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— Outros métodos são um tanto... bárbaros — Gaston afir mou. — Poderiam machucar a srta. Swan.
Edward não desistiria sem antes tentar todas as possibilidades.
— Em que você está pensando?
— Poderíamos enrolar o dedo de Isabella com fio de aço.
A alternativa não parecia tão bárbara. Edward esperou pela reação de Isabella. Ela limpou as mãos com um pano úmido.
— Vá em frente.
Gaston hesitou.
— Isso poderá machucá-la.
Ela estendeu a mão.
— Parece que não temos muitas opções.
— Tanta coragem é característica de uma princesa — Gaston resmungou enquanto tirava uma rolo de arame de dentro da maleta.
Depois de enrolar firmemente o arame ao redor do dedo de Bella, Gaston tentou tirar o anel sob o olhar ansioso do príncipe.
Em vão. Algumas tentativas depois, Gaston rendeu-se às evidências.
— Não tem jeito, Alteza.
Cuidadosamente, Bella desenrolou o fio de arame. O joalheiro examinou o dedo inchado.
— Quer uma massagem ou prefere gelo?
Ela flexionou o dedo.
— Não se preocupe. Estou bem.
Inconformado, Edward suspirou. Não desistiria enquanto não visse o anel de volta ao estojo de veludo. Tinham que fazer alguma coisa.
— Corte-o — o príncipe ordenou.
Gaston arregalou os olhos.
— Como Sua Alteza pode sugerir-me tal coisa?
— Você poderá soldá-lo depois.
— Desculpe, Alteza, mas não posso cortar o dedo da srta. Swan.
Boquiaberta, Bella levou a mão esquerda ao peito.
— O dedo dela? — Nem Edward pensara em algo tão drás tico. Ainda não. — Eu estava falado do anel.
— Oh, nesse caso... — Uma ruga surgiu na fronte do joalheiro. — O anel é insubstituível. Se alguma coisa não der certo, Alteza...
— Nada dará errado.
— Mas...
— Eu assumo a responsabilidade. — Edward olhou para Bella, buscando sua aprovação. — Isabella?
Mesmo com o rosto pálido, ela mantinha a cabeça erguida.
— Temos que tentar, Alteza.
— Pode começar — ordenou o príncipe.
Gastou pegou uma pequena serra elétrica e colocou os óculos protetores.
— Tem certeza que...
Bella estremeceu.
— Sim.
— Fique com a mão bem firme, mademoiselle.— Gotas de suor brilhavam na testa de Gaston. — Vamos trabalhar bem devagar.
— Vai dar tudo certo — Edward tranquilizou-a.
Ela riu.
— Fácil falar, não, Alteza?
Os olhares se encontraram e Edward sentiu-se arrastado pelos olhos cor de chocolate. Foi uma sensação diferente de tudo o que ele já experimentara. Desde a morte do pai, ele sempre fora o pilar, aquele em quem todos se apoiavam. E no entanto, Isabella estava ali, por ele, de um modo como ele nunca imaginara.
— Para sua proteção, vire o rosto, srta. Swan.
Isabella obedeceu, e ainda protegeu os olhos com a mão direita. A lâmina encostou no anel, espalhando faíscas. O som dos dentes no metal era suficiente para assustar. Um segundo depois, o ruído cessou e dois pedaços de metal caíram ao chão. Gaston para os pedaços de lâmina.
— A lâmina quebrou.
— Pegue outra — ordenou o príncipe Edward.
Gaston não discutiu. A nova lâmina partiu-se em duas, exatamente como a primeira. E assim aconteceu com as outras. Depois da quarta lâmina, Gaston colocou a serra sobre a mesa e retirou os óculos.
— É inútil, Alteza. O encanto protege o anel.
— Não há encanto nenhum, Gaston. — O príncipe não de sistia. — Suas lâminas estão com defeito.
— Todas? — Bella questionou-o.
Edward ignorou-a.
— Tente alguma outra coisa.
— Já tentei de tudo, Alteza. O anel não pode ser removido.
Os músculos do rosto de Edward se contraíram.
— Você deve ter alguma outra solução.
— Sinto muito, Alteza. Não há mais nada que eu possa fazer. —
Gaston fechou a maleta de couro preto. — Fiz o pos sível, mas não há mais dúvidas.
— Que dúvidas?
— A Lenda do Anel, Alteza. — Gaston sorriu. — É verdade. O anel serviu no dedo de Isabella e só o verdadeiro amor poderá removê-lo.
Eles se olharam e Bella experimentou um momento de magia. Antes que ela pudesse entender a sensação de frio no estômago, a princesa Esme apareceu na porta da sala, envolvida numa aura de elegância e estilo. Era a própria ima gem de realeza e graça.
— Edward, Isabella... — a princesa cumprimentou-os. — Eu estava procurando por vocês. Temos que discutir alguns detalhes sobre o casamento.
— Mais tarde, mamãe. — O príncipe tocou no cotovelo de Bella. — Vamos.
Na sala amarela, depararam-se com Delia e suas assistentes.
— Oh, Isabella. Finalmente! — exclamou a estilista. — Precisamos tirar mais algumas medidas.
— Agora não, por favor.
Apressados, Bella e o príncipe continuaram atravessan do as salas, em busca de privacidade. Mais adiante, encontra ram o marquês.
— Crianças, vocês não acreditam nas novidades. — Ele bateu palmas. — Pombas. Encontrei as pombas.
— E agora? — Bella murmurou.
— Corra — ordenou o príncipe.
De mãos dadas, como adolescentes, eles correram em direção a uma porta que dava para um caminho de pedras. Correram por alguns minutos, e então, o príncipe parou.
— Acha que nos livramos deles? — perguntou Bella.
— Espero que sim.
— Só faltou meu pai — ela disse. — Conhecendo-o bem, acho que ele já está reservando o Concorde para trazer os convidados para o casamento.
Edward estreitou os olhos.
— Ele não faria isso.
— Faria.
— Isso é...
— Terrível — ela sugeriu.
O príncipe forçou um sorriso.
— Insano.
Bella suspirou. Felizmente, sua mãe não estava em San Montico. Do contrário, não haveria escapatória.
— O que vamos fazer, Alteza?
— Gostaria de saber. Só sei que não podemos voltar ao palácio. Eu gostaria de pegar meu barco e navegar por aí, mas não conseguiremos chegar à marina com todos esses repórteres acampados ao redor do palácio. — Ele coçou o queixo, pensativo. — Conheço um lugar onde ficaremos longe de toda essa balbúrdia.
— Tem certeza? Parece que sabem todos os nossos passos!
— Ninguém conhece esse lugar.
Eles caminharam até chegarem a uma parede coberta de hera. Depois, seguiram por um corredor escondido pela vegetação. Um labirinto. De repente, um arco coberto por primaveras. As flores vermelhas contrastavam com o verde escuro do labirinto.
Bella arrancou uma flor e colocou-a atrás da orelha.
— É incrível que essa confusão toda deve-se a uma lenda.
— As lendas estão enraizadas no coração e na mente do meu povo — explicou ele. — Nosso casamento só reforçaria a crença nos velhos costumes e tradições.
Ela entendia perfeitamente a posição dele. Mas são as tra dições que tornam cada país, cada povo, único. Não havia nada de errado nisso.
— Você não acha...
Edward interrompeu-a.
— Você está começando a acreditar... nisso?
— Não, claro que não. — Ela olhou para duas pombas voando adiante. O marquês? Mágica? — Mas não é estranho que ne nhuma das lâminas funcionou?
— Coincidência.
— Esperemos que sim — afirmou Bella, mas as palavras não soaram com a convicção desejada.
O príncipe lançou-lhe um olhar divertido, antes de atraves sarem a entrada do labirinto.
— Este é um dos poucos lugares de total privacidade neste palácio.
— Sua Alteza costuma vir sempre aqui?
— Não muito.
Ela parou e olhou para as cinco trilhas à sua frente.
— Qual é o caminho para o centro?
— Tente encontrar.
Bella seguiu pelo caminho à extrema direita. Edward seguiu-a.
— Era aqui que você brincava quando era criança?
— Sim. Emmet e eu passávamos o dia aqui. A copeira deixava lanches, sorvetes e outras guloseimas, na entrada. Como você adivinhou?
Erguendo os ombros, ela apontou para a vegetação que es condia as trilhas.
— É o lugar ideal para brincar e esconder-se.
Edward sorriu.
— Este é o meu lugar favorito. Só Emmet tem permissão para vir aqui.
— Nem seus pais?
— Ninguém. Exceto os jardineiros.
— Quando eu tinha algum problema, costumava esconder-me no closet do meu avô ou debaixo da cama dele.
— Você era apegada ao seu avô?
Bella assentiu com um gesto de cabeça, desejando que o avô estivesse perto dela. Muitas vezes, as lembranças não eram suficientes. Especialmente, quando precisava de um con selho ou de um abraço. Como naquele momento.
— Vovô Swan mudou-se lá para casa quando eu tinha sete anos e viveu conosco até morrer, cinco anos atrás. Ele fingia não se preocupar com ninguém, fazia questão de mos trar-se sempre formal e distante, mas no fundo, era uma cria tura doce e afável. Ele colocava apelido em todos os netos, e sempre nome de animais.
