Capítulo 2

A cicatriz

Harry estava andando por um lugar que parecia muito familiar a ele. Uma pequena vila, com casas bem decoradas e uma igrejinha. Andava tentando passar despercebido, olhando para todos os lados, com um capuz sob a cabeça.

Em sua mente ele tinha um único objetivo: um pequeno bebê de cabelos pretos, com feições que ele conhecia. Parecia muito com ele, mas não podia ser. Afinal, ele estava ali, andando pelo vilarejo.

Parou em frente a uma casa, com uma alegria anormal pulsando no seu peito. Apenas um portãozinho o impedia de entrar na casa. Com a perícia que tinha, Harry tirou algo semelhante a um graveto das vestes que usava e disse algo como:

Alohomora.

E então o portãozinho se abriu. Dentro da casa, alguém parecia ter percebido aquilo e podia-se ouvir duas pessoas conversando.

— Ele está aqui! — disse uma voz feminina.

— Acalme-se! — respondeu uma voz masculina. — Eu vou atrasá-lo! Vou ganhar tempo pra você!

— Não! Tiago, não!

Harry caminhava pelo caminho acimentado em direção à porta, que estava trancada. Mas ele apontou o graveto para a maçaneta e pronunciou novamente:

Alohomora.

E a porta se abriu.

A sala em que ele entrou tinha uma escada logo a frente e um homem de cabelos pretos e óculos redondos desceu as escadas correndo, com um graveto também empunhado.

Harry não tinha tempo para atrasos, queria logo aquele bebezinho e, por impulso, ergueu o graveto e pronunciou:

Avada Kedavra!

O homem, por sua vez, ergueu o graveto e pronunciou:

Expelliarmus!

Um raio esverdeado partiu do graveto de Harry e colidiu com o raio vermelho que partiu do graveto do homem de óculos.

— Saia da minha frente, Potter! Vou poupar sua vida! — disse Harry com uma voz fria.

— Nunca, você nunca vai pegá-lo! — respondeu o homem.

Harry ficou irritado e aplicou mais força no graveto. O raio esverdeado começou a avançar e o raio avermelhado começou a recolher. O homem de óculos arregalou os olhos e viu o que iria acontecer: iria perder. Até que não teve mais jeito, o raio esverdeado avançou de tal maneira que atingiu o homem, que caiu no chão como uma marionete, aparentemente morto.

Harry riu consigo mesmo, passou por cima do corpo sem vida do homem com quem duelara e começou a subir as escadas. Chegou num corredor que possuía uma bifurcação, cada uma terminava numa porta.

Uma das portas estava fechada. Deve ser aquela, pensou ele. Dirigiu-se para ela e viu que estava trancada. Não seria problema, pronunciou "Alohomora" e a porta se abriu.

Uma mulher de cabelos ruivos com um graveto empunhado estava de pé, em frente a um berço, encarando Harry com lágrimas no rosto, abrindo os braços para proteger algo que estava no atrás dela, aparentemente num berço.

— Afaste-se. — ordenou Harry, imponente.

— Não! — disse ela.

— Ora, não torne as coisas mais difíceis. Saia da frente e sua vida será poupada!

— Não! Você não vai matá-lo! Não ele!

— Saia da frente, Lílian! Não quero ter que matá-la!

— Não! Você não vai matar o Harry! Me mate em seu lugar!

— SAIA DA FRENTE!

— Não! Por favor! Não mate o Harry! Me mate no lugar dele!

AVADA KEDAVRA! — apontou o graveto para a ruiva, que não se defendeu, e um lampejo esverdeado atingiu-a, deixando-a caída no chão.

Sorriu, pois ali na sua frente encontrava-se o seu objetivo: o bebê, que se encontrava dentro do berço. Ergueu seu graveto para o rosto da criança, mais feliz do que nunca. Dos olhos da criança escorriam lágrimas, o choro incontrolável. A mãe estava morta! Fora morta por aquele homem encapuzado, e talvez teria o mesmo destino.

— Disseram que você iria me derrotar... — disse para o bebê, como se ele fosse entendê-lo. — Que tolice... Nem seus pais conseguiram! Você já era, Harry Potter!

Um lampejo de luz esverdeada irrompeu do graveto de Harry e atingiu o bebezinho...

Harry acordou assustado, ofegando. Esfregou os olhos para tentar enxergar na escuridão. Não conseguia se lembrar muito do sonho. Lembrava de ter visto um bebê e muitos lampejos esverdeados. Pegou os óculos redondos que estavam perto de sua cama e colocou-os. A cicatriz em sua testa ardia como nunca tinha acontecido antes. Abriu a porta e viu-se num corredor.

