Capítulo 02 – Por vestidos e visitas

A jovem despertou com os pequenos raios de sol que passavam pela cortina. Espreguiçou-se tentando espantar o sono, sentia-se cansada, como se não tivesse dormido direito. O que era bem verdade, já que passara a noite pensando nos tais assaltantes da estrada. Naturalmente não se sentia a vontade quando passava por entre as árvores, agora sabendo sobre esse fato teria mais um motivo para ficar nervosa.

Kagome se levantou, colocou um lindo vestido azul e desceu para tomar café da manhã. Seu pai ainda estava à mesa tomando um café enquanto examinava alguns papéis.

-Bom dia – cumprimentou o pai dando-lhe um beijo na bochecha e se sentando em uma das cadeiras.

-Bom dia, filha.

-Onde está mamãe e Kikyou?

-Ah, estão se arrumando, já tomaram o café. Elas vão à cidade daqui a pouco, parece que querem ir à feira. Kikyou vai encomendar outro vestido.

-Ah, então acho melhor me apressar para poder acompanhá-las. – Kagome comentou comendo rapidamente um sanduíche e tomando seu copo de leite.

-Faça isso... Aproveite e ajude a sua mãe decidir o que iremos servir no jantar. – o senhor Higurashi comentou distraído.

-Jantar? Por quê? Teremos visitas?

-Ora, Kagome, que pergunta. Seu noivo vem fazer a corte essa noite... – ele desviou o olhar dos papéis para fitar a jovem.

-Ah, tinha me esquecido... – comentou triste. – bom, melhor eu ir logo.

E com isso saiu da sala deixando o senhor Higurashi observando o portal vazio.

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-Tem certeza de que quer realmente fazer isso, Sango? – InuYasha perguntou pela vigésima vez naquela manhã enquanto seguiam pela estrada. Todos os três vestiam roupas estranhas para que não pudessem ser reconhecidos.

-InuYasha, se me perguntar a mesma coisa mais uma vez eu não responderei por mim... – a jovem avisou caminhando.

-Ta, desculpa, só não queria que você se arrependesse depois. – o rapaz comentou. – Ei, cadê o Miroku?

-Ué, ele estava logo atrás da gente. – Sango respondeu parando para procurar pelo moreno. – Hm, não é ele lá atrás abaixado no meio da estrada?

-Acho que sim, bom parece com ele.

-O que ele está fazendo?

-Sei lá... Sango, é o Miroku, é impossível descobrir o que ele está pensando... Se é que ele pensa. O que eu acho meio improvável.

-InuYasha, não seja mal com ele. – Sango comentou com um suspiro.

-Ta, ta... Vamos indo. Logo, logo ele alcança a gente.

-Ta.

Eles caminharam um pouco mais, até chegarem a uma parte da estrada que era cercada por pequenas moitas e altas árvores, um ótimo lugar para se esconderem.

-Perfeito. – Sango comentou admirando o local.

-Certo, nós nos escondemos aqui, enquanto o Miroku pára a carruagem ou carroça ali.

-Entendido. Acho que pode dar certo, só não podemos cometer nenhum erro...

-Isso é meio difícil com o Miroku por perto.

-InuYasha, apesar de eu concordar, eu acho que ele não faz isso intencionalmente. Digamos que ele é apenas um pouco desajeitado.

-Hah! Muito desajeito você quer dizer...

-É, talvez um pouquinho... – ela comentou pensativa.

-Enfim, agora, cadê o infeliz do Miroku?

-Ali ó... – Sango falou apontando para o rapaz que vinha caminhando se abaixando várias vezes – o que ele está fazendo?

-Não sei... Ele parece... Eu não acredito. – InuYasha falou inconformado.

-O quê?

-O idiota está catando pedras.

-Pra quê? – Sango perguntou confusa.

-E eu vou saber? Ele nunca foi disso, esses dias que ele cismou com essas pedras idiotas...

-Acho que já sei por que o chamam de maníacos das pedras... – a jovem comentou cínica.

-Não me fale em pedras, esse assunto já está me enchendo... – InuYasha comentou com a irmã - Miroku, seu desgraçado, vem aqui e larga essas pedras!