— Qual era o seu?
— O meu... — Bella mordeu o lábio. Jamais revelaria ao príncipe que seu apelido era Princesa.Não queria estragar o clima cordial que reinava entre eles. — Bem, era um nome ridículo. — Hora de mudar de assunto. — Foi o anel que uniu seus pais?
— Infelizmente, sim.
Bella dobrou à direita. A trilha terminava num imenso jardim de topiaria, com a escultura de animais de todas as espécies e tamanhos.
— Eles foram felizes? — ela perguntou.
— Delirantemente felizes. Quase contagiante. — Edward riu. — Realmente, eles viveram uma verdadeira história de amor e felicidade.
— Isso é muito bom.
Ele franziu o cenho.
— Não sei, não. Faz dez anos que meu pai morreu e, desde então, minha mãe está de luto. Ela é muito nova. Deveria casar-de se novo. No entanto, ela divide seu tempo entre o jardim e as obras de caridade.
— Foi escolha dela — Bella ponderou.
— Sim, mas... — O príncipe passou a mão por entre os cabelos. — Ela acredita piamente que foi através da Lenda do Anel que ela e meu pai encontraram o verdadeiro amor. Não consigo convencê-la de que o amor, felicidade, alegria, inde pendem de um objeto inanimado. Por mais que eu fale, ela se recusa a acreditar em mim.
A lenda parecia mesmo ter muito poder. Bella suspirou. De repente, o príncipe segurou-a pelo ombro, impedindo-a de bater direto num muro.
— Cuidado!
Sim, ela devia ser cuidadosa. O toque da mão dele queima va-lhe a pele. Apressando o passo, desvencilhou-se dele.
— Por que não se casou ainda, Alteza?
O príncipe deu de ombros.
— Não foi por não ter tentado. Passei estes últimos cinco anos procurando uma esposa. Inutilmente.
— Não acredito — admitiu ela. — Você é um príncipe muito bonito. Todas as mulheres do mundo caem aos seus pés!
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Você também?
Bella corou.
— Claro que não. E você sabe porquê.
— Ah, sim. — O sorriso dele revelou a covinha na face. — O mito do cowboy!
Tanto quanto o mito do Príncipe Encantado.
— Ainda não acredito que não tenha encontrado uma mulher para casar-se.
O sorriso desapareceu dos lábios dele.
— Realmente você não lê jornais, não é?
— Não.
— Seis meses atrás, fiquei noivo de uma americana. O nome dela é Thea...
— Thea Hollis-Montgomery?
— Sim. Você a conhece?
— Thea foi colega de clube de minha prima Kelsey. — Bella lembrava-se da loira alta, bonita, elegante, cujo pai dava-lhe tudo, e todos, que ela queria. — Ela não casou com o rei Gus meses atrás?
O príncipe comprimiu os lábios.
— Casou.
Imaginando o que acontecera, Bella não conseguiu evi tar o comentário.
— Então, ela trocou o príncipe por um rei?
— Você tem um jeito de falar!
— Desculpe-me, Alteza.
— Não precisa desculpar-se. Foi melhor assim.
— Sempre achei que ela era ambiciosa. Agora, vejo que eu estava certa.
— Obrigado, Isabella.
— Por nada, Alteza.
Edward suspirou.
— Ela me deixou nesta situação. Seis meses antes do meu trigésimo aniversário, data limite para eu me casar.
Thea o deixara também de coração partido. Pobre príncipe. Não era à toa que ele não queria nem ouvir falar na Lenda do Anel.
— Imagino como foram esses seis meses para você.
— Você não imagina nem a metade, Isabella — admitiu ele.
Bella não imaginava mesmo. Ela nunca se apaixonara antes. Não de verdade. Mas qualquer dia, de repente...
Procurando pelo centro do jardim, ela subiu alguns degraus de pedra até a uma plataforma, de onde via o labirinto que os rodeava. Além dos jardins do palácio, a cidade e o mar Mediterrâneo. Encantou-se com a vista maravilhosa. Ela olhou para o príncipe que a observava com expressão curiosa.
— O que foi?
— Gosta daqui?
— É lindo demais. — Ela sorriu. — Você tem sorte por viver aqui.
— Tenho, sim. — Edward se calou por um instante. — Você não poderia fazer de um palácio, e de um reino inteiro, sua... fazenda?
— Não. — Era tentador, sim. Mas o que tudo isso implicava, era desanimador demais. Ela desviou o olhar. — Provavelmen te, eu colocaria fogo em tudo.
— Como na Casa Branca?
Ela o olhou surpresa.
— Você já soube?
— Não dos detalhes.
Bella não conteve o riso.
— Você faz com que tudo pareça tão sórdido!
O príncipe ergueu as sobrancelhas.
— E não foi?
— Absolutamente não.
— Então, conte-me.
Bella hesitou. Depois, deu de ombros. Não tinha nada a perder por contar algo que fora amplamente explorado pela mídia.
— No Natal do ano passado, o presidente, que é amigo do meu pai, convidou-nos para a ceia. Bem, as luzes se apagaram, e eu peguei um dos castiçais da mesa de jantar e parei perto da árvore de Natal.
Ela umedeceu os lábios.
— Estávamos em volta da árvore, cantando canções natalinas. Acho que empolguei-me demais, não prestei atenção no castiçal que segurava... bem, quando me dei por conta, os ca belos da prima do presidente estavam em chamas.
Bella esperava pela reprovação do príncipe, mas, em vez disso, ele riu.
— Imagino o que aconteceu depois.
— Espere até ouvir o resto — disse ela, adorando aqueles momentos de descontração do príncipe. — Na pressa de ajudar a prima do presidente, coloquei o castiçal no chão, bem perto da árvore. Os galhos deveriam estar secos porque, de repente, viraram tochas. Felizmente, conseguiram apagar o fogo antes que o estrago fosse maior.
— E a prima?
— Está ótima. — Bella riu. — Ela está usando uma peruca tão perfeita que ninguém diz que não são cabelos dela mesmo.
— Uma festa inesquecível.
Ela riu de novo.
— De princesa, não tenho nada, não é, Alteza?
Edward deu de ombros.
— De cowboy,também não tenho nada.
— Não, não tem — Bella admitiu, com um sorriso encantador. — Mas você tem algumas qualidades que compensam isso. Às vezes.
- Você também, Isabella. — Aquela covinha parecia estar piscando para ela e o coração de Bella disparou. — Às vezes
Aproximando-se da sala de jantar, Bella ajeitou as luvas. Na dúvida se deveria vesti-las ou não, optou pela discrição. Além disso, o príncipe Edward pedira-lhe para usá-las sempre e ela não pretendia provocá-lo. Ele parecia ser um rapaz decente, e não um troglodita, como o imaginara na noite anterior.
Ela parou na porta da sala. Ergueu os olhos e quase parou de respirar. O príncipe Edward estava parado no batente da porta. Ele se barbeara e a pele brilhava. Os cabelos úmidos estavam penteados para trás. Lindo, absolutamente lindo. Mes mo assim, um príncipe. Por mais que ela se sentisse sua com panheira de crime, naquela tarde, a situação não mudara.
O casamento real não aconteceria. Ela não queria desposá-lo. E ele também não queria desposá-la.
O príncipe Edward estendeu a mão e Bella deu alguns passos à frente. O salto dos sapatos pretos afundaram no tapete. O tornozelo virou, mas, milagrosamente, Bella conseguiu manter o equilíbrio. Talvez, o anel possuísse mes mo poderes mágicos. Do contrário, ela teria se estatelado no chão.
O príncipe inclinou-se.
— Isabella.
Inalou o perfume seco de sabonete, e as pulsações se ace leraram. Fez uma graciosa reverência.
— Alteza.
— Gostou do seu quarto?
Ela se mudara para uma das suítes de hóspedes.
— É adorável. Obrigada.
— As luvas, por favor.
Talvez ela tivesse cometido uma gafe por usá-las na sala de jantar. Sem discutir, ela retirou as luvas e entregou-lhe. Ele tirou outro par de dentro do bolso do paletó.
— Estas ficarão melhor.
Ele se lembrara!Contendo um sorriso, Bella experimen tou-as. Perfeitas.
— Obrigada, Alteza.
Edward conduziu-a para dentro da sala. Bella admi rou-se com tanta suntuosidade. Tão grande quanto o aparta mento dela de Chicago, a sala tinha duas lareiras. As paredes eram cobertas de tecido adamascado vermelho e cobrindo o piso de madeira, um tapete valiosíssimo. Do teto pendiam dois belos lustres de cristal.
Dominando a sala, uma imensa mesa para, no mínimo, trinta convidados. No entanto, estava arrumada apenas para duas pessoas.
Ela engoliu em seco.
— Parece que jantaremos a sós — comentou ele.
Bella não sabia se isso era bom ou ruim. Muito tempo sozinha com o príncipe seria perigoso demais para seus hormônios. Felizmente, o coração estava imune.
— Onde estão os outros?
— Receio que estejam tramando contra nós. — Ele apontou para o candelabro apagado, para as flores no vaso de cristal. — Minha família tentou armar o cenário para um pequeno romance.
