Edward não queria participar dela. Ele acreditava na lenda tanto quanto acreditava em contos de fadas e amor à primeira vista. Talvez em séculos anteriores, as lendas tinham certo sentido, mas nunca nos dias atuais.
Estava realizando a vontade do pai e levando San Montico para o presente. Porém, essa era uma tarefa monumentalmente lenta e difícil. Cada passo rumo ao progresso era uma batalha contra a maioria que resistia às mudanças.
Quanto mais Edward promovia o progresso, mais o povo reforçava as barreiras. Os habitantes da ilha apegavam-se aos mitos e às tradições, como os náufragos agarram-se a tudo o que significa uma chance de viver.
E eram com esses costumes antigos, como a Lenda do Anel, que o povo impedia que San Montico caminhasse para frente. Só com a desmistincação dessas superstições, o progresso teria lugar.
Uma vez que Edward provasse que a lenda não passava de um conto de fadas, San Montico poderia dar um salto gigante rumo à modernização. Seria o melhor para o país, o melhor para ele próprio.
—A lenda é pura fantasia, Emmet, e eu vou provar isso. Assim que o relógio tocar meia-noite, tudo estará terminado.
—Talvez seja apenas o começo. A lenda já se cumpriu no passado, Alteza.
Edward não acreditava.
— Foi apenas a realização de uma profecia. A lenda tornou-se verdadeira porque os meus ancestrais, incluindo meus pais, decidiram torná-la verdadeira. Eu decidi desmistificá-la.
Lançou um olhar irritado para o conselheiro, que além de primo, era seu melhor amigo.
— Por que você não se casa e me deixa em paz?
Emmet suspirou.
— Esqueceu-se de que, segundo a tradição, só poderei ca sar-me depois de Sua Alteza?
Outro costume estúpido. O estado civil de Edward não de veria ter nada a ver com seu conselheiro. Se pelo menos Emmet não estivesse tão empenhado em seguir os velhos hábitos...
—Eu devia ter adivinhado que existia outro motivo para você insistir tanto para eu me casar!
—Meu único motivo é visar os interesses do nosso país. Sua Alteza precisa encontrar uma esposa.
—Estou tentando, Emmet.
Edward estava fazendo o possível para destruir a lenda. Ele marcara encontro com todas as mulheres que conhecia. Até seis meses antes, acreditara ter encontrado a mulher ideai, mas decepcionara-se. Depois disso, embora disposto a encontrar outra, decidira não abrir o coração para mais ninguém.
—Não tenho medido esforços. Acho que isso conta, não?
—Mas nenhum dos seus esforços foi... bem-sucedido, Alteza. Ainda está solteiro, e San Montico precisa de um herdeiro.
Edward estava cansado de ouvir o que San Montico esperava dele. Ele sabia. Fora instruído desde o dia em que nascera. Ajeitou as luvas.
— Posso providenciar um herdeiro sem ser casado!
— Emmet rilhou os dentes.
— Alteza...
Edward não conteve um sorriso.
— Teremos que deixar esta discussão para mais tarde, Alteza — murmurou Emmet. — Aí vem o sr. Swan e sua filha.
Edward concordou com gesto quase imperceptível de cabeça. O elegante e altivo Charlie Swan inclinou-se diante dele.
— Alteza, permita-me apresentar minha filha Isabella.
Atraente, sim. Fibra de princesa, não. O rosto corado e os olhos arregalados revelavam que ela estava impressionada com Edward. Um pouco intimidada também. O que mais poderia esperar de uma americana? Quando decidisse se casar, esco lheria uma mulher que o visse como homem, não como príncipe. Ele forçou um sorriso.
— É um prazer conhecer sua adorável filha.
— Ela fez uma reverência.
— Feliz aniversário, Magnífico... isto é, Alteza.
— Edward conteve-se para não fazer uma careta.
— Obrigado, srta. Swan. — Ele segurou-lhe a mão trémula e beijou-a. A pele era macia e quente sob seus lábios.
Ele sentiu o cheiro de óleo de amêndoa na pele bronzeada.
Quem sabe, ela não teria tomado banho de sol de topless? — Estou feliz que tenha vindo.
Quando Edward soltou-lhe a mão, ela deixou cair a bolsa. Ele se inclinou para pegá-la. Isabella fez o mesmo, batendo a cabeça na testa dele. Assustada, a moça perdeu o equilíbrio. Num movimento rápido, o pai segurou-a, salvando-a de uma queda memorável.
— Desculpe-me. — Ela tocou no braço de Edward, quebrando o protocolo real. Ele se enrijeceu. — Sua Alteza está bem?
