Capítulo II – Primeiro encontro

Se eu fosse parar para pensar no quanto achei que a viagem seria cansativa, tinha de admitir que no fim das contas a coisa até que tinha corrido bem. No sentido de não ser tão massante passar a uma hora e pouco comigo mesma e tal... E isso eu devo a companhia do som de McFLY. Para ser bem sincera, eu nunca tinha parado para escutar a banda (sem pedras) e até que me surpreendi com as que pude escutar durante a viagem.

Eu havia comprado os cinco CDs* no iTunes na noite anterior, meio que por obrigação de precisar conhecer o trabalho da banda com quem iria gravar; isso eu chamo de um mínimo de profissionalismo. As que pude escutar randomicamente me agradaram bastante, com a exceção de algumas românticas demais... tenho meio que um certo bloqueio com músicas muito melosas. Mas a real é que os rapazinhos tinham me surpreendido, porque dentre todas as meninas da banda, eu havia sido a que mais teve relutância de aceitar o convite do dueto.

Nada pessoal, realmente... mas é o que todos dizem: baixistas são estranhos. E eu me encaixo nesse quadro perfeitamente, nem faço questão de negar o fato para não ser hipócrita. Mas esse pensamento me fazia querer que o baixista deles fosse um pouco mais sociável e mais normal do que eu, para que tudo fluísse melhor, vocês me entendem...

Aliás, aí outra coisa que me dava medo. Não me dar bem com eles e principalmente, com o baixista deles. Quando duas bandas resolvem fazer um dueto, acho que deve existir um mínimo de afinidade entre elas, certo? E como esse fato se aplica quando você ao menos CONHECE as pessoas com quem vai tocar? Tipo, vai que sei lá... pelo fato de serem muito mais famosos que a gente eles sejam uns malas e fiquem se achando? Querendo que tudo seja como eles planejaram? Ah, mas se for assim, eu juro que...

–Louise! – senti que algo sacudia meu ombro – hello, terra chamando!

Franzi as sobrancelhas e vi uma Marine me encarando um tanto impaciente, foi quando por falta de opções eu realmente deixei meus pensamentos de lado e me foquei na realidade. Estávamos nos encaminhando para o estúdio da Super Records, já em Londres. Tínhamos desembarcado tranquilamente no aeroporto Heathrow praticamente na hora prevista, há alguns minutos atrás. Tudo foi rápido e prático, nosso hotel, o Sofitel Heathrow (QUE hotel, diga-se de passagem! Pelos poucos minutos que fiquei no saguão de entrada apenas aguardando a confirmação das nossas reservas pude ter a certeza de que era o melhor eu já havia ficado na vida... e tinha sido cortesia deles!) ficava muito próximo ao aeroporto e chegamos lá em dois toques e, saímos praticamente na mesma velocidade, o que fora uma pena. Sempre amei observar cada detalhe dos hotéis em que ficávamos, a decoração e tudo mais.

Mas enfim, de volta ao agora.

Marine ainda me encarava e eu, como se despertando de um transe, dava uma checada pelo vidro do carro.

–O que foi? Já chegamos? – eu respondi simplesmente, enquanto observava a rua e pensava no quanto a paisagem londrina era característica e bem diferente da francesa. Eu preferia a francesa.

–Se já tivéssemos chegado, o carro não estaria em movimento – Marine respondeu e eu tive que concordar mentalmente que era verdade.

–Então o que foi? – eu tornei a perguntar, me virando e achando um pouco de graça da situação.

–Louise, sua safada... você andou tomando alguma coisa ontem de noite e não me chamou? Sério mesmo, dude... você está estranha! Olha só esse sorrisinho! Você está me dando medo!

Marine era definitivamente uma palhaça. E lógico, Ana se juntou a ela:

–Ela não te contou que estão com uma plantação de cogumelos, ela e o Jean?

Eu revirei os olhos e tive que rir mais. Aquelas duas juntas eram mais fumadas que qualquer um e ainda tinham a cara-de-pau de falar de cogumelos para mim.

