Capítulo IV - Conhecendo Dougie

Não, ainda não, só mais um pouquinho...

Maman, hoje é domingo, só mais um pouquinho... ainda está muito cedo... e muito frio...

Por que você não pára de despertar no meu ouvido?

Despertar... Maman...

DESPERTAR?

Sentei na cama de um pulo só, sem enxergar absolutamente nada por estar com a minha máscara para dormir, ouvindo o barulho estridente e incessante do despertador debaixo do fofo travesseiro do hotel.

Hotel. Ah, não... Eu estava em Londres!

Praticamente arranquei a máscara do meu rosto e tive a sensação de ficar cega de repente pela claridade, nem franzir as sobrancelhas adiantou muito, mas era o máximo que eu podia fazer enquanto tateava aquela porcaria de aparelho que não parava de vibrar e apitar cada vez mais. Depois de jogar o travesseiro longe, consegui visualizar pela fresta aberta dos meus olhos o maldito celular e o fiz parar, quase o grudando no meu nariz para enxergar o horário.

08:47 da manhã.

"Okay, Louise, você está mais do que ferrada."

Chutei imediatamente aquelas cobertas pesadas, deliciosas e aconchegantes para longe de mim e me levantei com uma agilidade que Marine deveria ter visto, ela nunca mais abriria a boca para falar do tombo que eu havia caído no palco na nossa última turnê. Fora da cama, só de pijama, a temperatura estava extremamente baixa, a ponto de me fazer tremer no trajeto curto até o banheiro da minha suíte. E o pior de tudo é que eu estava totalmente acabada, o dia anterior havia sido maçante e estressante e eu só consegui chegar ao hotel para finalmente poder dormir depois da meia-noite. E cheia de sacolas de compras, lógico.

Ótimo, afinal já era praticamente nove da manhã e minha hora marcada no estúdio da Super Records era nove e meia, sendo que eu estava acordando, destruída, não conseguiria tomar o café da manhã do hotel e teria que esperar o motorista que Dallas Austin tinha disponibilizado para nós. Só me arrumar levava em média duas horas, por isso que tinha colocado o relógio para despertar às seis horas; mas agora alguém me explica o por quê de aquele barulho insuportável só ter conseguido me acordar duas horas depois? Talvez o que Marine dissera sobre "Inferno Astral" fazia algum sentido agora...

Mas pelo menos eu já conseguia enxergar. Do meu jeito capenga, sem óculos (Urgh, como eu odiava ter de usar óculos, então eu simplesmente não usava os meus), porém ainda assim melhor do que instantes atrás.

Abri a torneira da pia de porcelana e deixei a água jorrar dali, com aquecimento, colocando as mãos em forma de concha debaixo do fluxo; e dali fui com elas para meu rosto. Ah, ao menos isso era uma sensação confortável, talvez a única em acordar cedo.

Já com o rosto seco e com a macia toalha cor de âmbar do Sofitel em mãos, resolvi dar uma checada no espelho para ter ideia do estrago da manhã.

Tenso.

Eu precisava me arrumar urgentemente, era o mínimo. Meus cabelos estavam próximos ao horror porque havia dormido com eles molhados na noite anterior e minha franja... minha franja estava mais para ser classificada como um objeto não identificado do que qualquer outra coisa. Isso tudo sem contar o inchaço do rosto inteiro, e a palidez de minha boca... eu estava parecendo uma morta.

Queria que o pessoal que dizia em jornais, reportagens e sites que eu era a Anne Hathaway francesa e rebelde me visse acordando, acho que eles não ofenderiam mais a coitada... Okay, também não achem que sou um bicho de sete cabeças, uma aberração da natureza nem nada, é que meu humor anda oscilando muito e me ver acordando nesses dias bravos acaba gerando uma péssima auto-estima.

