Ela se voltou, sem saber o que dizer. A altura dele e os ombros largos tornavam o banheiro minúsculo.
— Alteza, eu...
Emmet entrou no banheiro, sorrindo.
— O anel serviu, Alteza.
As narinas do príncipe Edward se dilataram. Os lábios gros sos praticamente tornaram-se uma linha, de tão apertados.
Furioso. Oh, Deus!, ele estava furioso. Bella não ima ginava como sairia daquela enrascada.
— Deixe-me ver sua mão.
Ela estendeu-lhe a mão meio ensaboada.
— Talvez, se eu tentar com alguma loção...
— Quieta.
O tom áspero da voz dele calou-a. Bella estremeceu. O Príncipe Encantado desaparecera. As linhas clássicas do rosto, de repente, tornaram-se duras, cruéis, nada bonitas. O queixo parecia arrogante, nada confiável. Se ela pudesse atrasar o relógio e voltar ao baile...
O príncipe Edward tirou as luvas. Segurando-lhe a mão, puxou o anel até as lágrimas brilharem nos olhos de Bella. Ela mordeu a língua para não gritar.
— Serve, Alteza — Emmet afirmou com um sorriso triunfante.
— Não serve. — Desistindo, o príncipe lavou e enxugou as mãos. — Está emperrado. É pequeno demais.
— A lenda diz...
— Lave as mãos, srta. Swan — ordenou ele, antes que Emmet falasse demais.
— Que lenda? — perguntou Bella.
— Lave as mãos — Edward repetiu. — Não vou mandar de novo.
— Sim, Alteza. — Bella murmurou, sentindo-se uma criança repreendida pela mãe, depois de uma traquinagem. Ela enxaguou as mãos, mas não conseguiu tirar todo o sabonete infiltrado na filigrana.
— Encontre o sr. Swan — ordenou o príncipe, de novo, — Preciso falar com ele imediatamente.
Emmet parou na porta do banheiro.
— Alteza, talvez...
— Agora não, Ememt. — Assim que a porta se fechou atrás do conselheiro, o príncipe Edward entregou a Bella as luvas brancas. — Coloque-as.
As luvas eram, no mínimo, dois números maiores.
— São grandes, Alteza.
— Não estamos num desfile de modas, srta. Swan.
— Coloque-as e não discuta. Não quero que minha mãe a veja usando esse anel. Nem a imprensa.
A imprensa. O príncipe Edward tocara o ponto crítico. Ela vestiu as luvas.
Edward caminhou até a porta.
— Venha comigo.
Incerta e meio assustada, Bella hesitou.
— Vamos. Agora.
Ela ergueu o queixo, tentando reunir sua coragem para perguntar:
— Aonde, Alteza?
— Para um lugar reservado, onde não seremos perturbados.
O palácio que parecera um castelo de sonhos, de repente, começava a transformar-se num pesadelo. Certamente, o pa lácio teria um calabouço com uma câmara de tortura. Ela seguiu o príncipe Edward por um corredor estreito e pouco iluminado.
— Onde, exatamente, fica esse lugar, Alteza?
— No meu quarto.
Bella parou diante das majestosas portas duplas do quarto do príncipe, o coração ba tendo na garganta. O príncipe, o anel de noivado, o quarto. Oh, céus! O quarto. O quarto do príncipe. Ninguém acreditaria no que estava acontecendo. Talvez a família dela, absolutamente mais ninguém. Bella beliscou o braço para certificar-se de que não estava sonhando.
O príncipe Edward adiantou-se para abrir uma das portas.
— Entre e espere-me aí dentro.
— Alteza... — ela começou, depois hesitou.
O olhar de superioridade dele deixou-a pouco à vontade.
— O que foi, srta. Swan?
Bella não tinha sangue real, mas era uma Swan. Endireitando o corpo, obrigou-se a fitá-lo nos olhos.
— Lamento ter estragado seu aniversário.
— Entre. — Com a mão nas costas de Bella, conduziu-a para dentro do quarto. Evidentemente, ele nem prestara atenção no pedido de desculpas dela. — Não toque em nada e fique longe das janelas.
Ela se conteve para não perguntar se deveria entrar des calça, para não macular o carpete. De nada adiantaria irritá-lo ainda mais.
— Sim, Alteza.
— Tenho que voltar à festa. Creio que meu tio está sofrendo um ataque cardíaco.
