Capítulo 5
− Hora de acordar, Bela Adormecida!
A voz era da gravidade do meu treinador. Parecia alegre, e por isso não me assustei em sair rolando da cama com velocidade. Escondi-me nas cobertas quando a porta foi aberta deixando o ar de a manhã invadir meu simples quarto.
− Por que você nunca me deixa dormir? − eu resmunguei contra o travesseiro.
− Porque você precisa estudar, e às catorze horas você e o Victor terão que se mexer para aprender algo. Não faço nem idéia de como começar a ensinar luta para duas pessoas que nem se quer tem habilidades com isso. − ele disse rapidamente, e depois se corrigiu − Se bem que Victor é mais inteligente que você.
Eu me virei na cama e fingi rir, o que o fez soltar uma risada calma. Realmente eu era um caso perdido. Eu não sabia praticamente nada sobre Pro Wrestling e só uma aula seria uma agulha no palheiro. Ou muito menos do que isso.
Seja como fosse, me levantei, me arrastando até o chuveiro e fazendo minhas necessidades matinais que eram: tomar banho, arrumar o cabelo, vestir uma roupa e só então tomar um café. Depois disso, teria que voltar e achar uma posição confortável na cadeira, me afogar em alguns livros. Nunca pensei que pudesse fazer aquilo algum dia em minha vida, mas o prêmio era grandioso. Eu me sentia bem comigo mesmo, sendo que o que eu sentia com os efeitos das bebidas e com as viagens não passava nem perto disso.
De fato fiz todas as minhas "leis da manhã" e voltei para meu quarto, onde Charlie me esperava e deu instruções bem claras sobre o que eu deveria fazer.
− Você gostou do francês, hum? − ele indagou, folheando as páginas do livro as quais eu tinha estudado. Eram muitas para um primeiro dia.
− Acertou quando disse que eu me daria bem com ele. − eu comentei.
− Acho que hoje podemos passar para outra coisa... − ele disse − O que acha de história? − ele disse procurando com os olhos o livro de história, que era o último de uma pilha grande que eu tinha feito ao lado da mesa.
− Será? − eu questionei, coçando distraidamente a cabeça.
Ele olhou para mim, e eu sabia perfeitamente que seus olhos azuis estavam sentindo meu medo de não ser tão feliz no aprendizado de história. Na verdade, eu tinha medo de perder aquele sentimento tão gostoso que eu estava tendo de estar sendo feliz comigo mesmo.
− O que foi, Jeann? − ele me questionou, encostando-se na mesa de forma que conseguia olhar perfeitamente para mim.
Hesitei antes de começar a falar o sentimento que me ocorria, mas algo muito mais forte do que eu disse que sim, eu poderia confiar nele.
− Me sinto muito bem fazendo isso, sabe? − eu comentei, tentando buscar palavras. − Como nunca me senti antes, mesmo quando tinha minha mãe. Acho que por estar parcialmente sozinho, estou feliz pelo que estou fazendo. − respirei fundo, como se cada palavra pesasse toneladas. − Tenho medo que não consiga os mesmos resultados com outra matéria. É besteira, mas...
Ele sorriu de lado, concordando com a cabeça. Ele levou sua mão pesada até meus cabelos mal penteados e tentou arrumá-los.
− Isso não vai fugir de você, Jeann. − ele disse com firmeza, sorrindo. − Não é uma fase, não é apenas o efeito de um dos livros de francês... − ele disse tirando a mão de meus cabelos e fazendo-a brutalmente fechar o livro que mencionara. − Isso é você. É você que está mudando, percebendo o que é realmente útil na sua vida. Está crescendo, e se souber como agüentar alguns pesos que acredito que carregue consigo, isso nunca vai passar. Esse sempre vai ser Jeann Lelievre se quiser isso.
Eu sorri para mim mesmo pensando em como ele conseguia se expressar tão precisamente e me convencer. Aqueles olhos me manipulavam. Mesmo se eu tivesse todo o tempo do mundo, todas as folhas existentes nesse planeta eu conseguiria descrever o efeito que seus olhos me passavam. Confianças, força, calma. Sentimentos presos em ondas azuladas.
− Obrigado, Charlie. Está me ajudando muito desde que cheguei. − eu tentei soar educado e ele balançou a cabeça negativamente.
− Não por isso, Jeann. − ele se levantou, jogando os braços pro ar. − Agora trate de estudar, por favor. Qualquer dúvida, se eu puder ajudar, já sabe onde estou.
