Capítulo 3
Tomei o café da manhã com Charlie. Ele me ofereceu tudo o que tinha na cozinha da academia. Bolachas, café com chicória e leite, panquecas, beignets... Ele tentava me acalmar, mas eu já estava calmo, porque começava achar que era apenas o efeito do sono.
Alimentei-me como nunca. Até mais pelos olhos do que pelo estômago, porque não sentia necessidade de tudo que comi. Depois de terminar o café com chicória − que de tão adoçado me fez sentir sono −, eu passei a mão no rosto, limpando-me. Havia suor por todo meu rosto, e sentia o mesmo em minhas costas. Agora que estava calmo, tranqüilizado, imaginar como estava cinco minutos atrás era assustador.
Eu pensava ter sido obra do sono aquelas cenas que vi. Estavam em minha frente, acontecendo na frente dos meus olhos. Eu queria entender, mas mais que isso eu desejava esquecer. Eu tinha acabado de ver mortos, garotos rindo, e queria esquecer. Trazia-me arrepios pensar na cena, nos gritos tão reais que eu ouvira.
Cruzei os braços, respirando fundo. Olhei para Charlie, que estava apoiado na mesa comunitária, me fitando com um misto de pena e proteção que me fez tirar os olhos dos seus, fitando a cor pastel da mesa. Ele sabia que tinha pegado pesado demais comigo, e que talvez fosse culpa dele o que passei depois. Ele pigarreou para começar a falar.
− A partir de amanhã preciso de acorde um pouco mais cedo. − ele disse sério, não aparentando a pena que os olhos pareciam demonstrar.
− Por quê? − questionei, sentindo a garganta arder. Meu sotaque ficou ainda mais confuso pela rouquidão. Voltei meus os olhos para ele.
− Você é novo ainda. Precisa estudar. − ele disse com a sobriedade comum de sua voz. − Eu queria esperar para poder tomar essas decisões, só que hoje percebi que estou perdendo tempo.
− Estudar? Você é louco? − eu repliquei, arregalando os olhos, aumentando o tom da voz.
Eu simplesmente odiava essa palavra do dicionário. Odiava a escola, a maioria dos idiotas que compunham uma sala, e pra completar não era do meu estilo ter que respeitar um professor, ou professora. Esse era eu nos anos noventa, mesmo que ainda me envergonhe pensar nisso. Só que todas minhas palavras grossas apenas fizeram sua sobrancelha arquear.
− Abaixe a voz enquanto fala comigo. Você deve gostar dos seus dentes. − ele não alterou o tom, mas aquilo foi como um tapa em meu rosto, e me fez arregalar os olhos. − Por que não quer estudar? − continuou com o simples tom do começo, como se não tivesse acabado de me ameaçar.
Pensei em responder com palavrões e intimidá-lo. Só pensei, mas a coisa mais inteligente a se fazer, era apenas responde-lo.
− Eu odeio a escola. − disse com de deboche − Não só a que eu costumava usar. Eu odeio ter que engolir pessoas mandando em mim. Fora isso, eu não quero saber se estou nos Estados Unidos, porque falamos francês, ou então como uma mulher engravida. Isso eu já aprendi sozinho. − disse de lado, mas sem alterar o tom. − Esse não é meu mundo!
− Ok... Agora começamos a conversar como homens. − ele se ajeitou no banco, cruzando os braços. − Me diga o que gosta de fazer. O que você estava fazendo antes de voltar para sua casa?
Fiquei alguns minutos em silêncio, me questionando se deveria falar o que realmente fiz durante os dois últimos anos. Era uma vergonha, mas praticando, não parecia. Senti uma súbita vontade de falar que estava enlouquecendo sem meus cigarros, e que ele havia feito a maior besteira da vida tendo-me "adotado". Porém continuei em silêncio, encarando a mesa, sem saber realmente do que gostava; se havia algo que eu me apegasse além da garrafa verde brilhosa.
− Vamos, fale... Não é possível que não goste de fazer nada. Diga-me o que fazia antes de ir para a casa de Adoções. − ele continuou dizendo, batendo os dedos na mesa, provavelmente ansioso por minha resposta.
Pensei novamente duas vezes antes de abrir a boca. Dessa vez até preparei os lábios, mas travei antes do som de qualquer palavra sair. Voltei, revisei minhas palavras e comecei a falar.
