— Querida. Espero que não fique ofendida, mas lamento que você e Edward tenham de se divertir sozinhos hoje, porque o florista está vindo de Madri para falar comigo esta manhã, e depois, à tarde, preciso finalizar o menu com o chef.
— Não se preocupe conosco, Renée — respondeu Edward, antes que Bella pudesse dizer qualquer coisa. — Phil, espero que não se importe — continuou ele. — Antes de nos reunirmos com vocês para o café da manhã, tomei a liberdade de conversar com o rapaz que cuida de sua frota de veículos aqui para perguntar se havia alguma possibilidade de pegarmos um carro emprestado e irmos até Segovia. Tivemos de sair de Londres com um pouco de pressa, e ambos ainda temos compras essenciais de Natal para fazer. Martin falou que poderia me emprestar a caminhonete, contanto que você não faça objeção.
— É claro que ele não faz... faz, querido? — Renée sorriu, parecendo aliviada. — Quanta sorte sua, querida, por ter um noivo tão compreensivo. Phil detesta ir às compras.
— Talvez Edward não se importe porque ele não é bilionário.
Bella sentiu uma onda de raiva em favor de sua mãe quando a filha mais nova de Phil jogou as palavras venenosas na sala, agora silenciosa, onde eles haviam tomado o café da manhã. Não era de se admirar que o marido dela estivesse com as faces vermelhas, pa recendo envergonhado, concluiu Bella, sentindo pena dele. Con tudo, foi Edward quem aceitou o desafio para defender Renée, falando friamente:
— Atrevo-me a dizer que a experiência de ter criado duas filhas tornou Phil sábio o bastante para lidar com mulheres predatórias.
O insulto foi feito com tanta leveza e facilidade que era quase como uma agulha fina penetrando o coração, decidiu Bella. Você sabia que tinha recebido um ferimento mortal, mas não podia en tender como ou onde. Que a mensagem fora passada, todavia, se tornou óbvio no súbito rubor do rosto de Jessica.
Quando acordará sozinha no quarto naquela ma nhã, ficara dividida entre tomar um banho, se vestir e sair corren do do quarto antes que Edward retornasse ou permanecer escondida debaixo das cobertas, porque se sentia embaraçada demais com a noite anterior, e não tinha certeza de que conseguiria encará-lo. No final, ele se comportara com tanta naturalidade que fora inesperadamente fácil retribuir seu beijo de bom-dia quando Edward entrara na sala de jantar, alguns minutos depois dela, cheirando a ar fresco e explicando que havia saído.
Agora, é claro, ela sabia por quê. Assim como sabia a nature za das compras essenciais às quais ele se referira.
Para um homem que estava perigosamente perto de ser um ator desempregado, Edward possuía um grau raro de autoconfiança. Na verdade, a falta de exibicionismo em suas maneiras, aliada à fria determinação que ele mostrava, parecia mais um com portamento típico de alguns de seus clientes... de homens ricos e seguros. Alguns dos quais haviam herdado sua fortuna, enquanto outros a tinham construído através de trabalho árduo, mas eram todos homens que não precisavam provar nada para ninguém, e a quem outros homens pareciam naturalmente se render.
— Eu disse a Martin que nós deveríamos estar prontos para sair por volta das 11h — Edward informou. Então, consultou seu relógio de pulso, que parecia simples, mas, como Bella sabia pelos rapazes de sua equipe de trabalho, era um Rolex caro e al tamente cobiçado. — Isso nos dá meia hora para nos aprontar. E tempo o bastante, ou eu devo...
— Meia hora é suficiente — ela o assegurou.
Estava prestes a se levantar e ir para o quarto buscar seu casaco quando Lauren de repente anunciou:
— Eu estava planejando levar as crianças a Segovia hoje. Elas estão tão entediadas, presas aqui! Uma vez que você vai dirigindo, Edward, podemos ir com vocês, de modo que papai ainda terá o outro carro aqui, se precisar sair.