–Se eu tivesse tomado algo ontem à noite, Rinema, com certeza você que teria me fornecido – respondi ainda rindo e a olhando com uma falsa censura. Rinema era o apelido dela, maluco assim mesmo, com as sílabas trocadas.

–Bem, é uma verdade – ela rebateu como se realmente estivesse pensando a sério no caso – mas então... conta aí.

–Eu, contar? Contar o quê? Quem me chamou foi você.

–Lógico, você é quieta normalmente, mas não muda. TPM, não conseguiu fazer aquela posição com o Jean ontem ou o quê?

Sério mesmo, a próxima vez que Rinema me falasse em cogumelos eu a chutaria.

–Mas que coisa vocês hoje, hein... primeiro a Katty me falando no avião que eu estava estranha...

–Porque você está – ela mesma me interrompeu, lá do banco da frente.

–Então era isso que vocês estavam fofocando no avião? – Marine perguntou animada.

Elas estavam extremamente elétricas ou era impressão minha?

–Sinceramente? Eu estou mais normal do que vocês! Olha só a Marine, quem diz que são oito da manhã no relógio biológico dela?

–Mas isso é só porque... VAMOS GRAVAR UM DUETO COM UMA DAS BANDAS MAIS FAMOSAS DA ATUALIDADE!

Tive que franzir meu nariz e me encolher com o berro que Marine deu, bem nos meus ouvidos.

–E desde quando você é fã de McFLY? – eu perguntei indignada.

–Desde nunca! Isso faz deles menos famosos? Um dueto com Eagles of Death Metal me faria ter orgasmos, mas é satisfação pessoal! MCFLY É CARREIRA, É CARREIRA!

Nem sei porque havia perguntado, Marine era absurdamente previsível. Apenas revirei os olhos tentando pensar numa resposta, quando a velocidade do carro foi diminuindo até ele brecar por completo.

–Sem querer interromper o papo, meninas, mas chegamos – o motorista que estava nos guiando até o estúdio falou, num inglês inconfundivelmente britânico.

Ouvi Katty agradacer, em inglês também, enquanto todas nós já tirávamos os cintos e saíamos para fora do carro, Marine praticamente saltitante.

Ajeitei meu Ray-ban wayfarer preto melhor no rosto e senti a brisa absurdamente fria e úmida das manhãs londrinas precedentes ao inverno enquanto observava a enorme construção a nossa frente. Senti um arrepio muito forte e desconfortável percorrer minha espinha assim que vi Katty se encaminhando na direção do que seria a entrada do estúdio.

É lógico, não era nenhuma novidade. Eu estava um poço de nervos. Segui as meninas, mais uma vez nos identificamos e aguardamos um pouco mais. E quanto a aguardar, hoje eu nem reclamaria, talvez eu quisesse mesmo era aguardar bastante tempo até me sentir segura o suficiente.

Mas logo vi que não seria o caso, no instante seguinte a nossa confirmação já estávamos entrando no elevador, chegando ao andar indicado e num piscar de olhos, Katty já batia na porta da sala do estúdio.

É, devia ser o que chamavam de pontualidade britânica. A porta a nossa frente se abria instantes depois e eu pude vislumbrar um certo loiro com um sorriso comedido nos lábios nos recebendo.

–Olá meninas, sejam bem-vindas – ele disse, com um belo sotaque britânico para variar, abrindo passagem para entrarmos. O loiro era bem mais alto do que qualquer uma de nós e o que mais se destacava em seu rosto era uma covinha única do lado esquerdo. Achei isso curioso, ainda mais pelo fato de comprovar que eu não sabia nada sobre McFLY, aquele rosto era totalmente desconhecido para mim.

Katty, nossa porta-voz (assim como ele aparentemente era o deles) agradecia enquanto nós entrávamos no estúdio, ele já indicando para andarmos na direção onde os outros três estavam acomodados.

–Eu sou Tom, não sei se vocês já nos conhecem ou não, enfim – ele continuou, me parecendo muito simpático, porém comedido.

Tom sentou num pufe ao lado de um sofá maior, vago, que aparentemente estava reservado para nós. Achei isso um tanto quanto gentil da parte deles e logo me encaminhei até ele, me sentando junto com as meninas educadamente.