− Eu vagava. Sabe, não tinha aonde ir nem onde ficar. − comentei ainda inseguro de minhas palavras, encontrando algo do que falar. − Ah! Bom, eu ouço muita música. Acho que é uma das poucas coisas das quais eu não me canso. − ele meneou a cabeça, mostrando que gostara de ouvir isso.
− Bon Jovi? − ele questionou.
− Poison! − eu sorri, relembrando das pilhas e pilhas de CDs que tinha e que foram confiscados e eu nunca mais os vira.
− O que mais? − ele me questionou, de repente parecendo um de meus amigos, me questionando sobre as bandas das quais eu ouvia e mais gostava.
− Alice Cooper. Acho um pouco estranho, mas são boas músicas, já ouviu? − perguntei, relaxando a tensão nos dedos, respirando fundo.
− Fui ao show dele em 1977. Você não era nem planejado nessa época. − ele riu, e eu não consegui deixar de rir juntamente. − Já esteve em um show? − ele me perguntou, ainda me surpreendendo.
− Não − neguei com a cabeça − Nunca fui a um.
Estávamos no meio do ano de 1990. Se bem que me lembro, as melhores bandas tocavam nessa época. Era milhares de shows, cada feito para ficar na memória e na história. Não menti quando disse que nunca fui a nenhum. Não tinha dinheiro para isso. Tudo o que chegava a minhas mãos acabavam indo para conduções, bebidas, e cigarros.
− Uhm... Ok... − ele disse como se vagasse em pensamentos − O que mais fazia quando saia sem direção, Jeann? − ele pressionou me deixando um pouco perdido novamente.
− Eu... − mordi o lábio inferior, sem saber se deveria confiar em dizer aquilo − Sou fumante, a maioria do tempo era... Isso. − soltei em uma única frase, sem respirar, encarando seus olhos, esperando sua reação. Seus olhos apenas se arregalaram um pouco, o que me fez encarar a mesa novamente. Eu queria gritar que meu corpo estava chamando por uma coisinha branca que não trazia nenhum bem a mim. No começo, parecia bonito carregar um cigarro entre os dedos, depois, parecia necessário. O vicio estava em mim e não tinha como negar.
− Eu desconfiei disso... − ele disse, mexendo-se, como se me forçasse a olhá-lo. − Está emagrecendo desde que chegou, e come bem, só podia ser por isso... − comentou vago, não aparentando nenhuma emoção forte. − Vai ser difícil de começo, mas acho que você agüenta. Se eu deixar você tocar em um cigarro agora, você nunca vai conseguir ficar longe de um. − ele disse calmo. − Vai morrer antes dos trintas fumando assim... − eu entrelacei os dedos, apenas ouvindo.
− Quero perguntar outra coisa, e quero que seja sincero. Eu concordei com a cabeça, mesmo que duvidasse que eu pudesse dizer completamente a verdade dependendo do que ele me questionasse. Ele esperou alguns segundos, respirando fundo, intercalando o olhar entre minhas mãos e meu rosto.
Parecia agoniado com minha falta de jeito em falar sobre aquilo. Seus olhos me fitavam atentamente, e aqueles olhos... Eles despiam lentamente você, como se soubesse ler sua mente, enquanto você se perdia no azul. Ainda me lembro bem que seu rosto era sério, com traços fortes. O cabelo era negro, como eu já havia notado, e usava sempre preso. Caia pelas costas, poucos centímetros abaixo do ombro largo. Era a figura de um homem forte. Sim, ele tinha totalmente o porte de lutador. Devia ter mais de um e noventa, e se bem me lembro era forte. Braços e costas largas. Não tanto quanto os profissionais que vemos hoje − que são quase exagerados.
Eu esperei que ele tomasse seu tempo, e então me perguntou:
− Jeann, se a partir de hoje, eu começar a te treinar com o melhor que tenho, quantas são as possibilidades de você encontrar na luta livre uma paixão que te faça esquecer até mesmo de seu vicio?
Eu esperava qualquer outro tipo de pergunta. Sobre meninas, drogas, bebidas. Menos aquela. Demorei alguns minutos para pensar no que ele estava quase me propondo. Eu não queria perder a fama de garoto rock n' roll, só que eu já havia perdido muito mais. Talvez, aquilo fosse o que eu precisasse.
− Não sei... Talvez... Quarenta por cento... − disse, sem certeza alguma sobre minha afirmação.
− Pode ser bem menos que isso, mas vou colocar minhas fichas em você. − ele disse, levantando-se e espreguiçando-se, descontraído por um instante. Sem nenhuma palavra ele começou a sair da cozinha. Chegando perto da porta, eu o chamei.