Ataque cardíaco? Bella abriu a boca, mas a voz morreu na garganta. O príncipe Edward saiu do quarto, fechando a porta. Bella tentou abri-la, mas estava trancada à chave.
Ela estava presa no quarto do príncipe. Sozinha.
Um ataque cardíaco? Certamente era brincadeira do príncipe. Ou seria verdade? Bella olhou para as mãos enluvadas.
O anel. Só podia ser por causa do anel.
Respirou fundo, soltando-a devagar e ruidosamente. O que ela provocara dessa vez? Ataques poderiam ser fatais. Apertou as mãos, desesperada. O marquês era um homem tão simpático, tão encantador. Bem diferente do sobrinho, príncipe Edward.
Ela se jogou na enorme cama de casal de mogno, ricamente entalhada. Pela janela aberta, entrava uma brisa suave, en chendo o quarto com o cheiro de mar. Mas o ar fresco não amenizava seu sentimento de culpa.
A culpa era dela.
Deitada na cama do príncipe, ela ajustou as luvas para não caírem. Durante toda sua vida, ela quebrara muitas coisas, quase sempre coisas muito valiosas. Era capaz de começar uma guerra, ou uma pequena insurreição, como seu pai preferia considerar.
Depois de um tempo que pareceu uma eternidade silenciosa, ela ouviu o ruído da chave na fechadura. Pulou da cama um segundo antes de abrirem a porta. O príncipe Edward entrou seguido por Emmet e pelo marquês.
O marquês!
Graças a Deus! Ele não morrera. Bella correu e abraçou-o.
— O senhor está vivo!
O marquês sorriu.
— Não mais do que antes.
Ela fitou os olhos verdes que lembravam os do príncipe.
— Pensei que o tivesse matado.
— Minha cara Bella, posso chamá-la assim?
Ela concordou com um gesto de cabeça, sem afastar os olhos do rosto do marquês. Ele estava vivo. Vivo. Uma lágrima es correu-lhe pela face.
— Esta lágrima é por mim? — O marquês enxugou-lhe o rosto com um lenço de linho branco. — Você me faz desejar ser trinta anos mais jovem. Edward, meu felizardo rapaz, você encontrou uma maravilhosa...
— Por que você mataria meu tio? — perguntou o príncipe Edward, abandonando também o tratamento formal.
— Sua Alteza me disse que o marquês estava sofrendo um ataque cardíaco. Imaginei que fosse por causa do anel.
— Seu coração bateu mais forte. O anel. Por um momento, ela o esquecera.
Olhou para o príncipe, esperando ver nele a mesma com paixão, a mesma sinceridade, que vira no rosto do marquês. Mas o rosto do príncipe mostrava apenas impaciência. Como pudera confundi-lo com um Príncipe Encantado? Nunca ansiara tanto por ter alguém de sua família por perto.
— Onde está meu pai?
O marquês afagou-lhe o ombro, tranqúilizando-a.
— Logo ele estará aqui.
— Tire as luvas — ordenou o príncipe Edward.
— Por favor, meu querido sobrinho — o marquês advertiu-o gentilmente. — Bella não é nenhum objeto. Ela será sua...
— Por favor, digo eu, tio Phillippe. Se insistir em interferir, pedirei para retirar-se.
— Fingi esse ataque cardíaco para acabar com sua festa e é assim que você me agradece? — O marquês parecia ofendido.
— O senhor fingiu estar tendo um ataque cardíaco? — Bella perguntou.
— Sim, minha querida. — Phillippe ergueu uma sobrancelha. — Uma performance impecável, diga-se de passagem. Digna de um Oscar.
— Por quê?
O príncipe Edward pigarreou e o marquês suspirou.
— Por que não pergunta à Sua Alteza Sereníssima?
O príncipe não disse nada. Continuou com aquela irritante expressão de superioridade. Ela se desesperara, chorara, acre ditando que ser a causa da doença do marquês. Merecia uma explicação. Com as mãos na cintura, encarou o príncipe.
— E então? Sua Alteza Sereníssima vai me contar o que está acontecendo aqui?
Emmet e o marquês riram, e o príncipe fulminou-os com um olhar furioso. Depois, olhou para o teto e resmungou algo em francês.
Estúpido e arrogante, isso o que ele é.
Ela poderia ter-lhe respondido em francês também, mas pre feriu respirar fundo para acalmar-se.
