Neve na Espanha. Quem poderia imaginar? Ela deveria ter imaginado, admitiu Bella, enquanto se aconchegava mais em seu casaco, grata pelo calor no interior do veículo com tração nas quatro rodas que os esperara no aeroporto para levá-los ao castelo.

Edward tinha trocado algumas palavras rápidas em espanhol com o motorista no começo da jornada, mas não tentara envolvê-la na conversa. O musculoso e longo braço que havia estendido contra o encosto do assento, dificilmente daria a alguém a impressão de que estavam envolvidos um com o outro.

O castelo era localizado nas montanhas, além da antiga cidade de Segovia. Bella vira as fotos que sua mãe lhe enviara por e-mail, mostrando um castelo perfeito de contos de fada contra um cenário de neve branca, mas, tolamente, não havia acreditado que a neve, assim como o castelo, eram de verdade. Agora, com a luz da tarde se esvaindo, a paisagem do lado de fora das janelas do carro parecia mais hostil do que magnífica.

Não ajudou quando Edward de repente falou:

— Espero que você tenha trazido roupas para o frio.

— Não, eu não trouxe — ela foi forçada a responder. — Mas o castelo provavelmente tem aquecimento central.

O arquear agora familiar das sobrancelhas escuras fez o coração de Bella acelerar de ansiedade.

— Você acha?

— Eu sei que tem. Minha mãe detesta o frio. Jamais toleraria ficar em um lugar que não fosse adequadamente aquecido.

— Bem, ela é a sua mãe, mas minha experiência diz que a maioria dos donos de castelos antigos detesta gastar dinheiro com aquecimento... especialmente quando os estão alugando para outras pessoas. Talvez desta vez, como sua mãe, assim como nós, tem um amor para mantê-la aquecida, ela não sinta frio.

Bella lhe deu um olhar antipático.

— Isso não tem graça.

— Não quis ser engraçado. Você já parou para pensar o quão intimamente teremos de interagir um com o outro? Considerando que estaremos em uma festa particular muito pequena e potencialmente... explosiva?

— Não teremos de interagir intimamente de maneira alguma — protestou Bella, irritada. — As pessoas vão aceitar que somos noivos porque lhes diremos que somos. Não precisamos fazer demonstrações públicas de paixão física para provar que estamos noivos. Além disso, estou usando a aliança.

Ela estava totalmente despreparada para o súbito movimento que Edward fez, tomando-lhe a mão. Ele lhe segurou o pulso, o polegar sentindo sua pulsação, de modo que era impossível para Bella esconder a aceleração frenética de seu coração.

— O que você está fazendo? — perguntou ela quando ele removeu o anel falso com um movimento hábil.

— Você não imagina que isto vá enganar as filhas de um bilionário, imagina? — provocou Edward, meneando a cabeça e guardando o anel no bolso. — Elas saberão imediatamente que é falso, e daí basta um pequeno passo para descobrir que o nosso relacionamento é falso.

Bella não pôde esconder sua decepção. A confiança dele havia derrotado sua própria crença na qualidade de seu pequeno plano.

— Mas eu tenho de usar um anel — disse ela. — Nós deveríamos estar noivos, e, como é apropriado para uma filha noiva, minha mãe quer que eu desfile de anel na frente das filhas de Phil.

— Experimente este.

Bella não conseguiu acreditar no que estava vendo quando Edward enfiou a mão no bolso e removeu uma pequena caixa de jóia.

Incerta, pegou a caixinha. Ele não poderia ter comprado um anel...

— Dê-me isso — murmurou ele, impaciente, depois de observá-la lutar como fecho. Então, abriu a caixa tão facilmente que ela se sentiu uma idiota completa. Cautelosamente, Bella olhou o anel dentro da caixa, arregalando os olhos em perplexidade. A aliança de ouro podia estar um pouco gasta, mas a esmeralda retangular, cercada por diamantes brancos, perfeitos e brilhantes, era obviamente muito cara e verdadeira.

