Capítulo 1

Eu nasci como Jeann Lelievre. Até onde sei, tenho descendências americanas e dos cajuns franceses. Não posso afirmar se minha família tem algum nome na história de New Orleans, porque eu não tive muito tempo com ela. Eu nunca conheci meu pai, e morava sozinho com minha mãe em uma casa de vários cômodos. Ela era Rosanne. Ela costumava me dizer que meu "Jeann" tinha duas letras N porque ela também tinha. Minhas memórias dela são poucas, mas as que restam dizem que ela não tinha meus traços. Seus olhos também eram verdes, mas muito mais cristalinos do que os meus, e seu cabelo era negro e cheio.

Por outro lado, eu tinha olhos olivas, e meu cabelo era castanho claro, puxado fielmente para o louro. Na época, costumava usá-lo curto e desarrumado, o que acredito que sempre me deixava com a aparência jovem.

Eu fui criado de um modo estranho. Eu almoçava com minha mãe todos os dias, mas eu nunca realmente soube quem era ela. Nunca conheci tios, mesmo ela afirmando piamente que eu tinha primos. Eu nunca me perguntei como tínhamos uma casa linda em Dauphine St pelas redondezas de Marigny, sendo que não tenho recordações de seus empregos. Eu a encontrava milhares de vezes chorando, e seus pesadelos à noite me acordavam.

Quando tinha por volta de catorze anos, eu rebelei-me. Eu comecei fumar pouco tempo depois disso, e acredito que o carinho fraterno que eu precisava foi trocado pela nicotina. Na cidade do Jazz, eu tinha um bando de "amigos" do Rock n' Roll. Minha língua era afiada, eu tinha um cigarro nos dedos e eu era o rei do meu próprio mundinho. Eu tinha todas as garotas que quisesse.

Até que eu descobri o limite.

Eu havia parado o segundo ano do colegial. Quebrei vidraças, ameacei com uma faca um garoto da minha idade. Faltei às aulas, fugi das poucas para ir aos centros de rock. Vivi basicamente de absintos traficados, cigarros, rock n' roll e viagens, nunca parando em casa. Andei sem rumo com aqueles que eu achava interessante. Não queria parar, pensei que aquela seria sempre minha vida.

Depois de cerca de um mês nessas viagens, as roupas estavam sujas demais para continuar. O cabelo havia perdido há dias o brilho e o cheiro. Estávamos cansados, e meu combustível havia acabado... Foi quando decidi voltar para casa, depois de ficar mais de um mês sem ver minha mãe.

No meio do caminho, me despedi dos meus amigos e apertei a campainha de casa. Eu esperava as piores das broncas. Ainda estava bêbado, e gritei coisas totalmente sem sentido a porta, mas ela não veio. Nunca mais veio. Quando eu percebi que não tinha ninguém em casa e que não podia ficar gritando na rua, eu arrombei a porta com um chute.

Gritei o nome de minha mãe, fui até seu quarto, e para minha surpresa tudo estava desmontado. As roupas jogadas no chão, as gavetas abertas. Entrei em pane ao notar que a casa fora provavelmente roubada e que minha mãe desaparecera. Eu estava bêbado demais para ligar para a polícia, e tirando um fio de sobriedade desci a cozinha. Minha intenção era enfiar a cabeça embaixo da água gelada da pia. Antes, eu vi um papel amassado que chamou minha atenção. Eu o desamassei, encontrando um bilhete.

Calmamente, entendi que era a letra de minha mãe, em um recado que parecia ser endereçada a ela mesma, como um desabafo.

"Ele se foi. Jeann... O que pode ter acontecido com meu único menino? Perdido entre as drogas, preso, falando sozinho?
Deus... Como eu espero que ele não esteja vivendo o que eu vivi. Eu não quero que ele esteja condenado a tudo que eu passei. Eu rezo para que esteja vivo −, porém não sei como ele poderá viver sem mãe, e sem pai. Ele é só mais um menino rebelde, mas eu sei que ele é muito mais que isso... Quem vai guiá-lo nessa estrada tortuosa? É o inferno que me espera, e eu sonho que ele me perdoe... Por favor, meu filho... Eu não desejo ter que te encontrar lá."

Eu tive um acesso de riso olhando para o papel estragado sobre a pia. Ela era louca. Sempre pensei nisso. Eu não entendia o que aquele recado dizia. Eu demorei quinze anos para entender o seu aviso, mas naquele momento eu só queria encontrá-la e desejar que ela tivesse um ótimo analgésico.

Balancei a cabeça negativamente, mas ao virar o rosto para a lavanderia, meu corpo levou tamanho choque que o copo de água que eu pegara, estraçalhou-se ao chão.

Enforcado no simples varal de roupa, roxo, e já apodrecido com o tempo, o corpo de minha mãe rodava. Os dias havia tornado aquela cena mais monstruosa do que já era. O corpo não estava intacto; estava impuro. Larvas já desciam por suas pernas arroxeadas, os olhos haviam se tornado o próprio retrato do Diabo. Eu nunca havia encarado a morte. Eu fui ao chão, tremendo, gritando por ajuda.

Ela estava enforcada com o cadarço de um tênis qualquer. A morte foi lenta, porque aquilo não era o bastante para matar uma mulher do porte de minha mãe − alta, forte. Ela sofreu horas. Eu desmaiei pelo efeito do choque e da bebida, só acordei no banco do IML. Foi só assim que entendi que não fora um pesadelo.