O rapaz não largou as pedras, no entanto foi correndo até InuYasha, para ver o que ele queria.

-O que estava fazendo?

-Pegando algumas pedras, InuYasha, elas podem ser úteis! – o moreno comentou satisfeito colocando-as no chão.

-Ta, cadê sua faca? Você trouxe, não é?

-Trouxe, ta aqui. – falou mostrando o cabo da pequena arma. InuYasha suspirou aliviado.

-'timo. Agora vamos nos esconder antes que chegue algum viajante.

-Certo! – Os três correram para trás das moitas e ficaram esperando para fazer a abordagem. Quem sabe teriam mais sorte hoje.

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A família Higurashi estava toda reunida do lado de fora da casa esperando pelo cocheiro. Ayame estava acompanhando as damas, já que o senhor Higurashi não poderia ir para a cidade naquela manhã. Quando o cocheiro finalmente chegou, senhor Higurashi apressou-se em dar-lhe instruções.

-Não pare com nenhum estranho pelo caminho – comentou preocupado. A casa da família Higurashi era, na verdade, uma grande mansão que se localizava um pouco afastada da cidade. E a pequena estrada que levava à cidadezinha era justamente a que estava havendo os assaltos. – Não diminua a velocidade, você não pode dar chance aos bandidos...

-Sim, senhor, prometo trazer as damas a salvo para casa.

-Conto com você...

-Certo – O cocheiro assentiu e esperou até que a senhora Higurashi, Kikyou, Kagome e Ayame estivessem acomodadas e deu a partida.

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-Ei, to ouvindo um barulho.

-De quê?

-Sei lá, ainda ta muito longe.

-Acha que é algum viajante?

-Não sei, provavelmente.

Sango observava InuYasha e Miroku conversarem aos sussurros atrás da moita, parecia uma conversa muito rotineira para eles.

-Cala a boca, Miroku.

-InuYasha?

-Quê?

-Eu to com uma sensação de dejà vu...

InuYasha resolveu ignorar o comentário.

-InuYasha, é uma carruagem, não é? – Sango perguntou interrompendo – eu também estou ouvindo...

-Vai lá, Miroku, eles já devem estar chegando.

-Ta, lá vou eu! – Miroku falou animando saindo do meio das plantas e parando no meio da estrada.

O som do galope dos cavalos foi aumentando e logo eles puderam ver uma carruagem bem distante surgir no horizonte. Miroku pigarreou e começou a balançar os braços sinalizando para a carruagem que parasse. O cocheiro pareceu se assustar e Miroku continuou no meio da pista pedindo que parasse.

-InuYasha... – Sango sussurrou – é minha impressão ou a carruagem aumentou a velocidade ao invés de diminuir?

-Não é sua impressão, Sango...

-Por favor! Pare! – Miroku exclamou convicto. Mas a carruagem não diminuiu. – Pare! Pare! – continuou gritando.

-Eu acho que não vai funcionar... – a jovem cochichou. A carruagem cada vez mais rápida e próxima.

-Droga!

-Por que o Miroku não sai da frente? Será que ele não percebeu que ela não vai parar?

-P-PARE! – Miroku gaguejou.

-Miroku, seu idiota! Sai daí! Você vai ser atropelado! – InuYasha, subitamente, levantou-se e gritou para o amigo. O cocheiro fazia com que os cavalos correrem cada vez mais rápido e tinha um olhar maligno no rosto.

-PARE!!! – gritou pela última vez, a carruagem quase em cima dele, ele se jogou para o lado antes que fosse atropelado – EI, SEU DESGRAÇADO! VOCÊ IA ME ATROPELAR! – Miroku gritou e viu apenas o cocheiro dar uma risadinha maléfica.

-Miroku! Você está bem?? – Sango perguntou enquanto corria na direção do amigo caido na estrada.

-Sango! É você, meu amor? – Miroku perguntou teatralmente.

-Eu estou aqui! Você vai ficar bem!

InuYasha parou do lado dos dois, apenas os observando.

-Como é bom ouvir sua doce voz... – o moreno falou.

-Miroku, resista, por favor!

-Sango, que luz é essa? É tão forte... – ele comentou com um suspiro.