Eu sabia onde ele estaria, mas não precisei de sua ajuda. Eu apenas me sentei ali e comecei a copiar um dos enormes textos contidos naquele livro. Minhas mãos doíam, mas para minha surpresa era interessante saber como as civilizações começaram. Parei para almoçar, e Charlie só perguntou se estava indo tudo bem. Disse que sim e terminamos o almoço comunitário no refeitório. Para minha surpresa, Charlie disse que eu podia largar os livros porque íamos descer para a academia.
− Até que enfim vou aprender sobre isso. − foi o que Victor exclamou quase em um grito, e no fundo eu estava igual. Pulava e rodopiava.
− No final do dia vai estar tão dolorido que vai se odiar por isso. − eu disse rindo, e Charlie concordou com a afirmação.
Ele era lutador, mas Wrestling usa muito mais só do que a lona do ringue. É completamente cansativo, e já havia visto até mesmo os rapazes experientes saírem doloridos de algumas lutas.
− O que você disse seu mosquito anêmico? − ele retrucou, o que me fez abrir a boca em um perfeito "o".
− Do que me chamou sua ovelha desmamada? − eu aumentei o tom, mesmo que minha vontade fosse de rir pelo "mosquito anêmico".
− Vocês dois podem parar? − Charlie disse sério, e nós nos calamos enquanto descíamos as escadas.
Eu me surpreendi quando vi como estava a academia. Um telão branco estava preso a janela, enquanto uma mesa e duas cadeiras estavam no ringue. Sobre a mesa um projetor tinha a luz vermelha, mostrando estar desligado. Nós subimos rapidamente no ringue (eu já estava até me acostumando com as cordas) e como sabíamos que as cadeiras eram para nós, nos sentamos. Eu sentei com as pernas dobradas, como um índio. Eu me acomodei na cadeira, como se soubesse perfeitamente que aquilo seria uma longa aula, como aquelas que eu tanto odiava na antiga escola. Essa, porém, eu não odiava.
− Bom... − Charlie tentou começar − Victor deve saber um pouco sobre a história do wrestling, mas como Jeann está começando, eu decidi pegar algumas coisas dos rapazes e antes de tudo apresentar o caminho para vocês.
− Mesmo que para vocês essa seja um caminho completamente desconhecido, o Pro Wrestling é um ramo muito popularizado em nosso país, principalmente pelas grandes empresas que se destacam. − ele procurou um dos slides e colocou para reproduzir a imagem de um W e F, claramente um slogan. Embaixo disso, as palavras "World Wrestling Federation".
− Estamos no meio de uma enorme transação do mundo da luta livre. − ele continuou − Essa empresa, a WWF, vem sendo a primeira neste ramo há muitos anos. Muitos mesmo. De geração a geração essa empresa vinha se fortalecendo, sabendo perfeitamente o que o público está disposto a ver. De simples lutas, até derivações de celas fechadas, ou lutas que a primeira gota de sangue é o que vale como a contagem até três. Mesmo com isso, a WWF está em queda. Para esta empresa aqui. − ele então tirou a imagem doa slogan negro e trocou por um slogan roxo, escrito "WCW". − Aqui está a vilã da maior empresa de todos os tempos. Não podemos julgá-la como melhor ou pior do que a WWF, apenas diferente. O público está simplesmente adorando que ela seja diferente. O WCW Monday Nitro está a cinco semanas empatado com a Monday Night Wars. Se não bastasse essa briga entre WCW e WWF, ainda temos outra empresa grande. Wrestlebrand. É visivelmente menor do que ambas citadas anteriormente, mas isso não faz com que seja pior do que elas. Esta empresa tem por volta de vinte lutadores ou pouco mais disso. Ela já possui shows semanais, mas não com tanto luxo que as empresas vizinhas possuem. Toda a empresa é comandada por uma única pessoa, não uma carga de equipe, como a WCW e WWE. O nome dessa pessoa é Sawyer, e ele é muito conhecido por estar caminhando em perfeito ritmo com esta pequena federação. − ele respirou fundo, estralando os dedos. − Se vocês conseguem imaginar que essa guerra de quem é melhor fica centrada nas empresas que citei... Erraram. Ainda existe, além disso, outras federações minúsculas. Elas preferem explorar ao máximo o poder de luta de um lutador do que os contratos milionários. São shows pequenos em vista dos outros, mas a qualidade é bem interessante. São canadenses, ingleses, americanos, japoneses... Não poderiam contar quantas dessas pequenas empresas, chamadas "indys" estão perdidas pelo mundo. Eu poderia citar como o maior exemplo delas presente, talvez a ECW. Extreme Championship Wrestling. Pela palavra "extreme" vocês devem entender como são os shows presentes ali. Logicamente isso desperta um tipo de público que a WWF, ou então a WCW não têm. Sem mencionar a Ring Of Honor... Tantas outras que eu poderia passar o dia aqui... Mas isso são informações que irão fazer parte da mente de vocês com o tempo.
