Capítulo 4

− Acorda, menino! Pelo amor de Deus, você festejou a madrugada toda, foi? Levanta que estamos atrasados! − eu ouvia os berros de Charlie, a luminosidade da manhã me cegando.

Rolei na cama, enfiando o rosto no meio do edredom. Não queria sair de lá. Eu não tinha tido pesadelos, e ah, estava tão confortável...

− Charlie, cinc...

− Cinco minutinhos nada, Jeann! Com cinco minutinhos você vira paçoca dentro do ringue! Levanta essa bunda branca daí, agora!

Eu arqueei uma sobrancelha, erguendo o rosto para encará-lo. No pouco tempo que estava ali, eu nunca o ouvira dizer qualquer coisa de um modo tão divertido. Só por isso me levantei.

− Bunda branca... Agora tenho que tomar sol na bunda, treinador? − eu fingi reclamar, rindo baixo e correndo para o guarda-roupa. Sem perceber começara a usar esse apelido também.

− De preferência em todo o corpo, você é branco como um pote de cera. − ele disse rindo, tomando a minha frente ao guarda roupa, procurando por algo.

− O que procura? − perguntei, tentando analisar todas as roupas que ele colocava na mão e jogava de qualquer modo para o chão.

− Uma roupa decente para você sair comigo. − ele disse calmamente, fuçando as roupas mais antigas que eu nem imaginava que estariam ali.

− Decente? Minhas roupas são decentes, Charlie! − protestei, puxando a calça jeans desbotada para as mãos. Ele a segurou.

− Você chama isso de decente? Só não pego a roupa de alguns dos caras porque caberia dez de você dentro de qualquer peça deles. − ele reclamou, erguendo a calça e fazendo uma careta para a mesma. − Coloca isso mesmo, vai...

Resmunguei baixo antes de abaixar os calções de dormir e vestir a calça rapidamente, notando que ela estava começando a ficar larga. Vê-la escorregar alguns centímetros da barriga, me abateu um tanto. Eu não sabia o que fazer, mas sabia que não estava bem de saúde. Não sei se fiquei olhando para baixo por muito tempo, mas quando voltei a olhar pro quarto, Charlie já me encarava com um olhar preocupado. Fingi que nada havia acontecido e continuei me trocando. Uma blusa qualquer, e o tênis.

Entrei no banheiro, fugindo dos olhos preocupados do treinador e olhei para o espelho novamente. Como um milagre, as marcas estavam bem menores, mas ainda eram visíveis. Apenas o corte no lábio se destacava. Comecei a umedecer o cabelo e com um pouco de gel o baguncei. Sai de lá rápido e corri pro refeitório, onde de novo encontrei Charlie. Ele estava tomando o seu café.

− Então quer dizer que eu não fui o único a acordar atrasado? − comentei rindo de lado, e ele soltou uma risada gostosa de ouvir, concordando com a cabeça.

Sentei-me ao seu lado e puxei um beignet que estava exposta em uma cesta sobre a mesa. Enchi uma xícara de café preto puro e comecei a tomá-lo.

− Você e o Victor discutiram de madrugada? − Charlie perguntou sem parecer ter grande interesse, mordiscando um pão de mel.

− Não foi nada demais... − disse de modo irrelevante − Ele estava chorando nas escadas.

− Como é? − o treinador travou, me olhando surpreso.

− Chorando, oras. − joguei os ombros, como que dissesse que não me importava. − Não faço idéia do por que. Fui tentar ajudar e ele foi ignorante. Fui pro meu quarto, ele foi me atormentar, falou o que não devia e acabamos discutindo.

− Caso ele te conte algo, me diga. Não quero que ele tenha uma má impressão de nós. − Charlie disse terminando o seu café e erguendo-se.

− Ele sabe se cuidar. − eu disse com toda certeza, engolindo rapidamente o resto de meu café da manhã para também levantar-me. − Vai me contar aonde vamos?!

− Você me disse que não gosta da escola, mas você fala francês...

− É apenas o costume local, Charlie. − eu o interrompi.