-Miroku, seu desgraçado, não vá para a luz! – InuYasha exclamou se ajoelhando ao lado do amigo.

-Não tem problema, eu já aproveitei muito a vida...

-Miroku! – Sango exclamou com lágrimas, ajoelhada ao lado do jovem. Ele fechou os olhos. –Miroku!! – Sango gritou desesperada, no entanto quando sentiu uma mão boba tocar-lhe as partes traseiras uma incrível raiva a dominou. – Ora, seu...!!! Eu mesma vou mandar você pro inferno!

-Calma, Sango! Olha, eu to bem! É um milagre! – Miroku exclamou se levantando.

-Eu te mato, safado! – Gritou se levantando também e correndo atrás do jovem.

-Calma, Sango, foi só uma brincadeirinha!

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Finalmente avistaram a pequena cidade. Estava bastante movimentada, e a feira já parecia estar aberta. O cocheiro parou na frente da feira e desceu para ajudar as damas a descerem.

-O que houve durante o caminho? – senhora Higurashi perguntou.

-Perdão, madame. Mas houve um inconveniente. Um indigente maluco nos perseguiu! Queria vos assaltar! Então, como bom cidadão de bem que sou, acelerei e quase peguei o maldito.

-Oh! Meu marido certamente ficará sabendo de seu feito para nos proteger – senhora Higurashi comentou com um sorriso que o cocheiro retribuiu.

-É, mamãe, mas agora estou enjoada... – Kagome comentou um pouco tonta.

-Vou compra algo para a senhorita beber... – Ayame avisou seguindo para uma das barraquinhas da feira.

-Não seja ingrata, minha filha, ele nos salvou dos perversos bandidos...

-Vamos logo, mamãe... Quero passar na costureira. – Kikyou comentou.

-Certo. Espere-nos aqui. – Senhora Higurashi avisou o cocheiro.

-Sim, madame.

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-Diga-me, por que ainda estamos fazendo isso? – Miroku comentou com um suspiro, agachado atrás da moita, enquanto os dois irmãos olhavam a estrada.

-Por que ainda não conseguimos o dinheiro! – Sango falou nervosa.

-Vamos embora, eu to parecendo carne moída... – Miroku choramingou.

-Pára de reclamar! Você mereceu isso.

-Sangozinha, você sabe ser muito má quando quer...

-Chega, Miroku! Fica quieto! Desse jeito você vai denunciar a nossa posição! – InuYasha reclamou.

-Desculpa...

Miroku suspirou e permaneceu quieto olhando para as pedras que havia catado no caminho.

-No meio do caminho havia uma pedra... – Miroku citou dramaticamente. A jovem o olhou, preocupada, talvez ela tivesse batido nele com muita força.

Ela resolveu voltar sua atenção para a estrada, junto de InuYasha. A floresta subitamente ficou silenciosa, o único barulho era o do vento soprando por entre as árvores. Quando um som destoou do conjunto. Miroku olhou ao redor e ouviu um rosnado baixo.

-InuYasha, pára de rosnar que ta me irritando! – o moreno reclamou.

-Ow, não sou eu, seu idiota! – InuYasha respondeu batendo no rapaz.

-Aiii! Pega leve. – ele reclamou e novamente o rosnado soou pela floresta – Sango?

-Miroku! Como ousa perguntar a uma dama como eu, se eu rosno?! – a jovem exclamou nervosa.

-Ué, se não foram vocês dois, quem foi?

Os três se viraram subitamente e começaram a procurar pela fonte dos rosnados. E para o desespero dos três, eles vêem uma moita logo atrás deles se mexendo estranhamente. Sango agarra o braço do moreno, apreensiva.

-O-o que q-que vocês acham que é?? – ela sussurrou nervosa.

-Talvez seja um javali... – Miroku comentou pensativo. Os dois olharam para o rapaz – Quê?

-Miroku... Javalis não rosnam. – InuYasha comentou sarcástico – achei que devia te avisar...

-Ahhh! Falha minha – o rapaz sorriu sem graça.

De repente um lobo de pelagem cinza meio esbranquiçada, sai de trás da moita. Um olhar assassino no rosto. Sango deu um gritinho agarrando Miroku pelo pescoço quase o enforcando.

