Uma rápida consulta à lista telefônica bastou para que Barry e Chris encontrassem o refúgio atual de Albert Wesker. E pensar que antes o antigo inimigo costumava ser tão difícil de encontrar... Os tempos haviam mesmo mudado!

O endereço anotado por Redfield estava situado numa área residencial da cidade, mais precisamente um dos bairros mais ricos. Por certo, Wesker utilizara o dinheiro e recursos que haviam lhe restado após sua derrocada – e decorrente banho de lava num vulcão africano – para agora desfrutar da boa vida. Pensando no tamanho da casa que o antigo capitão do S.T.A.R.S. teria e na provável Mercedes em sua garagem, Chris e Barry caminhavam por uma rua densamente arborizada repleta de propriedades cercadas por muros altos, até chegarem ao local que procuravam. Um portão metálico trancado os separava de um amplo jardim bem-cuidado servindo de entrada a uma grande construção, de vários andares e inúmeras dependências. Apesar de estarem ainda um tanto distantes dela, os recém-chegados já podiam admirar dali a imponência da arquitetura e a vultosa quantia em dinheiro que ali deveria ter sido investida. É, Wesker sabia mesmo como viver!

- Será que ele vai querer nos receber? – perguntou Redfield.

- Acho que sim, ao menos eu – sorriu Burton. – Afinal, você sabe que eu já tive negócios mais próximos com ele...

- Ele fez chantagem com você pegando sua família de refém, Barry! – espantou-se Chris. – Já se esqueceu disso?

- Não, isso foi depois... Antes nós trocávamos dicas de pesca! Ele me passou umas iscas muito boas para usar, acho que deviam ser feitas nos laboratórios da Umbrella...

O irmão de Claire sentiu vontade de dar um tapa na própria testa, quando, erguendo os olhos, deparou-se com uma placa dourada fixada num dos pilares de pedra ao lado do portão, contendo uma inscrição que lhe causou grande estranhamento:

Wesker Children – Centro de Educação Infantil

- Quê? – Chris expressou sua surpresa em voz alta. – O lugar é uma escola?

- Medo disso! – riu Barry, atento ao portão. – Será que há alguma campainha? Um interfone?

- Talvez tenhamos de fugir de alguns Cerberus ferozes... Bons tempos, hem?

Assim que Redfield disse isso, um "clank" foi ouvido, e o portão começou a se abrir automaticamente. Chris e Barry recuaram um pouco intimidados. Ao mesmo tempo, uma figura surgiu no jardim da propriedade, caminhando por uma pequena trilha de pedra na direção dos visitantes. Era uma mulher, de óculos e cabelos castanhos presos num coque. Tinha o corpo coberto por um terno roxo caríssimo e calçava sapatos de procedência similar. Uma nova Excella Gionne? Wesker sabia mesmo como se cercar de belas mulheres...

- Em que posso ajudá-los? – ela indagou, um tanto séria.

- Como soube que havíamos chegado? – Redfield perguntou curioso.

- Vocês estão pisando num sensor!

Só nesse momento a distraída dupla olhou para baixo, constatando que seus pés realmente se encontravam sobre uma espécie de tapete de boas-vindas, preso a um suporte de ferro no chão. No entanto, a mensagem presente na peça não era nem um pouco convidativa:

ANTIGOS MEMBROS DO S.T.A.R.S. SÃO PROIBIDOS

- Epa! – Chris quase deu um salto para trás.

- Em que posso ajudá-los, senhores? – a mulher insistiu, impaciente.

- N-nós viemos... – oscilou Redfield, sem saber como escapar daquela situação. – V-viemos...

- Viemos verificar se esta escola é qualificada o suficiente para nossos filhos! – afirmou Barry, sorridente. – Estamos preocupados com a formação deles e ouvimos falar muito bem desta instituição!

- Oh, verdade? – os olhos da funcionária brilharam e suas mãos se uniram num gesto de encantamento. – Pois então entrem! Perdoem minha desconfiança, é que alguns espiões já tentaram entrar aqui para copiar nossos arrojados métodos de ensino. Afinal, esta escola forma os melhores traidores de equipes de pesquisa do mundo!

Traidores de equipes de pesquisa? Do que ela estaria falando? Chris e Barry trocaram um olhar confuso, sem que a empolgada mulher percebesse, e deram de ombros. Teriam de conferir com os próprios olhos o que se tratava. Aliviados por conseguirem entrar sem problemas – ao menos por enquanto – na propriedade de Wesker, aguardaram até que a anfitriã abrisse o portão e então a seguiram jardim adentro.