Estava dormindo no armário embaixo da escada, pois tinha feito algo considerado muito feio por seus tios, os Dursley.

Os Dursley puniam Harry por qualquer coisa que ele fizesse. Se ele espirrasse era punido, se fosse ao banheiro era punido. Ele estava ficando cansado de ser maltratado.

Dormia dentro do armário porque seu primo, Duda, filho dos seus tios, tinha o acusado de ter quebrado o brinquedo preferido dele. Os tios não discutiram com o filho e arrastaram o pobre garoto órfão para dentro do armário, alegando que ele não jantaria e só comeria em pequenas porções durante toda a semana.

Ele sentou-se com as costas na parede, a cicatriz ardendo como nunca e os olhos cerrados, tentando abafar a dor que sentia. Agarrou os próprios cabelos, tentando puxá-los, como se isso fosse abafar a dor, e percebeu algo: tinham crescido durante a noite.

Era estranho, sua tia Petúnia tinha cortado seu cabelo tão curto que era impossível ter crescido tanto em tão pouco tempo. Agora estavam do mesmo tamanho que antes da tia ter cortado. Ela também tinha passado uma maquiagem na cicatriz, para tentar fazê-la "desaparecer", mas não deu certo. A maquiagem desapareceu com o tempo e a cicatriz avermelhada continuava na testa.

Harry era perguntado o tempo todo sobre a cicatriz na escola. Os colegas queriam sempre saber como é que ele tinha conseguido aquilo. O garoto nunca respondia, pois também não sabia. Os tios diziam que era fruto do acidente de carro que matou os seus pais, mas o garoto não acreditava muito nisso. Sabia que nunca conseguiria uma cicatriz em forma de raio tão perfeita num acidente de carro.

Mas como poderia discordar dos tios? Eram seus únicos parentes vivos!

Harry logo percebeu que estava tudo escuro, ainda era noite quando tinha acordado. Dirigiu-se para a cozinha com dificuldade, temendo que fosse desmaiar no caminho. A cabeça pulsava, irritada com a cicatriz em ardência. O rosto dele estava vermelho.

Olhou com esforço para o relógio e viu que eram cinco horas da manhã. Neste momento, a cicatriz ardeu mais ainda e ele caiu no chão, tentando apertá-la para abafar a dor. Não poderia gritar, pois acordaria os tios e seria punido por gritar e por ter acordado tão cedo.

Viu um vulto passar pela janela, mas não deu muita importância, pois imaginava ser apenas uma impressão. A dor na cicatriz era mais forte do que um simples vulto. Não se atrevia a acordar os tios, tentando avisá-los que a cicatriz estava doendo, pois eles não acreditariam e seria mais um motivo para punição.

De repente, o mundo pareceu explodir. Harry ouviu coisas se quebrando por toda a cozinha, sons de pratos e copos caindo no chão e se partindo e de talheres sendo derrubados. Ouviu altos suspiros no andar de cima e seu tio murmurando algo como: "AQUELE MOLEQUE!". Passos pesados maltratavam o piso de cima e logo passos apressados podiam ser ouvidos descendo as escadas com violência. O tio resmungava como nunca, a tia estava assustada e, quando chegaram na cozinha, não acreditavam no que viram.

Harry estava sentado perto da mesa, com a mão apertando a cicatriz. Cacos de vidro e de porcelana o rodeavam, junto com talheres espalhados pelo chão, formando um círculo perfeito em volta do garoto.

— O QUE ACONTECEU AQUI? — esbravejou tio Válter, olhando com muita raiva para Harry, avançando com cuidado para não pisar nos cacos.

O garoto não conseguia responder, apenas gemia de dor.

— VOCÊ NÃO ME OUVIU, MOLEQUE? — tio Válter pegou-o pela gola e o fez levantar. — O QUE É QUE VOCÊ FEZ? — cuspia enquanto falava na cara do garoto.

Harry abriu um dos olhos e só conseguiu responder:

— Nada...

— NADA? OLHA SÓ PRA ISSO! VOCÊ DESTRUIU OS PRATOS E OS COPOS E JOGOU OS TALHERES NO CHÃO! ISSO VOCÊ CHAMA DE NADA? ORA, SEU...

De repente, como se tivesse levado um soco muito forte, tio Válter soltou Harry e foi jogado para longe. O garoto conseguiu abrir os dois olhos, mesmo com a cicatriz latejando e viu o tio sendo arremessado nos pratos que ainda estavam intactos.

Tia Petúnia, que até então estava parada feito um poste na porta da cozinha, vendo a cena com espanto anormal. Foi em direção ao marido caído e cheio de pó e cacos em cima dele, tomando cuidado ao andar pela cozinha, e prestou socorro a ele.