— Vocês poderiam estragar a diversão de Edward e Bella se fizes sem isso — o marido dela disse rindo.
— Oh, não seja tolo. Edward não vai se importar. Afinal de con tas, não é como se ainda estivesse cortejando Bella. Quero dizer, os dois estão praticamente vivendo juntos... apesar de ainda não estarem legalmente casados.
As filhas de Phil mereciam um prêmio por destilação de vene no, pensou Bella, quando Edward puxou sua cadeira para que ela se levantasse. Tentou imaginar como deveria estar se sentindo se fosse realmente noiva de dele, e eles estivessem apaixonados, desespera dos para passar um tempo a sós. Por mais estranho que parecesse, não foi nem um pouco difícil imaginar exatamente como se sen tiria. Na verdade, não era muito diferente do que estava sentindo naquele momento, admitiu. E o que isso significava, uma vez que eles não estavam noivos e nem apaixonados? Mas alguma coisa estava acontecendo entre os dois, e não podia fingir o contrário. Na noite anterior, por exemplo... a dor que a interrupção do ato de amor tinha deixado era como um fogo abafado, ardendo sob a superfície, subitamente explodindo em vida.
Enquanto subia a escada, muito consciente de Edward andando ao seu lado, Bella se esforçou para reprimir seu doloroso desejo. Impressionava-a o fato de se sentir daquela forma em relação a um homem que mal conhecia. Em seu interior, um difícil embate parecia acontecer entre seu cérebro e seu coração. Sabia, com a mesma certeza com que sabia seu próprio nome, que poderia atingir o auge de sua própria sensualidade quando seu desejo físico se unisse a um comprometimento emocional. Sexo sem amor não a atraía de maneira alguma, motivo pelo qual jamais se havia permitido um envolvimento mais íntimo com alguém. Até aquele momento.
Então, o que havia acontecido para tornar as coisas diferen tes? Edward havia acontecido! Edward, um ator desempregado que fazia bicos como acompanhante. Ela, com tudo que sabia sobre a vul nerabilidade do amor, estava realmente admitindo a possibilidade insana de se apaixonar por um homem cuja profissão era talvez a mais nociva a eventuais relacionamentos. Estava brincando, certo? Apenas provocando a si mesma... vendo quão longe podia esten der seus limites auto-impostos. Não estava seriamente apaixonada por um homem que acabara de conhecer. Não podia estar.
Eles chegaram à porta do quarto e Edward a abriu.
— Obrigada por ter dito aquilo para Jessica. Eu queria ter falado alguma coisa, mas, se o tivesse feito, não teria consegui do um efeito tão magnífico.
Edward deu de ombros.
— Quando Jessica tentou insinuar que a motivação de sua mãe era o dinheiro, ficou óbvio que o dinheiro é exatamente o que motiva ela mesma. E muito feia e deprimente essa necessidade patética de filhos e filhas de pessoas ricas reafirmarem sempre que os bens de seus pais lhes pertencem. — Ele deu de ombros mais uma vez. — Suponho que, se você cresce pensando que tudo pode ser comprado, inclusive seu próprio amor, a idéia de mais alguém pondo as mãos no dinheiro de seus pais seja ameaçadora. Fico feliz que meu pai tenha me dado apenas uma vida confortável.
Sim, ela podia ver o passado social dele descrito pelo esboço breve que ele acabara de fazer. Boas escolas, uma boa universidade, também, julgou com astúcia. O tipo de educação que normal mente teria levado a uma carreira administrativa ou de advocacia.
— Existe uma tradição teatral em sua família? — perguntou ela, curiosamente.
— Como os Redgraves, você quer dizer? — Ele meneou a cabeça. — Não.
O desejo de ser ator de seu meio-irmão havia surpreendido a todos da família, e Edward fora obrigado a agir como ponte entre Joe e o pai deles durante a adolescência de Joe, logo que este resolvera que queria representar.
— Desapontada por eu não ser ligado à aristocracia do teatro? — perguntou ele.
