Um carro preto trafega pelo centro da cidade. Duas mãos enluvadas em negro manejam o volante, enquanto um par de miniaturas de frascos de vírus – um contendo uma espiral azul e o outro uma espiral roxa – balança para lá e para cá pendurado por cordinhas. Olhos atrás de óculos escuros impenetráveis miram as ruas enquanto Albert Wesker dirige. No assento ao seu lado, estreitando as pálpebras, Chris Redfield também observa o caminho como pode. Já nos bancos de trás, Barry Burton, sentado de forma esparramada, quase cochila.

- Estamos mesmo no rumo certo? – o ex-vilão loiro questiona ao ex-arquiinimigo ao seu lado.

- Não tenho certeza, você sabe que visão não é mais meu forte... – murmura o irmão de Claire de forma incomodada.

- E você, Barry? – Wesker insiste, voltando-se para o ruivo barbado.

Como resposta, Burton apenas apalpa o ar de olhos fechados, cabeça encostada no estofamento, enquanto murmura babando:

- Magnums 357 cromadas? Presente para mim?

Virando-se para frente conformado, Albert volta a confiar nas arriscadas coordenadas do guia telefônico enquanto suspira:

- Saudades de quando eu podia contar com ele para esconder algumas chaves e levar a equipe para uma armadilha...

O automóvel contorna mais uma esquina, adentrando uma rua repleta de estabelecimentos comerciais. Após passar por uma loja de artigos para caça de monstros e uma academia de artes marciais que prometia ensinar qualquer um a soltar um "Hadouken" em menos de um mês, Wesker freia a poucos metrôs da fachada de um convidativo negócio na calçada oposta. O sobrado de pintura em tons de azul e o toldo listrado sobre a porta compartilhavam espaço com uma placa contendo o desenho de um cadeado sendo aberto por uma chave, além da inscrição "The Master of Unlocking" em letras estilizadas marcadamente femininas.

- É aqui... – o motorista murmura com relativa certeza. – Jill Valentine.

Segue-se um minuto de silêncio, com Barry ainda sonhando entre resmungos e Chris continuando a se esforçar para conseguir enxergar qualquer coisa do lado de fora, antes de um impaciente Wesker emendar:

- Muito bem, quem vai?

Redfield volta assustado a cabeça para dentro do carro, encara os óculos de Albert por alguns instantes e questiona, um pouco desajeitado:

- Por que não vai você?

- Ora, você sabe, Chris... Eu a capturei, fiz nela lavagem cerebral, implantei-lhe um dispositivo no peito para controlá-la e, pior de tudo, tingi os cabelos dela de loiro. Jamais pude conquistar minha grande paixão Alexia, e em meus enganos tentei transferir para Jill o ar daquela dama... Mas nunca mexa no cabelo de uma mulher sem ela pedir. Elas ficam uma fera, acredite.

- Mas isso já faz anos!

- Não arrisco.

- E Barry?

Ao finalmente ouvir seu nome, Burton desperta do cochilo num sobressalto, endireitando-se como pode no banco. Desamassando a roupa e sorrindo como se nada houvesse acontecido, resolve argumentar:

- É certo que salvei Jill algumas vezes no passado, tanto na mansão quanto antes de Raccoon explodir, mas... O amor da vida dela é você, Chris. Se há alguém neste carro com carisma suficiente para convencê-la a se juntar a nós, é você.

- E-eu? – gagueja Redfield, corando.

Os outros dois olham para o pobre atirador, exigindo firmeza. Ele replica:

- Eu e Jill? Que isso! Só pode ser um engano. Intriga de fãs. Nós nunca tivemos nada.

- Nem mesmo... naquela cela na mansão? – e era possível notar mesmo com os óculos escuros que Wesker arregalara os olhos.

- Mesmo... Vocês queriam o que? O lugar todo ia explodir!

- Ai, Chris... – Barry balança negativamente a cabeça, colocando uma das mãos no ombro direito do colega. – E eu pensava que o Brad era lerdo!

- De qualquer modo, acho que não temos muita opção, certo? – Albert ergue uma das sobrancelhas.