— Onde... Como... — indagou ela.

— Era de minha mãe — respondeu Edward de maneira concisa.

Imediatamente, Bella fechou a caixa e tentou lhe devolver.

— Qual é o problema?

— Eu não posso usar o anel de sua mãe.

— Por que não? Com certeza é muito mais convincente do que aquela peça barata que você estava usando.

— Mas é de sua mãe.

— E um anel de família, não de noivado. Ela não o deixou para mim com instruções específicas de colocá-lo apenas no dedo da mulher certa, se é isso que você está pensando. Minha mãe não era sentimental, e suponho que tenha parado de acreditar em Cinderela e seu sapatinho de cristal muito tempo antes de ter falecido.

— Você sempre carrega este anel com você? — questionou Bella. Sua pergunta foi feita de maneira insegura, num sussurro emotivo.

Edward a olhou. Não conseguia se recordar da última vez em que tinha conhecido uma mulher tão absurdamente sentimental quanto Bella parecia ser. Ele não era sentimental. Considerava desagradável e enjoativo, a que ninguém sensato deveria se submeter.

— Dificilmente — respondeu ele. — Aconteceu de há pouco tempo eu ter mandado reavaliar o anel para propósitos de seguro. Peguei-o na joalheria antes de ir apanhar você. Eu ia ao banco para colocá-lo no cofre, mas o trânsito estava horrível e nós não podíamos perder o vôo. Pelas probabilidades, imagino que vão estar mais seguro no seu dedo do que no meu bolso.

Ele parecia estar falando a verdade, e certamente não era do tipo sentimental, reconheceu Bella.

— Dê-me a mão de novo. — Ele pegou-lhe a mão enquanto falava, reabrindo a caixa, obviamente pretendendo pôr o anel no dedo de Bella. Imediatamente, ela tentou impedir, meneando a cabeça.

— Não, você não deve fazer isso — disse ela. Um pequeno pressentimento lhe arrepiou a coluna, fazendo-a tremer. Podia ver a expressão mista de escárnio e impaciência no olhar que Edward lhe dava, e, apesar de se sentir humilhada pelo óbvio desprezo dele, ainda se manteve firme.

— O que houve agora? Preocupada com a possibilidade de estar violando algum terrível tabu ou algo assim? — murmurou ele com sarcasmo.

— Não gosto da idéia de você colocar o anel em mim. De alguma forma, parece errado — admitiu Bella.

— Oh, entendo. O fato de eu colocar o anel no seu dedo quando não estamos noivos é errado, mas fingir que somos noivos, é perfeitamente correto?

— É o simbolismo disso — ela tentou explicar. — Há alguma coisa no ato de um homem pôr o anel no dedo de uma mulher... Pode parecer ilógico para você...

— Parece. E é ilógico — Edward a interrompeu com impaciência, pegando-lhe a mão mais uma vez e deslizando o anel pelo seu dedo.

Bella já dissera a si mesma que seria impossível servir, mas, extraordinariamente, serviu... e com perfeição. Com tanta perfeição que parecia ter sido feito sob encomenda para ela... ou destinado a ela? O que diabos havia colocado aquela idéia tola em sua cabeça?

— Pronto. Feito. E nada dramático aconteceu.

Talvez não para ele, reconheceu Bella, mas alguma coisa tinha acontecido com ela. A jóia era suave e pesada em seu dedo, e, em seu peito, o coração parecia constrito como se o anel o tivesse envolvido. Quando olhou para sua mão, os diamantes brilharam como fogo. Ou as lágrimas se avolumando em seus próprios olhos eram responsáveis pela miríade de cores do arco-íris que via?

Não era assim que um anel como aquele deveria ser dado e usado. Entretanto, de algum modo, apenas usá-lo a fazia se sentir como se tivesse se comprometido com alguma coisa. O anel parecia lhe comunicar uma mensagem, um tipo de consciência feminina instintiva. Um mau pressentimento a percorreu, mas era tarde demais agora. O anel de Edward estava em seu dedo e eles estavam chegando a Segovia, as luzes da cidade iluminando o interior do carro.