–Eu sou Katty, prrazerr Tom – ela começou, em inglês. Por melhor que Katty falasse inglês, ela não conseguia desmascarar o forte sotaque. Já Ana, em compensação, passaria por uma nativa norte-americana sem dificuldade alguma. Dentre nós, Marine e eu éramos as piores em inglês. E lógico, eu era ainda um pouco pior que a Marine.

–Saudações de vocalista para vocalista então – ele brincou, dando a entender que nos conhecia melhor do que nós a eles, fazendo uma reverência que eu intitularia meio... nerd. Mas acima de tudo, sempre muito simpático – esses são Danny, o grande desperdício da banda, Harry, o único inteligente depois de mim e Dougie, o que esqueceu de crescer.

Enquanto Tom ia falando e apresentando seus parceiros de banda, finalmente me atrevia a olhá-los individualmente, com mais atenção. Danny era sardento e extremamente sorridente, quando ouviu seu "título" por Tom, não conteve um pedala na nuca no loiro, fazendo algumas risadas ecoarem no ambiente, a minha estando inclusa entre elas.

O segundo, Harry, realmente parecia ser inteligente, como Tom dissera e também aparentava ser mais velho que os outros, por algum motivo. Nos deu um sorrisinho de cumprimento e um abano de cabeça, mas como os três primeiros, ainda era um rosto que não me dizia nada.

Por fim, o último.

Quando pousei meu olhar sobre Dougie franzi as sobrancelhas imediatamente, como se lembrando de algo. Aquele não me era estranho! Tentei puxar pela memória o que me era familiar, se os cabelos extremamente loiros, ou os olhos azuis, ou os alargadores nas orelhas... mas não conseguia definir bem, era como um desconhecido conhecido, ainda. E eu devia estar realmente querendo achar algum familiar no meio dos quatro, como não aconteceu, devo ter posto mais expectativas no último do que nos outros, era uma possibilidade.

Dougie deu um sorriso meio atravessado ao ouvir o que Tom disse e rimos novamente. Ele havia esquecido de crescer? Para mim aparentava ser mais alto do que eu. E eu, a propósito, era a mais alta das Plastiscines.

Feitas as devidas apresentações deles, Katty percebeu que era a nossa vez:

Prrazerr então rapazes, essas são Ana, Marine e Louise.

Uau, a pronúncia de Katty estava ótima, praticamente me humilhando. Para mim até hoje era difícil falar "Marine" com a pronúncia inglesa e Katty o fez da maneira mais natural possível.

Todas nós sorrimos para eles assim que fomos nomeadas por Katty; até que as coisas estavam correndo bem. Eu estava me sentindo bem mais à vontade, menos nervosa e só um pouco tímida, como de praxe.

–Prazer, prazer! Acho sotaque francês tão lindo – Tom continuou, com o mesmo entusiasmo e pude comprovar que eu era a única que não estava super ansiosa por tudo.

–E nós aqui lutando justament parra perrdê-lo! – Marine falou, com o sotaque muito mais carregado do que o de Katty. Isso para ela caía muito bem, afinal sua voz era a mais grave de todas nós, a deixava sexy. Ao contrário de mim, lógico, que tinha a "voz de patinho" da banda.

–Não percam enquanto estivermos trabalhando juntos! – Harry colocou, com um sorriso e uma sobrancelha astutamente arqueada. Algo familiar detected. Essa expressão pertencia totalmente a Katty, como assim?

Ao som de mais uma risada, daquelas que quem acabou de se conhecer sempre dá para amenizar o clima meio chato de um primeiro encontro, Tom mais uma vez tornou a falar:

–Sotaques à parte, nós estávamos conversando aqui enquanto vocês não chegavam e meio que fizemos uma agenda, claro, muito por cima, do que temos pela frente... Como já temos a música que vamos gravar composta, isso vai nos poupar bastante tempo e só precisamos decidir se vamos formar duplas de instrumentos com vocês, para vermos certo as notas e as tablaturas antes das gravações.