Pequeno romance? Bella conteve o riso. Mesmo igno rando as outras vinte e oito cadeiras, certamente, aquele não era um dos dez lugares mais românticos do mundo para uma mulher ser beijada. Não que ela quisesse ser beijada. Bem, talvez, um beijo. Um só. Rápido.
— Você prefere jantar em outro lugar?
Bella temia onde poderia ser esse "outro lugar". Olhou para o príncipe que puxara uma cadeira. Ela sentou-se rapidamente.
— Não, Alteza. Aqui está ótimo.
Sentado à cabeceira da mesa, Edward tocou um sino de prata. Dois garçons uniformizados entraram na sala. Um deles apres sou-se em acender os candelabros. O outro serviu o champanhe.
Depois, Jean-Claude trouxe dois pratos pequenos.
— Pâté in Madeira aspic,Alteza.
— Obrigado, Jean-Claude.
Jean-Claude colocou o prato na frente de Bella. Ela olhou para o patê, mas não o tocou. O príncipe fitou-a.
— Não está com fome?
Na verdade, estava faminta. Absortos pelas tentativas de retirarem o anel e, depois, de fugirem da confusão, ambos es queceram-se do café da manhã e do almoço.
— Não muita.
— Se não gostar do patê, o chefpreparará outra coisa.
— Não é necessário. É que...
— O quê?
Bella olhou ao redor para certificar-se de que os garçons não estavam por perto.
— Se eu perder peso, o anel sairá do meu dedo.
Edward comprimiu os lábios.
— Nem pense nisso.
— Não temos muita escolha, Alteza.
— Não será arriscando sua saúde que conseguiremos nosso objetivo. — Ele pegou a taça de champanhe. — Eu a proíbo, Bella.
— Mas...
— Assunto encerrado.
Bella não gostou do tom autoritário. Quem ele pensava que era?
Sentiu, mais do que viu, que ele a observava. Quando os olhares se encontraram, Edward virou o rosto com ar displi cente e apagou as velas do candelabro. Mesmo assim, Bella teve tempo de entender o que os olhos dele não escondiam.
Ele está preocupado comigo.
A constatação encheu-a de uma satisfação tão grande, que Bella teve vontade de abraçá-lo bem forte e agradecer-lhe pelos cuidados. Queria esquecer que ele era "Sua Alteza" e chamá-lo apenas de "Edward".
Apesar das boas intenções, não estava em condições de agir com tamanha espontaneidade. Em vez disso, ela se serviu de patê e bebeu um gole de champanhe.
O tempo passou rapidamente e o jantar transcorreu num clima ameno, descontraído. Sabendo que estavam sendo obser vados, de comum acordo, Edward e Bella decidiram con versar sobre amenidades.
Entre um prato e outro, Jean-Claude e Jacques cuidavam para que os copos não ficassem vazios.
— Estão tentando nos embebedar — Edward murmurou, num dos raros momentos em que ficaram a sós.
— Percebi — disse ela. — Realmente, estão querendo nosso casamento.
— Quanto mais rápido, melhor. Se nos surpreenderem em situação comprometedora... nosso destino estará selado.
Bella suspirou.
— Oh, tudo isto é tão... irreal.
Edward olhou para a porta fechada que, provavelmente, levava à cozinha.
— Não podemos fazer o jogo deles, Isabella. Não devemos permitir que eles vençam.
Vitória significava casamento. Algo que nenhum dos dois desejava.
Jean-Claude voltou com uma garrafa de vinho tinto. Colo cando um pouco num copo, submeteu-o à apreciação do príncipe, que o aprovou.
Bella não queria mais vinho. Queria apenas que os gar çons percebessem que o esquema não estava funcionando. De cidida a confundi-los, perguntou:
— San Montico tem sempre tempo bom, Alteza?
O príncipe encostou o guardanapo na boca.
— Sim, com chuvas ocasionais.
—Adoro andar na chuva — confessou ela, observando Jean-Claude acender o candelabro novamente.
—Eu também. — Enquanto bebia o vinho, o príncipe esperou que Jean-Claude saísse da sala para tornar a apagar as velas.
Depois, inclinou-se para ela. — Amanhã cedo, vamos procurar um feiticeiro — sussurrou.
— Você não acredita em magia — ela o lembrou em voz baixa.
Edward sorriu.
— Esse feiticeiro não pratica magia. — Ele olhou para a porta. — Se Jean-Claude ou Jacques aparecerem, continuare mos nossa conversa sobre o tempo.
Bella franziu as sobrancelhas.
— Que desagradável!
— Não, desagradável é o que minha mãe está fazendo. — Ele mostrou as flores no vaso. — Está vendo estas rosas brancas?
A leve fragrância misturava-se deliciosamente ao aroma da comida.
—São lindas.
—Pois é.Minha mãe as está cultivando especialmente para o meu casamento. Ela afirma que é tradição as noivas Cullen levarem três rosas brancas no buque.
—Por que três?
—Uma para o noivo, uma para a noiva e a terceira para San Montico. Eu posso...
A entrada de Jean-Claude e Jacques interrompeu o príncipe. Bella não perdeu a pose.
— A baixa pressão frontal provoca tempestades. A alta pressão frontal provoca seus próprios problemas. — Bella sorriu ao ver que os garçons trocavam olhares confusos. — Isso responde à sua pergunta, Alteza?
Jean-Claude tornou a encher os copos e a acender as velas. Jacques serviu a sobremesa. O sorvete de pêssego derreteu na boca de Bella. Doce e refrescante. Justamente do que ela precisava.
O príncipe Edward ergueu as sobrancelhas.
— A senhorita tem certeza desse fenómeno?
Os dois garçons franziram o cenho.
— Certeza absoluta. Tive aulas de meteorologia na univer sidade. Estudamos a matéria profundamente.
— Fascinante.
Bella comeu mais uma porção de sorvete, depois pousou a colher. Jean-Claude recolheu as taças e retirou-se, seguido de Jacques.
Edward tornou a apagar as velas e riu. O som grave, alegre, provocou arrepios internos em Bella. Ela atribuiu o tremor à atmosfera romântica da noite.
— Eles devem estar pensando que enlouqueci. Imagine, conversar com uma mulher bonita sobre condições climáticas. Você foi magnífica, Isabella.
Magnífica? Ela ainda estava deliciando-se com a palavra "bonita".
— Acha que os enganamos?
— Completamente. Espere até minha família saber.
Terminado o jantar, o príncipe Edward acompanhou-a até a suíte.
— Isso é o que eu chamo de conversa estimulante.
Certamente, tinham deixado os garçons frustrados e ente diados. Todas as vezes em que enchiam os copos com água, eles olhavam desanimados para os copos de vinho ainda cheios. Tam bém não entendiam por que as velas estavam sempre apagadas. Provavelmente, nada sabiam sobre o episódio da Casa Branca.
— Fiquei com pena de Jacques e de Jean-Claude. De verdade.
Edward riu.
— Eles se esmeraram, não é? — O príncipe estreitou os olhos.— Diga-me uma coisa. Você estudou mesmo meteorologia?
Ela o enganara também!
— Não, mas assisto o homem do tempo.
Os olhares se encontraram.
— Fizemos uma bela dupla — constatou Edward.
As pulsações de Bella aceleraram-se.
—- Sim, fazemos. Isto é, fizemos.
— Adorei a noite, Isabella.
Ela também adorara.
— Foi divertida.
Edward inclinou-se e ajeitou uma mecha de cabelos atrás da orelha dela.
— Sim, foi divertida.
Com certeza, ele tinha um cheiro bom. Cuidado.
— Bem, acho que vou entrar. Boa noite, Alteza.
— Permita-me. — Ele segurou a maçaneta da porta.
Se o príncipe continuasse com aquele sorriso, ela permitiria que ele... Não, não devia. Tinha que ficar bem longe dele. Bella também esticou o braço em direção à maçaneta, e sua mão cobriu a dele.
Quente.
O calor da pele máscula fez com que ela prendesse a res piração. O coração disparou. Esperava ganhar um beijo de boa-noite. Não, na verdade queria que Edward lhe desse um beijo de boa-noite.
Não, não queria. Ele não era um homem comum. Era um príncipe. Bella retirou a mão rapidamente.
Ele abriu a porta do quarto, depois, com a ponta dos dedos, acariciou o rosto delicado.
— Você está com medo do quê?
De você.Ela o fitou nos olhos.
— Você., você tem calos.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— De velejar.
— Mas você é um príncipe.
— Quer saber de um segredo? A realeza não é assim tão diferente.
Não? Bella estava quase acreditando. O príncipe Edward irradiava confiança. A inteligência brilhava nos crista linos olhos verdes. Ele inspirava respeito, independente do que fizesse. Era diferente de todos os homens que conhecera. Um príncipe em todos os sentidos da palavra.
Ela conteve o ímpeto de suspirar profundamente.
— Como pode dizer isso? Você vive num palácio magnífico, no alto de uma colina e governa um país lindo.
— Você tem um presidente que mora numa enorme casa branca e governa uma das nações mais poderosas do mundo.
— Não é a mesma coisa.
— Não é. — Ele se aproximou mais dela. — Você já beijou alguém da realeza, mais precisamente, um príncipe?
Recuando, ela apoiou-se no batente da porta.
— Não. Isto é, eu...