Quanto mais rápido se livrasse dela, melhor. Ignorando a dor de cabeça, Edward entregou-lhe a bolsa.
— Estou.
Antes que Isabella dissesse mais alguma coisa, Charlie Swan empurrou-a para fora da fila de cumprimentos.
— Alteza, minha esposa lamenta muito por não ter vindo à sua festa de aniversário, mas ela tinha um compromisso inadiável.
Edward inclinou levemente a cabeça e, com o canto dos olhos, viu Isabella afastar-se em direção ao salão de baile, e observou o suave movimento do seu vestido.
Parecia um anjo rodeado de nuvens. Um anjo, ela não era. A batida na cabeça fora mais forte do que ele imaginara. Ele friccionou a testa, e ela se voltou para olhá-lo.
Seus olhares se encontraram, por um instante. Ao mesmo tempo, ela esticou o braço para apertar a mão de...
Não.
Contendo o impulso de gritar, Edward cerrou os dentes. Isabella apertou a mão, não de um homem, mas de uma armadura! Um das luvas blindadas caiu ao chão, deixando a valiosa peça sem mão.
Droga! Nem mesmo a mais sangrenta das batalhas travadas para preservar San Montico dos invasores espanhóis e fran ceses, haviam conseguido destruir a armadura. Mas aquela mulher, a americana...
Os músculos de Edward se retesaram, a pressão sanguínea subiu. Mais uma dor para sua já dolorida cabeça. Isabella olhava para a luva com expressão horrorizada. Depois, tentou escondê-la atrás da armadura.
Charlie Swan resmungava um pedido de desculpas, que Edward aceitou com um sorriso protocolar.
Não era momento de mostrar emoções. Não, com o palácio repleto de convidados. Precisava manter-se calmo, impassível. Era apenas uma luva, uma luva blindada que pertencia à fa mília dele havia séculos. Olhou para Isabella.
— Precisa de ajuda, srta. Swan?
Ela ergueu a luva e sorriu.
— Parece que encontrei uma mão extra.
Pelo menos, a americana tinha senso de humor. E não in cendiara o palácio. Edward suspirou aliviado.
— Ninguém pode ter mãos demais.
Os olhos dela brilharam.
— O que devo fazer com... bem, com isto?
— Emmet, por favor, ajude a srta. Swan.
— Sim, Alteza. — Emmet aproximou-se dela e pegou a luva blindada. — Lamento pela inconveniência.
— E eu lamento tê-la quebrado — desculpou-se Isabella.
— A senhorita não a quebrou — Emmet apressou-se em esclarecer. — É... antiga.
Como todas as demais peças insubstituíveis e valiosas do pa lácio. Edward fora prevenido. A bela americana quase pusera fogo na Casa Branca. Ele não permitiria que o mesmo acontecesse ali. Teria o cuidado de manter Isabella Swan bem longe até mesmo de sua vela de aniversário! A noite já seria suficien temente longa, sem nenhum inesperado espetáculo pirotécnico.
Os Swan nunca se impressionam. Os Swan nunca se impressionam.
Ecoando na mente, o mantra de sua família esnobe. Isabella sempre tivera muita dificuldade para não impressionar-se, mas naquela noite fora impossível não ficar boquiaberta.
Sua família era obscenamente rica, e seus membros não ti nham escrúpulos em ostentar a fortuna incalculável. Mas aqui lo... Ela nunca vira tanta riqueza exposta com tanto bom gosto.
O príncipe Edward sorriu e Isabella suspirou. Nenhum homem merecia ser tão bonito. Pecaminosamente sensual. Era como podia descrevê-lo. Tudo nele sugeria realeza. O nariz aristocrático, os maxilares proeminentes e as feições delineadas eram suavizados pelos lábios cheios, pelos cílios espessos e a covinha na face esquerda, acentuada quando ele sorria. O con traste era devastador.
Com os olhos da cor das águas que rodeavam a ilha de Santorini, os cabelos acobrados, o príncipe era, sem dúvida, um dos homens mais bonitos que conhecera.
E o melhor partido, também.
Tanto pior que era um príncipe cujos passos eram seguidos pela imprensa, pela curiosidade pública e pelas fãs ardorosas. Mas aquela parecia mesmo uma noite especial.
A presença da imprensa era restrita, e, nem mesmo os pa-parazzi haviam conseguido furar o bloqueio dos seguranças.
Isabella deu de ombros. Ela poderia ser a Cinderela do baile do príncipe, e não se importaria de tornar-se manchete dos tablóides, por uma noite.
Por uma noite, ela poderia esquecer-se da dura realidade da vida.
— Está se divertindo, srta. Swan?
