Capítulo 2
− Até quando vou ter que passar pano nesse chão?! − eu reclamava baixo, sem ousar levantar a voz.
Era a frase que eu mais repetia na primeira semana que me estabeleci na academia de Charlie. Era um local amplo, porém simples, e longe do French Quarter e suas casas grandiosas. Ficava localizada perto de um grande estacionamento na Virginia Ct e esquina com a Clayton Ave.
Ele me apresentou o quarto que eu iria ser só meu, a cozinha, e a academia, os quartos das outras pessoas e tudo o que sua educação permitia. Quando chegou a noite, ele me explicou a que preço eu ficaria ali. Jogou um balde e um esfregão encima de mim. Ele queria que eu limpasse o chão da academia, todos os dias assim que ela fechasse.
O serviço durava uma hora, no máximo. Reclamava durante todo o tempo por aquilo. Era demais para meu estilo de vida ficar uma hora limpando uma academia.
Notei que estava começando a emagrecer demais por conta da falta de cigarros. Fazia cerca de cinco semanas que eu não via a cor de um, e meu corpo estava sentindo os efeitos do vicio. Eu não conseguia sair da academia, eu fora proibido. Charlie − meu suposto pai − havia me pedido calma, e que depois ele resolveria questões como estudo, trabalho, e principalmente a proposta de aprender a lutar.
O relógio marcava oito e meia da noite. Logo eu iria terminar a limpeza, subir para o quarto − que eles chamavam de "locker room" − jantar, e dormir até babar. Eu ia apagando as luzes por onde terminava, andando de costas para a porta de entrada da academia.
− Ainda reclamando, Jeann?! − eu ouvi a voz grave de meu "chefe" avisar, o que me fez dar um pulo.
− Oui! Afinal, não é você que pode descrever a cor do suor de seus filhotes amados. − Eu falei sarcasticamente, sem olhar para trás, porque acima de tudo, eu o temia.
− Tem inveja deles? − ele me questionou, em uma curta risada.
− Inveja do que? − eu disse alto, virando o esfregão e olhando-o furioso. Ou com o que achava ser fúria. A cena era tão ridícula, que hoje em dia eu riria.
Odiava minha situação. Eu já tinha desistido de um pai ali, eu queria o contrato para aprender a me defender, a usar aquele tal de "Pro Wrestling" em alguma coisa. Na verdade, ele deveria ser meu pai, não um treinador. Nada disso estava ocorrendo. Estava apenas trabalhando.
Eu olhava sério para o treinador do local, o homem dos olhos azuis. Depois de minutos a me encarar sem resposta, ele riu.
− Você é uma piada, menino. Trabalha uma hora por dia e ainda quer reclamar. − jogou os braços, ainda com o curto riso nos lábios.
− Você deveria cuidar de mim, não acha? − eu o questionei − Acho que a única coisa que venho fazendo diariamente aqui, é trabalhar pra você! − eu falei irritado.
Toda minha pose de garoto rock n' roll ainda não havia se esvaído. Eu era volátil. Respondia a quem quer que fosse − mesmo se esse "quem" se tratasse de um lutador que tinha o dobro de minha altura.
− O que quer, Jeann? Tem que aprender a viver. Quer que eu te carregue no colo? − ele disse com ironia − Você tem dezesseis anos. Com sua idade, eu já sabia viver.
− Blá, blá, blá... − ironizei, fazendo gestos de que suas palavras eram inúteis. − Até parece que não sabe o que quero! Isso aqui é nada pra mim, eu voltaria pra casa de adoções se aquele ringue não estivesse ali. − eu apontei.
− Quer lutar? − ele questionou, me fazendo balançar a cabeça positivamente − Não é apenas o agarra-agarra que vê enquanto os caras estão treinando. Quero que cresça antes de começar a lutar.
− Crescer? Eu vou demorar dois anos até ser maior de idade! − eu protestei, sem entender que ele se referia a minha mente.
− Você é uma criança, mas vai ter que aprender o poder das suas decisões sobre a vida. - o aviso foi singelo - Começamos amanhã. Agora largue esse esfregão e vá jantar. − ele ordenou me fazendo obedecê-lo ao mesmo instante, e me direcionar as escadas que levava a parte superior da academia.
− Boa noite, Charlie. − eu disse de um modo educado, e ele me respondeu no mesmo tom.
− Boa noite, Jeann.
†-†-†
Não se lembra de sua mãe?! Ela se enforcou para que visse ao que está condenado, menino, acorde! Acorde!
Pulei da cama, sem conseguir respirar. Espalmei a mão sobre o peitoral, socando a região, obrigando minha respiração a voltar. Ela voltou com turbulências, me fazendo puxar o ar mais do que podia, meus olhos lacrimejando com a ardência no peito.