Eu não sou feia. Pelo menos ninguém nunca disse e nem eu nunca achei... nem nunca me achei linda, na verdade. A questão era estar bem produzida, no fim das contas. No geral, dizer que eu parecia com a Anne Hathaway, de fato, não era mentira. Eu lembrava realmente ela e nosso cabelo era igual, mesma cor e tudo mais, só que o meu eu usava mais comprido e um pouco bagunçado, com a franja na altura dos olhos que nunca se decidia para que lado ficava.

Meu rosto talvez fosse um pouco mais quadrado que o dela... e meu nariz era empinadinho. Aliás, meu nariz era a parte de mim que eu mais gostava. Meus olhos eram castanhos como os dela também, mas num tom mais escuro, meio pequenos. E minha boca talvez fosse o mais semelhante entre mim e Anne: o nosso lábio inferior era carnudo. Só que isso não pegava muito bem em mim porque ela tinha duas coisas que eu não sabia o que era em mim. Mas eu as queria.

Queixo e peitos.

No caso, para quem leu, dizer que eu era a Mia Thermopolis do Diário da Princesa de Meg Cabot seria a escolha certa. Sem peito, magrela e alta. O alta seria só por ser a maior das Plastiscines, porque eu tinha por volta de 1,70cm, e, isso nem era tanta aberração. Sem salto o Jean ao menos ficava maior do que eu.

Quanto ao queixo, eu tenho bem pouco mesmo. Mas me incomodava mais não ter queixo do que não ter peitos, porque mulheres magras como eu e com muito peito fica falso. E algum peitinho eu até que tenho, sabe. Dá para o gasto. E mais, não vou negar. Meu corpo é legal, eu gosto de ser magra, ter ombros largos e ter porte de modelo. Afinal de contas, as Plastiscines eram uma banda diferenciada justamente pelo estilo de roupas, por tocarmos em desfiles e por estarmos mais em covers de revistas de moda do que em palcos. Não tinha como não sorrir lendo coisas do tipo: "Louise Basilien, a baixista modelo ou a modelo baixista?"

Sem contar que ser a única de pernas longas e finas das Plastiscines gerava um pouco de atenção à parte no mundo da moda, coisa que eu tentava ignorar praticamente sempre, para não perder o foco. Afinal, acertou quem respondeu com um "baixista baixista" na questão acima, era isso que eu era. E somente isso.

Na realidade, nesse exato momento não era somente isso não, para ser sincera. Eu era uma "baixista baixista" descabelada e MEGA atrasada que estava divagando enquanto se analisava no espelho.

Prazer, meu nome é Louise Desoblin Basilien, 22 anos, parisiense, harpista, baixista e a pessoa mais desorganizada e atrapalhada que você poderá conhecer em toda vida.

09:32 am.

Sorri ao conferir o horário no visor do meu celular, já no hall do Sofitel Heathrow, mastigando uma deliciosa rosquinha doce que havia roubado das mesas de café da manhã antes de descer totalmente pronta e com meu Rickenbacker 4003 vermelho nas costas.

Vamos ser sinceros, eu havia feito milagre. Consegui me arrumar decentemente (eu podia não estar um arraso, mas estava aceitável e lembrem-se sempre que em meia hora só não se faz verão), ligar para Norman (o motorista) e ainda conseguir filar um protótipo de café da manhã em pouquíssimos minutos, eu merecia palmas!

Tudo bem que eu já deveria estar na Super Records e que Norman nem havia chegado ao Sofitel, mas enfim né, a pontualidade costuma ser britânica e não francesa, o baixista que esperasse um pouco. Quando terminei minha rosquinha doce fiquei extremamente tentada em ir novamente para as mesas do café da manhã para conseguir mais uma, mas minha consciência não permitiu, caso Norman chegasse e eu não estivesse ali; mais atraso da minha parte não seria necessário.

E de certa forma fiz certo, pois minutos após esse pensamento, meu celular tocava com Norman avisando como combinado que já estava em frente à entrada do hotel. E lá fui eu para o carro, com passos rápidos e meio corridinhos, vencendo o trajeto que nos separava em poucos instantes.