Uma sala de aula. No entanto, não uma sala de aula comum. No quadro negro, haviam sido desenhados a giz branco diversos fluxogramas e gráficos quase incompreensíveis sozinhos. Na frente dele, de pé, um homem loiro e alto, de óculos escuros e sobretudo negro, caminhava para lá e para cá, mãos atrás da cintura, explicando a matéria. Albert Wesker. Professor e diretor-fundador daquela escola.

Diante do educador, a classe ouvia atenta. Enfileirados em carteiras, os alunos, entre meninos e meninas de pouca idade, vestiam-se... exatamente como o professor, com seus pequenos corpos cobertos por sobretudos pretos em tamanho menor, olhos também ocultos atrás de imponentes óculos escuros e cabelos penteados à mesma maneira que os do docente. Assemelhavam-se a uma verdadeira cria do ex-capitão dos S.T.A.R.S., suas crianças, suas cópias. Quiçá fossem até clones.

- Recapitulando, vamos ver se vocês compreenderam os passos que devem ser efetuados antes da chegada do "Dia X" – disse Wesker, sua voz como sempre soando como superior a tudo ao seu redor. – O que deve acontecer quando completarem dezoito anos de idade?

- Devemos tomar parte numa equipe de cientistas de alguma empresa farmacêutica multinacional pesquisando um vírus perigoso! – respondeu prontamente um garotinho de cabelo coberto de gel, erguendo uma mão.

- Exato, Winston. Qual é outro passo importante nesse procedimento? Alguém pode responder?

- Fazer amizade com um pesquisador mais novo e que pareça mais inteligente! – esclareceu uma menina. – Não importa se mais tarde esse pesquisador em questão se transformar numa mutação que pareça um cachorro...

- Muito bom, Welma. E se um dos fundadores da empresa, velho misterioso, começar a depositar encargos e confiança demais em vocês?

- Aí é melhor tomar cuidado, pois podemos ser fruto de uma experiência genética! – um menino gordinho replicou arregalando os olhos.

- Sim... – Wesker disfarçou uma lágrima que escorreu de um de seus olhos, virando-se momentaneamente para trás. – E como vocês farão quando tiverem de morrer para que o super-vírus-capaz-de-criar-um-monstro-mais-forte-que-os-seres-humanos no corpo de vocês faça efeito?

- Nos deixaremos ser atacados pelo primeiro monstro que aparecer! – toda a sala respondeu em conjunto.

- Muito bom – Albert abriu um sorriso, cruzando os braços. – Vocês me orgulham. "Rank A" para todos. Não se esqueçam do esboço de "Report" que devem fazer como lição de casa.

A classe nem teve tempo de esboçar reação, pois logo que o professor concluiu sua sentença, batidas foram ouvidas na porta fechada da sala. Devia ser algo urgente, já que todos na escola sabiam bem que Wesker odiava ser interrompido. Calado e andando lentamente, o educador dirigiu-se até a entrada e abriu-a. Deparou-se com a secretária-geral do lugar, senhorita Williams. Sim, todos ali possuíam a letra "W" como inicial de seus nomes ou sobrenomes.

- O que há? – Albert inquiriu impaciente.

- Err, há dois pais aqui que vieram visitar a escola! – a mulher respondeu, apontando para o corredor. – Eles querem verificar se as instalações e a metodologia são adequadas a seus filhos, então achei que seria proveitoso eles assistirem a uma de suas aulas...

Assim que esticou a cabeça para visualizar os inesperados visitantes, o sangue de Wesker ferveu. Fechou os punhos, seu coração acelerando. Como aqueles dois eram capazes de tamanha ousadia? Há anos esperava nunca mais ter de vê-los novamente, e agora eles apareciam assim, do nada, em sua escola! Seu território!

Redfield e Burton. Dois de seus maiores inimigos. E pareciam tranqüilos, apesar do risco que deviam imaginar correr. Enquanto Barry assoviava, Chris parecia fascinado diante de uma pintura a guache fixada num painel próximo da porta da sala.

Albert não poderia se conter. Tinha de ensinar a eles uma lição!

- Eu vou saturar vocês! – exclamou, saltando na direção da dupla enquanto esboçava movimentos metidos a "Matrix".