— Como ela era? — murmurou Bella suavemente, a pergunta instintiva e impossível de ser detida.

— Quem?

— Sua mãe.

Edward não pretendia responder, mas, de alguma forma, descobriu-se falando baixinho e com sinceridade:

— Ela era uma ativista de causas ambientais, adorável, inteligente e cheia de vida. Faleceu quando eu tinha 8 anos. Estava em um protesto. Houve confrontos violentos, e minha mãe caiu e bateu a cabeça. Morreu quase instantaneamente.

Bella pôde sentir o peso do silêncio que se seguiu às palavras ditas de modo quase sem emoção. Quase, mas não totalmente. Ela sentira, mesmo que não tivesse ouvido, a emoção por trás das palavras. Olhou para o anel e tocou-o gentilmente, em homenagem à mulher a quem havia pertencido.

Edward não tinha idéia de por que contara a Bella sobre sua mãe. Raramente pensava sobre a morte dela. Gostava muito de sua madrasta, que mostrara muita compreensão e gentileza, que sempre respeitara o relacionamento dele com o pai e certamente amava Joe. Edward amaldiçoou as mulheres excessivamente sentimentais e emotivas. Um homem sábio as mantinha longe de sua vida e não cometia o erro de se envolver com elas de forma alguma. Só havia uma razão pela qual estava lá com Bella naquele momento, e era porque aquilo lhe dava a oportunidade de se aproximar de Phil. Mesmo que isso significasse que a estava usando, não se sentiria culpado. Afinal de contas, ela também o estava usando.

— Eu não esperava que o castelo fosse tão isolado — admitiu Bella, quase meia hora depois de passarem por Segovia, com suas construções pitorescas, enfeitadas com bonitas decorações de Natal. — Nem que seria tão no topo das montanhas.

Já haviam passado pelos centros de esqui de Valdesqui e Navacerrada, que pareciam festivos como um cartão de Natal, e, embora a paisagem coberta de neve fosse impressionantemente linda, iluminada pela lua do começo da noite, Bella estava surpresa com o fato de sua mãe, que adorava sol e calor, ter escolhido um lugar tão frio para se casar.

Eles saíram da estrada principal e entraram numa trilha estreita que subia a encosta, passaram por abetos cobertos de neve e seguiram em direção ao castelo, também coberto de neve. No topo da montanha, luzes brilhavam em suas muitas janelas altas e estreitas. O castelo fora bem iluminado, realçando a impressão de que tinha saído direto de um conto de fadas e banhando a neve que o cercava em um brilho rosado quase iridescente.

— É lindo — murmurou Bella em apreciação. Edward a observou, pretendendo lhe dizer cinicamente que o lugar parecia inventado por um estúdio de Hollywood. Mas então viu o modo como a luz da lua iluminava seu rosto, lançando-lhe uma luz prateada na pele e traindo sua respiração trêmula.

De maneira extraordinária e inacreditável, sua mente vagou. E de súbito, estava se perguntando se, caso se pusesse sobre ela e a beijasse com o desejo potente de um homem pelo corpo de uma mulher, a pulsação dela dispararia como no momento em que lhe segurara a mão. E o que aconteceria quando lhe tocasse os mamilos enrijecidos, circulando o lugar onde a pele clara dava lugar à suave aréola rosada? Aquele ponto também incharia em resposta erótica ao toque? Bella reprimiria um gemido de prazer, causando um disparo ainda mais frenético ao coração, enquanto ele brincava com os mamilos entre seu polegar e o indicador, saboreasse cada intimidade seguinte sabendo o que os pequenos movimentos irrequietos dela significariam? E sabendo que Bella estaria úmida e sedenta por ele...