Edward não lhe deu tempo para concluir. Os lábios dele cobriram os dela sem a menor hesitação. Apenas um toque, leve. Suave, quente e intenso.
Ela queria mais, muito mais. Mas assim como começou, terminou rapidamente.
— O que achou? — ele perguntou com um brilho malicioso nos olhos.
Bella não podia dizer a verdade. Não podia dizer que o beijo, pouco mais que um roçar dos lábios, mudara comple-tamente sua definição de como deveria ser um bom beijo. Ela cruzou os dedos.
— Tem razão, Alteza. Os nobres não são diferentes das outras pessoas.
— Tem certeza? — Edward perguntou baixinho.
O instinto de autopreservação fez com que ela concordasse.
— Tenho.
Ele riu.
— Boa noite, Isabella.
—Obrigada, Alteza. Pelo jantar e... tudo o mais.
Calada,disse a si mesma. Receando as próprias reações,
Bella entrou no quarto e fechou a porta.
Na verdade, queria que ele dissesse alguma coisa que a fizesse mudar de ideia.
Edward fechou porta de seu quarto e trancou-a. Não para impedir que alguém entrasse, mas para impedi-lo de sair. Podia simplesmente atravessar aquele hall e despedir-se de Isabella novamente. Ninguém ficaria sabendo.
A quem ele estava enganando? Ele não queria apenas des pedir-se de Isabella. Queria beijá-la de novo. Não apenas roçar seus lábios nos dela. Queria...
Uma batida leve na porta.
Isabella! Sorrindo, apressou-se em abri-la.
—Você esqueceu... Tio?
—Posso entrar?
Decepcionado, Edward escancarou a porta para o marquês.
— Entre, tio Phillippe.
Phillippe bateu nas costas do sobrinho.
—O que há de errado com você?
—Como assim?
—Você jantou com uma bela mulher e. discute sobre o tempo?
Mesmo num palácio tão grande, as notícias corriam céleres.
—Tivemos uma conversa muito agradável.
—Phillippe olhou para o teto.
— Os jovens perdem tempo com as pessoas erradas. Você não entende, Edward? Você tem a responsabilidade, o dever de casar-se.
Edward conhecia o discurso inteiro.
—Sei que devo me casar. Mas não agora.
—Não é um capricho ou uma fantasia de sua mãe. Você tem que casar-se com Isabella.
—Vou casar-me com a mulher que eu escolher.
—Você teve sua chance.
—Não éfácil, tio. Sabe que fiz o possível. Saí com mais mulheres do que você e meu pai juntos. A imprensa considera-me um playboy quando tudo o que eu quero, é encontrar uma esposa.
—Uma vez que você ainda não se decidiu, talvez, a imprensa tenha razão.
Era muito cedo ainda. O dia mal clareara. Bocejando, Bella estendeu o braço para o príncipe Edward. Com cuidado, ele enfaixou-lhe a mão esquer¬da até o pulso.
— Está bem assim? — ele perguntou.
Bem demais. A suavidade das mãos dele, o toque dos dedos em sua pele, desencadeavam uma onda de sensualidade que se espalhava pelo corpo inteiro de Bella. Mais alguns mi¬nutos e o fogo estaria aceso. Ela tentou desvencilhar-se, mas Edward segurou-lhe a mão.
— Está ótimo, Alteza.
Ele prendeu a bandagem com esparadrapo e apalpou a parte enfaixada.
— Não está muito apertado?
— Não. — Se estivesse apertado, certamente seu sangue não ferveria tanto. — Acho que não vai dar certo.
— Ninguém nos verá. — O príncipe Edward entregou-lhe os óculos de sol. — As ruas estão desertas. Ainda é cedo, as pessoas ainda estão dormindo.
— Seremos reconhecidos.
— Quem nos ver, pensará que estamos em lua-de-mel. — Ele colocou um boné de beisebol na cabeça. Antes de sair do quarto, ele viu o bloco de desenhos de Bella e estudou-o.
— Você tem talento.
Na noite anterior, ela esboçara um novo trabalho, um cowboy e seu cavalo. Nada definido ainda, apenas alguns riscos a lápis, mas ela apreciara o elogio.
— Obrigada.
Ele colocou o bloco na escrivaninha.
— Vamos.
— Tenho a impressão de que será muito engraçado.
— Não há nada de engraçado. — Ele escondeu os olhos atrás dos óculos espelhados. — Vamos.
Um caminhão de frutas estava parado na porta dos fundos do palácio. Bella e o príncipe Edward pularam na carro¬ceria e esconderam-se sob a lona. Minutos depois, o caminhão deixou o palácio, levando os dois clandestinos.
Quando o veículo dobrou a esquina, Bella colidiu com o príncipe. E quando virara na direção oposta, os braços fortes dele impediam-na de bater contra a grade da carroceria.
A proximidade fez com que ela ansiasse por outro beijo. Antes, porém, que a vontade se intensificasse, o caminhão parou.
O príncipe Edward levantou a lona e pulou. Em seguida, estendeu a mão para Bella.
— Rápido.
Depois, seguiram por uma alameda. Não havia ninguém por perto, mas o príncipe olhou atentamente para os lados antes de atravessarem a rua. Pararam diante de um chalé.
As paredes estavam descascando. As pedras, cobertas por hera. A porta foi aberta antes mesmo que eles batessem. Um homem baixo, de cabelos brancos e longos, cumprimentou-os.
— Entrem, por favor.
Seguindo o príncipe, Bella entrou.
Ervas e flores pendiam em vasos por todos os cantos, numa mistura de perfumes e aromas. Pedras e bolas de cristal ali¬nhavam-se nas prateleiras, refletindo a luz das velas que ilu¬minavam a sala.
Ela olhou para o homem de cabelos brancos e olhos azuis. De robe púrpura florido, ele era a própria imagem do mago.
— Estava à sua espera, Alteza. — O homem fez uma re¬verência. — E a você também, srta. Swan.
Ele sabia o nome dela. Seria mesmo um mago? Bella voltou-se para o príncipe, que olhava para as cartas de taro abertas sobre uma toalha de veludo vermelho, com expressão cética.
— O conselheiro real avisou-me que Sua Alteza viria. — O homem riu. —Pela expressão de Sua Alteza, percebo que não é o que esperava.
O príncipe suspirou. Estava tão confuso quanto Bella.
— Não é mesmo.
— Não ligue para a aparência, Alteza. Apenas confie no meu trabalho, nas minhas ervas e poções. — Ele olhou para Bella. — Merlih, ao seu dispor, senhorita.
— Precisamos de sua ajuda — disse Edward.
— De novo, Merlin fez uma reverência.
— Em que posso ajudar, Alteza?
O príncipe Edward tirou as bandagens que envolviam a mão de Bella.
— Remova o anel do dedo dela, e eu saberei como recompensá-lo.
Com os olhos brilhando, Merlin aproximou-se de Bella.
— Posso examinar o anel, Alteza?
Bella estendeu a mão. Tocando o anel com respeito, ele o estudou por todos os ângulos. Finalmente, ele levantou os olhos.
— E o joalheiro real? — perguntou Merlin.
— Ele tentou de tudo. Desde a fórmula secreta até métodos mais... bárbaros.
Merlin meneou a cabeça. Depois, gesticulou em direção às cadeiras ao redor da mesa.
— Por favor, queiram sentar-se. Voltarei num minuto.
Assim que eles sentaram, o mago desapareceu por detrás da cortina.
— Merlin é simpático, mas um tanto... estranho.
— Ele é excêntrico, mas situações desesperadoras exigem medidas desesperadas.
— Não podemos nos desesperar, Alteza, Hoje ainda é segunda-feira.
Carregando dois frascos, um verde e o outro cinza, numa das mãos, um livro com capa de couro na outra, Merlin retornou e colocou tudo sobre a mesa. Destampou os frascos.
— Qualquer joalheiro deveria saber que os métodos convencionais não funcionam com um anel encantado.
O príncipe Edward cruzou os braços.
— O anel não é encantado.
— Apesar de todas as tentativas, ainda está no dedo dela. A única explicação é a magia, Alteza. Devemos anular o encanto com outro encanto.
Bella olhou para Edward, que, simplesmente, deu de ombros. De um frasco, Merlin derramou um pouco de pó rosa na palma da mão. Do outro, areia branca.
—Pronta?
Prendendo a respiração, Bella estendeu a mão.
Merlin jogou a mistura dos pós sobre o dedo dela. Ele fechou os olhos, ergueu as mãos e murmurou algumas palavras numa linguagem desconhecida.
—Tente tirá-lo agora — Merlin ordenou num sussurro.
Bella tentou, mas não conseguiu nada. Nem o príncipe Edwrd. Droga! Ela realmente queria que desse certo!
— O que é isso? — perguntou ela.
— Pó mágico de fada e de duende.
O príncipe Edward sorriu com ironia.
— Você só pode estar brincando!
Merlin retribuiu o sorriso.
— Eu sabia que não funcionaria, mas achei melhor tentar, de qualquer maneira.
Bella escondeu o rosto com as mãos. Incrível! Seu futuro dependia de um homem que acreditava em pós mágicos. O anel jamais sairia de seu dedo. Teria que casar-se com o prín¬cipe Edward ou amputar o dedo. Não sabia o que era pior.