− Charlie! − disse alto, procurando chamar sua atenção. Ele me olhou, arqueando a sobrancelha novamente. − O que ficou decidido sobre os estudos? − disse em tom baixo, não querendo ouvir sua represália.
− Deixe-me ver... − ele olhou para o alto, como se parecesse pensar profundamente, mas de forma irônica. − Faremos assim, amanhã, quero você trocado, perfeitamente arrumado, às oito e trinta da manhã. Isso inclui − ele começou a enumerar nos dedos − Cabelo penteado, dentes escovados, unhas cortadas, banho tomado, café da manhã ingerido e principalmente, bem humorado. − disse calmo, soltando os dedos após falar.
− Eu não vou para escola. − eu disse breve, sabendo que aquilo eu já havia decidido e não iria voltar atrás.
− Quem mencionou escola aqui? − ele me olhou sério, novamente me domando com o olhar. − Vamos sair cedo amanhã, e pode respirar fundo, vamos passar quilômetros longe de qualquer escola ou faculdade.
O mais engraçado foi que eu realmente respirei fundo, batendo a testa na mesa repetidamente. Minha vida tinha tido a maior mudança imaginada. Eu era filho de um cara que parecia um poste elétrico. Fiquei remoendo essa idéia até desistir de bater a cabeça, e apenas encostá-la. Sentia-me cansado, como se os pesadelos estivessem tirando todo meu sono. Imaginava o que Charlie estava pensando em fazer. Não fazia idéia do que podia ser, e isso me deixava cada vez mais hesitante. Em minha mente, eu quase podia agradecer por ter conseguido falar com ele de algo que não fosse sobre o chão da academia. O fluxo dos pensamentos continuava tão grande que adormeci. No refeitório, com a cabeça abaixada entre os braços.
Pela primeira vez desde o mês da morte de minha mãe, eu não tive pesadelos. O intervalo do sono que tive sobre a mesa do refeitório foi breve, logicamente, mas foi milagroso. Eu me senti bem quando acordei, com uma premissa que tudo que havia acontecido anteriormente haveria de passar. Acordei surpreso por ter adormecido, e me levantei rapidamente, tentando enganar a vontade de me espreguiçar e deitar de novo. Dos desejos listados, apenas me espreguicei, saindo do refeitório em passos demorados, preguiçosos. Não tinha idéia do que iria fazer até a noite.
A estrutura da academia era bem simples. O refeitório era o último cômodo do enorme corredor, seguido de mais seis quartos ao lado direito. No esquerdo era apenas uma grade vermelha que deixava a visão livre para a academia lá em baixo. Parei neste corredor, pensando se iria para o quarto − ver TV, coçar, coçar... − ou descer para a academia acompanhar o treino de Olivier.
Momentaneamente me veio à memória do pesadelo, e isso me fez arregalar os olhos e optar pelas escadas que davam a academia. Ficar sozinho ali não seria interessante. Desci calmamente os degraus, admirando a recém movimentação do local.
Duas lindas moças haviam entrado na academia, logo se dirigindo a Charlie, procurando sobre informações, provavelmente. Eu parei ali mesmo na escada quando as vi. Porque eram lindas de doer. Uma de cabelos lisos e loiros e outra de cabelos ruivos e ondulados. Pareciam estar falando algo tão sério a Charlie que por um instante desconfiei que fosse algum tipo de amigas próximas.
Eu conhecia aquele tipo de "amigas" muito bem, afinal eu não era nada do que sou hoje. Eu era um moleque. Acho que no real sentido da palavra. Daqueles tipos que ainda fazem palhaçadas e que deixava os colegas em situações constrangedoras. Usava um tênis qualquer, com a calça jeans clara rasgada. Usava uma camiseta preta, sem me importar com seu estado. Fumava e ainda por cima bebia. Como garotas normais de minha idade me encarariam?
Apenas meu rosto não sofreu mudanças fortes. Eu sempre tive aquele relevo no lábio inferior, como os lábios de uma moça. Esses traços delicados nunca me deixaram. Como era novo, era fácil esconder esses traços, agora, não é tanto. Meus olhos eram claros. Eram verdes oliva, mas não se destacavam muito dentre tantos azuis cobaltos que sempre me chamavam a atenção. Usava o cabelo no maior estilo "Jon Bon Jovi" que se pode imaginar. Não era comprido, mas sim bagunçado e curto, sendo que se fosse aninhado, chegaria facilmente ao pescoço.