A voz veio de alguém às suas costas. Voltando-se, ela se deparou com o conselheiro do príncipe parado junto a uma mesa. Seu sorriso não revelava nada, mas ele deveria tê-la visto olhando para o príncipe como um cãozinho amestrado. Talvez ele pretendesse salvá-la daquela situação embaraçosa. Ela endireitou o corpo.
— Sim, estou.
— Sou Emmet Dale McCarty, conselheiro do príncipe. Fomos apre sentados ainda há pouco.
Lembrando-se do incidente com a armadura, ela riu.
— Sim, é verdade.
Aproximando-se, Emmet apontou para a direita.
— A senhorita já experimentou o anel?
— Não. — O anel descansava sob um pequeno pedestal forrado de veludo negro.
Se ela não estivesse tão ocupada, perdendo-se em olhares para o príncipe, teria notado a jóia.
— Que anel é este?
— É o anel de noivado real. — Emmet retirou o anel de dentro do estojo. Um brilho multicolorido refletia-se de todas as facetas da pedra central, um diamante imenso.
— Todas as noivas Cullen já o usaram.
Tão bonito quanto todas as jóias da coroa expostas na torre de Londres, o diamante brilhava sob as luzes do salão. O anel era um modelo medieval, com rubis, esmeraldas e safiras, in crustadas num aro de filigrana, que abrigava a pedra magnífica.
— Deslumbrante — murmurou ela.
— Experimente-o.
— Não acho uma boa ideia.
— Por favor — insistiu ele com firmeza. — Todas as mu lheres presentes são requisitadas para experimentar o anel.O príncipe Edward ficará aborrecido se não o fizer.
Christina não queria aborrecer o príncipe, mas também não gostaria de provocar outro acidente. Depois da luva da arma dura, ela conseguira manter-se longe do problemas. Não queria abusar da sorte. Recuou alguns passos.
— Por favor, srta. Swan — Emmet insistiu. — Temos que ver se serve.
Ela sorriu.
— E se servir? Eu ganho algum prémio ou coisa assim?
Emmet sorriu também.
— Ou coisa assim.
Voltando-se, Isabella olhou para o príncipe. Seria interessante experimentar o anel. O anel dele. Uma chance de ouro. A chance de tornar-se realmente a Cinderela do baile. Não, não estaria se envolvendo em problemas, uma vez que o próprio conselheiro do príncipe estava insistindo para ela provar o anel. Nem mes mo seu pai a recriminaria por isso. Além disso, o anel parecia pequeno demais. Duvidava que entrasse em seu dedo! Após alguns momentos de hesitação, ela estendeu a mão esquerda.
— Ok.
Emmet levou o anel até o dedo dela. Estranho, mas Isabella teve a sensação de calor emanando do aro de ouro. Devia ser de Emmet. Os homens eram muito quentes. Quando o anel tocou sua pele, foi como se uma descarga elétrica atingisse seu braço. Ela gemeu, mas Emmet continuou colocando o anel no seu dedo.
Quando ele soltou-lhe a mão, Isabella arregalou os olhos. Não acreditava. O anel servira!
Ela olhava espantada. Lindo. Algum dia, teria seu próprio anel de noivado. Nada tão espetacular. Uma simples aliança de ouro já estaria muito bom. Tudo o que queria, era encontrar um homem que a amasse pelo que ela era, que quisesse as mesmas coisas que ela queria, crianças, cachorros e uma varanda com cadeira de balanço. Uma vida normal, uma família normal.
Não mais glamour. Não mais fotografias, nem manchetes, ou notas em colunas sociais. Não mais páginas e páginas de contratos pré-nupciais para proteger uma herança que ela nem queria.
Emmet franziu as sobrancelhas.
— A senhorita está bem?
— Sim — respondeu Isabella, entorpecida e febril. Sol demais, champanhe demais, sensualidade demais em torno do príncipe Edward.
O relógio secular bateu as doze badaladas da meia-noite. Hora para acabar o encanto da Cinderela.
— Obrigada por permitir que o provasse. É maravilhoso.
Ela puxou, mas o anel não saiu de seu dedo.
Emmet inclinou-se.
— Algum problema, srta. Swan?
Isabella tornou a puxar o anel, mas os dedos deslizavam sobre o aro de ouro. O anel sequer girava ao redor do dedo anular.
— Parece grudado!
— Deixe-me tentar, senhorita. — Emmet puxou com força até Isabella quase gritar de dor. — Realmente, parece que grudou mesmo!
Ela não entendia o motivo de Emmet estar sorrindo. Ele deveria estar preocupado
— Tenho que tirar este anel. Se meu pai descobrir, ele me mata! O príncipe, então...