Abruptamente, Edward bloqueou seus pensamentos. Ficou chocado ao descobrir quão longe e com que velocidade eles haviam seguido em uma viagem erótica sem sua permissão. Normalmente, não fantasiava sobre sexo com uma mulher com quem estivesse se relacionando, e muito menos com uma completa estranha. Não precisava fantasiar sobre sexo. Isso lhe era sempre oferecido, se quisesse. Contudo, assim como era contra a idéia de comer junk food, era igualmente contra a idéia de fazer sexo de má qualidade, motivo pelo qual provavelmente estava se sentindo daquela forma naquele momento, com uma ereção tão potente que chegava a lhe causar dor. Estivera tão ocupado com o trabalho nos últimos meses que não tivera tempo de se envolver em um relacionamento. Sua ex-parceira, com quem ocasionalmente fazia um sexo agradável para ambos, tinha decidido se casar, e Edward não conseguia se lembrar da última vez em que passara tanto tempo perto de uma mulher de um modo não-sexual. E esse, sem dúvida, era o motivo pelo qual seu corpo estava reagindo como o de um adolescente diante da promessa de uma incrível experiência sexual.

O chofer dirigiu o veículo para o pátio interno do castelo, parando em frente às impressionantes portas em madeira e ferro.

Bella sorriu para o chofer quando ele lhe abriu a porta e a esperou sair. A neve havia sido removida do pátio, mas ela ainda podia sentir seu aroma no ar de começo da noite, e havia um brilho no pavimento que lhe dizia que as pedras sob seus pés estariam escorregadias.

As imensas portas duplas estavam abertas, e Bella estreitou os olhos para ver dois servos totalmente uniformizados saindo do lado de fora. Servos uniformizados! Ela estava tão atônita que se esqueceu de olhar por onde andava, e gemeu em choque quando pisou em um bloco de gelo e começou a perder o equilíbrio.

Mãos fortes e firmes lhe seguraram os braços, levando-a de encontro à segurança de um corpo igualmente forte e firme.

E lá ela permaneceu, as costas pressionadas contra o corpo de Edward, os braços dele a rodeando, enquanto sua mãe e o homem que Bella presumia ser seu próximo novo padrasto, apareciam à porta, observando-os. A reação de dela foi instintiva e desastrosa. Virou a cabeça a fim de olhar para Edward, pretendendo exigir que ele a soltasse, mas no momento em que percebeu o quão perto estava de sua boca, tudo que pôde fazer foi olhá-lo fixamente, enquanto uma onda poderosa de desejo percorria todo o seu corpo. Ergueu uma das mãos... certamente não porque na verdade pretendia tocá-lo, traçar o contorno da boca lindamente modelada, com seus lábios cheios e sensuais. Não, é claro que não. Simplesmente não era esse tipo de mulher. Como poderia ser quando tinha passado a maior parte de sua vida adulta treinando-se para não ser? Tudo que quisera fazer fora afastar os cabelos do rosto. E era o que teria feito se Edward não lhe tivesse segurado a mão.

A mão na qual estava o anel da mãe dele. Uma série de emoções comprimiu o peito e causou um nó na garganta de Bella. Uma sensação devastadora de tristeza, amor e esperança.

— Edward... — Seus lábios formaram o nome, e seus olhos se encheram de calorosas lágrimas.

Qual era o problema?, Edward se questionou com incredulidade. Em um minuto, estava reagindo instintivamente para impedir que uma mulher tola caísse. No outro, segurava-a em seus braços e recebia uma estranha mensagem emocional que não conseguia bloquear. Era como se estivesse experimentando algo de tanta importância que poderia ser o eixo sobre o qual toda a sua vida futura se transformaria.

Observou quando os lábios de Bella formaram o seu nome, e sentiu a força dolorosa de seu próprio desejo querendo impulsioná-lo a baixar a cabeça em direção a dela e explorar-lhe o formato e a textura da boca. Não apenas uma vez, mas repetidamente, até que a experiência fosse gravada em seus sentidos, de modo que pudesse evocá-la entre uma e outra batida de seu coração. Para que pudesse manter a lembrança consigo para sempre.