Eu fiquei ali, encantado com a silhueta das garotas que ainda cismavam em pedir informações, e o treinador, logicamente às atendia sem demonstrar impaciência. Em cerca de minutos, uma das moças − a ruiva, se me lembro bem − saiu andando em passos largos por onde havia entrado, estralando o seu salto alto no piso. Voltou rápido, de mãos dadas com um homem.
Não precisei de mais de cinco segundos para entender que se tratava de um lutador. Dessa vez Charlie o atendeu com um sorriso, como se estivesse a olhar as melhores das novidades. A conversa agora, entre os dois homens, parecia tão excitante que tive vontade de descer até lá e fazer parte da roda. Como se sentisse meus olhos queimando sobre suas costas, o treinador olhou para cima e me avistou, abrindo um sorriso.
− Jeann, venha aqui, por favor. − ele chamou em um tom elevado, para que eu ouvisse.
Eu hesitei em obedecer a sua ordem, mas continuei a descer os degraus que outrora havia estacionado.
− Fala, tr...
− Jeann! − ele quase gritou de entusiasmo, me fazendo encará-lo assustado − Esse aqui é Victor Blewett, é campeão de luta Greco Romana, está de passagem e ouviu falar bem de nossa academia... Nos fará companhia por algumas semanas, provavelmente tomará aulas de Wrestling junto com você. − disse animado.
O homem a minha frente serviu aos meus olhos os maiores dos sorrisos brilhosos, oferecendo a mão que cumprimentei, surpreendendo-me com a força que seus dedos amassaram o meu. Na verdade, não ouvi nada se ele era campeão, apenas ouvi "tomará aulas junto com você". Ou seja, eu ia ter aulas. Sua mão estava tão quente que me fez ter um arrepio interno. O sentimento era tão ruim que soltei a mão do lutador como se tivesse tomado um choque. Meu rosto não escondia o susto, mas sorri de lado.
− Vai ser um prazer ter aulas com vocês.
− Me dão licença por um instante? − Charlie disse, levando a mão até meu braço, me puxando rapidamente para perto da escada, quando respondido por sonoros "Sim".
Fiquei sem entender seu ato, mas o segui, deixando que ele me levasse pelo braço. Para mais estranhamento ainda de minha parte, ele levou a mão até meu cabelo, segurando-me ali.
− Está tudo bem, menino? − ele perguntou, me olhando com preocupação.
− Lógico que sim, o que houve? − perguntei assustado, desviando a cabeça de sua mão, do toque em meus cabelos.
− Você ficou mais branco que a parede dessa academia. − ele advertiu. − Eu que pergunto: o que houve? − questionou.
− Um arrepio, nada demais... Tive um dia longo e ele mal começou, não acha? − disse calmamente, mudando de assunto bruscamente. − Podemos começar as aulas logo?
− Vai sim, mas acredite... Não vai querer lutar agora, precisará de muito tempo. A academia precisará estar vazia, isso é um conselho amigável. − ele riu sarcasticamente.
− Está brincando comigo? − eu quase me esqueci de manter os modos. − Eu não quero passar mais meio dia sem entrar naquele ringue pra ver como é isso! Por favor, Charlie... − eu quase implorei, mexendo meus pés freneticamente.
− Jeann, escute o que estou te falando... Deixe isso para mais tarde...
− Por favor, Charlie, eu só quero isso... − falei baixo, pensando comigo se aquela tática de bom moço funcionaria. Ele me encarou alguns segundos antes de soltar os ombros.
− Não diga que não te avisei... − a frase era um sim que me fez dar um pulo. − Pode lutar com Olivier, o que acha? − ele me perguntou com um ar tão debochado que tive vontade de começar a luta ali mesmo.
− Pode ser... − olhei para o ringue. Olivier não era muito mais alto do que eu, e não parecia ser muito forte. Não como o treinador.
− Agora. − ele empurrou-me pelas costas, indicando o caminho do ringue.
Fui caminhando confiante pro ringue, onde vários rapazes estavam. Sob a ordem do chefe, todos foram saindo, sobrando apenas Olivier no mesmo. Subi os três degraus do ringue e entrei. Olhei Olivier, que ainda me encarava sem saber direito o que raios eu fazia ali. Ele jogou as mãos no ar, como se perguntasse "Como?".
− O treinador te mandou lutar comigo? − ele continuou com a mesma feição confusa, me encarando.
− O que acha? − eu disse irônico.