Edward afagou-lhe o ombro, num gesto animador.
— Não desista.
As palavras dele fizeram-na endireitar-se na cadeira. Não era hora de reações exageradas. Respirou fundo, procurando acal¬mar-se. Tinha certeza de que eles se livrariam daquela situação.
— Que faremos agora?
Merlin franziu a testa.
— O anel está colado à sua pele. Parece que uma subs¬tância foi...
— Eu não colei o anel no meu dedo! — Bella reagiu ofendida.
— Então, não há duvida — Merlin anunciou. — O anel serve, Alteza. Ela será sua esposa.
— Não acredito nisso. — O príncipe apertou os dentes. — Primeiro Gastou. Agora você.
Merlin umedeceu os lábios.
— O que fazer, o que fazer? — Refletindo, o mago tamborilou os dedos na mesa. — Sua Alteza não quer casar-se com a srta. Swan?
O príncipe Edward olhou-a e o coração dela bateu mais forte.
— Não permitirei que uma lenda decida com quem devo me casar.
— E você não quer se casar com ele, srta. Swan?
A expressão furiosa do príncipe deixava-o ainda mais atraente.
— Eu... Bem, eu não quero me casar com um príncipe.
— Pense, pense, pense — Merlin murmurava a mantra com olhos fechados. De repente, abriu-os, levantou-se e empurrou o livro para eles.
— Leiam isto. Voltarei em seguida.
Merlin desapareceu atrás da cortina novamente. Bellaa assoprou o restante do pó em seu dedo, cobrindo o rosto do príncipe com partículas cintilantes. Ele espirrou.
— Desculpe-me, Alteza.
Com a mão, ele limpou o rosto. Uma partícula continuou brilhando no nariz. Sem pedir licença, Bella removeu-a com a ponta do dedo sob o olhar espantado do príncipe.
Os lábios dele se curvaram levemente num sorriso devas¬tador. Ela se arrepiou toda. Ficou tensa. Não fazia o menor sentido. Não podia sentir-se atraída por ele. Não podia estar desejando que ele a beijasse de novo.
— O que faremos agora, Alteza?
Em vez de alimentar os sonhos dela, ele apontou para o título do livro. A Lenda do Anel.
— Vamos ler.
Não havia razão para sentir-se desapontada ou rejeitada. Lembre-se, ele não é o homem certo para você. Um beijo era mais do que suficiente. Ela não queria mais complicações. Ume-deceu os lábios secos.
O príncipe Edward abriu o livro. As páginas, amareladas e cheirando a mofo, eram verdadeiras obras de arte. Douradas, com desenhos feitos à mão e bordas coloridas.
— Este livro deve ter centenas de anos! — Bella olhava admirada. O texto, manuscrito com letra elaborada, era um trabalho artesanal. — O que está escrito?
— A Lenda do Anel através dos Tempos — Edward virou a página e leu-a em voz alta.
Depois de alguns trechos, interrompeu . Ao longo dos anos, geração após geração, a lenda provava ser verdadeira. Em cada caso, o anel servira no dedo da moça e o casamento real acontecia no prazo de uma semana, o que tornava a si¬tuação deles mais desanimadora.
Bella retomou a leitura.
—Esta é a última história e data do final do século dezessete. - Quase no fim do relato, Bella fez um aparte. — Alteza, ouça isto: "Três dias antes do casamento, o anel saiu do dedo de Patrícia."
Lá estava! Exatamente o que eles procuravam. Os olhares se encontraram por um instante. Depois, Bella continuou:
— "O conselheiro real declarou a lenda inválida. Uma vez que o anel não estava mais no dedo de Patrícia, o casamento não devia ser..."
— Como o anel saiu do dedo da moça? — Edward inclinou-se e os ombros de ambos se tocaram. O perfume cítrico dele deixou-a nervosa.
— Deixe-me ver. — Procurando pelo tópico, ela ignorou a pressão da coxa dele contra a dela. Tão quente. Tão rija. — Onde eu estava? "O anel..." Não, não é... Ali, aqui. "O casamento não devia realizar-se. Mas o príncipe explicou ao conselheiro que retirara o anel do dedo de Patrícia para poder pedir-lhe formalmente em casamento. Ele a amava e queria se casar com ela. Lenda ou não."
— Droga!
Bella mordeu o lábio.
— Odeio dizer isto, mas parece que Emmet tem razão. Só o verdadeiro amor poderá remover o anel.
Antes que o príncipe Edward respondesse, Merlin entrou abruptamente na sala.
— Se Sua Alteza se casar com a mulher a quem escolher, eu ganho a recompensa, mesmo sem ter conseguido remover o anel?
O príncipe hesitou por um momento.
— Sim... desde que não faça nada de ilegal.
— Maravilha, Alteza! — Merlin sorriu de orelha a orelha.
— Eu encontrei uma solução. Duas, na verdade.
Merlin considerava aquilo uma solução? Andando pela sala, Edward inclinava a cabeça para não bater nas flores que pendiam do teto.
— Não me importa o que você diz, Merlin. Não vou me apaixonar por ela!
Bella apertou os lábios.
— Nem eu por ele — garantiu ela.
Merlin cerrou o cenho.
—Que pena eu não ter as histórias dos casos mais recentes, incluindo a história dos seus pais, Alteza.
Edward parou de andar e cruzou as mãos nas costas.
— Bobagem! São contos de fadas.
— Como pode dizer isso? Vocês leram o livro. Se vocês se apaixonarem, o anel sai do dedo dela. Esse é o caminho maisfácil. Posso preparar uma poção do amor. Nunca tive muito sucesso com a número 9, mas a número 23 junto com a número 30 são infalíveis.
— Não! — Bella e Edward gritaram em uníssono.
— Crianças, crianças. — Merlin massageou as têmporas. — Bem, então, só nos resta a outra solução.
— Eu não chamaria isso de solução. — Edward protestou.
— Uma hora ou outra, nós mesmos teríamos essa ideia.
Merlin cruzou os braços e fez beicinho como uma criança.
— Mas eu pensei primeiro, Alteza.
— … verdade. — Isso significava que Edward iria revirar o mundo em busca de uma esposa e que manteria a palavra quanto à recompensa. — Mesmo assim, teremos complicações.
— Complicações menores, talvez. Porém, a escolha será sua, Alteza. Não é esse o seu desejo?
— Sim, mas...
— Tudo será resolvido, Alteza. — Bella levantou-se. — Claro, ainda temos que descobrir uma maneira de tirarmos o anel do meu dedo, mas, pelo menos, você manterá o trono.
O tempo se esgotava e Edward preocupava-se com o anel ainda no dedo de Bella. A cada segundo que passava, ele ficava mais próximo do dia do casamento. Ele também se preo¬cupava com a legalidade do plano. Logicamente, fazia sentido, mas as leis nem sempre são lógicas.
— Sim, mas...
— Não vejo onde poderíamos errar. — Bella enfaixou a mão e vestiu as luvas. — Não se nós dois trabalharmos juntos.
— Concordo — disse Merlin.
— Você encontrou a melhor solução. — Ela beijou Merlin no rosto. — Obrigada.
— Você seria uma princesa adorável — respondeu ele.
Bella corou.
— Você é muito gentil.
— E você, muito querida. — Merlin suspirou. — Alteza, tem certeza de que não deseja se casar com a srta. Swan?
— Certeza absoluta. Pronta para ir embora?
— Estou. — Os olhos dela brilhavam. — Temos muito o que fazer, se quisermos encontrar uma esposa a tempo.
Apressados, Edward e Bella seguiram em direção à pra¬ça onde Emmet os esperava.
— Sua Alteza pretende casar-se na igreja ou só no civil? — Bella perguntou.
— O quê?
— Precisamos planejar o casamento. Assim que encontrar¬ mos a noiva, não poderemos perder um minuto.
— Há anos, estou procurando a mulher ideal. Você acredita mesmo que, de repente, vou encontrá-la num final de semana?
Ela ergueu os ombros e abriu os braços.
— Você tem escolha?
Edward hesitou. Bella usava o anel. Portanto, ela era a suposta noiva. De short, as pernas dela pareciam mais com¬pridas. Mechas de cabelos castanhos avermelhados escapavam por baixo do cha¬péu. A brisa do mar só acentuava sua fragrância floral. E os lábios...
Ela era a escolhida pela lenda, porém, a última coisa que desejava, era casar-se com um príncipe. Ela queria um cowboy, como o que desenhara. Além do mais, não poderia desposá-la, mesmo que quisesse.
— Não, eu...
Uma brecada. Batidas de porta. Um flash. Gritos.
— Lá estão eles! — exclamou uma voz masculina. — Alteza?
— Esta foto vai garantir até a faculdade do meu filho! — exclamou o outro repórter.
Segurando a mão de Bella, o príncipe correu pela rua de pedra. Entraram por uma alameda e esconderam-se no jar¬dim de uma casa.
Ouviram o som de passos. Ele levou o dedo aos lábios, pe¬dindo silêncio. Bella meneou a cabeça, concordando.
— Acho que eles vieram para cá — disse um dos repórteres.
— Será que saíram para um encontro amoroso? — ironizou o outro. — Pena que não os surpreendemos em Astarte. Eu queria tanto ver as jóias de Isabella!