Edward ficou tenso quando seu alarme interno disparou.

Esse não era o rumo que queria tomar. Aquele tipo de intensidade, aquele tipo de dependência emocional não era para ele. E certamente não com uma mulher como ela. Ela já havia mentido uma vez. Edward não acreditava, nem por um momento, na história triste da filha preocupada e amorosa que descrevia a situação do casamento da mãe. A lógica lhe dizia que devia haver um motivo oculto e muito mais egoísta para o que ela estava fazendo. Ele ainda não descobrira o motivo exato... mas, até aí, não havia tentado de verdade, havia? Afinal, possuía seus próprios segredos. Podia não ter descoberto o motivo oculto de Bella, mas não significava que não existia um. Por enquanto, estava contente em fazer aquele jogo com ela, e o papel que lhe cabia, porque servia a seus próprios interesses. Todavia, olhara para a boca dela e sentira que havia entrado em outra dimensão regida pela emoção e instinto e não pela lógica e pelo conhecimento, e aquela sensação precisava ser empacotada trancada em algum lugar.

Nos poucos segundos que ele levou para analisar sua característica tão pouco sua reação, o rosto de Bella enrubesceu de leve.

— Querida...

De modo abrupto, Bella desviou os olhos da boca de Edward e os focou em sua mãe.

Fisicamente, Renée Lucas era muito parecida com a filha, embora, onde Bella escondia sua feminilidade, Renée realçasse e projetasse a dela. Um pouco mais baixa do que Bella, possuía o mesmo corpo curvilíneo e os mesmos cabelos cor castanhos. Todavia, enquanto Bella raramente se maquiava além de uma sombra leve, rímel e um pouco de batom, Renée adorava se "embelezar", como dizia. Bella preferia os trajes formais do trabalho, e roupas casuais quando não estava trabalhando. Sua mãe se vestia em roupas extravagantes e femininas.

Bella tentou sair dos braços de Edward, mas, em vez de soltá-la, e abaixou a boca para seu ouvido e murmurou:

— Nós devemos representar um casal de noivos apaixonados, lembra?

Ela tentou ignorar o efeito que o hálito quente contra a sua orelha lhe causava.

— Não precisamos representar para minha mãe — protestou.

Mas sabia que seu argumento era tão fraco quanto seus joelhos trêmulos.

O olhar astuto que sua mãe lhe deu enquanto se aproximava, trazendo consigo o aroma de seu perfume favorito, fez Bella querer cerrar os dentes, mas não havia nada que pudesse dizer ou fazer... não com o novo noivo de sua mãe por perto.

— Phil, venha conhecer minha filha maravilhosa, Bella, e seu noivo deslumbrante. Sua mãe estava beijando Edward com entusiasmo exagerado, observou Bella com irritação. — Que coisa mais doce, Bella, que você não conseguia suportar deixá-lo!

Ouviu a risada de sua mãe. Com as faces rubras, tentou retirar a mão do braço de Edward, mas, por alguma razão, ele a segurou, recusando-se a liberá-la.

— Edward Masen — Edward se apresentou, estendendo a mão para Phil, mas ainda, Bella notou atordoada, conseguindo mantê-la presa si. Ela poderia ter usado mais força para se afastar... Porém, chegou a conclusão de que escorregar no gelo e acabar no chão não seria a melhor maneira de causar uma boa impressão em seu futuro padrasto, decidiu.

Sua mãe realmente deveria estar usando lentes cor-de-rosa quando se apaixonara por Phil, reconheceu, aliviada por ele ter apertado sua mão em vez de submetê-la a um beijo. Em um castelo de aparência de conto de fadas, ele parecia o próprio sapo, com sua constituição física quadrada e um rosto com queixo duplo. Até mesmo o olhar fixo lembrava, de maneira enervante, um sapo.