− Tem certeza disso, Jeann? − ele perguntou, abrindo um sorriso que realmente me apavorou. Agora eu já estava dentro do ringue, não ia sair.
− Claro que tenho. − Era a mesma coisa que "Claro que não".
− Ok... − ele uniu os dedos, estrelando-os demoradamente e jogando uma toalha suada para fora do ringue. A única coisa que pensei foi que eu teria que limpar o chão depois.
Quando me encostei ao corner e olhei para trás, realmente me assustei. Todos os agregados da academia − Morrice, Olivier, Charlie, fora Victor com sua namorada exuberante e a outra moça ao lado de Charlie, estavam encarando o ringue. Não preciso dizer o quanto aquela cena foi traumatizante. Fiquei ali alguns segundos, olhando todas aquelas pessoas com os olhos grudados em mim. Fui jogado para fora da onda pensamentos quando ouvi meu treinador soltar uma gargalhada e tampar o rosto, chegando a ter as bochechas coradas de tamanha gargalhada.
Depois da gargalhada, a única coisa que senti foi mãos muito brutais me puxarem pelo cabelo para o meio do ringue. Eu não sei, mas deduzo que metade do meu couro cabeludo tenha ficado nos dedos de Olivier. Ele me puxou com tamanha força que eu não conseguia erguer os braços para me defender. Quando consegui puxar minha cabeça para trás, fiz com tanta força que fui literalmente para trás, esborrachando-me no chão. Ele aproximou-se novamente, e me acertou um soco. A única coisa que eu fiz pra me defender foi tombar, sendo que só havia tido tempo de me erguer do escorregão. Cai com tudo, batendo a cabeça. Ele montou sobre mim, sendo o seu peso o bastante para prender-me ao chão. De um jeito que não posso imaginar como, ele me acertou uma seqüência de socos. Quando o treinador gritou de fora do ringue algo como "Pára! Finisher!", ele me soltou, afastando-se. No mesmo instante eu apertei os olhos e levei a mão à boca. Quando tirei os dedos, eles estavam manchados de vermelho. Entrei em pane.
Tentei me levantar, mas a tontura foi tanta que fui obrigado a segurar nas cordas. Olivier estava parado na minha frente, me olhando ali, entre a inconsciência e a dor latejante nos lábios. Ele me puxou com força, no meio da velocidade me erguendo acima de sua cabeça. Com uma mão em meu pescoço ele jogou contra o chão. A colisão foi dolorida. O impacto foi tão grande com a cabeça que a única coisa que eu fiz foi fechar os olhos. Apaguei.
Acordei questão de cinco minutos depois com a gargalhada estridente de alguém aos meus ouvidos, e eu estava sendo carregado. Quando consegui abrir os olhos, a dor centrada em minha cabeça foi tão grande que xinguei baixo. Senti-me contra a maciez de lençóis em seguida e deduzi estar em uma cama. Consegui abrir os olhos lentamente e me encontrei em meu quarto, com Charlie me olhando a beira do riso. Victor ao seu lado com a ruiva, estava tendo um ataque de riso quase incontrolável.
− Desmaiou, e feio. − Charlie avisou como se soubesse que eu ia perguntar exatamente o que havia acontecido.
− Nunca achei que Olivier fosse tão forte. − me ergui, sentando-me. Tudo rodava. Meu lábio parecia ter petrificado, e eu não queria olhar como ele estava.
− Ele não é forte, é você que é mais fraco do que eu imaginava... Se eu fosse você passaria longe de qualquer espelho. − ele aconselhou, colocando a mão em meus ombros.
A frase fez ecoar uma risada sonora dos presentes no local. O que me derrubou? Um, dois, socos? Ou aquilo que havia me feito bater a cabeça e costas com força no ringue, me fazendo perder a consciência? Já havia assistido algumas lutas, mas nada era parecido com sofrer realmente algum daqueles ataques. Respirei fundo, fechando os olhos e abrindo-os demoradamente. Victor, o lutador renomado estava abraçado à mulher que também corava de tanto rir.
− Ai, moleque... Que piada. − foi o que o lutador disse antes de gargalhar com vontade.
Não me simpatizei por aquele sujeitinho. Parecia prepotente e metido. Sua namorada também, mas esta fazia questão de me chamar atenção. Provavelmente o cabelo vermelho era provindo de uma tinta qualquer, no entanto, tornava-se gracioso de encontro ao angelical rosto e olhos verdes claros. Podia deduzir que era acostumada a vida de academia, porque por mais que o rosto e as curvas fossem redondas, femininas, ela namorava um lutador. Devia ter algum contato com os ringues.