− Charlie... Com licença... − Victor tirou a atenção do treinador, tendo em seu rosto um ponto de interrogação quase visível. − Você diz sobre contratos milionários e também "extreme". O que você diz sobre isso? O quanto?
− Bom, Victor... Se você se questiona quanto pode ser o contrato mensal de um lutador, por exemplo, em casos WWF, eu te diria que em um ano, um lutador renomado chega a receber um milhão de reais. − Victor soltou uma risadinha de desdém. − Na verdade Victor, eu sempre achei que o salário que você recebesse em meio a Greco Romana fosse parecidos com esses números.
− Quem me dera, treinador. O salário realmente é bom, se for pensar desse modo, mas se precisa muito mais do que uma medalha de campeão pesado para chegar a essa quantia. − ele comentou, ainda com um sorrisinho.
− É bom que mencione isso... − Charlie também retribuiu um sorriso. − Em relação ao extremo que mencionei, Victor... Esse ano existiu um show que atraiu muitos olhares e até o meu. Era um comum evento fechado, e dois irmãos estariam em uma Taipei Death Match. Eu nunca fui a Taipei, mas com certeza já tinha lido sobre o que era a luta. Uma luva é colocada nas mãos dos lutadores, as cobrem de cola e depois de cacos de vidro. Eles lutam com verdadeiras armas nas mãos. Um soco poderia ser mortal, e foi. Não posso lhe dizer se foi uma boa luta. Porque um simples suplex era mortal ao ponto de... Ao ponto de golpes técnicos serem desnecessários.
Meus olhos quase pularam da órbita com ambas as informações. Questionava-me internamente se isso era realmente possível. Após um curto silêncio e alguns segundos de reflexão, entendi que haveria loucos para tudo neste ramo.
− Já que entramos nesse assunto... Os tipos de luta. − ele trocou a imagem ainda do emblema da WCW e colocou uma imagem do que me parecia uma cela. − Isso é uma Steel Cage. Parece impressionante, e realmente é. A luta ocorre dentro desta cela, praticamente não há regras, e além dos métodos comuns de vitória, quem escapar primeiro da cela, se tornas vencedor. Ela é de aço, então se torna bem perigosa. − ele mudou novamente a imagem, e desta vez ele colocou um DVD e após poucos segundos um trecho de uma luta começou a ser passado.
− Isso é uma Ladder Match. Essa luta foi dada como cinco estrelas. A escada é usada como uma arma para apagar o lutador, e método de chegar até o título que costuma estar preso ao topo da escada.
Ficamos em silêncio, apenas com a voz rouca do comentarista. Prestei atenção em cada detalhe dos trechos que eram mostrados e fiquei extasiado ao ver o público, a comemoração que faziam ao ver que o vencedor era o rapaz dos cabelos louros que tinha perdido as calças no meio da luta. Isso fez com que uma risada ecoasse da boca de Victor, e depois o vídeo cessou, deixando a imagem negra como consolo.
− Em que ano isso ocorreu, Charlie? − eu perguntei interessado por ter visto, enfim, o que era o serviço completo dos fragmentos de lutas que eu assistia na academia.
− Ano passado, 1995. Algum tempo atrás esse mesmo lutador participou de uma Steel Cage e abraçou seu amigo, no caso, Razor Ramon, o que perdeu a luta em 1995. Foi emocionante, mas desencadeou uma crise e foi despedido... Foi parar na WCW.
− Deixe me ver se entendi... A WCW aproveitou a crise que essa luta gerou, e esperta, roubou este talento para si? − Victor deduziu e Charlie balançou a cabeça positivamente.
− Perfeitamente, Victor... Mas não podemos considerar isso um roubo. É tudo sobre o dinheiro. É uma guerra. Algo mal calculado da parte da WWF se torna uma glória para a WCW que agora tem dois lutadores extremamente renomados pela própria World Wrestling Federation.
− São espertos. − conclui, dando uma risadinha de lado.
− Com certeza, Jeann. – ele riu de lado, desligando o projetor, que voltou a mostrar a luz vermelha. − Chega de teoria, pessoal. Levantem.