Norman era legal. Me cumprimentou com a formalidade britânica de sempre, mas foi extremamente solícito ao me ajudar com meu baixo na hora de embarcar no carro; se certificou de que ele ficaria a salvo no banco detrás, depois do meu claro cuidado com o instrumento. Meu Rickenbacker vermelho era a minha preciosidade, sem dúvidas. Eu o cuidava como se fosse um filho, ele era um presente da minha avó e foi o primeiro baixo que tive, primeiro e sem dúvidas o melhor.

O percurso do Sofitel Heathrow até o estúdio da Super Records até que foi tranqüilo, mais ainda do que eu imaginava. O segundo dia em Londres, apesar da correria inicial da manhã, estava me parecendo menos tenso do que o do dia anterior. Eu estava mais segura, decerto, sabendo que em vez de encarar a infantaria toda, veria apenas um deles e que ele sendo o baixista, ao menos uma coisa deveria ter em comum comigo.

Além da esquisitice já comprovada no nosso primeiro encontro, claro.

Norman não falou nada durante a viagem e muito menos eu, mas novamente o motorista foi de uma dedicação extremamente bem-vinda ao me ajudar com o baixo no momento em que nos encontrávamos desembarcando do carro em frente ao estúdio. Agradeci ao Norman por tudo com um breve aceno e sorriso, já novamente com a capa do baixo nas costas e subindo rapidamente as escadarias da entrada da Super Records.

Passando pela porta de entrada, eu chequei mais uma vez o horário no visor do meu celular para saber se devia correr ou não, e vi que não seria nada mal caso fizesse realmente isso.

09:58 am.

"Corra, Lou, corra"

E sim, foi o que fiz. Toda errada e desengonçada passei correndo pela portaria (que já me conhecia) e fui para o elevador, por sorte de portas abertas e praticamente a minha espera. Momentos tensos e ofegantes com a sensação de estar presa num cubículo de aço se passaram até que cheguei ao andar da sala onde Dougie deveria estar me esperando há exatos trinta minutos. Mas ah... meia-hora nem é nada, convenhamos! Pelo menos na França acho que não deveria ser...

Dei uma batida rápida na porta da sala por educação e logo a abri, com as sobrancelhas erguidas e enfiando minha cabeça aos poucos, para ver se o encontrava de cara lá dentro ou deveria ir explorando os cômodos. A segunda opção logo foi descartada com a imagem de Dougie virando o rosto para mim, sentado no sofá com um baixo azul no colo.

–Hey! Pode entrar – ele disse, imediatamente, sem sorrir, mas sem estar sério também.

–Desculpe pelo atrraso, rrealment não foi de prropósito... – eu já fui me defendendo, em meio a lufadas de ar por estar ofegante, adentrando na sala.

Dougie se levantou, ainda me olhando e com o baixo apoiado no sofá, agora com um sorriso no rosto.

–Você veio correndo mesmo? – ele perguntou, meio incrédulo.

–É, foi... – eu respondi, meio que desviando os olhos por não saber se a incredulidade dele seria boa ou não.

–Mas não precisava! Eu mesmo sempre me atraso, cheguei aqui não faz cinco minutos...

Momento papel de idiota mode on. Como assim que eu tinha perdido meu café da manhã por isso? Okay, está certo que se eu fizesse tudo como estava no meu cronograma, eu iria chegar por volta do meio-dia, mas ele precisava acabar com todo meu esforço assim do nada? Que fingisse ao menos que tivesse gostado da minha responsabilidade (ou ao menos SENSO de responsabilidade, como quiserem classificar).

–Bem... – a resposta dele deveria ter feito minhas bochechas terem corado, não é legal sentir que fez papel de trouxa diante de alguém que você nem conhece – talvez isso seja bom, porrque pelo menos não ficou esperrando porr mim porr muito tempo.

Foi o que deu para formular no nervoso.

–É verdade... mas nem teria problema em esperar, eu fico brincando com o baixo e nem vejo o tempo passar.