Eu não me recordo se meu corpo se eriçou ao notar tão bem a moça, mas em questão de dois segundos após fitá-la sem vergonha alguma, meu treinador virou um tapa certeiro e dolorido em minha cabeça,
Eles saíram do quarto assim que o treinador tomou certeza de que eu não teria mais do que dores de cabeça por alguns dias. Se minha cabeça não balançasse tanto, eu teria negado seus cuidados. Meu orgulho estava ferido, completamente arrependido, mas também não conseguia pensar e entender o que queria.
Procurei o controle remoto nas cobertas, ligando a TV. Uma propaganda qualquer passava e isso me fez suspirar fundo, entediado novamente. Fora do meu quarto eu ainda conseguia ouvir a conversa animada de Charlie e Victor.
A academia tinha seu lado pensão. Quem quisesse, poderia ocupar um dos quartos pagando uma quantia bem pequena por isso. Assim poderia ter as aulas (que também eram pagas) e viver com um bando de pessoas com o mesmo objetivo de você. No corredor, o único quarto livre era o sexto, sendo que eu pegara para mim o segundo.
Levantei-me, e quando fiquei de pé entendi o quanto estavam certos ao falar que era fraco. Minha cabeça quase tombou como se pesasse mais que todo o resto do corpo. Tive que sentar para conseguir focar a visão, esperar a cabeça voltar para seu lugar e só assim fui capaz de me levantar de novo, ainda com uma dor quase insuportável na mesma.
Andei até o banheiro do meu quarto, parando sobre o espelho. Estava péssimo, pior do que eu imaginava. Nos lábios eu tinha um corte vermelho, com o sangue seco. Na mesma direção, tinha uma pequena parte do queixo inchado, e um hematoma quase invisível. De assustar mesmo estava a região um pouco abaixo da bochecha direita. Estava completamente roxa. Além de dolorida, não entendia como tamanhas marcas tinham aparecido ali por alguns socos. Levei atrevidamente os dedos até a bochecha, testando se podia senti-la. A área ardeu instantaneamente.
Parei no mesmo momento de olhar para o espelho, odiando o quanto havia sentido que era fraco, e que tinha que concordar com o treinador: lutar não era tão fácil o quanto parecia. Eu ia precisar de tanto pra entender que Pro Wrestling era muito mais que socos e golpes estranhos... Estava disposto a aprender − disso já tinha certeza. Meus motivos eram banais, mas eu estava disposto a me matar de estudar, ver, observar; tudo que fosse possível para aprender a vencer.
Sai do banheiro sem olhar pro espelho, e a TV ainda apresentava algum episódio de algo que deveria soar engraçado. Como não estava muito bem, eu apenas deitei, esperando por um curto sono novamente. Para minha surpresa, ele veio. Breve, tranqüilizador, sem pesadelos.
Acordei pouco mais de três horas depois, com o estômago a roncar, avisando que o horário do almoço já deveria ter passado e que eu continuara dormindo. Joguei o cobertor para longe, ainda com os olhos fechados, me arrastando até a porta e parando de frente para a grade. O cheiro de comida não estava presente no corredor, e a academia lá embaixo estava vazia. Caminhei até o refeitório, vendo o que parecia ser um prato reservado para mim sobre a mesa. Acreditava ser meu, esperando por mim. Não confirmei, apenas sentei-me e almocei. O barulho de risadas me desconcentrou, e entendi que deviam ser umas quatro da tarde, hora que os garotos que não "moravam" ali tomavam banho e voltavam para suas casas.
Naquela noite, não me recordo bem se estava com insônia ou dor de cabeça, mas me lembro que não conseguia dormir, e um turbilhão de pensamentos me incomodava. Os pensamentos me mandavam descer para a academia. Eles pediram e eu obedeci.
Eu ia descendo os degraus, mesmo no escuro, sem olhar para os lados, e ouvi aquele sonzinho de choro engolido. Vi um homem três degraus atrás de mim, com a cabeça baixa, com as mãos desesperadas na cabeça. Tive pavor de me aproximar. Achei que fosse mais um dos meus fantasmas, mas por alguns segundos a luz da lua iluminou o rosto da pessoa e eu a reconheci como sendo Victor. Não quis me aproximar. Eu apenas fingi que não havia visto um homem daquele tamanho chorando.