− Que seja, não me interrompa. − ele disse irritado. − Estou dizendo, você aparenta ter facilidade para aprender as coisas. Mesmo que você decida que quer apenas lutar, você precisa estudar. Você vai estudar aqui, em casa.

A idéia não soou de todo o mal. Parecia interessante, até mesmo. Sendo eu mesmo meu comandante, talvez eu pudesse aceitar ao que ele estava me propondo.

− Vamos ver... − eu comentei baixo. − O que pretende me fazer aprender? − eu questionei novamente, seguindo sua sombra alta que a descer as escadas.

− Existem duas coisas que você deve saber acima de tudo. Inglês − a língua que vai usar em qualquer lugar −, e o Francês. Já lhe disse que tem jeito para o francês?

− Três segundos atrás...

− Francês... Quero que leia, fica muito tempo sem fazer nada aqui... Um pouco de história... − eu o interrompi novamente.

− Tem bastantes planos para quem sabe que adotou um garoto problema. − eu disse baixo, chegando ao último degrau da escada.

Para minha surpresa, ele riu baixo e passou o braço por mim, me abraçando de um modo tão fraterno que me surpreendi.

− Não é um garoto problema. − e apertou seus braços de forma dolorida em meus ombros. − Mas não me interrompa de novo, nunca mais.

Eu ri baixo, sem saber bem como responder ao seu abraço e nem a súbita confiança que ele mostrou ter por mim com aquelas palavras.

Saímos da Academia após Charlie deixar instruções para John. John era um velinho que era extremamente próximo do treinador, como um vizinho de anos. Ele cuidava dos carros da rua, e avisava se visse algo suspeito por aquelas bandas. Como era alguém que sempre estava ali, sabendo de tudo e de todos, Charlie e ele desenvolveram um tipo de cumplicidade em cerca da segurança da academia. John tinha em mente que se visse algo de errado dentro da academia tinha que ligar o mais rápido para a polícia. Era apenas um senhor de idade, já com alguns poucos cabelos brancos e sobrancelhas marcantes e negras.

Nós pegamos um bonde até o French Quarter, bem próximo aonde eu morava meses atrás. Ali havia uma grande concentração do que imaginasse: faculdades, escolas, livrarias, lojas, hotéis, pousadas, museus, mansões e incríveis bares. Era tão turístico que era difícil entender que aquela uma cidade "pacata".

− Não sei por onde começo. − disse honestamente, começando a caminhar. Eu apenas o segui. − Iremos primeiro à livraria, e você escolhe o que irá estudar. − ele afirmou, sem parar os passos nenhum momento.

− Charlie, livros não são baratos... − comentei baixo − Não acha que está planejando gastar mais do que pode? Digo, eu não sei quanto é um aluguel, e nem quanto gasta...

− Jeann, não se preocupe com isso. − ele disse imediatamente. − Deveria se preocupar com o tempo que irá gastar estudando, ajudando a cuidar da academia e com as aulas de Pro Wrestling, se ainda estiver disposto.

− Acho que vou ter pouco tempo, mas eu quero muito isso. − respondi, e logo me surpreendi pelo tom e educação a qual eu estava usando enquanto conversava com ele.

Em alguns passos, entramos na livraria e em silêncio fomos à área de livros didáticos. Ele começou a passar os olhos atentos por todos eles, enquanto eu olhava distraidamente para uma estante que estava atrás, onde estavam livros de literatura. Fiquei olhando ali os nomes, mesmo que não fosse de meu costume ler. Senti o braço de Charlie me puxar para ver suas escolhas.

− Francês, "Le premières mesures". − ele mostrou o primeiro livro, com seu sotaque natural que me fez rir baixo. − Inglês primário... Você estava no primário, não?

− Secundário. − eu disse.

− História − ele mostrou o maior dos livros, ignorando completamente minha risada. Devia pesar mais de dois quilos. − Por fim, e não menos importante; História da Arte. − Você é interessante, acho que pode vir a gostar de estudar artes no geral. − disse defendendo-se, mas sem tirar os olhos da prateleira cheia. − Só que agora que lembrei de algo...

− O quê? − indaguei, vendo sua clara surpresa.

− Estou pensando em seu material como o de um menino do quinto ano... Me esqueci completamente que com sua idade não estuda ciência, e sim biologia, química, filosofia...