-C-c-calma, Sango, eu vou te proteger! – o moreno avisou. Os três se levantaram e ficaram parados para não assustar o animal. – Q-Quietinho, lobinho... a-a-a gente já ta de saída.

-Miroku, eu acho que não ta dando certo... – InuYasha sussurrou.

-Ahhhhhh! – Sango gritou e saiu correndo, fazendo com que InuYasha saísse correndo atrás da irmã.

-Oh ow... Ahhh! – Miroku saiu correndo atrás dos dois e o lobo correndo atrás deles. Foi quando teve uma idéia maravilhosa. Pegou a pedra que tinha guardado cuidadosamente no bolso e jogou-a na cabeça do animal, com uma mira certeira. O lobo ficou meio tonto e permaneceu parado por um tempo.

-Isso, Miroku! – A jovem exclamou mais a frente. Miroku voltou a correr e alcançou os dois.

-Ahaa! Eu disse que as minhas pedras são úteis! Agradeça, InuYasha, agradeça, você acabou de ser salvo por uma pedra! – Miroku falava satisfeito, enquanto InuYasha tentava conter a vontade de estrangula-lo. – vamos, vamos, peça desculpas às minhas pedrinhas maravilhosas!

-Cala a boca, Miroku! – o rapaz rosnou. – chega, pra mim já chega, nunca mais volto nessa desgraça de estrada... – InuYasha resmungou enquanto caminhava de volta para a cidade.

-É, talvez você tenha razão... – Sango comentou – mas isso não quer dizer que assaltar seja uma má idéia... Ah, já sei, a gente pode roubar a feira! É só fazer o seguinte... – e a jovem foi contando o seu magnífico plano durante o caminho de volta à cidade. É claro que não o poriam em prática hoje, já que estavam exaustos, mas quem sabe amanhã, não é?

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Quando chegaram à cidade estavam cansados, descabelados e com dor de cabeça. A feira parecia mais cheia que o normal e o barulho mais irritante do que de costume.

-Eu to com fome... – Sango choramingou olhando uma das barracas que servia pastéis. – quem dera tivéssemos conseguindo uma moedinha...

-Espera, eu acho que ainda tenho alguma coisa... – InuYasha comentou o que atraiu a atenção da jovem. O rapaz enfiou a mão no bolso e recolheu algumas moedas de bronze que tinham sobrado do último assalto que havia sido bem sucedido. - Você tem alguma coisa, Miroku?

-Hm, deixe-me ver... – ele retirou também algumas moedas e sorriu.

-Acho que dá pra três pastéis... – InuYasha comentou.

-Ah, que bom! Vamos comer então! – ela disse sorridente correndo para a barraquinha, os dois a seguiram, pediram os pastéis, pagaram e decidiram dar uma volta pela feira enquanto comiam. Estavam passando pela rua quando viram uma carruagem parada, ao lado de uma das barracas.

-EI! – Miroku exclamou. – aquele é o homem que tentou me atropelar!

-É ele mesmo... – InuYasha comentou distraído.

-Eu vou lá dizer umas boas verdades pra esse babaca, espere-me aqui!

-Você vai ficar onde está! – Sango falou autoritária – esquece isso, ta? Se você for lá só vai piorar nosso dia, que já foi uma droga.

-Mas, ele—

-Nada de "mas", Miroku. Você vai ficar quietinho aqui. Vamos logo, come o seu pastel. – Sango disse.

Os três comeram o pastel e começaram a passear pela feira. Sango parou em um das barracas para olhar alguns vestidos.

-Sabe qual é a melhor coisa das feiras? – Miroku perguntou maliciosamente para InuYasha.

-Hm?

-As mulheres. Elas adoram fazer compras, olha o tanto de mulher aqui! – Miroku falou animadamente seguindo uma moça para tocar seus atributos. Pouco tempo depois, pôde ser ouvido um som de tapa e um grito feminino, InuYasha não precisou nem olhar para saber o que tinha acontecido.

Ignorou o amigo que ficou choramingando e continuou a andar pela feira, parava em uma ou outra barraca. Não era muito bom passear pela feira sem dinheiro, aquilo só aumentava a vontade de gastar. Foi andando por entre as barracas e acabou encontrando quatro mulheres perto de uma barraca de tecidos.