Foi a vez de Bella menear a cabeça.
— Não, de maneira alguma. É só que, por alguma razão, acho difícil imaginá-lo como ator. Você não parece o tipo.
— Não? Então, de que tipo pareço? — Aquele era um territó rio perigoso, mas Edward não conseguia resistir a perguntar... embora por dentro estivesse se ridicularizando por sua vaidade masculina.
— Alguém com uma boa posição em um banco, por exemplo. Ou em outra empresa, um diretor, talvez.
A perspicácia dela o lembrou de que não estava lidando com uma mulher como as filhas de Phil. Bella não era apenas mais humana do que elas, como também muito mais inteligente. In teligência em uma parceira sexual, quando se está tentando lhe esconder alguma coisa, não é exatamente uma qualidade, avisou a si mesmo. Mas era tarde demais para recuar. Na noite anterior, fizera a Bella uma promessa... tanto verbal quanto não-verbal... que provavelmente lhe causaria problemas imensos.
— E minha imaginação, ou este quarto realmente está um pouco mais quente? — perguntou Bella.
Estava satisfeita por ter encontrado uma desculpa para mudar de assunto e sair do campo pessoal. Não que não quisesse desco brir o máximo possível sobre a vida de Edward. Na verdade, ansiava por saber mais detalhes sobre ele. Mas essa ânsia em si era o bas tante para fazê-la querer fugir para o mais longe que fosse capaz. Vivia um conflito em que a razão a puxava para uma direção e o coração para outra.
— Conversei com o assistente do conde — disse Edward. — Aparentemente, o conde não ficará muito satisfeito se descobrir que suas instruções em relação a manter os quartos igualmente aquecidos foram ignoradas. Mesmo o seguro deste lugar depende de certas condições... uma das quais é manter a mesma tempera tura em todos os cômodos. Duvido que mesmo Phil, com todos os seus bilhões, fosse ficar feliz se recebesse uma conta pelos trabalhos de restauração, por ter danificado o castelo.
— As filhas de Phil não vão ficar muito satisfeitas.
— Provavelmente não, mas estão livres para argumentar com o assistente do conde, se assim desejarem. — Ele fez uma pausa, então perguntou secamente: — Sei que isso não é da minha conta, mas sua mãe tem alguma idéia daquilo em que está se envolvendo?
— Minha mãe prefere ver somente o que quer ver. E, neste momento, o que quer ver é que Phil é um homem maravilhoso e que as filhas dele serão suas enteadas queridas. Mamãe é tão sonha dora... Não consigo evitar me preocupar com ela — admitiu Bella.
— Então... Quem se preocupa com você?
— Ninguém — respondeu ela prontamente. — Ninguém precisa se preocupar comigo. Não sou como minha mãe. O jeito como ela se apaixona, e então se apaixona de novo, me deixou desiludida demais para procurar o homem certo, mas ela parece capaz de se levantar sempre e começar tudo de novo.
Edward podia ouvir o tom perturbado na voz de Bella. Acredita va que a Renée era fútil, mas, quanto mais a conhecia, menos inclinado ficava a considerá-la interesseira ou exploradora.
— Quantos anos você tinha quando sua mãe deixou de amar seu pai?
A pergunta abrupta e inesperada o assustou tanto quanto as sustou Bella.
— Eu tinha seis anos quando eles se divorciaram, e, pelo que ambos me falaram, o casamento estava em crise havia um bom tempo. Acho que papai tentou ficar por minha causa, mas mamãe não agüentava mais. — Bella abriu o guarda-roupa e pegou um casaco e botas.
— Você vai precisar de algo mais quente do que isso — Edward a avisou. — Martin me disse que estão esperando mais neve hoje à tarde.
— Eu não tenho mais nada — admitiu ela com tristeza. — Terei de comprar alguma coisa quando estivermos fora. Não imaginei que o tempo estaria assim por aqui.
— Se nós tivéssemos vindo para cá realmente noivos, suponho que ficaríamos felizes em usar a neve como desculpa para passar o dia inteiro na cama. E, sem dúvida, teríamos vindo preparados — acrescentou Edward.