− Esqueci! − eu disse baixo, e quase me repreendi por ter que dizer isso a ele. Eu era uma negação nisso, definitivamente.

Ele segurava nos braços quase dez livros quando uma atendente frágil e magrinha nos abordou. Era uma moça simples, com o uniforme do local. Seu sotaque era extremamente carregado.

− Quer ajuda, monsieur? − ela disse calmamente, com um sorriso de boas vindas brilhando no rosto.

− Posso agüentar mais trinta desses, querida. − ele lhe sorriu gentil. − Eu gostaria que me desse uma cesta, e se não fosse pedir demais, gostaria de ajuda para escolher livros escolares certos, não tenho nenhuma experiência com material...

− Posso te ajudar, lógico. − ela continuou sorrindo, como se estivesse hipnotizada por Charlie. Saiu e voltou rapidamente com uma cesta. Passou os livros do colo do treinador para a cesta e parou com o de francês na mão. − Este aqui é para o quarto ano. Os livros são para você? − ela virou-se para mim, questionando.

− É sim. − respondi baixo, soando quase tímido.

Ela nos guiou até o fim da compra. Eram vários livros didáticos, três cadernos, canetas, e alguns livros de literatura. Ele gastou quase mil dólares só ali. Fiquei branco com os preços e tentei pará-lo. Ele me mandou calar a boca em bom e alto som. Toda as atendentes devem ter congelado. Eu congelei.

Demoramos cerca de duas horas para sair daquela livraria, e ele carregava as sacolas visivelmente pesadas com uma facilidade invejável. Paramos no meio fio e ele deu uma das sacolas na minha mão, dizendo que era bom eu me acostumar com peso.

Eu ri, sendo que havia uns cinco livros na minha sacola. Achei que aquilo não era peso algum, mas quando começamos a andar em direção de outro local que apenas ele conhecia, meus braços doeram e eu reclamei baixinho. Ele apenas riu e me fez ir até uma loja de roupas. Eu o encarei torto, mas acabamos por entrar na loja.

Como me lembro perfeitamente, Charlie se vestia como um homem. Usava calças negras um pouco altas, uma blusa negra por baixo, e o paletó. Era o bastante para aquele visual ser consagrado tão seriamente. Seus cabelos também negros se misturavam com o casaco. A única coisa que se destacava entre aquele emaranhado negro eram os olhos azuis quase cegante.

Para minha surpresa ele disse que eu deveria escolher o que me agradasse. Contra minha vontade, me enfiei dentro de uma calça preta que o menor número ficava largo em mim. Era de camurça.

− Disse que não iria se vestir como um Charlie Jr. Já está vestindo a calça preta! − ele disse rindo suavemente.

− Só por isso vou usar uma blusa branca, algo bem da paz! − eu disse fazendo o símbolo hippie dos dedos, que o fez rir.

A atendente de cabelos negros curtos, no mesmo instante que ouviu minhas palavras, as tornou realidade trazendo uma camiseta do menor tamanho possível, já que havia notado que em mim existia mais osso do que carne. Eu a adorei no mesmo instante que a vi com a calça. Disse que queria só aquilo. Na verdade, disse aquilo porque não queria que ele gastasse nada comigo.

Ele me mandou ir procurar um bom restaurante ali nas redondezas. Como já conhecia bem aquele lugar, eu corri para a St Peter para ver se como imaginava ainda havia restaurantes naquela rua. Yo Mama's Bar & Grill foi o que eu escolhi e voltei rapidamente para a St Ann, e me deparei com o treinador com mais de três sacolas da loja. Não tentei xingá-lo, afinal era para "o meu bem". Eram mais de quatro da tarde quando saímos daquela loja e fomos para o restaurante. Almoçamos perfeitamente bem, ele pagou a conta e pegamos direto um bonde para voltar para nossa pacata quadra.

Durante toda a curta viagem eu não conseguia parar de pensar em todas as coisas que ele estava começando a fazer por mim. Eu não tinha uma figura feminina, e estava vivendo em um meio violento. Com todos esses fatos eu achava que minha vida seria um fardo a se agüentar. Estava errado, e pela primeira vez desde que havia chegado, estava sentindo que Charlie queria o meu bem, mesmo que fosse do seu modo.