Chris, por sua vez, engole seco.

A porta da loja se abre com o leve tocar de um sino, avisando da presença de um freguês.

O recém-chegado encara o interior do estabelecimento: painéis nas paredes contendo chaves das mais variadas formas e tamanhos, a maior parte portando em suas extremidades desenhos ou formas de escudos, armaduras, elmos, naipes de baralho e similares. Existiam cadeados à mostra em quase igual quantidade, além de trancas avançadas para instalação, com dispositivos eletrônicos, códigos de acesso e outras inovações. Atrás de um balcão de metal e vidro com mais produtos em exibição, a atendente e dona do local se encontra falando ao telefone sentada em frente a uma mesinha. Camiseta azul clara sob um macacão azul escuro, boina da sorte da mesma cor sempre à cabeça. Os fios de cabelo à mostra em torno da mesma possuíam coloração estranha, entre o dourado e o marrom, e os dedos de suas mãos tamborilavam impacientes o pequeno móvel. Jill Valentine era realmente uma comerciante atarefada.

- Como é? – ela exclama no aparelho, semblante confuso. – Keyblades? Como assim? São chaves ou espadas? Hum... entendo. Bem, senhor Sora, eu posso até reproduzir essas chaves para o senhor se eu tiver os moldes, senão posso ir eu mesma aí e destrancar a porta ou portas para o senhor. Mas saiba que aí cobrarei mais caro. Ah, Keyblades conseguem abrir qualquer fechadura? É que o senhor ainda não conhece meus serviços. Garanto que não se arrependerá.

Chris se aproxima receoso do balcão, seus olhos fixos na parceira que há muito não via. Não consegue evitar que seu coração bata mais forte diante da visão de Jill. Apesar das roupas singelas, ela continuava linda. Talvez ele devesse confrontar as acusações de "lerdo" feitas por Barry e Wesker, deixando claro naquele momento que queria aquela jovem para si. Pensava em mil maneiras de abordá-la: "Vim aqui para ter a chave do seu coração", "É hora de destrancar o cadeado da inércia que nos separou por tantos anos"... Mas, quando a ex-policial desliga o telefone e se volta subitamente para ele, a única coisa que consegue gaguejar é:

- J-Jill, você e-está aqui também?

A moça, achando no começo se tratar de mais um mero cliente e só após alguns segundos notando ser Redfield, arregala os olhos e responde:

- Chris, você está aqui também?

Os dois ficam sem ação por algum tempo, olhos nos olhos, membros inertes. Ele pensa em como explicar a ela o que viera fazer ali, sua visão acidentalmente baixando até o busto dela sob o macacão... Ela, visivelmente atordoada, fechando a face cada vez mais, como se não entendesse coisa alguma de início, mas aos poucos percebendo algo que a incomodava...

Até que o atordoado visitante finalmente pôde tornar a se manifestar:

- Jill, eu...

- Você não é o Chris! – ela grita sem mais nem menos, fazendo cara de espanto e ódio. – Não passa de um clone!

- Como é?

Antes que os prejudicados reflexos de Redfield possam agir, Valentine salta de trás do balcão e lança uma voadora contra o rapaz, seu tênis atingindo-o em cheio no queixo. Emitindo um gemido, Chris cai para trás, deslizando alguns metros pelo piso liso. Quase inconsciente, ele consegue apenas ver o vulto de Jill fazendo piruetas e executando acrobacias pelo ar, até que ela aterrissa de pé, em posição de luta, bem diante de si, braços abertos.

- Jill... – ele tenta, com voz sumida, novamente se explicar.

- Tome isto, clone maligno!

O chute da moça é feito por entre as pernas abertas do adversário caído... atingindo justamente o ponto mais fraco de seu corpo.

- Ai! – ele berra, temendo jamais poder ter filhos.

- Me diga o que veio fazer aqui! – ela exige com um olhar ameaçador, fazendo menção de socá-lo no estômago.

- Por favor, Jill, sou eu, Chris!

- Como posso ter certeza disso?

- Sei lá... Pergunte alguma coisa!