Bella pôde sentir o rosto enrubescendo, e a onda de desejo que percorreu seu corpo foi tão intensa que a fez emitir um gemido baixo de protesto. Colocou uma das mãos sobre a parte baixa do corpo, numa tentativa de aquietar a pulsação de desejo que podia ver, pela expressão de Edward, que ele sabia exatamente o que ela estava sentindo. Quando ele deu alguns passos, se aproximando, Bella protestou tremendo:
— Não. — Mas não fez nenhuma tentativa de se afastar quando ele lhe segurou o ombro com uma das mãos e deslizou a outra até as costas, puxando-a para si.
— Esse olhar me diz que você me deseja tanto quanto eu a desejo. — Mesmo o calor da respiração dele enquanto murmurava as palavras contra seu ouvido era uma forma de carícia e excitação, fazendo-a tremer, desesperada para virar o rosto, de modo a apro ximar seus lábios.
O que havia naquela mulher que o levava a fazer coisas que iam contra todos os seus planos?, perguntou-se Edward irritado. A onda poderosa e agonizante de desejo que queimava em seu in terior não era o que pretendera, de jeito nenhum. Algo no pe queno tremor do corpo dela o alertava para a fragilidade dela em relação a ele, e foi isso que o levou a cobrir-lhe os lábios com os seus. Tinha de ser isso, e não seu próprio desejo. Caso contrá rio... Caso contrário o quê? Caso contrário estaria entrando em uma situação que não seria capaz de controlar?
— É melhor descermos antes que Martin pense que mudamos de idéia e não queremos mais o carro.
Sentia-se satisfeita por Edward não estar mais pensando em intimidades, Bella disse a si mesma com firmeza quando ele a soltou e começou a se afastar.
— Não faça isso! — murmurou Edward, puxando-a de volta para seus braços.
— Não fazer o quê?
— Não me olhe como se tudo que você quisesse fosse sentir meus lábios nos seus — disse ele.
— Eu não estava... —Bella começou a protestar, mas era tarde demais. Ele lhe aprisionara o rosto entre as mãos e estava se incli nando em direção a ela, silenciando-a com um beijo.
Muito depois da hora em que deveria estar dormindo na noite anterior, Bella ainda permanecia acordada, tentando desesperadamente se convencer de que os beijos de Edward não podiam ter sido tão maravilhosos quanto haviam parecido. Ridicularizara-se por ter sido enfeitiçada pela combinação de seu próprio desejo físico, a lua e a neve do lado de fora... e a proximidade do Natal. Dissera a si mesma com firmeza que, se ele a tivesse beijado em seu apartamento em Londres, por exemplo, provavelmente não a teria afetado. Mas lá estava ela, novamente envolvida na magia da noite anterior... e desta vez, os efeitos que sentia eram ainda mais intensos. Se ele quisesse pegá-la nos braços e levá-la para a cama agora, sabia que não tentaria impedi-lo.
Queria-o com tanto desespero que se viu chocada, quase como se estivesse inebriada pela força devastadora do desejo. O pânico a dominou, fazendo-a empurrá-lo. Não queria sentir aquilo por homem algum, especialmente pelo tipo de homem que ele era.
No instante em que Edward a liberou, ela se dirigiu para a porta. Quando ele chegou lá na sua frente, Bella prendeu a respiração, em parte com medo, e em parte esperançosa que ele se encostasse contra a porta, bloqueando-lhe a saída. Em vez disso, lhe abriu a porta, dizendo simplesmente:
— Não esqueça o casaco.
— Certo, crianças, entrem atrás com Isabela. Não se importa se eu me sentar na frente com você, certo, Edward? É que sinto enjôo se ando no banco de trás dos carros.
Nenhum pedido de desculpas para ela, pensou Bella enquanto Lauren se apropriava do assento do passageiro da grande ca minhonete. Diferentemente dela, Lauren parecia ter viajado para a Espanha bem equipada para a neve, percebeu, olhan do, com um pouco de inveja, para os bonitos trajes esporte.