Harry não teve tempo para deliciar-se com a cena do tio, pois em poucos segundos, já não estava mais vendo a cozinha, e sim uma floresta escura, correndo como louco por ela. O local era quieto, exceto pelo farfalhar das folhas das árvores e por pios de corujas acima.

Harry ofegava, olhando para todos os lados, procurando alguma coisa por entre as árvores. Até que viu então algo se arrastando no chão, uma coisa assustadora, mas que não provocou medo no garoto. Era uma cobra gigantesca, que se arrastava em direção a Harry. O garoto não recuou, não parecia ter medo da cobra, e simplesmente desviou o olhar para frente. O garoto não sabia muito bem o que procurava, mas olhava constantemente para trás para ver se não estava sendo seguido ou observado.

Andou um pouco mais, ficando um pouco mais calmo, mesmo com o fato de a cobra estar perseguindo-o com certa calma. Até que Harry avistou uma casa. Não era bem uma casa, era mais um chalé velho, todo arrebentado. Devia ser aquilo que procurava, pois foi correndo se abrigar lá.

A cozinha voltou então à foco. Harry via agora o primo Duda parado na porta como uma estátua, vendo o pai desacordado e sangrando. Tia Petúnia estava preocupada com o marido, tentando estancar os sangramentos e desesperada com o fato dele estar desacordado. Pensava que talvez ele estivesse morto.

A cicatriz de Harry tinha parado de doer, e ele percebera que estivera deitado e quase encostara o rosto em um caco de vidro. Estava deitado de lado, o que fez os óculos se deslocarem um pouco, machucando o nariz e a têmpora dele. Sentou-se meio atordoado e ajustou os óculos para ver a preocupante cena do tio encostado na parede, com os parentes preocupadíssimos.

Seus pensamentos estavam divididos entre a cena que presenciava ali na cozinha e a que acabara de ver enquanto estivera "sonhando". O que é que ele estava fazendo numa floresta em plena noite?

Harry levantou-se e notou o círculo perfeito que havia se formado em volta dele, como se ele tivesse uma proteção contra cacos e talheres. Avançou então para prestar ajuda ao tio, mesmo que não quisesse, tinha de fazer algum ato bondoso para compensar o que ele imaginava que tinha causado. Não sabia como tinha arremessado o tio contra a parede e nem como tinha feito os pratos e talheres caírem no chão, mas tinha impressão mesmo de que tinha feito tudo isso.

Quando aproximou-se do tio, Petúnia tentava afastar o garoto, como se ele tivesse algum tipo de doença contagiosa. O primo Duda ainda estava parado em frente à porta, assustado e olhando para Harry como se ele fosse maluco.

— Saia daqui! Saia daqui! — berrava a tia.

Harry afastou-se e foi novamente tomado por uma dor anormal na testa. A cicatriz voltava a arder com força. Ele caiu em cima dos cacos, sem mesmo ligar para a dor e tombou para o lado.

Tudo tinha ficado escuro.

Harry acordou ofegando dentro do armário debaixo da escada. Estava tudo escuro. Ele não sentia dor alguma, muito menos na cicatriz. Passou a mão pelo corpo, procurando algum ferimento provocado pelos cacos, mas nada encontrou. Tateou até encontrar a porta do armário e abriu-a rapidamente. Viu-se no corredor que terminava na porta da cozinha, que no momento estava fechada.

Harry precipitou-se na direção dela e abriu a porta rapidamente. Os Dursley tomavam café tranquilamente à mesa e mal notaram a presença do sobrinho quando ele irrompeu na cozinha com violência. Duda olhou com desprezo para Harry, como sempre fazia, mas ninguém parecia machucado ou até mesmo assustado com o fato que ocorrera na cozinha pela manhã.

— Vocês não se machucaram? — perguntou Harry, ainda segurando a maçaneta.

— O quê? — perguntou o tio Válter com certa aspereza, desviando os olhos do jornal que o entretia. — Por que deveríamos, seu moleque? O que foi que você fez desta vez?

Harry olhou com desconfiança para o tio. Então ele devia ter sonhado com tudo! Mas era estranho... tudo parecia tão real! Até mesmo as dores na cicatriz.

— Não fica parado aí que nem um bobalhão, moleque! — disse o tio ficando púrpura. — Responda a minha pergunta!

— Ah, não foi nada não... — disse Harry, percebendo seu engano.

— Humpf... — tio Válter voltou a abrir o jornal, mas logo dirigiu-se novamente a Harry. — Se for mais uma de suas gracinhas, você está frito, moleque!