Peraí. Como assim música composta? Disso eu não estava sabendo MESMO. Olhei para Katty imediatamente e pude notar que pela expressão dela, ela também não sabia do que se tratava.

Pardon, mas a música já está composta? A que grravarremos? – perguntou Katty, com um ar desconfiado que eu bem conhecia.

–Sim, o Austin não falou para vocês? – Tom me pareceu ainda mais surpreso, questionando com as sobrancelhas erguidas.

Non, na rrelidade non chegamos a falarr dirretamente com ele, quem nos contatou foi Butch Walker, que prroduziu nosso último cd, ele disse que erra uma oporrtunidade única, mas que trrabalharríamos em equipe, achei que toda a feição do single do nosso dueto serria feito em pelas duas bandas...

Pelo modo que Katty falava, eu percebia que ela não havia gostado nem um pouco e eu já começava a me sentir desconfortável. Estava bom demais para ser verdade. Tom olhava para Danny e os outros extremamente confuso e surpreso com a reação não satisfatória de Katty.

–Bem, pensei que soubessem o porquê de resolvemos fazer o dueto e com vocês... foi justamente por causa da composição já pronta – Tom começou a explicar, me parecendo escolher muito bem as palavras. Foi então que por algum motivo não identificado eu percorri meus olhos por eles e me deparei com Dougie me encarando. Ambos desviamos os olhares meio que simultaneamente, eu detestava quando isso acontecia; era mais seguro me manter com os olhos fixos em Tom, que continuava falando.

–Eu mostrei para o Dallas a letra e ele disse que ela encaixaria perfeitamente com um dueto, feminino. Eu sempre tive vontade de fazer isso e todos nós ficamos animados com a possibilidade de gravar um novo single, Dougie até deu ideia de gravarmos com as Saturdays, vocês conhecem?

Nós meio que respondemos um "não" uníssono.

–É uma banda daqui também, uma das integrantes é muito chegada a nós e tal, mas como é um grupo mais pop do que a gente, Dallas disse que era melhor esperar... Foi quando ele encontrou com esse Butch, amigo dele e produtor de vocês, que disse que tinha o que nós precisávamos...

–Nós, no caso – Katty completou, com uma expressão que eu não soube decifrar bem. Ela me parecia pensativa demais.

–Sim, vocês – completou Danny, com um sorriso atravessado meio que dando de ombros. Me pareceu que até eles se sentiram decepcionados ao saber que nós havíamos sido enganadas em parte, a culpa realmente não parecida ser deles.

–Bem, eu acrredito que seja verrdade o que vocês estão nos dizendo, então não tenho porrque crriarr caso... Acho que as meninas concorrdam, não? – Katty falou, mas pouco deixando margem para discordarmos disso, voltando os olhos para nós. Marine e Ana concordaram e de repente senti todos os olhares da sala voltados para mim.

Sendo o mais sincera possível, eu não tinha gostado muito disso de descobrir tudo assim de última hora. A questão é que eu já havia sido chata todo esse tempo e realmente não queria ser a única a me negar a fazer a gravação só porque a letra não tinha nossa participação. Era uma pena, mas como Tom disse, as coisas iriam mais rápido graças a isso, então que o lado positivo fosse explorado, já estávamos a um passo a frente de tudo.

E eles ainda esperavam minha confirmação.

Porr mim sem prroblemas – eu respondi, com meu inglês tenso, parecendo aliviar o peso das costas dos quatro, mas principalmente de Tom.

–Desculpem por isso, mesmo, nunca pensei que ficariam sabendo de tudo assim, deveria fazer parte do contrato – Tom parecia realmente chateado com isso, o que me fez gostar mais dele subitamente. Ele parecia ser muito profissional e eu adorava pessoas assim, eram de confiança – bem, então acho que podemos finalmente dar início a tudo!

Todos concordaram e o clima voltou a ser o mais ameno e agradável de antes, ao menos. Talvez nem fosse tão ruim assim, eu precisava ser menos chata com as situações que não eram bem como eu planejava. Aliás, com o que vinha pela frente, eu tinha mais é que me acostumar com isso, algo me dizia que muitas coisas imprevistas iriam acontecer em torno dessas gravações.