Eu me aproximei do ringue e sentei ali nas escadas, lembrando das cenas que havia me atormentado aquela manhã. Pela primeira vez eu tentava entender o porquê aquilo estava acontecendo. Eu sabia que não era fácil pra ninguém viver o que eu havia vivido, mas algo me dizia que não era só um trauma. E se aquilo fosse como os filmes de suspense barato? E se eu pudesse falar com os mortos? E se aquilo fosse uma mensagem da minha mãe? Parecia impossível, mesmo para minha cabeça adolescente.
Não faço idéia de quanto tempo fiquei ali. Também não imaginava que aquela cena se repetiria tantas vezes em minha vida. O choro de alguém, o meu ringue, a morte me perseguindo em passos próximos. Era uma noite chuvosa em New Orleans, mas a lua conseguia brilhar mais forte do que as grossas nuvens que brindavam no céu. Foi iluminado por aquela luz que entendi pela primeira vez o quanto me sentia em paz perto daquelas cordas, daquele ringue. Muitos dos meus dias, naquela empresa que me consagrou, eram baseados nisso. Não importava o quanto eu estava feliz, eu escondia quem verdadeiramente era. Ninguém estava pronto para saber. Eu preferia o ringue, o silêncio. A companhia dos meus monstros.
Eu sabia perfeitamente que teria que acordar cedo. O treinador tinha planos para mim. Não tinha sono, talvez por ter cochilado toda à tarde depois da surra que tomei de Olivier.
Constantemente o fluxo dos meus pensamentos era cortado pelos múrmuros de Victor. A cada lágrima pesada que eu ouvisse me sentia provocado por aquele choro. Como se gritasse por minha ajuda. Eu estava certo, eu podia ajudar o lutador tão bem nomeado. Não sabia disso quando me aproximei da escada, e quando hesitantemente toquei seu ombro direito.
Uma corrente elétrica passou por mim naquele exato instante. Ardeu, queimou como o fogo, terminou em um choque arrepiante. Ele provavelmente sentiu a mesma coisa, tanto que me encarou assustado, com os olhos vermelhos das lágrimas que deixava cair.
− Quer ajuda? − eu perguntei sério, mesmo que todo meu corpo tremesse com aquele brusco contato. O sentimento perdia-se entre o medo e o êxtase.
− Sai daqui, moleque! Não sabe nem tomar um soco e quer me ajudar? − ele respondeu em quase um grito, espantando com uma forte cotovelada minha mão.
Meu sangue borbulhou no instante que ele me tratou daquele modo. Minha vontade de socá-lo até mostrar que eu podia ser como ele, era cegante. Eu não podia fazer aquilo, mas minha língua precipitou-se.
− Melhor eu não saber me defender do que todo meu cérebro ter descido para os bíceps. − respondi no mesmo tom que ele havia se dirigido a mim. − Patético! − xinguei, ignorando toda minha vontade de matá-lo, subindo as escadas.
Subi aquele nível de escadas com o rosto flamejando de raiva. Entrei em meu quarto fechando a porta de modo com que ela quase saísse voando. Sentei na beira da cama e soltei todo o ar preso da minha fúria pela boca.
Odiei ser fraco. Odiei em cada milésimo que eu soubesse que não poderia me defender. Fiquei segundos esperando os meus batimentos cardíacos entrarem em ordem. Levantei-me e logo corri pra debaixo do edredom macio. Apaguei a luz no interruptor que ficava ao lado da cama, e fiquei encarando o vazio do teto.
Não conseguia dormir, e agora havia aquele sentimento horrível se remoendo dentro de mim. Gritava baixo que eu era um fraco, e que eu tinha que aprender a ser forte a qualquer modo. A duras penas, a sangue, suor. Havia uma coisa flamejando dentro de mim, e eu estava engolindo por aqueles vinte centímetros e trinta quilos que me separava de parecer algo intimidante.
Demorou algum tempo para que a calmaria do sono conseguisse me levar. Eu estava embalado em uma dose de paz gostosa quando ouvi batidas na minha porta. O susto foi tanto que em questão de três segundos todo o alvoroço de confusão, raiva, e medo voltou em mim. O meu peito quase cortou o ar, e eu o puxava com força para dentro de mim, como se fosse perdê-lo a qualquer instante.
Duas batidas até que eu conseguisse me acalmar completamente e conseguisse me levantar e correr até a porta. Deparei-me com Victor. O mesmo Victor com os olhos vermelhos de chorar, mas da coloração de um verde extremamente claro.