Olhei para a locker room e ele estava completamente vazio, ainda escuro. No relógio sobre a escrivaninha, marcavam 6h35 minutos. Os pesadelos mais uma vez me arrancavam da cama, e eu estava não era capaz de deitar novamente. Levantei-me, me arrumando rapidamente como fazia todos os dias, sem pensar na roupa ou em como me viriam. Passei pelo refeitório, e a única pessoa que estava lá, era uma nossa cozinheira, e ela não havia começado a preparar o café. Desisti do mesmo e desci para a academia, com esperança que alguém estivesse acordado àquela hora, porque eu precisava afastar as imagens do pesadelo da mente.
Para minha surpresa, o treinador estava lá, sentado no ringue, absolutamente sozinho. Desci as escadas lentamente, não querendo assustá-lo. Porém ele parecia mais assustado do que eu, com a mão sobre o queixo. Vestia apenas uma calça de pijama, e antes que eu chegasse ao último degrau, ele murmurou:
− Podemos conversar, Jeann?
Sua voz era séria. Automaticamente eu me assustei. Questionei-me duas vezes se aquilo não era a continuação do pesadelo. Aproximei-me hesitante, sem ter certeza de que deveria respondê-lo. Aquela pergunta parecia tão estranha, e como ele sabia que era eu descendo as escadas sem olhar?
− Claro que podemos... − disse, quase tremendo pelo medo daquilo ser apenas um outro pesadelo.
− Sua história ficou bem famosa aqui quando aconteceu aquele acidente com sua mãe... − ele disse com a voz baixa, agora me olhando sério. Ele me encarou alguns segundos antes de continuar. − Essa noite você teve pesadelos. Quero saber o que está acontecendo, quero poder ajudar.
− Como sabe que tive pesadelos? − o questionei, ficando do lado de fora do ringue, enquanto ele continuava sentado dentro do mesmo.
− Você sabe que é sonâmbulo? − ele retrucou. − Você andou pelos corredores como se estivesse dando voltas. Quando levantei para ver o que era, você disse algo como estar condenado. Eu te coloquei de volta na cama. − ele se levantou no ringue, olhando para mim do lado de baixo. − Sei que não lhe trato como um filho, e nem deveria, porque tem que aprender a viver sozinho... Só que agora preciso saber o que está acontecendo com você... Eu não faço idéia de como os outros rapazes não acordaram. Você me assustou.
Eu respirei fundo, balançando a cabeça negativamente.
− Não tente me consertar, achar que me colocar na cama após um pesadelo é seu ato heróico. Você não é nada meu. − eu retruquei calmamente, olhando-o enquanto ele descia do ringue e ficava parado ao meu lado, encarando-me.
− Sou sim, e é melhor se acostumar com isso. − ele exclamou, com o olhar furioso destacando-se nos olhos azuis bondosos. Ele me agarrou pelo ombro fortemente, mas para que tivesse certeza que eu estava ouvindo. − Agora me ouça. A partir de hoje, você não sai mesmo daqui. Sem bebidas, sem cigarros, sem rádio. Até você entender que legalmente, eu sou seu pai, e que eu tenho direito de saber o que está fazendo você ficar perturbado, e principalmente que você vai me respeitar. – ele ordenou.
− Me larga! − eu grunhi, me soltando dele com uma cotovelada em cheio no seu braço.
Hoje, não faço idéia de como tive coragem para desafiá-lo daquele modo. Passei a mão sobre onde ele tinha me segurado. Seus dedos estavam perfeitamente marcados ali. Finos vergões. Eu mal pude acreditar que ele havia feito aquilo e soltei um murmuro surpreso.
− Como você tem coragem de me perguntar o que eu tenho? − Eu gritei me afastando cada vez mais da imagem surpresa do homem a minha frente. − Eu vi minha mãe enforcada! Eu a vejo todas as noites me dizendo que estou condenado a ser como ela! − meu tom se elevava sem que eu notasse cada vez mais, e o tremor começava a tomar meus dedos.
Quando notei, já estava totalmente sem controle. Eu andava para trás respirando fundo, sem saber de repente, onde eu estava. Eu olhava para Charlie, seus olhos azuis ainda assustados com minha brusca resposta. Eu o olhava, sentindo a academia rodar, meus pés não estarem mais estacionados no chão.
− Não chegue nunca mais perto de mim. − eu gritei novamente. − Ou eu te mato. − as palavras saíram com facilidade, como se apenas meu subconsciente soubesse que eu poderia.