— Alteza, eu não colei o anel em meu dedo. Nem fiz de propósito. Se quiser me dizer alguma coisa, e pode ser em francês mesmo, mas fale olhando no meu rosto, por favor.
O príncipe Edward avaliou-a por um longo momento.
—Você fala francês?
—Fluentemente. — Bella adorou a expressão espantada dele. O homem era mesmo orgulhoso. — Quando eu estava na faculdade, estudei em Paris.
—Fala outros idiomas?
—Italiano. Estudei um ano em Florença. — Aproveitando o instante de surpresa do príncipe, Bella não se fez de rogada. Ainda que momentaneamente, assumiu o controle da situação. — E espanhol também. Passei oito meses na Espanha, entre Madri e Barcelona.
—Alteza — Emmet interrompeu-os. — Bella está esperando sua explicação sobre o ataque cardíaco do marquês.
—Parece que conseguiu dois protetores, srta. Swan. — O príncipe reassumiu a pose real, mas a veia do pescoço ainda pulsava forte. Ele não era tão frio e controlado como queria que as pessoas acreditassem. — Já que insiste, vou contar. Uma vez que você, descui...
Emmet tossiu.
— Desculpe-me, Alteza.
Pelo olhar do príncipe, Bella não teve dúvidas que ele teria estrangulado seu conselheiro, se pudesse. Emmet, porém, não se intimidou, e o príncipe continuou:
—Uma vez que você teve a infelicidade de ter o anel coladoem seu dedo, achei melhor que os convidados se fossem, antes que começassem os comentários. Eu precisava de um motivo para acabar com a festa. Então, recorri ao talento do meu versátil tio.
—Já representei Shakespeare — afirmou o marquês fazendo uma reverência.
Bella não conteve o riso. Não fora má ideia. E funcio nara. Ela mesma era favorável a qualquer estratégia apenas para evitar comentários e manter a imprensa afastada. Sua Alteza podia não ser aquele cavaleiro de armadura reluzente, mas era rápido no raciocínio. Talvez ele até encontrasse um meio para saírem daquela confusão.
— Agora que respondi à sua pergunta, srta. Swan, poderia fazer-me a gentileza de tirar as luvas?
Naquele instante, alguém bateu à porta. Silêncio total no aposento. Ninguém se moveu. Todos olharam para a porta. Nova batida.
Com um gesto quase imperceptível de cabeça, o príncipe autorizou Emmet a abrir a porta.
— É o sr. Swan — informou ele.
Charlie Swan entrou no quarto com um sorriso largo. Bella calculou alguns segundos para o sorriso desaparecer. Ela escondeu as mãos nas costas.
— Querida. — O abraço do pai pegou-a de surpresa. Ele sempre preferira demonstrar seu afeto com presentes caros, nunca com gestos. E esperava vê-lo furioso e não feliz. — Desculpe a demora, Alteza. Mas eu estava telefonando para minha mulher.
Mamãe já sabe,pensou Bella desolada.
— Como ela está? — perguntou ela.
— Muito bem.
Bem? Sua mãe? Não, não era possível. Ela só não acompa nhara o marido a San Montico porque descobrira uma nova ruga ao redor dos olhos. Ato contínuo, marcara uma consulta de emergência, incluindo passagem aérea, com seu cirurgião plástico, em Beverly Hills. Exagero era o nome do meio de Renée Swan.
— Posso ver o anel, Alteza? — pediu Charlie.
— Se a srta. Swan tirar as luvas...
— Faça o que o príncipe disse — murmurou o pai dela. — O que quer que ele diga.
— Sim, senhor. — Ela tirou as duas luvas e estendeu a mão esquerda para o pai.
— Interessante. — Charlie tentou girar a jóia. Bella esperava pela reprimenda do pai. Esperava que, mais uma vez, ele expressasse seu desapontamento. Em vez disso, o sorriso alargou-se ainda mais. — O anel não está saindo, não é?
— Não, não está saindo, sr. Swan — disse Emmet.
— Não está saindo — repetiu o marquês.
— Mas vai sair! — O príncipe Edward forçou um sorriso.
— O anel não serve para ela.
Os outros três homens trocaram olhares cúmplices, e Bella teve a sensação de que era a única a não partilhar de um terrível segredo.
— Gostaria que Bella permanecesse no palácio — disse o príncipe.
