Bella olhou insegura para seu reflexo no espelho da loja. Não porque estava em dúvida sobre o vestido que experimentava... soubera, desde o momento em que o vira na vitrine que ficaria perfeito em seu corpo, e realmente ficara. Não. Suas dúvidas vinham da consciência culpada que a fazia lembrar que, embora sua mãe tivesse se desculpado ao telefone pelo comportamento de Lauren e a encorajado a escolher "alguma roupa bonita" pela qual ela pagaria, Bella sabia que, quando voltasse para Londres, teria de arranjar o dinheiro para pagar a conta do hotel.
E se isso não fosse suficiente para impedi-la de se render ao preço de fato bastante razoável do pequeno vestido preto que aderia lindamente a suas curvas, precisaria apenas lembrar a si mesma de que não levava uma vida que requeresse o uso de vestidinhos pretos. Talvez, se possuísse um, uma voz interior argumentou, seria capaz de aceitar convites para lugares onde poderia usá-lo.
Vira o vestido na vitrine de uma loja perto do hotel, quando ela e Edward haviam passado por ali mais cedo, em busca de um restaurante que ainda servisse almoço no meio da tarde. Depois, Bella dera uma desculpa para escapar de Edward, a fim de dar uma olhada mais de perto no vestido, dizendo-lhe que precisava comprar algumas coisas pessoais porque iam passar a noite no hotel.
— Está perfeito em você — comentou a vendedora com um pequeno sorriso. — Este é um vestido feito para uma mulher que tem curvas. O estilista é espanhol. Acabamos de começar a vender o modelo.
Felizmente, o inglês da vendedora era melhor do que o seu espanhol, pensou Bella, enquanto alisava a seda preta sobre a curva de seu quadril. Além de lhe cair muito bem no corpo, o vestido era elegante, sem parecer exibicionista. Era, na verdade, o tipo de vestido que alguém poderia passar uma vida inteira procurando, sem encontrar.
— Com a jóia certa ou uma echarpe, ele pode ser versátil. Olhe... — A vendedora pegou um colar de contas pretas e pérolas cor de creme e pôs ao redor do pescoço de Bella para mostrar o que queria dizer. Então, deixando o colar de lado, amarrou-lhe um lenço de seda colorido em volta da cintura, da mesma maneira que Bella notara as elegantes vendedoras na loja Hermes da rua Sloane usando seus lenços.
Precisava de alguma coisa para usar no jantar do hotel naquela noite, disse a si mesma, enfraquecendo.
Edward, que estava parado do outro lado da rua, observando-a, enfiou a mão no bolso para pegar a carteira. Tinha passado tempo o bastante fazendo compras com sua madrasta e namoradas para reconhecer quando uma roupa era feita para certa mulher. Se Bella não comprasse logo aquele vestido, no qual parecia maravilhosamente desejável, ele mesmo o compraria para ela. Mesmo que tivesse de fazer isso disfarçadamente. Ela era, afinal de contas, sua noiva...
Mas por que queria que Bella ficasse com o vestido? Por causa do olhar deslumbrado que podia ver tão claramente em seu reflexo enquanto ela se olhava no espelho? Ou por causa do que ele estava fazendo? Irritado, reprimiu o questionamento interior de seus motivos. Não tinha escolha senão usar Bella como a chave para a confiança de Phil.
— Eu vou levar — Bella falou para a vendedora que esperava.
— E os sapatos? — perguntou a garota com um sorriso, indicando os sapatos pretos de noite que persuadira Bella a experimentar com o vestido.
Olhou para baixo e assentiu com um gesto de cabeça, tentando controlar a sensação de quase euforia. Jamais pensara em si mesma como o tipo de mulher que ficava excitada por comprar roupas novas... Mas, até aí, nunca pensara em si mesma como o tipo de mulher que se excitava com a idéia de fazer sexo com um homem que mal conhecia, também, antes que Edward tivesse entrado em sua vida.
Edward! Ele devia estar pensando onde ela se metera. Haviam combinado de se encontrar no restaurante em que tinham almoçado, e ela ainda precisava fazer mais compras. Gesticulou em direção ao belo lingerie exposto no mostruário... um conjunto de sutiã e calcinha em preto e cor-de-rosa clarinho.
— E uma nova coleção — disse a vendedora com aprovação. — E um de nossos conjuntos mais populares.
— Comprou tudo que queria? — perguntou Edward calmamente quando ela o encontrou do lado de fora do restaurante, como se Bella não tivesse demorado meia hora a mais do que prometera.