A cena a seguir foi tão detalhada que pareceu transcorrer em câmera lenta: Wesker, no ar, resetou seu corpo e esticou um dos braços para atingir Chris, mais próximo de si, com um potente soco na cabeça. Já o irmão de Claire, por sua vez, continuava distraído com a obra de arte feita pelos alunos, não percebendo a aproximação do oponente. Pelo contrário: calmo e sereno, resolveu fumar um cigarro – coisa que a censura o impedira de fazer durante muito tempo, no passado de combate a Umbrella. Retirou um maço do bolso, apanhou um dos pequenos bastões de nicotina e, com a outra mão, pegou seu isqueiro, Wesker ainda no ar... Abriu o pequeno artefato, acendendo a chama, o punho destruidor de Albert já quase tocando uma de suas bochechas... Quando, ao contemplarem a pequena labareda, os olhos do loiro brilharam por trás dos óculos escuros...

E ele praticamente freou no ar, seu corpo recuando e caindo de pé sobre o piso do corredor numa perceptível expressão de susto. Só ao ouvir o som das botas de Wesker tocando o chão Chris percebeu a presença do antigo inimigo, guardando o isqueiro de volta em sua calça depois de já ter acendido o cigarro.

- Wesker, quanto tempo! – exclamou Redfield com voz cortada pelos dentes que mantinham o cigarro em sua boca. – Foi mal a demora em te perceber, é que ando com uns probleminhas sensoriais!

- Ffffffffffff... – balbuciou o professor, ofegante e muito trêmulo, sem tirar os olhos de Chris. – Fffffffffff... Fooooooooo...

- Fogo! – completou a senhorita Williams, balançando negativamente a cabeça, envergonhada. – Ele quer dizer "fogo". Perdoem o transtorno, senhores. É que o diretor Wesker, após alguns eventos trágicos em sua vida, desenvolveu pirofobia. Medo incontrolável das chamas.

- Chamas? – riu Barry. – O meu amigo aqui só acendeu um isqueiro! Qual é, hem, Wesker? Você virou um tremendo maricas!

- O-o que vocês q-querem aqui, idiotas? – Albert indagou, ainda transtornado.

- Calma, calma, Wesker, nós só queremos conversar numa boa! – sorriu Redfield, aproximando-se do loiro e colocando uma das mãos em seu ombro esquerdo, com direito a tapinhas. – Relembrar os velhos tempos!

A secretária-geral observava a tudo confusa. Afinal, quem seriam aqueles dois homens?

Minutos depois, o mal-entendido fora aparentemente resolvido e, mais calmo, Wesker levou a dupla de visitantes até sua sala para conversarem a sós. O escritório do diretor era rico em... amostras de vírus! Cápsulas protegidas contendo o "T", o "G", e o "T-Veronica", além de frascos com os parasitas "Las Plagas" e "Uroboros", adornavam as estantes e a mesa. Num suporte de madeira próximo à janela, aberto como uma bíblia, havia um volume encadernado. Uma leitura superficial das páginas em exibição permitiam concluir rapidamente se tratar do "Wesker Report". Seu autor parecia jamais perder o narcisismo...

- Queiram se sentar – falou Albert, acomodando-se na cadeira atrás de sua mesa e apontando as outras duas diante desta para os visitantes.

- Obrigado – agradeceu Chris que, sem a ajuda de Barry, teria errado o local de se sentar e caído com as nádegas no chão.

- Em que posso ajudá-los? Já aviso que meus vírus e parasitas não estão mais à venda, eles se tornaram itens raros de colecionador e...

- Nós não temos interesse nessas armas biológicas, Wesker – murmurou Burton. – Bem, ao menos não interesse em usá-las diretamente...

- Antes de tudo, queria pedir desculpas por aquela luta no vulcão, anos atrás... – afirmou Redfield, cabisbaixo. – Aquilo não foi idéia minha, você sabe. Estava na porcaria do roteiro do jogo. Assim como aquelas pedras que eu tive de empurrar e o maldito disparo compartilhado de lança-foguetes!

- Eu sei disso, não se preocupe, Chris... – suspirou Albert, seus dedos tamborilando a mesa. – Foram outros tempos, preciso me conscientizar disso. E desculpe pelo ataque lá no corredor também.

- Ao menos serviu para eu saber qual tipo de munição usar no lança-granadas contra ele... – Barry cochichou para Chris.

- Mas bem, em que posso ajudá-los? – Wesker repetiu a pergunta.

- Como eu havia dito, queríamos falar sobre os velhos tempos – retomou Redfield. – Os tempos da Umbrella. Nós matando zumbis a torto e a direito, você manipulando os dois lados...