InuYasha ficou um tempo parado apenas as fitando, havia uma senhora mais velha de porte muito elegante, que olhava a qualidade dos tecidos. Uma jovem com um vestido mais simplório, provavelmente a criada, conversando com uma das jovens que parecia ser a mais nova. E, por último, a que InuYasha julgava mais bela, Kikyou, desde o dia que a vira na cidade pela primeira vez ele se apaixonara pela jovem.

Ela era mais séria e elegante que a mais nova, que parecia ser muito distraída. Sabia de muitos cavalheiros que tiveram suas propostas de casamento rejeitadas pela jovem dama.

-Ora, ora, resolveu seguir meus conselhos? – Miroku comentou parando ao lado do amigo e observando as damas. – qual das quatro você está interessa— Miroku parou ao ver Kikyou – ah, sim já entendi tudo...

-Me deixa em paz, Miroku.

-InuYasha, você tem que parar de pensar nessa Kikyou, ela não é mulher para você... Ela é muito ambiciosa para querer ficar com você... Você não conseguiria lhe dar a vida com que está acostumada nem por um dia.

-Não precisa esfregar isso na minha cara, ta? – InuYasha falou nervoso. – avisa a Sango que eu já fui pra casa...

O rapaz deixou o moreno parado enquanto ele se distanciava seguindo para casa. Miroku suspirou tristemente, sabia que o amigo gostava muito daquela mulher, mas não conseguia entender o que ele via nela.

-Miroku, cadê o InuYasha? – Sango perguntou se aproximando.

-Ele resolveu voltar para casa...

-Por quê? – a jovem perguntou confusa, Miroku apenas indicou Kikyou com a cabeça e Sango entendeu o que havia acontecido. Ela suspirou chateada - Meu irmão precisa superar essa paixão... Isso só o faz sofrer.

-Eu sei, ele parece ficar muito magoado sempre que a vê. – Miroku comentou.

-É porque ele sabe que nunca terá uma chance de verdade com ela.

-Ela me parece tão... Fria? Se é que você me entende...

-Sei o que quer dizer – Sango concordou – bom é melhor eu ir ver como ele está. Depois a gente se fala, Miroku. Ah, obrigada por nos salvar – ela sorriu.

-É sempre um prazer, senhorita – o moreno disse beijando-lhe a mão.

-Sempre um cavalheiro, não é?

-Preciso manter as aparências – ele falou dando uma piscadela. E saiu pela feira cumprimentando as jovens.

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Já passava da hora do almoço e nada de voltarem para a casa. Kikyou e senhora Higurashi continuavam na mesma barraca de tecidos tentando escolher o mais apropriado. Kagome já estava cansada de ficar em pé apenas observando, e o barulho da feira estava começando a lhe dar dor de cabeça.

-Mamãe, já estamos indo? – perguntou esperançosa.

-Mãe, definitivamente não devemos comprar aqui, esses tecidos estão caros e são de péssima qualidade. – Kikyou falou, ignorando Kagome.

-Acho que você tem razão... Vamos a uma outra loja. Eu sei de uma de ótima qualidade na rua de cima. – a senhora Higurashi comentou.

-Mãe, eu vou dar uma volta... – Kagome avisou.

-Ah, tudo bem, mas não demore, espere-nos perto da carruagem que já, já estaremos lá – senhora Higurashi avisou.

-Ta.

Kikyou e a senhora Higurashi seguiram na frente, e Ayame logo atrás carregando algumas sacolas. Kagome olhou ao redor e saiu da feira, decidiu ir passear pela praça. Caminhava desanimada olhando as vitrines, admirando os vestidos e jóias a venda. Entrou e uma loja ou em outra, mas não se deu por satisfeita com nada.

-Boa tarde, senhorita. – ouviu a voz de um homem a cumprimentar, ela se virou e se deparou com um rapaz de postura elegante admirando-a. Ele possuía bonitos olhos azuis e tinha o cabelo negro preso a um baixo rabo-de-cavalo.

-Ah, boa tarde. – Kagome sorriu para o rapaz.