Ambos riram.
—Eu também. Mas temos de nos contentar com o que conseguirmos.
.Edward enfureceu-se. Não era só o desrespeito deles. Era toda a imprensa glorificando a lenda, fazendo com que todos os cidadãos de San Montico acreditassem piamente naquela bobagem. O povo estava encantado, obcecado era o termo exato, pela magia. Ele se cansara.
Contou até três e saiu do esconderijo. Num instante, repór¬teres e câmeras estavam no chão e os filmes destruídos. Fácil demais.
Só que Edward não olhou para trás. Um telefone e a notícia estava dada. O príncipe e sua noiva passeando pelas ruas de San Montico. Precisava tirar Isabella dali antes que alguém mais os visse.
Correram até encontrar uma porta aberta. Entraram num pátio e fecharam o portão.
O rosto de Bella estava vermelho e ela ofegava.
— Tudo bem? — Edward perguntou.
— Tudo. Eu pensei que estivesse em melhor forma física.
Essas ladeiras são de arrebentar as pernas!
E que pernas! Hora de agir corrio príncipe, não como homem. Ele virou o rosto.
— Acha que os despistamos? — Bella indagou.
Ele prestou atenção nos ruídos da rua e nada.
— Por enquanto.
— Otimo. A propósito, sua performance foi impressionante.
Os príncipes também aprendem essas coisas?
— Claro. Temos aulas especiais de como lidar com a im¬prensa como verdadeiros cavalheiros.
— Adoraria ver como você os trata quando não se comporta como um cavalheiro — disse sorrindo.
Se ela ficasse na ilha por muito tempo, certamente, teria a oportunidade de ver.
— Vamos andando. Temos que encontrar Emmet.
— E os fotógrafos?
— Seremos cautelosos.
Na praça, o príncipe Edward olhou ao redor, depois consultou o relógio de pulso.
—Emmet está atrasado.
Bella sentou-se no banco de concreto, tirou o boné e penteou os cabelos com os dedos. Precisava de um banho e do café da manhã.
— Talvez, ele tenha perdido a hora.
— Ele é sempre muito pontual — Edward afirmou.
— Logo ele estará aqui, Alteza.
Felizmente, ela podia relaxar um pouco depois da corrida até a praça. Fora difícil acompanhar o ritmo dos passos do príncipe, mas, em compensação, pudera admirar o belo físico dele. O short branco contrastava com a pele bronzeada e as gotas de suor que cobriam-lhe os braços e as pernas, brilhavam ao sol.
Bella respirou fundo. O que estava fazendo?
Não devia estar suspirando por ele como uma adolescente. Devia, sim, ajudá-lo a encontrar uma esposa. Não se permitia o luxo de sentir-se atraída por ele.
— Por que não senta, Alteza?
Voltando-se, ele tocou-lhe a ponta do nariz com dedo.
— Seu nariz está ficando vermelho. Coloque o boné.
Sentiu uma ardência na pele. Não pelo sol, mas pelo toque.
— Estou precisando mesmo de um pouco de cor.
Ela o fitou. O rosto dele estava bronzeado por igual. O olhar deteve-se nos lábios dele. Pareciam esculpidos. Cheios, dignos de serem beijados. O beijo da noite anterior apenas estimulara o apetite dela. Ela queria provar mais.
Não, Bella ralhou consigo mesma. Não queria beijá-lo. Nunca mais.
— Quais são os requisitos, Alteza?
— Requisitos?
— Para a candidata.
— Eu tenho uma lista.
Uma lista?
Exatamente como Bella pensava. Em compensação, ela tivera tão poucos namorados. A pintura ocupava-a demais. E quase todos os candidatos a marido em potencial que alguém sempre lhe apresentava, eram clones mais jovens do pai dela. O último tipo de homem com quem ela se casaria. Depois de um príncipe, claro. Quando ela se mudasse para o oeste...
Ela descalçou as sandálias.
— Que tal um banho gelado?
— Eu...
Sem esperar pela negativa dele, Bella correu para a fonte e pulou para dentro da água.
— Que delícia! Não quer aproveitar?
O príncipe olhou ao redor.
— Por que não?
— … o que sempre digo.
Ele tirou os ténis e as meias e entrou na água.
— … muito refrescante mesmo!
O sorriso dele lembrava o de uma criança. Ela podia ima¬ginar o príncipe em criança de cabelos lisos, brilhantes olhos verdes e sorriso encantador.
— Nunca me imaginei assim, Isabella.
Ela jogou água nele.
— E assim?
— Talvez. — Rindo, ele jogou-lhe água também.
Ela tentou fugir, mas bateu as costas num golfinho. Presa. Ele se aproximou. Mais e mais, até parar diante dela. Apenas alguns centímetros de distância.
Bella estremeceu. O hálito quente acariciava-lhe o pes¬coço, provocando-lhe ondas de desejo pelo corpo inteiro. A água batia-lhe nas pernas, mas não conseguia esfriar o calor que crescia dentro dela.
Viu o brilho do desafio nos olhos dele. Mas ela não podia provar daquela água. Uma onda imensa esperava para arras¬tá-la mar adentro. Seu lado racional dizia-lhe para não se dei¬xar levar. Mas o outro lado queria...
Bella não conseguia fitá-lo nos olhos sem sucumbir a tanto charme. Ela andou para o lado e perdeu o equilíbrio. O príncipe amparou-a. Segurou-a por um momento e ela gostou da sensação de segurança dos braços dele. O calor das mãos queimavam-lhe a pele sob a camiseta. O perfume de Edward intoxicava-a.
Ele não era um simples mortal. Não podia ser.
— Você está bem? — Os olhos dele brilhavam de preocupação e algo mais que
Bella não tinha certeza de querer ver.
Sem confiar na voz, ela balançou a cabeça num gesto afirmativo.
— Cuidado, não quero que se machuque — murmurou ele.
Então fique longe de mim. Fique longe, bem longe.
No instante seguinte, os lábios dele estavam sobre os dela. Gentis, ternos. Doces.
E então... A gentileza e a ternura desapareceram. No lugar deles, força, fome, desejo. Paixão pura, intensa e incontrolável.
O céu devia ter o gosto do príncipe Edward porque um beijo tão avassalador, tão sufocante, tão perfeito, só podia ser uma dádiva.
Diga-me que sente o mesmo. Bella encostou a mão no peito másculo e sentiu-lhe as batidas fortes e descompassadas do coração.
Ele espalmou as mãos nas costas dela, puxando-a para si. Bella encostou o corpo no dele, correspondendo com o mes¬mo fervor e ansiedade. Nada importava, só aquele momento, só ele. O sangue fervia nas veias. As sensações pulsavam dentro dela. Uma dor pungente provocou um débil gemido. Ela o de¬sejava. Precisava dele.
— Edwa...
Abruptamente, Edward se afastou. Bella sentiu que uma parte de si ia com ele.
— Foi... — O príncipe tomou o rosto dela entre as mãos.
— Um erro.
Quando entendeu o que ele dissera, a decepção e dor atin¬giram-lhe o coração. Claro, fora um erro. E daí que o beijo fora tão devastador? Edward era tão bonito, sensual, encan¬tador. Tão príncipe. Ela estremeceu.
- Isabella...
— Foi um erro, Alteza. — Ela ergueu o queixo e sustentou o olhar dele. — Um erro que não se repetirá.
Tudo o que Bella queria, era encontrar uma noiva para o príncipe Edward. Nos lábios, ain¬da sentia o calor e a pressão do beijo dele. Isso a deixava furiosa. Com ele, com ela.
Sobre a escrivaninha do quarto, alguns livros com o registro da aristocracia europeia. Ao lado, um bloco com o nome das mu¬lheres que ela conseguira lembrar-se. Amigas, amigas das amigas, estrelas de cinema. Logo de cara, uns cinquenta nomes. Só de plebeias, a maioria de americanas. Talvez, Edward preferisse uma moça de sangue azul, depois do que acontecera com Tania.
Respirando fundo, começou a folhear os livros à procura de uma provável candidata. De repente, a imagem de Edward surgiu-lhe na mente.
Na fonte, ela se sentira sensual e vibrantemente viva, como nunca acontecera antes. Ele também não ficara indiferente ao beijo. Sentira-lhe o coração bater tão forte e rápido quanto o dela.
Que importância tinha o que ele sentira? Afinal, fora apenas um beijo. Um beijo que não mudava nada. Edward tinha planos. Ela também. Talvez não exatamente planos. Apenas esperança de mudar-se para o oeste, onde teria mais facilidade para encon¬trar o homem dos seus sonhos. Casamento com um príncipe não fazia parte do quadro, e tornar-se princesa estava fora de questão.
Voltou a atenção para os livros. Decidiu selecionar pela data de nascimento. Logo, na lista identificada como "Realeza", tinha cinco nomes. Estava sendo mais fácil do que imaginava.
O telefone tocou. Ela atendeu.
— Alô?
— Alô, querida!
Imediatamente, reconheceu a voz da mãe.
— Mãe!
— Ainda bem que a encontrei antes de sair. Seus pés já tocaram o chão? Os meus ainda não! Estou exausta. Tenho que cuidar de alguns detalhes de última hora antes de ir para Nova York. — Finalmente, Renée parou para respirar. — Tive uma manhã atarefadíssima.