Edward também estivera fazendo compras, notou ela, porque carregava uma sacola de aparência bastante masculina.
— Não achei que o maitre ficaria muito satisfeito comigo se eu fosse jantar esta noite de calça de algodão e camisa pólo — disse ele com naturalidade.
— Pensei a mesma coisa. Não sobre você. Sobre mim — acrescentou Bella apressadamente. — Bem, decidi comprar alguma coisa para usar esta noite. — Ela estava tagarelando. Por quê? Certamente não porque, apenas por um segundo, enquanto observara a vendedora empacotar o conjunto de lingerie mais sexy que já havia comprado na vida, subitamente imaginara Edward removendo seu vestido novo para revelá-lo... E esse, claro, não tinha sido o motivo pelo qual mudara de idéia sobre comprar uma meia-calça e optado por meias longas, tinha?
Deixara de nevar enquanto ela estava na loja, mas logo havia recomeçado, e nevava tão forte que Bella sabia que Edward estava certo ao sugerir que ela se segurasse nele. Ainda assim, recusou-se.
— Ficarei perfeitamente bem. — O que queria dizer, na verdade, era que preferia arriscar perder o equilíbrio na neve a perder seu coração na intimidade de estar próxima a ele.
— Certo. Você está pronta para voltar ao hotel? — perguntou ele. — Ou...
— Acho melhor voltarmos, ou acabaremos parecendo bonecos de neve ambulantes. — Bella tremeu de leve, então arfou quando uma multidão de jovens virou a esquina correndo. Um deles colidiu acidentalmente com ela, e Edward reagiu de imediato, segurando-a com ambas as mãos e mantendo-a de pé enquanto ela recuperava o equilíbrio.
Toda vez que estava tão perto dele, o que sentira da primeira vez retornava... e com mais força. Assim seu coração estava batendo descompassado, dando a impressão de que queria saltar do peito, como se o corpo dele fosse um imã para o qual ela era inevitavelmente atraída.
Bella ergueu a cabeça para agradecer, mas seu olhar foi para a boca de Edward, e então se recusou a desviar dali. Era como se a visão impedisse qualquer outro sentido de se manifestar naquele momento. Estava, reconheceu de forma distante, totalmente incapaz de fazer qualquer coisa além de admirar a boca dele e ansiar por senti-la na sua. Havia tomado sua decisão na suíte. Não havia? Tinha certeza quanto a isso? Se tivesse uma segunda chance, tomaria a mesma decisão? Já não estava se arrependendo da oportunidade que deixara escapar por um medo que não mais parecia importante quando comparado ao desejo? Como chegara àquilo? Como havia se tornado tão enfeitiçada pelos lábios sensuais de um homem, ao ponto de querer, mais do que tudo na vida, tocá-los com a ponta do dedo, traçar-lhes o formato e guardá-los na memória?
O jeito como Bella o olhava estava deixando Edward consciente de si mesmo como homem, de maneiras, e com nuances, que não sabia serem possíveis, pensou ele. Se ela estendesse o braço e lhe tocasse a boca agora, como parecia prestes a fazer, sabia que a ação levaria a carícias muito mais íntimas... Como a de seus lábios contra a intimidade de Bella, com centenas de beijos e toques diferentes, até que sua língua sondasse o ponto mais sensível, para levá-la ao orgasmo e assistir o prazer arrebatá-la. Também sabia que não podia deixar isso acontecer. Não agora que começara a vê-la como a mulher que realmente era. Como a situação chegara àquele ponto? Como ele chegara àquilo? O que havia acontecido para que a desejasse com tamanho desespero?
— Se ficarmos mais tempo aqui, vamos congelar. — A rejeição na voz de Edward, quando ele a liberou e se virou, doeu mais do que as gélidas ferroadas da neve batendo em sua pele, admitiu Bella enquanto ele a esperava.
Desta vez, quando ele lhe segurou o braço com firmeza, ela não protestou, mas se certificou de manter a maior distância possível entre os dois... diferentemente do casal de jovens à sua frente, totalmente abraçados e aconchegados, a cabeça dela descansando no ombro do namorado. Bella ficou dolorosamente abalada no momento em que o casal parou de andar, esquecido do mundo, e a garota ergueu o olhar para o do rapaz. Bella ouviu a suave risadinha feminina quando ele lhe tirou neve do rosto, e o silêncio no instante em que a beijou com ardor. Não havia necessidade de adivinhar ou questionar os sentimentos daquele casal. Eles estavam em um mundo pessoal de pura felicidade e amor.