-Eu estava me perguntando o que uma jovem tão formosa faz, sozinha, andando pela cidade.

-Ah, estou esperando minha mãe e minha irmã, elas foram encomendar um vestido. Eu não quis acompanhá-las.

-Permita-me me apresentar, sou Kouga...

-Oh, prazer, Kagome Higurashi. – ela cumprimentou o jovem.

-Hm, uma Higurashi... – ele comentou com um sorriso.

-O senhor conhece alguém de minha família? – ela perguntou curiosa.

-Bom, digamos que seu pai seja um grande cliente de minha loja – o rapaz sorriu, enquanto acompanhava a jovem pela rua.

-Ah, então quer dizer que o senhor trabalha em uma loja? – ela perguntou.

-Sim, bom, não é nada grande... – ele comentou pensativo – apenas uma relojoaria.

-Oh, sei como papai adora relógios.

-Por favor, mande lembranças ao senhor Higurashi... – Kouga pediu ao se lembrar do senhor que sempre passava por sua loja quando ia à cidade.

-Ah, sim, mandarei. – Kagome disse educadamente – mas, e o senhor, o que faz aqui? Sua loja não está aberta?

-Eu, acabei de fechá-la para horário de almoço, sei que é tarde, mas só tive uma folguinha agora...

-Ah, sim. Bom, minha mãe já deve ter terminado as compras, tenho de encontrá-la. Foi um prazer, espero vê-lo novamente – a jovem disse se despedindo.

-O prazer foi todo meu. – o rapaz disse beijando-lhe a mão. – Até mais ver.

-Até.

E com isso a jovem atravessou a praça se distanciando cada vez mais. Kouga sorriu satisfeito.

-Um dia ainda me caso com essa mulher – o rapaz disse para si mesmo enquanto continuava sua caminhada.

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Quando enfim chegaram à casa da família Higurashi, já era tarde e estava quase na hora do jantar. O que significava que não teria tempo nem de descansar, pois logo Houjo estaria chegando para a ceia. O senhor Higurashi esperava a porta aflito com a demora das moças. Por sorte na volta não tiveram nenhum imprevisto com os tais ladrões da estrada, a única coisa que faltava era ficar enjoada novamente. Se bem que seria uma ótima desculpa para evitar o senhor Imiou.

-Céus, como demoraram! – senhor Higurashi exclamou quando a carruagem parou – vamos, Kagome, apresse-se, seu noivo logo estará chegando. Kaede acabou de me avisar que deixou seu vestido passado em cima de sua cama.

Kaede era uma senhora de idade que trabalhava para família a um bom tempo, era quase como um membro da família. Kagome gostava muito da senhora, desde pequena Kaede dava doces para a jovem sempre que passava pela cozinha, o que a senhora Higurashi não gostava muito. A senhora Kaede era uma cozinheira de primeira e sabia preparar os pratos mais gostosos da região. De tempos em tempos a famílias promovia jantares em sua casa que eram freqüentados pela mais alta sociedade e a senhora Kaede nunca os decepcionara em um de seus jantares.

Kagome entrou em casa e subiu para o quarto para tomar um banho relaxante antes do jantar. Estava muito tensa desde manhã e sabia perfeitamente bem o porquê. Não parara de pensar no maldito casamento que estava sendo obrigada a aceitar.

"Eu não agüento mais papai pensando que pode decidir as coisas por mim" a jovem pensou com um suspiro "preciso fazer alguma coisa que o faça parar com isso. Hmf, minha vontade mesmo era de fugir..." a jovem se secou e vestiu o lindo vestido lilás que estava sobre a cama. Terminou de se arrumar e ficou sentada a janela esperando que o pai a chamasse.

"Fugir desse casamento e dessa vida... Como seria viver sem ter que se preocupar com impressionar a sociedade? Não ser o centro das atenções das senhoras fofoqueiras. Como seria ser livre?" Uma batida na porta interrompeu seus devaneios.

-Entre.

-Senhorita, - Ayame chamou da porta – seu pai pediu que eu avisasse que seu noivo já chegou e está a sua espera na sala.

-Ah, já estou indo, obrigada.