Levantamo-nos rapidamente. Surpreendi-me como estava acatando suas ordens. Talvez fosse sua imagem séria de um eterno homem de negro que me fizesse aquilo. Só sei que não queria vê-lo bravo. Eu não queria conhecer sua fúria porque julgava que ela fosse me assustar. De fato, ignorei meus pensamentos e continuei de pé, olhando-o agora a caminhar de um lado para o outro no ringue.
− Vamos para a ação de uma vez! − eu disse ansioso, enrolando os dedos uns aos outros, notando que Charlie pensava por onde começar.
− Quieto, mosquito. − Victor murmurou, sem a intenção de atrapalhar os pensamentos do treinador.
− Como você é folgado, meu Deus! − eu quase gritei, olhando furioso para Victor, querendo tampar sua boca com formigas e deixá-lo tentar gritar em vão.
− Será que tenho que tomar conta de vocês dois? − Charlie resmungou. − Não me deixam nem pensar! Deveria colocar vocês para se matarem e ficarem quietos enquanto preciso do silêncio! − seu timbre foi forte, o que nos fez estremecer e então silenciar-nos. − Estamos em uma...?
− Quinta-feira, treinador. − Victor respondeu prontamente após encostar-se na mesa onde o projetor ainda permanecia.
Lentamente eu me movi até o canto do ringue, encostando-me no extensor macio, esperando que as ordens fossem dadas.
− Até sábado da próxima semana, nós vamos nos encontrar aqui para treinar alguns golpes de abertura, onde podemos começar a luta. Uma hora e quarenta minutos de aula aqui, e mais uma hora de exercícios na academia, principalmente para você, Jeann. − ele conclui rapidamente, tirando o olhar de mim e direcionando-o a Victor.
Victor levantou-se da mesa, entendendo o incomodo do treinador. Este foi até o projetor e o colocou fora do ringue, ajoelhando-se no próprio para ser capaz de alcançar o chão. Victor aproximou-se de mim, apoiando o corpo na segunda corda. Charlie tomou um rápido impulso nas cordas e antes de colidir-se por completo contra a mesa, jogou sua perna para frente, rachando a mesa em dois pedaços. O lutador ao meu lado arqueou caricaturalmente a sobrancelha.
− Meu Deus, o que foi isso?! − ele indagou em um riso, enquanto Charlie se levantava calmamente dos destroços.
− Só para tirar do ringue − Charlie respondeu, jogando as mãos para o ar. − Isso são mesas de lutas, rapazes. Foram feitas para serem quebradas.
Fui obrigado a rir baixo por sua expressão, como se aquilo fosse extremamente fácil. Caso eu tentasse aquela proeza, quem sairia quebrado em dois pedaços, seria eu.
Charlie empurrou para fora do ringue os destroços da mesa, mantendo o projetor onde estava e se levantou, antes tirando o casaco que vestia. Por baixo do mesmo, ele vestia uma simples camiseta branca que delineava o seu peitoral definido e os braços fortes. Pareceu até mesmo um ritual. Anunciava que a pancadaria estaria à solta.
Victor também tirou sua blusa, ficando com a parte superior do tronco a mostra, impondo a mim um corpo invejável de se observar e não ter. Eu apenas fiquei quieto, ainda esperando.
− Existem muitos modos de se começar uma luta. Quando se mede força, o mais forte dos presentes tem que travar o outro para que possa começar a aplicar os seus golpes. Isso se chama Headlock. − ele falou suavemente − Por favor, Jeann. − ele me chamou calmamente.
Hesitantemente aproximei.
− Me ataque. − ele ordenou. Eu tinha certeza que era uma ordem, conhecia seu tom.
Respirei fundo buscando coragem para aquilo, sendo que tinha medo de errar algo e sua posição hierárquica me fizesse ter contas a pagar. Tomei distancia de Charlie e procurei analisar como poderia fazer aquilo. Então o fiz. Consegui agarrar seus cabelos finos e negros em meus dedos, mas ele logo reverteu este ataque e com seus braços travou meu pescoço.
− Agora, quero que repita isso no Victor, e depois Victor em você... Sucessivamente. − ele sorriu para mim.
Meu pescoço sentiu a pressão do golpe, mas refiz a cena que proporcionara ao treinador, olhando-o como uma presa. O ataquei. Rapidamente repeti o que Charlie fizera em mim. Não foi perfeito de início, mas foi o bastante. O soltei.
− Certinho? − perguntei para Charlie com um pequeno sorriso vitorioso brindando nos lábios.
− Sim. − ele concordou com a cabeça, e serio, complementou. − Não parem. Só se ataquem, recomeçando a cada vez que conseguirem se travar. Incansavelmente, rapazes!