Valentine leva uma das mãos ao rosto por um instante, pensando enquanto o pobre recém-chegado ainda sofre com a dor em suas "Ink Ribbons"... até que ela indaga:

- Sua equipe vai investigar assassinatos canibais na floresta. O que você traz de armamento?

- Só uma faca...

- O que você poderia fazer na minha loja além de me ver?

- Comprar algumas Small Keys, talvez.

- Descreva "Tyrant".

- Fracasso. Fracasso definitivo. Tenho pena de quem o criou.

- É... É você mesmo, Chris.

Sorrindo um tanto encabulada, Jill o ajuda a se erguer do chão. Novamente de pé, mas ainda um tanto dolorido e muito sem jeito, Redfield comenta:

- Vejo que continuou treinando aqueles movimentos que o Wesker te ensinou.

- Bem, sou uma lojista agora. Preciso me defender de possíveis assaltantes, e esse é o meio. Pensei que fosse um clone seu, ao invés de você. Lembra-se? Navio em alto-mar, revelações...

- Todo mundo achando que eu era o Hunk – ele completa num sorriso.

- Pois é. Um dos últimos jogos que tentaram salvar a nossa imagem... Mas me diga, Chris: o que o traz aqui depois de tanto tempo? Realmente cheguei a acreditar que nunca mais íamos nos ver.

- Você seguiu seu caminho depois de termos parado de caçar terroristas biogenéticos e suas criações... Acho que todos seguiram.

- Tive de encontrar uma maneira de ganhar a vida – a voz de Valentine é cheia de ternura e nostalgia, o que mexe ainda mais com o rapaz. – Primeiro pensei em abrir um negócio de sanduíches, e quase o fiz... Mas preferi empregar minha habilidade com lockpicks e fechaduras em algo maior. Até que estou ganhando um bom dinheiro num mundo em que todos avançam destruindo portas e poucos ainda sabem o que é uma chave. Em breve poderei abrir minha segunda loja.

- Boa idéia ter mudado de idéia quanto aos sanduíches, já que conheço alguém que também pensou nisso... – Chris murmura num breve devaneio. – Mas fale com sinceridade... você abandonaria essa vida próspera, se pudesse retornar aos velhos tempos? Ao que éramos antes?

Os olhos de Jill brilham quando ela responde:

- Acho que todos nós abandonaríamos.

Chris se vê momentaneamente livre da timidez e sorri. Valentine por sua vez pergunta, intrigada:

- Mas como faríamos isso? Não há mais Umbrella, nem zumbis, nem survival horror ou loadings com portas...

- Eu e alguns conhecidos estamos tentando recriar a mansão, Jill. E sim, você tem que estar nela conosco.

Ela respira fundo e ergue os ombros...

Após terminar de fechar a loja, Jill atravessa a rua junto com Chris até o carro dirigido por Wesker. A ex-membro do S.T.A.R.S. entra por uma das portas traseiras, sentando-se ao lado do velho amigo Barry, que, vendo-a também depois de tantos anos, não consegue conter um "Owwwwww" de satisfação. Os olhos da mulher, porém, logo são lançados para o motorista, a quem ela fala irritada ao mesmo tempo em que ele dá partida no veículo:

- Chris me avisou que você está nisto, Wesker. Saiba que só aceitei em nome do resgate dos velhos tempos!

- Se até Chris está revendo a maneira de conviver comigo, creio que você também consegue, Valentine.

- Será que, nestes termos de amizade, você pode então finalmente me dizer que tinta é essa que passou no meu cabelo, e por que até hoje nada consegue tirá-la totalmente?

- Meu segredinho – ri brevemente Albert, seus pensamentos distantes na figura da antiga donzela dos Ashfords.

O automóvel vira numa esquina...

Mas seus ocupantes ignoram que, do alto de uma das frondosas árvores ao longo da rua, alguém os observa através de um arrojado binóculo. A figura feminina, trajando algo como um vestido vermelho de festa que em nada combina com uma missão de espionagem, logo guarda o instrumento de observação e apanha um pequeno aparelho comunicador. Ligando-o ao apertar um botão, diz junto a ele numa voz sedutora:

- Eles continuam se movendo. Estão angariando mais conhecidos para a iniciativa.