Ayame saiu e fechou a porta novamente. Kagome se levantou e se olhou no espelho "Kagome, verdadeiras senhoritas nunca estão de cara feia, não importa a situação em que estejam, elas nunca perdem a compostura" ela lembrou de sua mãe falando com ela quando era muito pequena.

A jovem suspirou e se dirigiu a sala. Da escada pôde ver Houjo sentado em um sofá conversando com seu pai.

-Houjo, por que o senhor e a senhora Imiou não vieram? – ouviu senhor Higurashi perguntar.

-Ah, meu pai teve de fazer uma viagem urgente para Londres, e minha mãe foi acompanhá-lo. Pediram que os desculpassem, não puderam evitar. – ela ouviu o rapaz responder.

-Ah, é claro. Problema com a família?

A família Imiou era originária de Londres, e muitas vezes tinham de fazer longas viagens para visitar os parentes. Além do mais, todos os negócios do senhor Imiou estavam lá. Houjo pensava em ao se casar voltar a morar por lá, já que dizia que era uma cidade de grandes belezas, e seria ótimo para ajudar o pai com os negócios.

-Nada que se possa fazer. Parece que uma tia minha passou mal esses dias e agora está pelas últimas. Pobre senhora, ela tinha uma saúde muito frágil. – Houjo comentou.

-Ah, perdão, meus pêsames.

-Obrigada, senhor.

Kagome desceu a escada chamando a atenção dos dois.

-Kagome, - Houjo falou se levantando – como está bonita.

-Obrigada – ela respondeu se aproximando e o rapaz beijou-lhe a mão.

-É um prazer revê-la.

-Igualmente.

-Vou deixá-los um pouco a sós para que conversem, enquanto isso apressarei Kikyou. – senhor Higurashi avisou saindo da sala. A princípio os dois ficaram quietos e Houjo decidiu puxar assunto.

-E então, o que tem feito esses dias que estive viajando? – ele perguntou com carinho.

Houjo havia saído de viagem há três semanas atrás para visitar a família, isso antes de saber o que se passava com a tia. E tinha voltado somente no dia anterior.

-Não fiz muitas coisas... – Kagome comentou sem jeito. - li alguns livros, fui à cidade algumas vezes. Papai fez um jantar para reunir a família, e só. Como vai sua família em Londres?

-Ah, estão bem. Ou pensei que estivessem, mas não importa... – o rapaz comentou.

-Senhor Imiou, - Kikyou chamou entrando na sala – é um prazer tê-lo em nossa casa.

-Ah, o prazer é meu, senhorita Kikyou. – o rapaz disse se levantando e cumprimentando a jovem.

Kikyou se sentou ao lado da irmã, e ficou conversando com o rapaz. Alguns minutos depois o senhor e a senhora Higurashi entraram na sala e chamaram para o jantar.

A ceia seguiu-se sem nenhum acontecimento marcante. A família apenas conversou com o rapaz e ouviu sobre as novidades de Londres. O jantar mais uma vez estava maravilhoso, graças a Kaede que havia se empenhado para agradar o noivo de Kagome.

Depois do jantar eles se sentaram na sala e ficaram conversando sobre negócios e sobre a idéia de Kagome ir morar em Londres com o rapaz. Por fim, Houjo decidiu ir embora dado que já estava muito tarde e o caminho não era muito seguro. Ele se despediu da família e agradeceu pelo ótimo jantar. Antes de ir disse para Kagome que voltaria a visitá-la em breve.

Kagome subiu para o quarto, desanimada e morrendo de sono. Jogou-se na cama e ficou um tempo olhando para o teto.

"Eu preciso fazer alguma coisa... Não suporto mais isso. O que papai e mamãe fariam se eu fugisse de casa?" ela se perguntou "talvez eles ficassem assustados e quando eu voltasse, eles passassem a me escutar, isso se eu voltasse" ela virou para o lado, mas não conseguia dormir, sua cabeça estava cheia de idéias.

"Seria interessante viver um dia como uma pessoa normal..." e com um sorriso a jovem relaxou um pouco conseguindo dormir pouco tempo depois.

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N.A.: Aqui está o segundo capítulo. Espero que tenham gostado e que continuem comentando. Muito obrigada quem comentou e leu. Beijos.

Nayome Isuy