— Eu quero sentar perto da janela.
— Eu também. — Os filhos de Lauren já estavam entran do no banco de trás.
— Você terá de se sentar no meio, Bella — instruiu... como se ela fosse uma empregada.
— Uma das crianças terá de se sentar no meio, não Bella — in terferiu Edward, em um tom que não deixava espaço para discussão.
— Elas podem revezar o assento da janela... uma vai na ida, e a outra vem na volta.
— Maria sempre senta no meio — disse o filho mais velho de Lauren.
— Pode ser. Mas Bella não é Maria.
— Meu Deus, que confusão você está fazendo, Bella — excla mou Lauren, de forma vil e tão injusta que Bella ficou perple xa demais para retrucar.
—Isto éum carro? — o menino mais velho comentou de ma neira depreciativa. — Vocês deviam ver o carro que temos em casa.
— Prenda meu cinto de segurança — o outro ordenou a Bella num tom enfatuado.
Ela estava se inclinando para frente a fim de ajudá-lo quando Edward a impediu.
— Por favor, você pode me ajudar com o cinto, Bella? Acho que foi isso que você quis dizer, estou certo?
Bella não pôde evitar sentir um pouco de pena dos dois ga rotos. Eram pequenos, e estava óbvio que a mãe deles era o tipo de mulher que tratava os filhos como ferramentas úteis de troca... ralhando quando lhe convinha, e então cedendo a tudo quando a situação lhe fosse vantajosa.
Durante todo o tempo até chegarem a Segovia, Lauren dedicou sua atenção a Edward... em tal grau que era como se Bella e as crianças não estivessem lá, pensou Bella, mais chateada por causa das crianças do que por si mesma. Afinal de contas, Edward já lhe mostrara que não tinha nenhum interesse em Lauren, e, sem saber bem como aquilo havia acontecido, descobriu que estava real mente se permitindo confiar nele. Aquilo a tornaria perigosamente vulnerável, uma voz interior a avisou, mas Bella escolheu ignorá-la. Na verdade, desde que conhecera Edward, estava escolhendo ignorar muitos conselhos de sua cautelosa voz interna.
Os meninos, uma vez que perceberam que Bella não era o tipo de pessoa que podiam intimidar ou com quem pudessem falar como estavam acostumados a falar com Maria, a jovem que a mãe contratara para cuidar deles, começaram a respeitar sua calma firmeza, e até mesmo reagir a ela. Bella gostava de crian ças, e apreciou tornar a jornada mais animada para os garotos, ensinando-lhes algumas brincadeiras boas para passar o tempo, e conversando com eles sobre esportes e hobbies.
Para Edward, forçado a suportar a intimidade indesejada de to ques deliberados e nada sutis em seu braço... e ocasionalmente em sua coxa... enquanto ouvia o monólogo tedioso de Lauren, as risadinhas que chegavam aos seus ouvidos do banco de trás pareciam goles de água fresca depois de um vinho ruim. Podia apenas se maravilhar com a forma milagrosa como Bella estava conquistando os filhos de Lauren. Alguma coisa no jeito calmo e casual como ela conversava com as crianças evocou algo de sua própria memória. Dentro da cabeça, podia quase ouvir o eco da voz de sua mãe, e, com isso, sua própria risadinha em resposta.
Nenhuma criança deveria crescer sem a mãe. Edward tivera sorte com sua madrasta. Sabia disso, e sinceramente a amava, mas ouvir Bella de repente lhe despertou uma dor antiga. Ele se inclinou so bre o painel e aumentou o volume do som, de modo a bloquear as risadas e a conversa que vinham do banco de trás. Imediatamente, Lauren lhe deu um sorriso de aprovação, e umedeceu os lá bios, já úmidos pelo batom, com a ponta da língua. Quando Edward não mostrou nenhuma reação, ela se inclinou para mais perto, pondo deliberadamente uma das mãos sobre sua coxa.