Aquele dia foi exaustivo. Quando cheguei à academia, de fato não tinha vontade de fazer absolutamente nada. Só deitar e ter minhas horas sagradas de sono. Esqueci que por mais que o dia tivesse sido perfeito com a companhia do treinador, eu ainda teria que limpar a academia.

A palavra não era muito bem limpar, afinal eu passava um pano com algum tipo de produto pelo chão. O resto, como a organização dos pesos, coisas relacionadas aos ringues, Charlie fazia cada um arrumar sua desordem. É mais ou menos o que se acontece em um covil de homens onde só um é responsável. Eu só não conseguia entender duas coisas. Uma delas era por que ele me fazia limpar o chão. Até onde minha mente adolescente ia, se a Assistência Social visse uma situação daquela eu corria perigo de ir pra rua, ou para a Casa de Adoções novamente. A segunda era o pensamento de como ele tinha um controle tão grande sobre todos.

Após conversarmos um pouco em grupo (Charlie, Morrice, Olivier e eu) antes do jantar, eu fui até os fundos da cozinha buscar meu sagrado balde. Não trabalhei reclamando aquela noite, mesmo que os braços ficassem horrivelmente doloridos após aquele curto serviço. Rapidamente depois do jantar, eu fui dormir.

Quando acordei, o silêncio era quase matador. Estranho, já que a academia começava a ter movimento antes do que eu acordava. Sai da cama com a certeza que teria um dia decente. Estudar, lutar... Eu estava me sentindo perfeitamente capaz.

Estranhamente, senti um arrepio subir minhas costas quando toquei na maçaneta. Eu engoli seco, não sabendo exatamente o que aquilo significava. Parecia um presságio, dizendo que eu não deveria atravessar aquela porta. Foi apenas um arrepio, um aperto no coração. Eu ignorei aquele sentimento e abri a porta. No mesmo momento, eu ouvi um grito abafado feminino.

Todo meu corpo entrou em um choque de medo, porque no mesmo instante notei que a academia estava completamente vazia. O grito vinha do último quarto, que eu me lembrava bem estar sendo ocupado por Victor. Pensei que ao forçar a porta encontraria ambos transando, pelo grito que ouvi. Eu me enganei. O grito vinha do pequeno banheiro da locker room. A mulher erguida na porta do banheiro era Millena, a namorada de Victor. Eu corri até ela, mas ao chegar próximo do banheiro, a única coisa que consegui fazer foi levar a mão sobre a boca e pronunciar baixo "Mon Dieu".

Meu corpo todo estremeceu. Rodeie meus braços em Millena, tirando seus olhos da cena que se estendia em nossa frente.

Victor estava encostado embaixo do Box do chuveiro. O chão havia se tornado um brinde a morte, afogado no sangue que brotava dos pulsos dele. Em suas pernas nuas estava a causadora dos cortes. Uma faca simples, provavelmente da cozinha da academia. O cheiro do sangue era forte, e a cada segundo que eu encarava o corpo ali, eu podia senti-lo chamar-me por mim. Como suas lágrimas na noite anterior.

Gritei por Charlie, sabendo que ele era o único que poderia nos acalmar, já que eu tremia como uma criança. Eu não ouvi um murmuro em resposta. Millena não conseguia parar de chorar, e eu não sabia como consolá-la. Seu corpo parecia tão pequeno e fraco nos meus braços.

Eu não precisava olhar para o banheiro. O cheiro impregnava cada poro do meu corpo, e na verdade, quem chorava? Eu ou ela encolhida nos meus braços? Era a segunda morte que eu encarava. Brutais e doloridas. A cada relance de Victor morto, eu via minha mãe. Minha garganta pronunciava apenas duas palavras "Charlie" e "Victor".

A cena mórbida me encarava quando eu comecei a sentir meu corpo domado de um enjôo incomum. Eu vi os olhos de Victor se abriram. Negros como a noite, sem um pingo de vida passando por eles. Os choros de Millena se cessaram. Em um ato súbito aqueles olhos negros começaram a rodar, subindo e descendo freneticamente.