− O que merda você quer? − eu disse nervoso, já segurando no batente da porta para fechá-la em sua cara.
− Não queria te tratar mal, mas não devia se meter onde não foi chamado. Algo terrível aconteceu e prefiro encarar isso sozinho. − ele disse sério, segurando a porta.
− Eu estava tentando te ajudar, animal! − eu reclamei, quase gritando.
− Animal é a mulher que te botou no mundo, idiota. Estou pedindo desculpas e consegue me tratar pior do que eu te tratei!
Meu corpo todo parou, meus cílios pestanejaram. Aquela fúria que ele estava despertando em mim gritou novamente. As ações voaram em mim muito mais rápido do que qualquer pensamento. Eu cuspi em seu rosto e segurei tão forte em sua blusa, que minha marca deve ter ficado ali por alguns dias.
− Seu maldito lutador, não abre a boca pra falar do que você não sabe. A partir de hoje, eu não me importo o quanto machucado eu posso ficar se te encarar, mas eu não vou permitir que fale da minha mãe! − eu apertei com toda força que tinha seus ombros. − Porque eu não abri a boca pra falar da vagabunda que carrega do seu lado.
Ele ouviu cada palavra, calado. Ele não sabia de nada. Ele havia acabado de chegar à academia e não fazia idéia de toda a história que todos os outros caras sabiam. Quando cuspi tudo que estava dentro de mim e quis fechar a porta, ele a segurou fortemente, tão nervoso quanto eu estava.
− Me desculpe! − ele gritou, segurando com um braço a porta que eu forçava a fechar. − Não sou obrigado a saber quem é você, que é todo estressadinho. − ele abaixou o tom, forçando seu braço, fazendo com que a porta passasse por minha força e se abrisse completamente.
− Eu tentei te ajudar e você me jogou na cara algo que não faz idéia como é ruim! − protestei, colocando a mão na testa ao sentir a dor de cabeça voltar.
O mesmo medo que senti ao presenciar fantasmas me domou. Minha cabeça rodou inúmeras vezes e se não fosse um braço de Victor, eu teria ido para o chão. Ignorei seu braço que me segurava e me segurei na parede, sentindo tamanha tontura que mesmo que eu abrisse os olhos, não enxergaria nada.
− Moleque, você está bem? − ele perguntou apreensivo e eu dei uma cotovelada em seu braço, do mesmo modo com que ele havia feito há alguns minutos atrás. No entanto, ele nem se quer moveu o braço. − A diferença entre mim e você, é que eu não desisto de ajudar quando me repelem.
Eu queria xingá-lo de tudo que podia, mas além de sua frase fazer sentido, eu não conseguia pensar muito bem. Uma dor forte quase me cegava, martelando em minha cabeça. Eu não pedi e nem queria aceitar, mas ele abriu completamente a porta e me dirigiu até a cama. Eu esperei alguns segundos até conseguir abrir os olhos e o encarei. Ele estava assustado.
− Moleque, você não está bem, não... − ele disse com os olhos arregalados.
− O que foi? − eu disse pouco amigavelmente.
− Você está pálido. − ele disse ainda no mesmo tom assustado.
− Eu ando tendo isso desde... − eu parei de falar, respirando fundo. − Desde que minha mãe morreu. − eu terminei a frase e o silêncio foi quase matador.
− Eu não sabia que a mulher do Charlie havia morrido. − ele disse, mas soava um "me desculpe" perfeito.
− Não sou filho do treinador. Ele me adotou. − eu disse colocando os pés para dentro da cama, o vendo sentado ao lado, assustado.
− Acho que é melhor eu ficar quieto... − ele murmurou baixo, entendendo que não estava acertando uma em um início de conversa.
− Com certeza. − eu respondi grossamente e ele me encarou surpreso.
− Você é bem estressadinho pra alguém delicado desse jeito. − ele disse em ironia, se levantando para sair.
Naquele instante o "delicado" foi uma ofensa terrível e eu senti vontade de chutá-lo porta a fora novamente. Agora, eu riria disso. Porque mesmo machuque as pessoas sem ter intenção e sou conhecido por ser uma máquina de destruição... Eu continuo parecendo delicado.
Eu estava discutindo com uma pessoa que mudaria boa parte da minha vida. Não fazia idéia, e logicamente, o odiava. Ele se levantou em silencio, sem ter minha resposta, e saiu do quarto. Demorei mais uma hora para enfim conseguir dormir. Desta vez, só acordei no outro dia.