— Fico feliz que você tenha feito isso — murmurou ela com voz rouca. — A voz de Bella é um tanto aguda, não é? Imagino que seja por causa do sotaque inglês. Eu estava começando a ficar com dor de cabeça. Há quanto tempo você disse que se conhecem?
— Eu não disse — respondeu Edward secamente.
— Ela é uma mulher de sorte por ter levado um homem como você para cama.
— A sorte é toda minha — replicou ele.
Lauren estava tentando seduzi-lo descaradamente, e Edward percebeu que, se a encorajasse, ela poderia lhe dar alguma informa ção de que ele necessitasse. Porém, sua rejeição imediata à idéia foi intensa. Era quase como se estivesse recuando física e emocionalmente ao pensamento de compartilhar o tipo de intimidade que começara a ter com Bella com outra pessoa. Um recuo físico e emocional. O que isso significava exatamente? Se continuasse assim, logo estaria dizendo a si mesmo que se sentia culpado por suas ações, e não tinha condições de se permitir esse tipo de luxo.
Mesmo quando eles chegaram à cidade e pararam o carro, Lauren continuou tentando chamar a atenção de Edward, deixando Bella para ajudar os meninos a sair do carro e checar se seus casacos estavam bem fechados para enfrentar o vento gelado que soprava nas ruas estreitas de Segovia.
O solo estava coberto de neve e gelo, e... como era esperado... Lauren segurou o braço de Edward. Cada uma das crianças se posicionou de um lado de Bella, agarrando-se a ela com tanta con fiança que ela não teve coragem de falar nada.
Edward olhou para ela, e se perguntou por que ela possuía a habi lidade de fazê-lo sentir emoções que ele não queria sentir, e como conseguia lhe despertar um instinto protetor, quase possessivo, que nenhuma outra mulher jamais tocara, evidentemente, isso não era o que ele queria sentir. Entretanto, observando-a agora com os meninos, tomou consciência da irritação aguda que sentia por eles estarem lá, atrapalhando sua necessidade de tê-la só para si.
— Bella e eu temos muitas coisas a fazer. Portanto, Lauren, é melhor nos separarmos e deixar você e os garotos seguirem com suas compras. De quanto tempo você acha que vai precisar? — perguntou ele, erguendo o braço para consultar seu relógio de modo a forçar Lauren a remover a mão dali.
— Oh! Pensei que nós pudéssemos fazer as compras todos juntos — protestou ela, — Seria muito mais divertido dessa for ma. Bella e eu iríamos ver coisas de mulheres, enquanto vocês, homens, tomariam um refrigerante ou algo assim, e depois nós nos encontraríamos para almoçar.
Aquela era Lauren no papei de boa mãe, reconheceu Bella, enquanto os meninos olhavam inseguros para a mãe.
— Está bem assim para vocês, meninos? — Lauren ape lou para os filhos. — Ou preferem ficar com Bella?
Bruxa!, pensou Bella, com um veneno que não lhe era carac terístico.
— Nós queremos ficar com Bella — os dois meninos respon deram ao mesmo tempo.
Imediatamente, Edward meneou a cabeça.
— Desculpem, garotos, mas isso não será possível. — A ve emência na voz dele fez o coração de Bella disparar de excitação, uma vez que a determinação em tê-la só para si sugeria o desejo de intimidade. — Bella e eu temos algumas compras de Natal para fazer, e ela é minha noiva. — O olhar que ele lhe deu a fez corar, e a expressão de Lauren se tornou venenosa quando o fitou.
Ela faria uma inimiga, percebeu Bella ao ver a expressão de seus olhos.
Edward não pareceu se importar, todavia. Ignorando a óbvia hos tilidade de Lauren a sua sugestão, continuou calmamente:
— Eu não quero passar horas e horas na cidade, Lauren. A previsão do tempo que ouvimos no rádio não parece nada boa.
— Oh, entendo. Tudo bem, então.