Eu entendi automaticamente que aquilo era um pesadelo. Eu não estava vivendo aquilo! Não podia ser real! Eu larguei os ombros de Millena, mas então, não existia mais a ruiva linda que havia perdido o namorado. Era ela, minha mãe.

Eu tropecei para trás, começando a tremer e soluçar sem conseguir parar por um instante. Acorda, Jeann. Acorda! Ela vinha em meu caminho, exatamente como no dia que a encontrei morta. O avental, as pernas pútridas a mostra. Meu estômago começou a trazer a garganta tudo o que eu havia comido.

Eu fechei os olhos, gritando, tentando não ouvir e sentir que suas mãos me tocavam. Todo meu corpo tremia em pavor e eu não sabia o que estava acontecendo. Eu continuava gritando abafado, cada vez mais baixo, perdendo a voz que me sobrava. Eu sentia ao cheiro podre de seu corpo, era real. Cada fibra do meu corpo se recusava a ver, mas era real.

− Você está condenado, Jeann. A ser o que eu fui. − seus lábios gelados depositaram o beijo em minha testa.

Jeann, acorda!

O grito me tirou de uma das cenas mais horripilantes de minha vida. Eu ergui meu tronco e me encontrei de pijamas ao lado da cama, encolhido na parede. A minha frente, Charlie e Victor.

De meus olhos pingavam sem minha permissão as primeiras lágrimas desde que tudo aquilo aconteceu. Elas simplesmente não paravam, e minha garganta ardia. Os gritos eram reais, mas ele estava ali. Victor não estava morto, sua namorada nunca havia chorado. Apenas eu.

− Menino, o que houve, vem pra cá... − Charlie disse nadando em preocupação. Com um único braço me segurou, e conseguiu que eu conseguisse me sentar na cama.

Eu estava vivo. Eu agradecia baixo por ser só um sonho. Eu comecei a olhar para Victor, não conseguia parar de encará-lo por nenhum segundo. Era tão bom vê-lo vivo. Ele me fitava tão assustado.

− Pes... − minha voz falhou, rouca por todos os gritos. − Pesadelos. − Eu disse baixo, levando a mão até a cabeça.

Minha testa estava molhada de suor, mas Charlie não parecia se preocupar e estava me segurando pelos ombros, que eu sabia que também estavam molhados. Fiz força para conseguir olhar para o treinador.

Aquela calmaria dos seus olhos... Aquelas ondas azuis, riscadas em um acinzentado como um pedaço de céu fechado. Eu respirei fundo, olhando-o fixamente por alguns segundos antes de virar novamente para Victor, parado e assustado com o que provavelmente ouviu.

− Me desculpe. − eu disse em bom som.

Com a morte da minha mãe, a única coisa que eu tinha certeza, é que não agüentaria que outra pessoa partisse com mágoas minhas. Lógico que eu não queria que nada de mal acontecesse a Victor, por mais que houvesse desejado aquilo.

− Não tem porque, moleque. − Victor respondeu prontamente, mas sua voz denunciava que podia muito bem estar fazendo aquilo apenas por ver meu estado "fragilizado".

Charlie apressou-se a pedir que Victor trouxesse um copo de água. Para minha surpresa ele o fez, e eu tomei aquele copo, pensando em cada detalhe das coisas que eu tinha visto naquele pesadelo. Sem duvida tinha sido o mais aterrorizante desde que isso começara. Só não perdia para as aparições que vi acordado. Aquelas sim foram diferentes, porque em todo tempo eu tinha certeza que estava acordado.

− Quer contar por que chamou por Victor? − Charlie disse baixo, como se soubesse que falar alto seria uma vergonha para mim.

− Não... − disse hesitante − Estou bem, Charlie. − menti, passando as mãos nos cabelos, me deitando para trás.

A memória que me cercava era ainda do suicídio de Victor, o medo evidente de que depois das lágrimas que presenciei aquilo fosse tornar-se realidade.

− Então faremos assim, Jeann... − ele respirou fundo, aliviando-se do choque. − Se arrume, vá tomar café e vou ver o que você pode estudar por hoje.