Era obviamente um homem de poucas palavras, e, talvez mesmo por isso sua mãe parecesse engajada numa hiperatividade verbal, comportando-se como uma atriz animada, batendo palmas, arregalando os olhos e exclamando de modo teatral:

— Isto é tão perfeito! Meu querido Phil é como um mágico, tornando tudo tão maravilhoso para mim... e ainda mais maravilhoso agora que você está aqui, Bella. — Lágrimas inundaram seus olhos, conseguindo, de alguma forma, não cair e estragar a maquiagem. — Estou tão feliz! Eu sempre quis fazer parte de uma grande família. Lembra, querida, como você costumava me dizer que tudo que queria de Natal era uma irmã mais velha? Tão doce! E agora, aqui estou, ganhando não somente o marido mais perfeito como duas novas filhas encantadoras e netos adoráveis.

Se pelo menos o seu pai estivesse lá para testemunhar aquilo e compartilhar aquele momento de humor quase negro com ela... pensou Bella, com ironia, enquanto se perguntava como sua mãe conseguia banir mentalmente todas as famílias que já colecionara em seus casamentos prévios.

Renée sorriu e se virou a fim de conduzi-los para dentro da casa. Edward abaixou a cabeça e perguntou:

— O que significou aquele seu olhar?

Desconcertada demais para mentir, Bella sussurrou com tristeza:

— Mamãe já tem famílias de seus ex-maridos para ocupar mais lugares em qualquer igreja que você possa nomear.

— De alguma maneira, não acho que Phil gostaria de saber disso.

— Você não gosta dele, certo? — disse ela com perspicácia.

— Você gosta?

— Apressem-se, vocês dois. Terão muito tempo para sussurrar um no ouvido do outro mais tarde. E está frio com a porta aberta.

A primeira coisa que Bella viu quando adentrou o hall foi uma enorme árvore de Natal, suas folhagens verde-escuras formando um contraste perfeito com as decorações artisticamente penduradas na árvore, em tons de verde-claro, cor-de-rosa e azul, para combinar com o painel pintado da parede do hall de entrada. De repente, tinha 6 anos de idade novamente, parada entre seus pais, os olhos brilhando enquanto se maravilhava com a árvore de Natal da Harrods.

Isso tinha sido antes que compreendesse que, quando seu pai reclamava dos gastos de sua mãe e do círculo de amigas do qual era excluído, ele não estava "apenas brincando". E que o "tio" de quem sua mãe fazia tanta questão de que Bella gostasse estava destinado a substituir seu pai na vida de Renée. Naquele Natal, ela estava tão inocentemente feliz... sem saber que, dentro de um ano, descobriria que felicidade era algo tão frágil quanto as belas bugigangas de cristal que costumava admirar.

Natal... tempo de amor e boa vontade, e de mais rompimentos conjugais do que qualquer outra época do ano. Uma mulher sensata daria meia-volta à primeira visão de uma árvore de Natal e não voltaria até que o frio de janeiro fizesse todos recuperarem o bom-senso.

— Que horas é o jantar, mamãe? — perguntou Bella de forma aborrecida, determinada a estabelecer desde o início o tom de sua visita forçada. — Eu gostaria de ir para o meu quarto e trocar de roupa antes.

Atrás de Phil, Renée fez um beicinho, e falou com sua voz excessivamente animada:

— Oh, sinto muito, querida, mas não teremos um jantar formal. Phil não gosta de comer tarde, e, é claro, devemos considerar as crianças. As moças são mães tão devotadas que não sonhariam em quebrar suas rotinas. Phil tem razão. Faz mais sentido comermos em nossos próprios quartos. É muito mais confortável do que vestir roupas formais e se acomodar na sala de jantar para uma refeição de cinco pratos.