Era óbvio que Lauren não achava que estava tudo bem, pensou Bella, sentindo-se desconfortável com o olhar furioso dela.
— Ouça, por que não nos encontramos aqui... vamos dizer... em duas horas? — sugeriu Edward. — Aqui está uma chave extra do carro, caso vocês cheguem antes de nós. Desta forma, não precisam ficar parados esperando no frio. E eu lhe darei o número de meu celular, caso você precise. Pronta, Bells?
Bella desvencilhou-se dos meninos e se aproximou dele rapi damente, detestando-se por se sentir tão grata, tanto pelo braço que Edward deslizou ao seu redor quanto pelo sorriso caloroso que recebeu.
— Está tudo bem. Você pode me soltar agora — murmurou ela, sem fôlego, cinco minutos depois. — Lauren não pode mais nos ver.
— Você é minha noiva e estamos perdidamente apaixonados. Não vamos andar a nem um passo de distância um do outro, va mos? E nunca se sabe... podemos encontrar a bruxa em qual quer lugar. E uma cidade pequena. Além disso — acrescentou ele suavemente —, eu não quero soltá-la.
Era necessário que ele fosse tão longe assim? Já convencera a todos como noivo dele? E, depois da noite anterior... Depois da noite anterior o quê? Por causa da noite anterior ele sentia aque la dor que, de alguma forma, parecia ter ganho vida própria. A dor que neste exato momento...
No que Edward estava pensando?, Bella se perguntou. O que o fazia parecer tão distante, e, ao mesmo tempo, agora que virará a cabeça para fitá-la, tão desejoso por ela?
No momento em que ele a tocou, Bella nem tentou resistir. Edward a virou de frente para si ao abrigo de uma marquise, onde ninguém podia vê-los, e a pressionou contra a parede, cobrindo-lhe o corpo com o calor do seu.
Sussurrou contra os seus lábios entreabertos:
— Sei que há diversos motivos pelos quais eu não deveria es tar fazendo isso, mas neste momento, não quero saber sobre eles. Agora, aqui, o que quero, tudo que quero, é você, Bella.
Por que ele estava fazendo aquilo, quando não precisava? Por que fazer perguntas a si mesmo que não podia responder? Edward teve a resposta quando cedeu ao desejo que o vinha consumindo desde a noite anterior e baixou a cabeça para beijá-la.
Aquilo não era uma coisa sensata a fazer, Bella avisou a si mes ma. Mas, de súbito, não queria ser sensata. O que queria era... O que queria era Edward, admitiu. Então parou de pensar, de se preocu par e de julgar, e simplesmente se rendeu ao sentimento, enquanto eles se abraçavam e se beijavam como dois adolescentes enlouque cidos de paixão, esquecidos de tudo e de todos.
O que se seguiu deveria ter sido um anticlímax. Em vez dis so, foi o começo das horas mais maravilhosas que Bella já tinha vivenciado.
A pequena cidade era um cenário perfeito, com suas casas de pedra cor de mel, cobertas com neve pura... a qual, felizmente, havia sido varrida das ruas. Edward insistiu que os dois andassem de braços dados. E quando, num determinado momento, ele sim plesmente parou e a fitou, ela pôde sentir as faces enrubescendo em resposta ao olhar ardente que encontrou.
— Não faça isso — protestou Bella.
— Não faça, o quê?
— Não me olhe assim.
— Como se eu quisesse beijá-la novamente?
— Isso é loucura — disse ela, meneando a cabeça.
— Não é isso que as pessoas devem fazer quando começam a se apaixonar?
Edward pôde ver o choque nos olhos dela. Assim como pôde sentir o choque em seu próprio corpo. O que estava fazendo, envolvendo a paixão naquela questão? Era como se de repente tivesse se torna do duas pessoas, cujos comportamentos eram totalmente estranhos um para o outro... um deles dizia que jamais fazia jogos emocionais com mulheres, que desprezava homens que faziam isso. Então, por que estava usando uma palavra como "paixão"?... Enquanto isso, o outro exigia saber quem dissera alguma coisa sobre jogos? Era como se estivesse numa guerra consigo mesmo. Tentou reprimir a sensação de que, de alguma forma, havia se separado de si mesmo num labirinto... e fracassou.