"Eu também!" eu pensei, mas não falei, ia parecer muito entusiasmada e de certa forma eu estava aborrecida com ele por ter me feito me sentir idiota. Então seria o mais impessoal possível.

–Não vai acontecerr de novo, amanhã às nove e meia em ponto vou estarr aqui – eu disse, abrindo um amplo sorriso, meio amarelo e fixo.

E gostei da reação dele, que foi simplesmente erguer as sobrancelhas demonstrando uma certa surpresa pela minha resposta. Touché, Louise!

–Ah, tudo bem, amanhã vou ser bem pontual também então, para não termos problemas... ah... você deve saber, sou Douglas, mas prefiro que me chamem de Dougie... Tom nos apresentou ontem.

Ele preferia Dougie? Nossa, para mim Douglas era tão melhor, mas enfim né.

Prrazer de novo então, Dougie, você também deve saberr que me chamo Louise.

–É, sei sim! – Dougie disse, ainda tentando ser simpático. Mas dava para perceber que estava tão desconfortável quanto eu, algo me dizia que ele era extremamente tímido - Foi o primeiro nome de vocês que gravei... é o nome da minha ex.

Ah! Que lindo! E mal o conhecia e agora ficava sabendo que a ex-namorada dele chamava-se Louise.

JUSTO LOUISE!

Mais uma vez eu fui pega de surpresa pelo que ele me disse, nunca haviam me dito algo do tipo e ficava tenso saber ao certo o que dizer. Então dei um suspiro e relaxei, tirando as alças da capa do meu baixo dos ombros e dando passos na direção ao sofá oposto ao que Dougie estava.

–Ah! Pois é, Louise é um nome bem comum né... – respondi simplesmente.

–Nem tanto, mas eu acho lindo e... ei, quer ajuda com o baixo? – Dougie disse e, mesmo de costas, pude sentir que ele se aproximava de mim pela maneira que sua voz aumentava sutilmente o tom.

–Não! Não prrecisa, tudo okay, me acerrto bem com ele há alguns anos... – eu respondi, ignorando terminantemente a parte dele achar meu nome lindo, propositalmente, mas virando meu rosto para ele, para não parecer mal educada.

–Imagino... você toca muito bem, ontem olhei alguns vídeos de vocês no Youtube.

Merci! Também gostei do baixo das músicas de vocês, vim escutando durante o vôo, parabéns – eu disse, já tendo tirado a capa do meu Rickenbacker e podendo me virar de frente para ele de novo, com o baixo em mãos.

–Valeu. E olhe só, você veio de Rickenbacker... eu vi nos vídeos e fiquei realmente impressionado, é um clássico!

Ponto para ele, depois dessa. Ele parecia estar querendo me agradar de todas as maneiras, mas só agora havia conseguido alguma coisa. Elogiar um Rickenbacker era ter classe, ele realmente podia ser reconhecido como um bom baixista depois dessa.

–Esse daqui é quase como um filho! – eu respondi, sorrindo entusiasmada, ele havia conseguido me desarmar – Eu tenho um Rickenbacker brranco também, mas esse verrmelho é especial...

–Mesmo? Nossa, eu nunca tive um Rickenbacker porque sempre o achei... clássico? – ele riu das próprias palavras – ele não fica bem com qualquer pessoa, mas ficou ideal em você! Eu estou sempre com Sterlings ultimamente.

E ele ergueu o baixo dele pelo braço, para que eu visse.

O instrumento era azul e ao que parecia tinha glitter, mas eu ergui as sobrancelhas ao me deparar com as demarcações das notas do braço dele. Eram iluminadas!

–Seu baixo tem luzes!

–Pedido especial feito por mim... – ele riu, parecendo orgulhoso, do mesmo jeito que eu ficava quando falava no meu instrumento.

–Eu nunca tinha visto com luzes, é lindo... – eu disse, meio hipnotizada e ousando levar uma das mãos até o braço do baixo dele, deslizando os dedos em uma das luzes entre as grossas cordas de aço.

–Se quiser experimentá-lo depois – Dougie disse e eu sorri mais ainda.