− Vou tomar um banho para fazer isso... − disse baixo, e então ele se levantou e saiu do quarto, e Victor foi logo atrás.

Eu não queria ficar sozinho, afinal o pesadelo não havia sido nada engraçado. Rapidamente eu fui para o chuveiro, e tomei meu banho de olhos fechados, temendo que visse algo que não estava ali. Em poucos minutos tomei o café, e chamei Charlie para que este me dissesse o que eu tinha que estudar. Os primeiros minutos em francês fez com que pestanejasse várias vezes com sono, visivelmente cansado dos pesadelos que me assombravam. Depois da primeira hora, tudo ficou mais fácil. Eu sabia que estava fazendo o que era certo, afinal, agora eu ia ter que ter algum propósito na vida.

Controle. O treinador já estava me controlando e eu não notava. Ele estava fazendo exatamente o que eu precisava.

No final do dia eu já me sentia incrivelmente melhor em relação a quem eu era. Charlie passou a ao anoitecer em meu quarto, dizendo que o jantar estava pronto no refeitório. Realmente quando levantei da cadeira, eu tinha a impressão que não fazia isso há séculos. Eu tinha copiado, escrito e estudado umas boas trinta páginas do livro em francês. Estava quase orgulhoso de mim mesmo.

Dirigi-me rapidamente para o refeitório, onde todos nós jantamos juntos. Era bem difícil que aquilo acontecesse, medindo o caso de que todos os garotos costumam festejar de segunda a segunda. Depois disso, ainda fiz aquela simples faxina nos corredores e na academia. Quando me preparava para ir dormir, para minha surpresa, Victor apareceu no meu quarto, batendo gentilmente na porta, o que me fez olhá-lo de forma confusa.

− Não venha me dizer que veio me dar boa noite − eu disse, mas sem o ar grosso que outrora usava com ele. Eu ainda tinha medo de que algo ruim viesse acontecer com ele, e eu acabasse me culpando, mas minha educação custava...

− Vim fazer mais que isso, moleque. − ele disse com um sorriso. − Eu vim te pedir desculpas pela discussão da última noite.

− O que deu em você para querer ser bonzinho comigo? −eu o questionei, vendo-o ali parado em minha porta, totalmente oposto do que fora ontem à noite, no mesmo local.

− Honestamente, fiquei preocupado quando ouvi você gritar meu nome hoje de manhã... Meu coração quase saiu da boca, parecia um filme de terror. − ele suspirou fundo. − Vamos lá, é um pedido oficial.

− Tudo bem. − eu disse simplesmente, o que o fez jogar as mãos pro alto em reprovação.

− Chega de Jeann bonzinho. Você vai aprender a lutar, moleque. Isso significa muito, e nós vamos ter aulas juntos. Precisamos nos suportar, moleque.

− Já comentei como odeio que me chame assim? – eu repliquei.

− É costume meu por você ser muito jovem, você se acostuma. − ele riu, e passou a mão pelos cabelos suspirando ao fim. − Eu não sei muito de Pro Wrestling em si, as regras... Sei que a base da Greco-romana é usada... Mas estamos no mesmo barco, estamos começando. Você é novo, você tem um caminho ótimo se quiser seguir isso, eu já estou perto dos trinta, moleque... − ele comentou.

− Até eu chegar ao seu ponto vai ser bem difícil. − eu disse pensando. Afinal era o mais novo, o mais fraco e o mais problemático.

− Não tanto quanto parece, moleque. Quando começar a gastar suas energias em treinos e aulas, terá que repor essa energia de modo correto. Proteínas, carboidratos... Em um pouco mais que um ano, você vai ficar surpreso com o resultado. − ele saiu da minha porta, me fazendo segui-lo.

− Espero. − falei baixo, virando-me de volta para trás.

Direcionei meu olhar para trás por um instante e lá estava ele. Sentado no penúltimo degrau da escada, de costas para mim, como se de repente tivesse as melhores das paisagens para admirar ali. Bati as mãos nas pernas, com a intenção de fazer um barulho ameaçador. Eu não conseguia acreditar que ele estava repetindo a mesma cena que me fez odiá-lo.