— Você está bem, mamãe?
— Estou perfeitamente esplêndida — Renée respondeu com voz alegre. — Assim que chegar em Nova York, vou direto à Bergdorfs. Temos que fazer bonito diante da família real.
Bella suspirou. A mãe fazia das compras um estilo de vida.
— Não há necessidade de tanto trabalho.
— Não é trabalho. Tenho minha participação nisso tudo. Se não fosse por mim, você não teria ido ao baile de aniversário do príncipe. Eu não disse que seria muito bom você ir a San Montico?
— Disse.
— Oh, querida, você deve estar tão radiante!
— Radiante não é nem o começo de como estou me sentindo, mamãe.
— Imagino, meu bem. Como estão os preparativos para o casamento?
— O papai e a princesa Esme estão cuidando de tudo..
— Os bailes filantrópicos da princesa são três magnifique.
Ela tem um gosto requintadíssimo.
Tudo que dizia respeito à princesa era requintado. A esposa de Edward deveria ter as mesmas qualidades, ou ela se sentiria ofuscada pelo brilho da princesa Esme.
— Tem, sim.
— Kelsey chegará logo. Você sabe, ninguém organiza um casamento melhor do que ela. Sua prima é extraordinária.
Kelsey. Bella anotou o nome dela na lista das plebeias. Kelsey sofrera muito com o divórcio dos pais e jurara jamais casar-se, mesmo adorando coordenar o casamentos dos outros.
— E você, minha pequena, será uma princesa extraordinária.
O orgulho que pulsava em cada palavra de Renée, provocou tremores em Bella. Renée teria um ataque de nervos quan¬do Edward se casasse com outra mulher.
— Ainda não sou princesa.
— … só uma questão de tempo, querida. Você será parte da realeza. — Renée suspirou. — Estou tão emocionada.
Bella coçou o queixo. Uma vez mais, desapontaria seus pais. Uma vez mais, seria um escândalo público. Finalmente, ela conseguira atrair a atenção dos pais, mas, não poderia casar-se apenas para satisfazê-los. Por mais que quisesse o amor dos pais.
Um elegante longo azul, desenhado por Delia, chegou à suíte, junto com um convite para a festa de comemoração do próximo casamento real. Bella não queria vesti-lo, mas temendo ofender a princesa Esme, acabou concordando.
Mais tarde, como Bellaa tinha imaginado, o palácio ganhou vida sob o prodígio da lenda. O requinte da decoração, o quarteto de cordas, a excelência da comida, criavam o clima de contos de fadas. Mais uma vez, Bella sentia-se a Cinderela do baile.
Circulando entre os convidados, ela recebia os cumprimentos e os votos de felicidades. Sorridente, a princesa Esme não escondia sua alegria.
O marquês flertava com mulheres bem mais jovens, divertin¬do-se a valer. Charlie Swan estava em seu elemento, discutindo negócios e finanças com a elite europeia. Era só felicidade.
Edward também conversava com os convidados. Mas, pelo sorriso tenso e olhar distante, Bella juraria que ele estava apenas tolerando aquela festa.
Como ela deveria estar.
Mas...
Ouvindo as palavras sinceras dos convidados, vendo a ale¬gria espontânea no rosto deles, percebendo que era aceita no restrito círculo da realeza, Bella sentia-se verdadeiramente como noiva do príncipe.
E ela gostava dessa sensação.
Mas não deveria entusiasmar-se. Guardara a lista de candi¬datas, agora em número reduzido, dentro do sapato, e cada vez que dava um passo, o papel pressionava o pé esquerdo, fazendo-a lembrar-se do acordo. Além disso, não podia esquecer que aquilo tudo era uma encenação. Que a noiva seria outra mulher.
Com passos lentos, ela escapou da festa, procurando refúgio no terraço. A noite não tinha nada a ver com ela, mas tinha tudo a ver com o anel.
O anel.
O anel não apertava, nem pressionava. Era como se estivesse no dedo. Porém, sob a luva branca, o anel estava lá, firme.
Por alguns momentos, nem se lembrara dele. A mágoa mistu¬rava-se com alívio. Uma parte dela queria que o anel caísse do dedo, desaparecesse e nunca mais fosse encontrado. Mas a outra parte queria...
O que faria?
Encostou-se no pilar de pedra e suspirou. O ar gelado da noite espalhava o perfume de gardênias, rosas e sal. A lua iluminava o céu estrelado. As cigarras, as folhas ao vento e as ondas, criavam uma sinfonia própria, intensificando o encanto da ilha.
— Sabia que a encontraria aqui, querida.
Voltando-se, Bella viu o pai aproximando-se. O sorridente pai da noiva trazia duas taças de champanhe. Ela nunca o vira tão feliz. Sentiu uma pontada no coração ao pensar no quanto ele ficaria desapontado com o casamento de Edward com outra mulher.
— Precisava de ar fresco.
— Foi uma longa noite. Alguns convidados já estão se despedindo. — Ele lhe entregou uma das taças. — Que festa, hein?
— Bem interessante. — Tantos duques, duquesas, condes, condessas. Depois de ler tantos nomes nos livros de registro da nobreza, ela não esperava conhecer muitos deles com tanta rapidez. — Eu queria...
— Diga-me o que você quer, e eu o farei para você.
Agora que ela ia se casar com um príncipe, tudo mudara.
O que quer que ela quisesse. Nada de sermões. Nada de olhares reprovadores. Nada de querer o que ela não teria. Era uma pena que isso não duraria muito.
— Eu apenas queria que tudo estivesse terminado.
Charlie sorriu.
— Logo estará terminado.
Não tão depressa assim. Bella bebeu um gole de champanhe.
— Meus advogados estão cuidando de tudo.
O pai dela nunca entendera que o homem com que ela queria se casar poderia não interessar-se pelo dinheiro da família. Nesse caso, porém...
— Não é necessário um contrato pré-nupcial.
— O príncipe Edward parece ser um homem honrado, mas é para sua proteção, minha filha.
— Nunca quis seu...
— Deixe que eu cuido dos negócios. Tenho experiência suficiente para saber quais precauções tomar. — Charlie acariciou-lhe os cabelos, como costumava fazer quando Bella era criança. Ela se conteve para não atirar-se nos braços do pai e pedir-lhe para fazer tudo direito. Os olhos dele brilharam. — Imagine, parece que foi ontem que trouxemos você do hospital, e logo, logo, você estará casada. Onde foram parar esses anos todos?
Nas reuniões de negócios, viagens de negócios, férias, trabalho...
Ela terminou o champanhe.
— O tempo passa rápido para quem está feliz.
— Algo errado, Bella?
— As coisas estão acontecendo rápido demais, papai. Mal conhecemos os Cullens e, de repente, estamos todos alvoroçados, a mamãe comprando meu enxoval, Delia costurando meu vestido de noiva... — As palavras precisavam ser ditas.
Bella não podia segurá-las mais. — Você não acha que devíamos dar um tempo? Fazer as coisas com calma? Adiar a cerimónia por uns dias, semanas?
— Se você não se casar com o príncipe Edward, ele perderá o trono. Você não quer que isso aconteça, não é?
Ela olhou para os jardins lá embaixo.
— Não.
— Não parece. — Com a ponta do dedo, ele ergueu o queixo da filha. — Sei que você sempre viveu um tanto reclusa, que não tem... muita experiência com os homens, mas...
— Não estou preocupada com isso.
Com expressão de alívio, Charlie respirou fundo.
— "timo, porque esse assunto já é departamento de sua mãe.
Bella meneou a cabeça.
— Sua mãe ficou muito nervosa depois do nosso casamento. Ela achava que ia dar tudo errado, mas deu tudo certo!
— Ela sempre diz que foram os dias mais felizes da vida dela.
— E os seus também serão muito felizes, meu bem. — Ele a enlaçou pelos ombros. — Estou cuidando de tudo. Seu casa¬mento será perfeito.
— Não é o casamento. …...
O som de passos interrompeu-a. Era Edward caminhando na direção deles.
— Algum problema? — perguntou o príncipe.
Charlie riu.
— Apenas nervosismo pré-nupcial.
Edward fitou-a.
— Você está bem, Isabella?
— Muito bem, Alteza. — No tom de voz, uma leve hesitação.
— … a minha menina. — Charlie ergueu a taça para ela. — Sua mãe e eu estamos muito orgulhosos de você. Sempre sou¬ bemos que, um dia, você faria algo brilhante, e que não passaria sua vida pintando aqueles quadrinhos.
Bella tentou ignorar as palavras do pai e o desprezo dele e da mãe pelo seu modo de vida. Ninguém da família a entendia. Ela não combinava com a imagem de um Swan bem-sucedido.
Na história da família havia médicos, advogados, políticos, cientistas e executivos, todos famosos e bem conceituados. Ar tistas não se encaixavam no currículo familiar. Bella era uma das duas Swan que não tinham curso superior. Po rém, até mesmo a prima Kelsey encontrara o sucesso como consultora de casamento de pessoas famosas.
— Acho ótimo Bella pintar animais — afirmou Edward — Quem não gostaria de ter o retrato de seu bicho de estimação? Eu mesmo vou encomendar um quadro do meu cavalo, Beauté du Diable.Isto é, se você me der essa honra.