Os peritos não hesitaram em me contar detalhes da perícia. Eles me achavam culpado, no fundo. Um filho que sai de casa durante um mês e então deixa a mãe se suicidar de uma forma dolorida, e apodrecer. Eu não conseguia chorar, e o horror era tão grande, que pelos quase dois dias que passei em uma delegacia eu não queria dormir.

Falei com meia dúzia de psicólogos, que me avisaram que o que eu tinha visto foi forte demais. Eu teria pesadelos, e talvez leve depressão. Todos disseram isso e se ofereceram para ajudar. Eu preferi apenas ignorá-los. Procuraram parentes próximos que pudessem ter minha guarda até os dezoito anos, e não encontraram ninguém.

Minha idade era péssima pra adoção. Na visão da justiça eu era uma criança, mas na visão de uma casa de adoção, eu era um estorvo.

Acabei em uma casa de adoções, não muito longe dali. Os jornais passavam a notícia como se fosse uma loteria, e desde então peguei certo nojo deles. Na casa, eu era o mais velho. Todos sabiam o que tinha acontecido, e pareciam querer me colocar em um berço de ouro por isso. Não adiantava, porque eu tinha pesadelos todas as noites. Eu tentava não acordar as crianças mais novas durante a noite, porque eu as assustava. Eu era o mais velho de lá. Eu tinha pesadelos todas as noites. A cena, nunca saiu da minha mente.

Eu vivia com medo de ficar sozinho na casa, e sabia que assim que fizesse dezoito anos, deveria ir embora. Eu já tinha dezesseis, e dois anos me pareciam nada para apagar o que eu presenciara. Eu não tinha os ensinos completos, e teria que dar um jeito de sobreviver.

Eu procurei todos os tipos de significados para a mensagem da minha mãe, mas nunca cheguei a pensar que ela fosse médium. Vivendo entre dois mundos e não suportando tal fardo. Eu ocupava meus dias assim. Eu não conversava com ninguém, não saia, não bebia e não fumava.

Depois de um pouco mais de um mês, eu acordei com a dona da casa gritando que estavam me procurando. Ela recebera os documentos e aparentemente, eu tinha uma nova família. "Você tem sorte de ser alto" ela disse me encaminhando até a sala de visitas.

Eu mal sabia o que tinha a ver a altura com o fato de ser "adotado". Só me levantei, tentei vestir a melhor roupa e a segui. Naquele momento, eu não pensei que só tinha por volta de um e setenta e cinco, a altura de qualquer homem normal.

Quando cheguei à sala de visitas, eu tive um ataque de riso irônico. Esqueci todos os bons modos e cruzei os braços esperando a explicação se aqueles homens seriam meus pais. Estavam em três, dois confortavelmente sentados nas poltronas e um de pé. Eram todos visivelmente fortes e sérios. Altos. Todos eles me encaravam surpresos pelo riso, menos o que permanecia de pé.

Aquele homem era Charlie Brousse. Um lutador independente de seus bons quarenta anos e solteiro. Assumo que assim que coloquei meus olhos nele, o meu riso cessou. Seus cabelos eram compridos e negros, iguais aos dos cantores que eu costumava idolatrar em 1996. Tinha algo que me fizera parar, e eram seus olhos. Eles eram sérios e quase sem expressão. Azuis... Mas tão perfeitamente azuis que eu aposto que ele era um dos homens cobiçados quando jovem.

Jogado na poltrona da esquerda, estava Morrice, um dos rapazes mais velhos da academia. Tinha bastante sucesso em lutas independes e permanecia na academia apenas por gostar dali. De cabelos escuros e olhos cansados, ele tinha a mesma expressão do rapaz que se sentava na poltrona da direita. Quem estava sentado era Olivier. Um rapaz loiro de olhos acinzentados, vindo de New York. Eu não precisava dessa informação, porque soube assim que abriu a boca. Não parecia ser muito mais velho do que eu, mas me encarava como uma criança.

− Já podemos ir, treinador? − ele disse, jogando o ar o pulmão como se aquilo fosse entediante de se fazer.

Para minha surpresa, ele não me puxou pelos cabelos e me arrastou de lá. Ele pediu licença para sentar-se no sofá perto de mim e me explicou o que aconteceria.

− Eu sei o que aconteceu com você, mas também sei que você foi encontrado bêbado no lugar. − sua voz era firme, séria, ela não me deixava rebater. − Eu passei por uns dez advogados engomados para chegar aqui, ou seja, eu não quero que isso seja à toa. Eu sou dono de uma academia de Pro Wrestling, eu recebo garotos de todos os Estados Unidos que querem treinar comigo, e me pagam para viver embaixo do meu teto. Eu quero um lutador, e você tem muita fúria aí dentro, porque eu sei. Eu vou te colocar nos meus trilhos de qualquer maneira, então é sua escolha. Você vem comigo, ou vai ficar aqui? − ele perguntou secamente, o que me deixou sem chão por alguns segundos.

Eu tinha uma decisão para fazer em dez segundos, mas só pensava o quanto sua voz era firme, e seu sotaque era quase nulo.

− Eu vou. − foi tudo o que eu disse, enquanto Morrice e Olivier trocavam uma risada.

Sentado aqui enquanto o sangue pinga sobre essas folhas de caderno, eu não consigo deixar de pensar que isso aconteceu há quinze anos. Só agora, é que pareço entender tudo que aquilo significou. Só depois de quinze anos é que eu sou capaz de entender o que minha mãe me disse.

Só agora...