Merci! – eu respondi e notei que o sobretudo que eu estava usando estava começando a me fazer sentir calor ali dentro, seria bom tirá-lo antes de começar a suar – e você também, se quiserr ver como fica com um Rickenbacker.

–Claro! Mas se você não se importa, vou pegar os fios ali do outro lado do vidro para plugarmos seu baixo também, só um instante.

E lá se foi Dougie, deixando o Sterling iluminado recostado no sofá onde antes ele se encontrava sentado. Aproveitei o momento para recostar o meu Rickenbacker no sofá onde o tinha desencapado, para poder me livrar do sobretudo.

Por baixo eu estava usando uma camisa larga de um xadrez azul, vermelho e branco de Jean (eu podia estar brava com ele, mas não dava para reclamar do cheirinho dele nas roupas que tinha conseguido trazer comigo na viagem), acompanhada de uma calça jeans skinny justíssima e meus all stars pretos tradicionais. Dougie voltou com os cabos pretos para plugar meu baixo no amplificador e enquanto ele se abaixava e os ligava ali, pude dar uma checada nele, pela primeira vez.

Ele podia não fazer meu tipo (eu não gosto muito de loiros), mas até que era bem bonito. O cabelo dele era estiloso, curto atrás e dos lados, como muitos franceses indie e até mesmo Jean já haviam usado, com o detalhe de Dougie ter deixado a franja um pouco maior do que eu era acostumada a ver nesse corte. E tinha caído muito bem para ele. Todo o rosto dele era agradável de olhar, os olhos azuis e pequenos, a barba rala e o tom de pele... Dougie era um conjunto só de coisas boas, dava para se dizer. Era de imaginar o quanto de sucesso ele faria com qualquer menina por aí...

Os alargadores que ele usava nas duas orelhas eram discretos e eu normalmente não curtia muito, mas mais uma vez nele esse detalhe havia caído bem. E acho que eram justamente os alargadores que tinham me marcado nele, eu continuava com a impressão de já tê-lo visto antes, pode ser que tenha visto a banda alguma vez na vida, mas não devo ter guardado na memória os outros integrantes de McFLY.

E minha checada por último chegava ao figurino... Uma camiseta simples, branca e com as mangas levemente mais curtas do que se veria num modelo mais tradicional (que deixava a mostra parte de uma tatuagem no braço direito, o que gostei bastante) em conjunto com uma calça jeans skinny preta e um Vans (acho eu) vermelho.

De fato, Dougie estava ótimo visualmente para meu gosto. Se Jean soubesse que eu estava pensando isso, ia querer me dar um tiro, mas enfim, era melhor ainda poder ver que Dougie se vestia de um jeito que poderia fazer Jean se sentir ameaçado (por mais que essa ideia soe ridícula para mim). Jean andava precisando de castigos morais.

–Pronto aqui, só falta plugar no baixo – Dougie disse finalmente, enquanto se levantava e caminhava na direção do meu instrumento – você tem alguma ideia do que vamos fazer hoje? Porque Tom e Danny me deixaram totalmente disperso, só me deram a letra e disseram para tentarmos entrar num acordo do que faríamos...

–Na verrdade non... depois gostarria de lerr a letrra e fazerr uma cópia parra já levarr parra as meninas darrem uma olhada ainda hoje – eu falei, me sentando no sofá ao lado do Sterling observando Dougie plugar o meu Rickenbacker. Ele estava sendo bem gentil e pela primeira vez eu deixava que outra pessoa (principalmente um homem) ligasse tudo ao invés de mim – se bem que elas nem terrão tempo de verr, nós temos um show hoje à noite.

–O quê? – Dougie se virou imediatamente para mim ao ouvir isso – vocês vão tocar hoje à noite?

–Vamos sim, ontem nosso manager ligou avisando... vai serr no La Scala, conhece? É um show pequeno, não como os que você deve estarr acostumado a fazerr.

–Deixa eu entender... você tem um show hoje à noite e pretende ficar aqui comigo até às três da tarde? Que horas você vai ensaiar?