- Certo... – a voz masculina do outro lado se mostra um pouco preocupada, mas firme. – Fique de olho neles!

- Entendido. Câmbio, desligo.

No momento seguinte, não há mais pessoa alguma no topo da árvore.

Na diretoria da escola especial de Albert Wesker, este, Chris, Jill e Barry encontravam-se reunidos para discutir quais seriam os próximos passos no plano de criação de uma nova aventura de sobrevivência. Redfield, distraído, apanhou seu isqueiro e o usou para acender um cigarro... ao que o dono do local, vendo isso, agarrou-se trêmulo à sua cadeira. Seu antigo comandado, logo percebendo o descuido, desativou a pequena chama e guardou o artefato em seu bolso. Nada de fogo ali dentro.

- Precisamos de um lugar – afirmou Valentine. – De preferência com muitas portas, salas e corredores. Uma planta arquitetônica que não tenha sentido prático algum. Talvez esta escola sirva. Notei nela algumas características da Mansão Spencer.

- Não, não aqui – respondeu Albert com as mãos unidas, já recuperado do susto. – As similaridades com a antiga mansão não passam de preciosismo meu. Este prédio não é tão grande ou complicado quanto aquela casa. Necessitamos de outro local. Fiquem tranqüilos, porém. Eu cuidarei disso. Foquem-se em trazer mais gente para o grupo.

- Enviei cartas para todos aqueles de quem sabemos os endereços – falou Burton, brincando com a réplica de uma Desert Eagle. – Agora é aguardar que respondam.

- Se responderem... – suspirou Chris.

Nisso, alguém bate à porta do escritório. Todos se voltam para a entrada fechada, Wesker estranhando o fato de sua secretária não surgir para anunciar quem era. Barry, esquecendo-se que a arma em suas mãos era falsa, aponta-a na direção do som como se fosse um xerife. O diretor resolve perguntar, sem se erguer do assento:

- Quem é?

- Eu recebi sua carta! – responde uma voz masculina. – Sou Ark Thompson, sobrevivente da infecção na Ilha Sheena!

Todos se entreolham. A correspondência surtia efeito, afinal.

- Entre – pede Wesker.

A porta se abre e surge um homem de cabelos castanhos curtos, jaqueta verde surrada e calças marrons em não melhor estado. Parecia mesmo Ark, embora o houvessem visto poucas vezes. Valentine, sempre desconfiada, resolve se certificar:

- Como saberemos se é mesmo o Thompson?

- Faça como no meu caso: pergunte algo – sugere Redfield.

Jill raciocina por um instante e então indaga:

- Quantos saves você teve de fazer até chegar aqui?

O recém-chegado arregala os olhos e recua a cabeça numa demonstração de pleno desconhecimento, perguntando em seguida, como se aquilo fosse a falta mais grave do mundo:

- O que é um save?

Todos sorriem aliviados, extinguindo qualquer tensão na sala.

- É ele mesmo! – Barry ri.

Albert oferece em seguida uma cadeira a Ark, que nela se acomoda. O planejamento continua:

- Iremos agora atrás de quem? – questiona Jill.

- Que tal Rebecca? – cogita Burton. – Assim teremos o elenco original completo.

- Hospital Central, então – fala Wesker. – Chris e Jill, vocês podem cuidar disso?

- Certo... – Valentine assente com certa relutância. – Apesar de que todos aqui sabem que nunca gostei muito dela...

- Tudo em nome dos velhos tempos, pense nisso! – Redfield tenta animá-la.

A mestre das fechaduras move a cabeça em concordância, ainda que de cara fechada. O silêncio predomina na diretoria durante alguns instantes, ninguém voltando a falar... Até que, de repente, Ark levanta a cabeça agitado, olhando ao redor com expressão deslocada, e então exclama, voz assustada:

- Quem sou eu?

Wesker bate com gosto em sua própria testa.

To be continued...