Diga que não, papai. Diga não.
— É compreensível, considerando as circunstâncias — Charlie assentiu. — Providenciarei para que a bagagem dela seja tra zida para cá. Discretamente, claro. O príncipe Edward sorriu satisfeito.
— Sua presença também será bem-vinda, sr. Swan.
Fique, papai. Por favor, fique.
— Obrigado, Alteza, mas não será necessário. — Charlie olhou para o anel no dedo da filha e riu. — Tenho que pensar em tantas coisas, que duvido que consiga dormir esta noite.
Finalmente, ele faria alguma coisa. Bella suspirou aliviada.
— Não se preocupe. — O pai acariciou-lhe o braço. — Cui darei de tudo.
Menos mal. Ela não estaria sozinha. Porém, seu pai estava reagindo com muita calma, diferentemente de outras ocasiões em que ela se envolvera em apuros.
— Você não está bravo?
— Um pouco surpreso — admitiu ele. — Mas bravo, não.
Decididamente, ela era a única excluída do complô. Defini tivamente, alguma coisa estava acontecendo.
— Meu tio o acompanhará, sr. Swan — informou o príncipe.
Bella queria que o pai ficasse. Queria dizer-lhe o quanto apreciava a ajuda dele. Queria dizer-lhe o quanto o amava. Mas Charlie Swan não lhe deu chance de dizer nada.
— Durma bem, minha filha. — Charlie beijou-lhe a testa. — Estou muito orgulhoso de você, querida.
Bella olhou-o boquiaberta. Durante anos, ansiara ouvir o pai proferindo essas palavras. Tudo o que ela queria, era ser uma boa menina e deixar os pais orgulhosos. Mas as coisas não deram muito certo. Ela acabava sempre envolvida em pro blemas, mesmo sem querer. O anel colado em seu dedo era o exemplo perfeito. Com exceção de manter o caso longe da im prensa, qual a diferença entre essa e as confusões anteriores?
Edward não desistia. Ele tentou de tudo, mas nada funcio nara. Sabonete, loção cremosa, vaselina. O anel continuava firme. Suas ideias sè esgotavam.
E o tempo também.
Já passava das duas da madrugada. Ele não contara nada à mãe, nem ao resto do palácio, sobre Bella e o anel. Mas não poderia guardar segredo para sempre. Logo amanheceria, e com a luz do dia, a verdade viria à tona, assim como a notícia sobre o anel e sobre quem o estava usando se espalharia rapidamente.
Se o povo acreditassem que a "magia" do anel escolhera Bella para ser a noiva do príncipe, e se ele a desposasse, os costumes e as tradições supersticiosas da ilha se fortaleceriam ainda mais.
A lenda selaria não só o destino dele, mas o de San Montico também. Com ideias arcaicas, como lendas e contos de fadas, San Montico nunca chegaria à modernização e os desejos de seu pai nunca se realizariam. Edward não permitiria que seu país parasse no tempo.
Vasculhando o armário do banheiro, ele encontrou um vidro de óleo.
— Vamos tentar com isto, srta. Swan.
Retirando a mão de uma vasilha cheia de gelo, Bella encostou-se no gabinete da pia.
— Vá em frente, Alteza. E como parece que este anel não vai sair do meu dedo num futuro próximo, pode chamar-me de Bella. Você também, Emmet.
Parado ao lado de Edward, Emmet sorriu.
— Bella é um nome bonito. Combina com uma princesa.
Princesa Bella? Edward comprimiu os lábios. Emmet e suas piadas! As artimanhas dele não dariam certo. Bella não se tornaria sua esposa. Não se tornaria Sua Alteza Sereníssima, princesa de San Montico. Contrariando a lenda, o anel no dedo dela não significava nada. Só ele decidiria quem seria a próxima princesa. E, certamente, não seria Isabella Swan.
E com Emmet por perto, demonstrando abertamente sua aprovação, só complicaria ainda mais a situação.
— Deixe-nos, Emmet.
-E o anel, Alteza?
—- Eu resolvo isso. — Edward abriu o vidro de óleo. — Você precisa dormir, Emmet. Amanhã, teremos um dia cheio. Emmet concordou com um gesto de cabeça.
— Vou preparar um quarto para Bella, Alteza.
— Ela fica aqui.
[N/A] Comentar faz bem e não tira pedaço de ninguem ;)
;*
