, e lá me transformei. Foi como tomar um banho frio num dia de calor, aquilo me libertou de uma sensação ruim. Corri, seguindo meus instintos de lobo, por todas as partes. Uivei o mais alto que pude, mandando pra fora todos os meus sentimentos, toda a minha dor, toda a minha raiva, toda a minha repulsa, e então senti. Eu não estava mais sozinho. Havia alguém ali, e era meu semelhante. Um lobisomem.
Farejei até encontrá-lo, no meio de uma grande clareira. Seu pêlo era claro, branco, e seus olhos, do azul mais límpido que eu podia imaginar. Quando nossos olhares se encontraram, eu tive a estranha sensação de que já os havia visto, em algum ponto do passado. Uma pontada atingiu meu coração como brasas queimando, e, em minha cabeça, aqueles mesmos olhos apareceram, só que em uma outra cor. Dourados. E, na época que eu me lembrava, eles não pertenciam à um lobisomem. Eram olhos de vampiro. De um vampiro melhor, de uma vampira.
Pisquei, tenatndo reorganizar meus pensamentos, e deixei minhas patas dianteiras caírem no chão. Senti lágrimas quentes rolarem por meu pêlo, realmente sem acreditar no que estava acontecendo. O lobo claro fez o mesmo, suavemente. E, de repente, a verdadeira voz de Claudia Oleander ecoou na minha cabeça, pensamentos de uma Alpha fêmea.
Você não faz idéia do quanto te procurei.
N/A: Heeey, não me matem, mas eu expliquei os motivos na nota anterior à esse cap, ok?
Então, seguindo o conselho das meninas lindas que deixaram reviews pra mim, eu escrevi. Está um pouco melancólico, mas eu senti que era o que precisava para o Guel, afinal a impressão dele morreu. E então, o que acharam?
Realmente não vai dar pra responder as reviews, mas saibam que leio todas com muito carinho e a partir do próximo cap vou pensar em um jeito novo de responder todas aqui mesmo no cap sem que me tome muito tempo. Eu gosto bastante de respondê-las, viu?
So... Deixem reviews, tá?
E posto mais assim que puder!
Salut!