Um rápido olhar revelou que o príncipe estava absorto de mais numa conversa e não reparara no que acontecia com o anel real. Isabella queria livrar-se logo da jóia.
— Eu posso ir até o toalete e tentar removê-lo com água e sabonete?
Por algum estranho motivo, Emmet parecia feliz da vida. Os olhos castanhos cintilavam, o sorriso alargara-se. Ele parecia mesmo exultante.
—Não creio que vá sair.
—Por favor — ela pediu. Como permitira que aquilo acontecesse? Já não se envolvera em apuros suficientes para uma única noite? — Eu gostaria de tentar.
Com o canto dos olhos, Edward viu Emmet aproximar-se. Já não era sem tempo! Não suportava mais ouvir comentários inócuos sobre as famílias reais europeias.
—Podemos conversar um instante, Alteza? — Emmet perguntou.
—Claro. — Edward inclinou levemente a cabeça. — Com licença, senhoras. — Assim que se viu longe dos ouvidos das convidadas, ele suspirou. — Obrigado por ter vindo em meu socorro, Em. Eu estava me sentindo como um coelho rodeado por um bando de lobos. Estava ansioso para que você esquecesse o bendito anel para salvar-me. — Edward olhou para o pedestal. Para o pedestal vazio. Nem guardas, nem anel. — Onde está o anel?
O sorriso radiante de Emmet respondeu à pergunta.
Não. Não poderia ter acontecido.
A lenda não era verdade, não era. A lenda dizia que ele tinha que casar-se com a mullier, em cujo dedo o anel servisse, dentro de uma semana, ou então abdicaria ao trono. Ele não faria nem uma coisa, nem outra.
—Alguém sabe? Minha mãe?
—Não, mas podemos anunciar...
—Não diga a ninguém. — Edward precisava de tempo para pensar, tempo para elaborar um plano. Não permitiria que superstições e mitos influenciassem a decisão mais importante de sua vida, afastando-o cada vez mais do processo de moder nização do país. — Onde está... o anel?
— No toalete das senhoras — Emmet disse. — Com a srta. Swan.
Ela não. Por favor, ela não.
— Posso sugerir uma linha de ação, Alteza?
Edward apertou os dentes.
— Não. Você já fez bastante.
Isabella ensaboou vigorosamente as mãos, mas não havia meio de o anel sair de seu dedo. Na verdade, não conseguira movê-lo nem um milímetro sequer. Como bem dissera, parecia grudado em sua pele. Abriu a torneira e deixou a água escorrer nas mãos, eliminando toda a espuma.
Olhando para o anel no dedo vermelho e inchado, conteve a vontade de gritar. Deveria ter dito "não" quando sua mãe insistira para que ela acompanhasse o pai à festa do príncipe de San Montico. Na hora, parecera-lhe tão simples fazer a mãe feliz. Mas agora...
Isabella desapontaria seus pais. De novo. Por mais que se esforçasse, nunca seria capaz de contentá-los. Mas, contra sua vontade, dissera "sim". E só causara constrangimentos. A ela mesma, à sua família, ao seu país. Era só esperar até a mãe dela descobrir...
E se não conseguisse tirar o anel? Isabella flexionou a mão. Não acreditava que lhe cortassem o dedo fora. Era uma artista. Precisava de todos os seus dedos. Suspirou fundo. Era hora de ensaboar as mãos novamente.
Talvez estivesse exagerando uni pouco. Mas estava numa pequena ilha no Mediterrâneo, governada por um príncipe, e não nos Estados Unidos da América. Duvidava que San Montico obedecesse às leis dos Direitos Internacionais. Deveria ter suas próprias leis, olho por olho, dente por dente, mão pela mão. Passou sabonete em volta do anel.
Talvez seu pai pudesse fazer alguma coisa para compensar. Abrir uma fábrica, construir um hotel de luxo, pagar as dívidas do país. Talvez o príncipe entendesse e relevasse. Ou, quem sabe, sua vida terminava ali.
Ensaboou mais o dedo, porém, o anel continuava fixo.
Sentiu uma pontada no estômago, depois outra. Contorcen do-se de dor, inclinou-se sobre a pia de mármore e gemeu.
— Ah, meu Deus! O que vou fazer?
Um homem pigarreou.
— Com licença.
No espelho, Isabella viu a imagem do príncipe Edward, de braços cruzados e expressão impenetrável. Parecia mais um pirata do que um príncipe. Um pirata terrível. Seria demais esperar pela compreensão dele.
— Eu bati, mas ninguém respondeu.
(...)