Honra? Ora, ele estava apenas sendo educado. Mesmo assim...
O coração de Bella disparou. O peito se apertou. Não podia respirar. Sentia calor. Piscou para espantar as lágrimas que tei mavam em escorrer pelo canto dos olhos. Naquele momento, quis enlaçar Edward, abraçá-lo, beijá-lo, casar-se com ele.
— Gostaria muito de pintar Beauté du Diable.
Beleza do Diabo. Nome interessante para um cavalo.
Charlie sorriu.
— Bella pinta muito bem, Alteza.
Por mais que os clientes valorizassem seu trabalho, o que ela sempre esperara era o reconhecimento, uma palavra de incentivo dos pais. Agora, porém, as coisas estavam mudando.
— O retrato será um belo presente de casamento — Charlie acrescentou.
Isso também já era demais. Seu pai estava apenas tentando agradar o príncipe. Bella olhou para a lua.
— Temos que agradecer à minha mãe pela festa. — Edward pegou no braço dela. — Com licença, sr. Swan.
— Pois não, Alteza. — Charlie afastou-se para Bella passar.
Edward levou-a para dentro do salão. A festa ainda estava
animada. Todos os olhares pareciam voltados para eles, observando-lhes todos os passos. Bella detestava essa vigilância. Detestava ser o centro das atenções.
— As pessoas estão olhando — murmurou ela.
— Ignore-as — o príncipe ordenou como se fosse fácil fingir que ninguém os observava. — Depois que falarmos com minha mãe, poderemos nos retirar.
— Não podemos sair agora. — Bella sentiu-se constrangida por lembrá-lo da etiqueta. — A festa éem nossa honra.
— Eu faço o que quiser. — Edward franziu a testa. — Sou o príncipe.
— Sabe o que as pessoas pensarão se nos virem saindo juntos?
— Não estou nem um pouco preocupado. — Ele lhe estendeu a mão.
— Alteza... — Ela tentou não sorrir quando pegou na mão dele.
— As pessoas pensarão exatamente o que queremos que pensem.
Os olhares se encontraram e Bella sentiu-se como se eles fossem as duas únicas pessoas naquele palácio. O coração dela descontrolou-se.
Parecia enfeitiçada. O corpo inteiro formigava, como se al guém tivesse jogado pó mágico sobre ela.
—E como queremos que pensem?
—Que estamos apaixonados e ansiosos para nos casarmos.
Engraçado. Mas quando ele a olhava daquele jeito, ela quase acreditava.
Edward não acreditava. Cada vez que olhava para a mãe, surpreendia-se mais. Sim, ele queria que a princesa quebrasse o luto, mas não por causa da Lenda do Anel.
Quem precisava de um anel encantado para encontrar uma noiva, se tivesse uma mãe igual a dele? A princesa Esme desempe nhava maravilhosamente bem o papel de santa casamenteira.
Ela se mostrara mais do que compreensiva quando os noivos falaram em sair antes do término da festa. Até mesmo sugerira um passeio pelos jardins e praticamente os empurrara porta a fora para verem a lua. Qualquer coisa para unir Edward e Bella. Qualquer coisa por netos.
E, para desespero de Edward, a estratégia estava funcionando.
Ele não podia permitir que isso acontecesse. Já pensava demais em Bella. Não acreditava em magia, mas era im possível ignorar as evidências. Tinha que evitar qualquer coisa que pudessem considerar como romântico. Em vez de um pas seio, ele levou Bella até o escritório, o lugar mais seguro e menos romântico do palácio. Era o que sempre pensara. Agora não tinha tanta certeza. Ela suspirou.
— Não sei como você consegue trabalhar tendo diante de si uma vista como esta.
Edward olhou para as luzes da cidade brilhando ao longe, decorando as montanhas como pequenas estrelas. Depois, voltou-se para Bella. Os cabelos presos no alto da cabeça realçavam a curva graciosa do pescoço. O decote do vestido azul claro revelava a pele macia e tentadora. Uma visão deslumbrante.
—Eu me esforço — ele brincou.
—Tenho certeza que sim. — Ela o fitou. — Como foi seu trabalho esta tarde?
Além da rotina diária, o príncipe verificara e aprovara o balancete, o orçamento para a nova temporada do Conselho Real de Artes. Um típico dia de trabalho.
—Normal, com os afazeres de sempre.
—Eu também trabalhei um pouco. — Ela descalçou o sapato esquerdo, de onde retirou um pedaço de papel dobrado.
Edward não conteve o riso.
— O que é isso?
Bella desdobrou o papel.
—Antes, quero agradecer-lhe pelo que disse ao meu pai sobre minhas pinturas. — Ela alisou as dobras do papel. — Foi... amável e significou muito para mim.
O príncipe sorriu.
—Quero, realmente, que pinte Beauté du Diable.
—De verdade? Você nunca viu meu trabalho!
—Vi o esboço do cowboyno cavalo.
—O cowboy?
—No seu quarto, esta manhã.
—Oh, é mesmo! — Ela tornou a alisar as dobras do papel. — Um esboço é diferente do trabalho pronto.
—Pelo modo como seus olhos brilham e seu rosto se ilumina quando você fala do seu trabalho, aposto como você é boa pintora. Você ama seu trabalho, e quem ama o que faz só pode ser bom.
O sorriso tímido dela impressionou-o.
— Ninguém, nem mesmo sua família, pode subestimar o seu talento.
— Minha família tem grandes expectativas. — Bella colocou o papel sobre a escrivaninha e correu o dedo no espaldar da poltrona de couro. — Sabe o que eu costumava... Oh, esqueça!
Ele se inclinou, curioso com o tom melancólico.
— Fale.
— É tolice.
Edward sentou-se na beira da escrivaninha.
— Todos nós temos coisas tolas em nossas vidas. Você vai contar a sua?
Bella ergueu uma sobrancelha.
— Até mesmo você?
— Uma ou duas.
— Ela riu.
- Tantas assim?
Edward encolheu os ombros.
— Se eu contar alguma tolice, você me contará a sua?
— Ok.
Ele não costumava abrir-se em confidências, mas alguma coisa em Bella...
— Quanto eu tinha sete anos, meu pai comprou-me uma luva de beisebol e levou-me para ver um jogo dos Yankees. Ainda me lembro do cheiro da grama recém-cortada e do gosto do cafchorro-quente. Eu nunca tinha comido um cachorro-quente antes. Foi o dia mais perfeito da minha vida.
— Foi mágico.
— Foi — A bola ainda estava guardada em algum lugar. A luva também. Estranho ele nunca mais ter se lembrado da visita ao Yankee Stadium. Até aquele momento. Até Bella entrar em sua vida. — Eu sonhava ser um grande jogador de beisebol, vencer oGold Glovee ser convocado para disputar o campeonato mundial.
As lembranças fizeram-no sorrir.
— Viu? É tolice.
Bella sorriu também.
— Não acho que seja tolice.
— Claro que é, considerando que a minha vida já estava determinada, mesmo antes de eu nascer. Sua vez.
Com a ponta da língua, ela umedeceu o lábio inferior.
— Quando criança, eu pensava que tinha sido trocada na maternidade. E que se encontrássemos a verdadeira Swan, a troca seria desfeita e tudo ficaria bem. Ela poderia nadar em caviar, e eu me fartaria com hambúrgueres.
—Hambúrgueres?
—Isso mesmo! Minha mãe teria um ataque se soubesse que gosto mais de hambúrguer do que de caviar. — Ela riu — Eu disse que era bobagem, mas eu ficava imaginando como seriam os pais dessa menina, meus verdadeiros pais.
—Como eles eram na sua imaginação?
—Bem, o pai trabalhava num posto de gasolina. Ele saía cedo trabalho e tinha tempo para ajudá-la nas lições de casa e de vê-la atuar nas festas da escola. Ele sempre tinha uma palavra de incentivo e um abraço carinhoso. A mãe estava sempre em casa e adorava cozinhar, principalmente bolos e bolachas. Ela também costurava e não se importava com as cores e os modelos da moda.
—Alguma vez você comentou isso com seus pais?
—Você está brincando! — Bella ficou séria. — Sei que tenho muito mais do que a maioria das pessoas, mas é errado querer...
—O quê?
—Menos, não... mais. Não estou falando de roupas, de jóias, de carros, de casas maravilhosas. Mais família, mais tempo, mais... amor.
Até aquele momento, Edward nunca parara para pensar na sorte que tivera. Ele sempre vivera cercado por pessoas que o aceitavam, que o apoiavam, que o amavam. Sua família sem pre estivera ao lado dele, incondicionalmente, em qualquer si tuação. Enquanto Bella...
Uma onda de ternura invadiu-o. Segurando o rosto dela entre as mãos, ele a forçou a olhá-lo. Sardas douradas salpi cavam-lhe o nariz, uma cor rosada coloria-lhe as faces.
—Não é errado querer mais. Todo mundo quer mais.
—Você também? — Ela piscou, os cílios batendo como asas de borboleta. Os lábios ligeiramente abertos. Rosados, cheios e macios. Lábios feitos para sorrisos radiantes. Lábios feitos para beijos demorados, úmidos.
Sim, ele queria mais. Edward a queria.