— Há um Café ali. Vamos tomar um drinque? — Qualquer coisa que pudesse fazê-lo voltar ao normal...
Bella assentiu com um gesto de cabeça, aliviada. Agora que se encontrava livre da magia que a intimidade da sexualidade de Silas parecia lançar sobre ela, tinha total ciência do quanto esta va vulnerável. Tudo vinha acontecendo com muita rapidez. Não estava acostumada com esse tipo de situação. E, de algum modo, não podia acreditar que Edward realmente falara sério segundos atrás.
Era muita coisa em muito pouco tempo. Mas ela o queria. Não podia negar isso.
Bella tomou o café que ele pediu para os dois, e tentou olhar pela janela e se concentrar nas pessoas andando pela rua da cidade em vez de em Edward, como secretamente queria fazer. Na verdade, o que mais queria agora era poder olhá-lo, assimilar cada pequeno detalhe físico enquanto tentava analisar o que estava acontecendo.
Edward a estudava. Sentia como se quase pudesse ler os pensa mentos dela, que não sabia se podia acreditar na honestidade dele. Podia sentir isso em cada pequena coisa que ela fazia. Bella o desejava, ele sabia disso. Mas tinha dúvidas sobre aceitar o imediatismo da situação.
Depois que ambos terminaram o café, Edward se levantou.
— Volto num minuto — disse ele, gesticulando a cabeça em direção a uma farmácia do outro lado da rua.
Bella entendeu imediatamente, mas, quando viu a placa da farmácia, seu rosto queimou, fazendo-a emitir um som incoeren te em concordância. Então, aproveitou a ausência dele para ir ao toalete, pentear os cabelos e retocar o batom que ele beijara mais cedo. Quando saiu, Edward já havia retornado e a esperava.
— Acho melhor eu comprar uma lembrança de Natal para sua mãe, mas vou precisar de um conselho seu — murmurou ele, conduzindo-a para uma pequena loja de presentes com uma vitrine de dar água na boca. Para o alívio de Bella, ele não falou uma palavra sobre sua visita à farmácia.
A loja se provou um baú de tesouros diferentes e especiais, e Bella achou presentes para cada uma das crianças. Foi somente quando a pequena caixa de jóias que Edward comprara para Renée estava sendo embrulhada que Bella olhou para seu relógio e se deu conta de que já fazia quase duas horas desde que haviam estacionado o carro.
— Precisamos voltar — ela avisou Edward.
— Sim, eu sei. Não que eu esteja particularmente ansioso para fazer a viagem de volta com Lauren. Ela vai se sentar no banco de trás desta vez... com ou sem enjôos — disse ele, antes de acrescentar em um tom de voz carinhoso: — Achei que você lidou muito bem com os meninos, a propósito. Obviamente gosta de crianças.
— Sim, e isso é bom, na verdade. Meu pai se casou de novo e tem uma segunda família mais jovem, e todos os ex de minha mãe têm filhos... muitos dos quais já têm seus próprios filhos agora.
— As ramificações de uma família ampliada moderna podem ser muito complicadas — observou Edward ao pegar o pacote da mão da vendedora da loja.
Quando eles saíram na rua, Bella deu um pequeno gemido de encantamento.
— Está nevando! — exclamou ela.
— Martin me avisou sobre a previsão da neve.
Desta vez, foi Bella quem automaticamente uniu seu braço ao dele, enquanto se dirigiam para onde o carro estava parado.
Exatamente duas horas haviam se passado quando eles chega ram ao local, passando por outros veículos estacionados e se apro ximando de onde Edward havia deixado a caminhonete.
Mas, onde a caminhonete deveria estar, havia apenas um espa ço vazio, que a neve já começava a cobrir.