Bella, que sabia o quanto sua mãe adorava se arrumar para jantar, mesmo quando comia sozinha em casa, abriu a boca para perguntar o que estava acontecendo, mas voltou a fechá-la.

Seu coração começou a entristecer. Sabia que não estava imaginando o desespero que podia ouvir na voz de sua mãe.

— Este não é o lugar mais lindo e mais mágico que você já viu? — Renée estava dizendo numa voz artificialmente brilhante, enquanto indicava a enorme sala octogonal decorada em cores açucaradas de amêndoa, da qual uma escadaria de mármore delicada e complexamente entalhada parecia flutuar para cima.

— É lindo, mamãe — concordou. — Mas muito frio. Imediatamente, sua mãe fez um biquinho.

— Querida, não seja estraga-prazeres. Há aquecimento, mas... Com as crianças acostumadas a viver em um ambiente de temperatura controlada, realmente precisam de aquecimento no quarto delas, mesmo que isso signifique que alguns dos outros cômodos precisam ficar sem nenhum. — Renée estava se dirigindo à escadaria. — Coloquei você e Edward no mesmo quarto, exatamente como você pediu.

Então estivera certo, pensou Edward, irritado. Aquilo não poderia ser apenas um inocente trabalho de acompanhante! Porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Phil começou a estudá-lo, franzindo o cenho.

— Você parece familiar... Já nos encontramos antes?

Edward sentiu um frio na barriga.

— Não que eu saiba — respondeu com sinceridade. Phil recusara todas as suas tentativas de conseguir uma entrevista, mas isso não significava que não tivesse visto sua fotografia em algum lugar, ou talvez requisitado informações sobre ele. E se isso tivesse acontecido...

— O que você faz exatamente? — persistiu Phil.

— Edward é ator — respondeu Bella com firmeza por ele, evitando a crítica que sentia estar vindo quando acrescentou com determinação: — E um ator muito bom. — Deu um olhar à sua mãe, que esperou que pudesse ser interpretado corretamente como: "Preciso conversar com você urgentemente sobre esta situação do quarto", mas, para seu desgosto, sua mãe estava se recusando a fazer contato visual. Na verdade, agora que olhava a mãe mais de perto, Bella podia ver o quanto ela estava tensa sob o sorriso demasiado brilhante, o quanto estava desesperada pela aprovação de todos no castelo. E o que podia dizer de si mesma? Seria por causa da insegurança de sua mãe que sempre mantivera as portas de suas próprias emoções firmemente trancadas? Porque temia se tornar como Renée?

Como havia acontecido muitas vezes no passado, sempre que sentia sua mãe infeliz, Bella percebeu seu instinto protetor crescer. Deixando Edward de lado, aproximou-se da mãe, unindo o braço ao dela num gesto de solidariedade.

— Um ator. Que emocionante! — exclamou Renée. — É provavelmente por isso que você acha o rosto de Edward familiar, Phil. Deve tê-lo visto atuando em algum lugar.

— Duvido. Não perco meu tempo assistindo pessoas brincando de faz de conta. — Phil bufou em zombaria.

Como sua mãe podia estar apaixonada por um homem como aquele?, Bella se perguntava em desespero. Suas dúvidas quanto àquele casamento cresciam a cada segundo.

Ela apertou o braço da mãe de leve.

— Por que você não me leva lá em cima e me mostra o quarto? — sugeriu de modo casual, acrescentando: — Tenho certeza de que Edward e Phil podem conversar um pouco enquanto colocamos as fofocas em dia. — Bella sabia que estava correndo um risco deixando Phil e Edward sozinhos sem estar presente para se certificar de que Edward não falasse algo errado. Mas, no momento, sua necessidade de garantir que eles tivessem quartos separados era mais importante do que todo o testo. — Eu ainda nem vi o seu vestido — murmurou para a mãe.