Harry sentou-se à mesa e tia Petúnia logo lhe entregou meio pedaço de pão com creme de amendoim. O garoto olhou com desprezo para a comida, vendo que Duda comia uma panqueca caramelada com voracidade. Porém, ele já estava acostumado a ser tratado assim.

— Coma tudo, Dudoca! — disse Petúnia, sentindo-se orgulhosa de ver Duda devorando que nem um porco a panqueca. — Se quiser tem mais em cima da pia!

— Oba! — exclamou Duda, lambendo o resto de caramelo dos dedos.

Harry estava com muita fome, mas não podia matá-la de uma vez com aquele pedaço mínimo de pão que havia recebido da tia. Desejava comer uma panqueca, mas era impossível pegar uma sem a tia ver. Ergueu o pedaço de pão e levou-o à boca, mas não sentiu o gosto habitual de um pão de fôrma quando comeu. Tinha um gosto esquisito...

— Como é que você pegou isso? — perguntou tia Petúnia puxando da mão do garoto a comida. — Como foi que você pegou a panqueca do Dudoca?

Harry viu nas mãos da tia uma panqueca caramelada. Era impossível! Ele não tinha pegado panqueca alguma! Apenas seu pão de fôrma!

— Seu idiota! — disse Duda, engolindo mais um pedaço de panqueca. — Você roubou as minhas panquecas!

— Eu não... — disse Harry tentando explicar-se.

— Ora, seu... — disse tio Válter, abaixando o jornal e erguendo-se da cadeira. — Como tem coragem de roubar a comida do Duda?

— Mas eu não...

— Nem mais um pio, seu moleque! Vá já para o armário e fique lá até a noite!

— Mas...

— Eu disse nem mais um pio! Você não vai comer mais nada hoje! Cedemos nossa casa para acolher você, alimentamos você e você vem e rouba comida que não é sua?

— Alimentaram o caramba! — esbravejou Harry antes que o tio pudesse interrompê-lo. — Vocês me desnutriram!

Tio Válter pareceu não gostar nada da resposta do garoto, sua caraça sem pescoço ficou imediatamente avermelhada, os bigodes pareciam se eriçar.

— COMO OUSA... — berrou o tio, partindo para cima do sobrinho.

Tia Petúnia puxou o braço do marido, tentando impedi-lo de agarrar Harry, mas foi inútil. Com a força de um hipopótamo, tio Válter apertou Harry contra a parede, com suas enormes e grossas mãos apertando os ombros dele.

— VOCÊ ESTÁ DE CASTIGO PRA SEMPRE! — disse tio Válter, contendo-se para não esmurrá-lo. Cuspia enquanto falava, o bigode ficando cada vez mais úmido. — VAI FICAR SEM COMER ATÉ SEXTA-FEIRA! SEU MAL-EDUCADO, MAL-AGRADECIDO!

As pernas de Harry tremiam. A caraça vermelha do tio Válter e seus olhos, que geralmente eram miudinhos, estavam arregalados indicavam a raiva que ele estava sentindo no momento.

— ALÉM DE TUDO É UM LADRÃOZINHO DE UMA FIGA! MOLEQUE, EU DEVERIA BATER EM VOCÊ COM UMA VARA COM ESPINHOS MUITO AFIADOS! SÓ NÃO VOU FAZER ISSO PORQUE NÃO QUERO QUE OS CONVIDADOS DA FESTA DO DUDA AMANHÃ PENSEM QUE VOCÊ FOI ESPANCADO!

Duda ria porcamente comendo as panquecas, soltando os pedaços dela por toda a roupa que vestia. Harry tinha se esquecido da festa de aniversário do primo, quando geralmente era espancado por todos os amigos idiotas de Duda.

Tio Válter soltou-o, contando até dez para que ele fosse para dentro do armário. Harry não hesitou e entrou no armário sentindo uma raiva descomunal do tio. Não sabia como uma panqueca tinha ido parar em sua mão, mas também sentia a injustiça de ter sido acusado de ser um ladrão. Enxugou o rosto dos cuspes que o tio soltara e limpou os óculos na escuridão, caindo no choro logo depois e adormecendo, ainda esfomeado.

(N. do A.) Pra mim Harry Potter é uma história muito ampla que deveria ser mais explorada. Espero que estejam gostando desta minha versão um pouco imaginativa demais da história. Eu vou mudar diversas coisas enquanto estiver escrevendo isso, mas o principal deixarei intacto.

As ideias da Pedra Filosofal serão as mesmas, mas quem sabe eu possa incluir novos personagens ou até outras coisas... Espero que tenham gostado deste capítulo... não vou demorar muito para postar o próximo...