–Bem... – eu fiz uma careta com um sorriso pensando na resposta – antes do show e depois de sairr daqui!

–Você deve ser muito segura mesmo, porque eu preciso ensaiar muito antes dos shows, sempre...

–Na verrdade não sou; e estou bem nerrvosa com isso desde ontem, mas orrdens são orrdens...

Enquanto eu dava de ombros pude simplesmente acompanhar Dougie desplugar meu Rickenbacker.

–Ei, como assim? O que houve? – eu perguntei me levantando sem entender o porquê dele desligar o cabo, me aproximando dele.

–Você pode ir ensaiar! Nós podemos começar com tudo amanhã, dude, ou depois, não estamos correndo contra o tempo e tocar sem ensaiar é a pior coisa que existe, sei o que estou dizendo.

–Mas... não é assim, está tudo sob contrrole, vou terr umas trrês horras de ensaio!

–Você acabou de dizer que está nervosa, já disse, está tudo bem... encerramos por aqui hoje, serviu para nos apresentarmos. Amanhã vai ser mais tranqüilo para todo mundo.

Ele falou sorrindo, enquanto segurava meu baixo pelo braço, me oferecendo-o.

E o que eu fiz foi simplesmente aceitá-lo.

Dane-se que seria demonstração de fraqueza aceitar a colaboração de Dougie comigo, ele estava sendo legal demais e eu precisava REALMENTE desse tempo para ensaiar com as meninas. Eu sempre era a mais nervosa de todas antes dos shows e nunca havia entrado num palco tendo ensaiado menos do que uma tarde inteira.

Com ensaio, as coisas fluíam, nós sabíamos exatamente o que fazer e como fazer, isso em conjunto.

Merci... mesmo – eu respondi simplesmente, com um sorriso meio tenso. Ele não precisava ter feito nada disso por mim e ainda assim o fez.

–Mas vou querer algo em troca.

Tranquei a respiração. Como assim "algo em troca"? Eu que estava achando que ele tinha feito tudo por simples vontade de ajudar já estava começando a mudar de ideia.

E ele deve ter notado isso em minha expressão, pois logo se apressou em falar:

–Não, não! Não é nada demais! Só queria saber se eu e os caras podemos ir assisti-las hoje à noite, então... La Scala, você disse?

Respirei aliviada. Ou eu estava com muito pé atrás com ele, ou Dougie que não parecia ser tão inocente assim quanto aparentava... provavelmente era eu que estava com os dois pés atrás mesmo, como sempre.

–Bem, clarro! La Scala sim, às oito da noite... como é um pub, depois começa a festa e aí não somos mais nós tocando. Lá é legal, já conhecemos.

–Vamos estar lá! E ah, você quer a letra agora ou pode ser amanhã?

–Acho que nem adianta hoje mesmo, vamos estarr em função... amanhã pode serr, aí já a estudamos juntos e vamos pensando numa melodia, okay?

–Okay! Quando quiser ir, à vontade, eu vou ficar por aqui mais um pouco para resolver umas coisas.

Cerrto... então vou indo já, as meninas prrovavelmente já devem estarr se orrganizando parra o ensaio. Obrrigada mais uma vez.

Eu disse e ele apenas deu um aceno de cabeça e se virou, indo na direção do Sterling no sofá. Eu fiz isso também, mas para o outro lado, já ajeitando meu baixo na capa com certa rapidez, não por estar com tanta pressa, mas por saber que ainda nós não nos sentíamos totalmente à vontade ali naquela sala.

Encapei meu baixo rapidamente e vesti meu sobretudo, logo colocando as alças da capa nos ombros e ajeitando o instrumento em minhas costas, dando um último olhar para Dougie para me despedir. Ele me respondeu com um sorrisinho que me pareceu bem tímido para todo diálogo anterior e eu simplesmente desviei os olhos e fui na direção da porta, me afastando dele.

Graças a ele, talvez meu dia não seria tão ruim como previ.