- Espere, eu achei que vocês odiassem isso! – surpreendeu-se Albert, endireitando os óculos escuros.

- Nós odiávamos sim, mas odiamos mais o que os "produtores" fizeram com a gente, Wesker – Barry respondeu muito sério.

- É, nisso você tem razão... Os últimos jogos, como aqueles Chronicles. Ainda mancharam meu nome alegando ser minha visão dos fatos... Nem para colocarem você na trama, Barry!

- Como se eu não houvesse feito nada... – Burton choramingou, levando uma mão ao rosto enquanto era amparado por Chris. – Eu menti a todos desde o início, guiei-os até o laboratório...

- Calma, Barry, calma... – Redfield tentava consolar o amigo.

- Também houve os filmes, os filmes nos destruíram... – Wesker disse isso em tom de profundo desgosto. – Eu também tenho saudades dos velhos tempos. Tempos que não eram "saturados". Droga, o maldito vício nessa palavra...

- Mas você tem a chave para reverter essa situação! – argumentou Chris, apontando para a amostra do T-Virus sobre a mesa. – Crie um novo incidente viral, Wesker! Um lugar fechado, com zumbis lotando os corredores, puzzles a cada esquina e munição escassa! Você é o showman! Pode nos proporcionar tudo isso de novo se quiser!

- Hum... – Albert levou uma mão ao queixo, pensativo. – Ainda me restou algum dinheiro, além do que investi nesta escola e paguei aos cirurgiões plásticos para consertarem meu corpo após aquele banho de lava. Eu posso encontrar um bom lugar, providenciar as armas, itens e puzzles... Mas e os participantes? Vocês ainda têm contato com os outros?

- Eu ouvi falar que a Jill tem uma loja no centro da cidade, podemos ir atrás dela – disse Barry. – A Rebecca está trabalhando no Hospital Central, não deve ser muito difícil de se encontrar também...

- A Claire me manda dinheiro com freqüência, cerca de um terço do que ela ganha no trabalho dela – explicou Chris. – Ela não fica muito na cidade, porém passa por aqui às vezes...

- Ela trabalha com o quê? – Wesker perguntou curioso.

- Já ouviu falar da "Flying Redfield"? A atração principal daquele grupo de motociclistas itinerantes? Bom, a Claire da última vez voou com sua moto por cima de dez carros enfileirados!

- Dez carros em chamas! – frisou Burton de propósito, divertindo-se ao ver Wesker encolher-se na cadeira.

- E o Leon? – indagou Chris.

- Ah, se eu fosse vocês, não contaria com o senhor Kennedy... – Albert balançou a cabeça.

- Por quê?

Como resposta, Wesker apanhou um controle remoto de cima da mesa e apontou-o para um aparelho de TV sobre uma estante próxima. Ligando-o, ele passou a exibir quase imediatamente o teaser de um filme de ação a estrear em breve:

Ele salvou a filha do Presidente... – anunciou a imponente voz do narrador ao fundo, mostrando a silhueta de um homem apontando uma pistola em meio a um local escuro.

Agora, o Agente Americano está de volta... para salvar o mundo todo! – e, com tal afirmação, a silhueta foi revelada como sendo o agente Leon S. Kennedy, com suas tradicionais jaqueta, pistola e penteado de caráter duvidoso, sorrindo para a tela e dizendo:

- Desta vez... eu posso até topar a hora extra após a missão!

AGENTE AMERICANO 2: PERIGO EM SOLO PÁTREO

- Que subtítulo terrível! – lamentou Barry. – O roteirista desse "blockbuster" deve ser pior que o Paul Anderson!

- Então o Leon foi o que mais se deu bem dentre nós... – murmurou Chris. – Mas quem sabe não podemos ao menos contatá-lo? Ele pode se interessar...

- Isso fica por sua conta e risco! – falou Wesker. – Ao invés de perderem tempo com a estrela do momento, podiam procurar os personagens secundários... Carlos, Billy, Ark, Bruce... Às vezes até o pessoal dos Outbreaks queira voltar à ativa, depois que aquele reality show deles deu errado!

- Nós iremos primeiro procurar a Jill. E quanto ao nível de desafio, Wesker? Vai ser tão alto quanto nos velhos tempos?

- Todas as pessoas fracas existem para serem devoradas... – Albert afirmou sorrido.

- É isso aí! Está pegando de novo o espírito!

To be continued...