− Boa noite, Jeann. − foi tudo o que ele disse, sem nem mesmo olhar para mim.

Até a falta do "moleque", me fez entender que ele era completamente bipolar.

− Não acredito que vai ficar aí, Victor! − eu disse protestando, descendo os degraus.

− Gosto de ficar um pouco sozinho. Dá para pensar nas coisas que fazemos durante o dia. − ele comentou vago, mas em nenhum momento sem desconcentrar-se.

Eu ficava nervoso em vê-lo novamente daquele jeito. Minha mente gritava: "Maldito sentimental", mas sabendo que talvez ele precisasse da minha ajuda, eu me sentei ao seu lado. Questionei-me internamente se deveria mesmo fazer aquilo.

− Oh, eu sou o coitadinho da academia, tenham pena de mim! − eu o ironizei, o que o fez olhar para mim sério, quase carrancudo.

− Quantos anos você tem, moleque? − ele me questionou, cruzando os braços sobre o peitoral largo.

− Dezesseis... Por quê?

− Quando for maior de idade, volte nessa mesma escada e nós vamos ter uma conversa de homem para homem. Um moleque tão novo como você não pode entender dos problemas que pessoas adultas têm. − ele disse absolutamente calmo, mesmo não sabendo que estava me ofendendo.

Dois lados de mim debatiam. Um dizia que eu deveria deixá-lo falando sozinho. Outra gritava que eu ignorasse cada uma de suas palavras e continuasse a interrogá-lo.

− Já tentou? − retruquei.

− Não, mas eu tenho...

− Estou te ouvindo. − eu o cortei, dobrando as pernas e apoiando o cotovelo sobre o joelho, encostando meu rosto ali. A típica cena de um aluno a ouvir.

− Eu perdi alguém que me conheceu de um modo que ninguém conhece. Uma daquelas pessoas que sabe de todos seus segredos e te entende perfeitamente, sabe? − ele perguntou, me fazendo balançar a cabeça positivamente. − Essa pessoa entrou muito rápido na minha vida, e agora eu a perdi. Sinto-me como se estivesse sozinho no mundo com meus segredos. Eu odeio pensar em desistir, mas eu só continuo aqui porque eu a amo. − ele se referia à namorada.

− Victor, todos nós temos segredos. − eu me lembrei das bebidas, dos cigarros, das mortes. − E todo mundo perde, porque a vida é assim. Às vezes nos tiram as coisas mais importantes para que possamos aprender a viver. Mesmo que doa. Eu sei disso do pior modo possível... − comentei baixo.

Ele me encarou por muito mais tempo daquela vez. Parecia anotar em sua mente cada uma das minhas palavras; a pronuncia acentuada no sotaque. Parecia que minhas palavras tinham tido um efeito maior do que eu mesmo podia imaginar.

− Parece ter sentido, moleque. − ele trançou os dedos de um modo que começasse a estralá-los. − Só peço que esqueça isso. Eu trato das minhas perdas sozinho, não gosto muito da palavra "partilhar".

− Não por isso, está esquecido. − eu disse rapidamente, me levantando − Agora vou dormir. Estou muito animado para minha primeira aula e tenho bastante o que estudar. − eu disse me despedindo.

− Esteja pronto para as aulas de amanhã. − ele comentou de forma ansiosa.

Eu apenas concordei com um simples sorriso e subi todos os degraus em um rápido impulso, tendo em mente que Victor estava correto, precisava estar pronto para as aulas de amanhã. Naquele instante eu pensava que ele era uma boa pessoa, mas que havíamos sido apresentados em circunstancias erradas.

Quando entrei em meu quarto já notava os olhos pesando, e nem tentei ligar a TV para chamar o sono. Apenas deitei-me no escuro e tentei me concentrar, pedindo que essa noite eu não tivesse pesadelos. Eu não precisei fechar os olhos para sentir uma calma sublime, como se algo me dissesse baixinho que eu não teria pesadelos. A mesma calma que me embalava, também confidenciava baixinho um segredo, dizendo que aquele homem precisava se reerguer.

O sono me confidenciou que os segredos de Victor, lentamente, estavam derrubando-o.