Cai sentado, tremendo. Ouvi os passos dos lutadores saírem de seus quartos assustados com a gritaria, e os vi descendo as escadas para se certificarem que estava tudo bem. Alguns rapazes tentavam me levantar e, no entanto, eu estava preso dentro de mim, não conseguia falar e estava suando frio. Minha cabeça tinha um turbilhão de pensamentos, e uma dor aguda na mesma me fez segurar forte em quem tentava me levantar do chão.
A realidade voltou a mim em poucos segundos. Respirei fundo, olhando para Morrice e Olivier que me seguravam. O controle sobre meu corpo voltava aos poucos, como um espasmo. Olhei para Charlie a minha frente, estático, sem acreditar nas minhas palavras. Logo atrás dele, dois dos rapazes riam quase a afogar-se com o próprio riso. As risadas doíam em meu ouvido, e eu os odiei no mesmo instante.
− Idiotas. − eu disse baixo, tentando me equilibrar. Eu olhei para porta da academia, decidido a deixá-la.
− Quem? − ouvi Olivier retrucar, me segurando pelo braço. Ele me seguia, e sua preocupação estava estampada nos olhos de pupilas ainda dilatadas pelo sono.
− Aqueles rapazes atrás do treinador. Eles não sabem o que acontece para ficarem rindo. Deve ser engraçado ver um homem que até um mês atrás se achava dono do mundo, cair... − reclamei baixo, de repente sem vontade de gritar, sem vontade de me lutar contra Olivier que ainda me segurava.
A dor de cabeça quase me cegou quando falei aquelas palavras. Machucava-me, mas não era capaz de assumir isso naqueles tempos. Eu era jovem demais pra entender o que era dor. Os dedos de Olivier se soltaram de meu braço devagar. Eu comecei a caminhar até a porta, mas antes de abri-la, eu novamente ouvi o louro falar em um tom cauteloso:
− Jeann... − era quase um sussurro. − Não há ninguém atrás de Charlie.
Virei meu rosto para trás, vendo Charlie com uma visão tão dolorosa. Olhei novamente para onde havia visto os rapazes, mas eles não estavam mais lá. A visão me fez encontrar minha mãe sentada, ali nas escadas do ringue.
A visão me trouxe um arrepio, e eu parei estático. Ela chorava. Chorava escrevendo uma carta, dizendo baixo meu nome. Levantou-se, subindo no ringue com uma simples corda em mãos. As próximas cenas foram cortadas por meu grito, assustado, descompassado, aterrorizado. Ela estava se suicidando novamente, na minha frente, e aquilo não tinha como ser real.
Eu não posso descrever a que velocidade meu coração foi com aquilo que eu enxergava. Eu tampei os olhos, gritando palavras que não fazem sentido até hoje. Eu apertava os olhos na esperança de não enxergar mais nada, mas eu ainda podia a ouvir agonizando. Ela gritava meu nome, e o ouvia com perfeição.
Tentaram me segurar, mas eu estava apavorado demais. Eu soluçava alto sem lágrimas, me debatendo para todos os cantos onde tentavam me segurar. Não sei quanto dos rapazes foram necessários para me segurar e me prender contra o chão. Eu reconheci os dedos fortes novamente em meu ombro, me segurando.
− Jeann, olhe pra mim, só para mim! − ele disse, segurando meu rosto de modo que me forçasse a olhá-lo
Eu confiei no seu toque para abrir os olhos. Fiquei assim por alguns segundos, enquanto todos pareciam chocados pelo digno escândalo que eu tinha acabado de fazer. Eu tremia tanto. Eu estava tão horrivelmente fragilizado, que eu não lembro palavras que possam descrever o pavor que senti ao rever a morte de minha mãe. Eu ainda não conseguia olhar para o ringue com medo, mesmo que as vozes tivessem desaparecido.
− Jeann, para mim. Aqui. − ele segurou novamente meu rosto pelo queixo. Sua voz parecia assustada, mas tão calma aos meus ouvidos. Eu o obedeci, eu encarei seus olhos azuis.
Eu mergulhei em seus olhos. Aconcheguei-me em suas pupilas, me afogando nas ondas azuis que de repente eu podia enxergar ali. Consegui respirar fundo, enquanto ele me dava seus braços para que eu os apertasse. Senti meu corpo reerguendo-se acima de sete palmos de terra. A visão chegou a clarear em minha frente, e a dor de cabeça foi ficando fraca, até desaparecer.
Quando voltei a olhar para os lados, eu encontrei apenas os vivos. Todos ajoelhados ao meu lado, assustados, me vendo ali hipnotizado pela ressaca dos olhos do meu treinador.