— Oh, querida, é tão maravilhoso — disse Renée entusiasmada, a tensão imediatamente deixando seu rosto para ser substituída por um brilho de excitação. — É da Vera Wang, que faz os vestidos de noiva de todas as celebridades. No começo, a equipe dela jurou que não poderia me atender, mas Phil os persuadiu a ceder. É uma pena que não tenha me ocorrido levá-la para Nova York ao mesmo tempo, de modo que pudéssemos ter procurado alguma coisa para você. Os netos de Phil serão nossos acompanhantes, é claro. Concordamos que eles usarão trajes de southern belles e beaxs, tão... doces. E seria adorável se Edward entrasse na igreja comigo...

Subitamente, Bella quis chorar... muito. Ali estava a sua mãe, tentando desesperadamente encarar com bravura o fato de que, enquanto Phil possuía filhas e netos para lhe proporcionar apoio familiar e fazer seus papéis tradicionais num casamento, Renée tinha de contar com sua filha e em um homem pago para acompanhá-la.

Engolindo em seco, Bella conteve as lágrimas que ameaçavam cair.

— Papai provavelmente entraria na igreja com você, se tivesse lhe pedido.

Instantaneamente, sua mãe olhou para Phil com ansiedade.

— Eu pensei sobre o seu pai — admitiu ela. — Mas as filhas de Phil não entendem como é possível manter uma relação platônica com um ex-marido, e Phil sente... bem, ele acha... Bem, ele concorda com elas.

Bella teve de reprimir a resposta que estava prestes a dar quando viu a expressão de súplica nos olhos da mãe.

No que tinha se metido?, perguntou-se Edward, furioso, enquanto observava as duas subindo a escada de braços dados. O que quer que estivesse acontecendo, mãe e filha estavam envolvidas naquilo... e profundamente envolvidas. Ele estava sendo usado, e não apenas para o trabalho de acompanhante pelo qual seria pago. Renée havia deixado bem claro quais eram as expectativas sexuais de Bella. Nenhuma mulher pedia para compartilhar um quarto com um homem a menos que tivesse sexo em mente. Bella mentira quando dissera que ficariam em quartos separados. Se não fosse pelo fato de precisar das informações de Phil, ele chamaria um táxi naquele instante, e voltaria para o aeroporto de Madri. Porque não queria fazer sexo com uma mulher que, havia passado as últimas horas se dando conta disso, causava um intenso efeito erótico em seu corpo.

A quem estava enganando? Certo, então queria fazer sexo com Bella... mas em seus próprios termos, não nos dela. E certamente não ia permitir que ela continuasse mentindo... Mesmo que o tivesse surpreendido com sua determinação em mostrar a Phil que não permitiria que o rebaixasse pelo fato de ser ator. Aquilo o surpreendera, admitia. A última mulher que o protegera de uma opinião desfavorável fora sua mãe, e ele tinha apenas 5 anos.

Bella era corajosa, ele devia lhe dar tal crédito. Mas isso não significava que se permitiria ser manipulado sexualmente. Não havia perigo real em estar envolvido naquela situação. Podia lidar com isso. Mas e se ela tivesse enganado Joe e o levado para cama?

O jovem tolo seria ingênuo o bastante para fazer sexo com Bella sem nenhuma preocupação com as possíveis conseqüências: para sua saúde, para o destino de alguma criança que pudesse ser concebida... Com coisa alguma além de ceder ao desejo masculino natural de estar na cama com uma mulher tão ardente.

Enquanto isso. Edward, é claro, não enfrentaria nenhum desses problemas, certo? Tudo bem poderia enfrentar um deles, uma vez que não tinha o hábito de viajar sempre com um pacote de preservativos. Bella havia pensado em lidar com esse tipo de necessidade? Era certamente madura e experiente o bastante para ter tanta ciência dos riscos quanto ele, concluiu cinicamente enquanto se virava e seguia seu reservado anfitrião para o bar.

Oi meninas... que bom que estão gostando... mais um capitulo pra vcs... e não se esqueçam das minhas reviews...bjuxx^^