O clima no Hospital Central era típico... de um hospital. A recepção abarrotada de pessoas desejando ser atendidas, os corredores repletos tanto de pacientes sendo empurrados em macas quanto de enfermeiros e médicos correndo entre diagnósticos e tratamentos... Foi em meio a esse agitado ambiente que Chris e Jill surgiram, à paisana, cruzando a grande porta de vidro do prédio e perguntando-se em seguida como fariam para encontrar Rebecca Chambers em meio àquela loucura.

- Perguntamos à recepcionista? – indagou Redfield, forçando sua visão na tentativa de visualizar o balcão onde a sobrecarregada funcionária trabalhava.

Valentine abriu a boca para responder, quando uma voz feminina, propagada por todo o edifício através de alto-falantes, fez-se ouvir:

Chamando Doctor Mario... Repetindo, chamando Doctor Mario no pós-operatório...

- Se pudéssemos chamá-la através desse sistema, tudo ficaria bem mais fácil... – ponderou Jill, coçando o queixo como se diante de um puzzle.

- Mas será que fariam isso por nós enquanto ela trabalha? – analisou Chris, mostrando-se mais esperto do que aparentava. – Afinal, ela é uma médica... em pleno expediente!

- E o que pode ser mais importante do que uma reunião com velhos companheiros de sobrevivência? – Valentine sorriu.

X – X – X

A doutora Chambers, em seu jaleco branco e com um estetoscópio em torno do pescoço, caminhava atarefada pelos corredores do hospital. Não estava tão habituada à vida atribulada de um pronto-socorro, já que até pouco tempo antes se dedicava quase inteiramente à pesquisa laboratorial. Mas, desde que seus tratamentos envolvendo ervas medicinais haviam se mostrado eficazes e assim se tornado bastante populares, os cuidados de Rebecca eram cada vez mais requisitados naquele lugar:

- Ele foi picado por uma cobra quando saiu para pescar, doutora! – a enfermeira informou, aturdida.

- Duas doses de erva azul o quanto antes, misturadas com um pouco de erva verde para tirar esse aspecto debilitado do doente – prescreveu Rebecca, sorrindo e dando um tapinha no ombro do paciente.

- Acidente de carro, doutora – falou o enfermeiro pálido, visivelmente perturbado pelo que vira. – Muitos cortes, feridas... até algumas mutilações. Os pacientes estão entre a vida e a morte.

- Dose tripla de erva verde para cada um! – recomendou Chambers. – Bata todas as folhas até virarem o pozinho e misture tudo. Não se preocupe, vai dar certo. Ervas verdes são capazes até de regenerar membros!

- Sim, doutora.

Olhando para o visor do monitor cardíaco de um dos acidentados, Rebecca observou uma fraca linha vermelha emitindo pulsos tímidos, junto com a inscrição "Danger". Aquilo lhe trazia lembranças...

- Doutora, nosso estoque de ervas verdes está acabando! – veio avisar uma enfermeira, cansada e com os olhos ladeados por olheiras. – Há doentes precisando de tratamento urgente. Como faremos?

- Não se preocupe – respondeu Chambers, sinônimo de calma. – Usem ervas vermelhas. Basta misturá-las com as verdes ou azuis, para potencializar seu efeito. Apenas uma erva vermelha misturada com uma verde já deve equivaler ao efeito de três verdes.

- Obrigada, doutora.

- Doutora, não poderíamos usar First-Aid Sprays no lugar de ervas, para economizar algumas delas? – veio inquirir outro enfermeiro.

- First-Aid Spray é para os fracos! – Rebecca foi bem incisiva.

- Doutora Chambers, os jardineiros não sabem como arrancar aquelas ervas daninhas da fachada do hospital!

- V-JOLT na cabeça! – esclareceu Rebecca com pressa, sem nem mesmo parar de andar para responder.

Tirando uma pequena folga do pronto-socorro, Chambers podia atender a alguns pacientes em seu próprio consultório, anexo ao hospital. Naquela tarde, no caso, dois idosos haviam ido procurá-la, tendo marcado consulta previamente.

- Boa tarde – Rebecca saudou-os com simpatia.

- Boa tarde, doutora – o casal de velhinhos replicou sentando-se diante da mesa da médica, que continha, entre outras coisas, um porta-retratos com uma foto dela na antiga equipe de basquete do R.P.D.

- Interessados no tratamento, suponho?

- Sim, doutora – confirmou o senhor. – Muito nos interessa sermos jovens novamente.

- Bem, na verdade, o tratamento não é exatamente rejuvenescedor... – Chambers sentia-se chateada em desapontá-los, porém tinha de esclarecer os fatos. – A técnica de consumo de ervas amarelas apenas aumenta a expectativa de vida. Vocês viverão mais, durarão mais tempo. Mas não ficarão mais jovens. Acreditem, queridos, ser jovem ou não é uma questão de espírito, não de corpo. Se ainda assim quiserem rejuvenescer fisicamente, uma certa empresa desenvolveu um produto chamado "Regenerate", certa vez...

- Não, não! – a senhora riu. – Nós entendemos. Só poder viver alguns anos a mais já basta para nós.

A doutora sorriu. Apanhou então um papel e, com uma caneta, escreveu nele a receita de ervas amarelas, em combinação com ervas verdes, que o casal deveria consumir. Para surpresa dele, e ao contrário da maioria dos médicos, a caligrafia de Rebecca era muito bonita.

Assim era a intensa – porém prazerosa – rotina da doutora Chambers no Hospital Central.

X – X – X

- Vocês só podem falar com a doutora tendo hora marcada! – avisou a recepcionista de forma ríspida, sem nem olhar para Chris e Jill, com um receptor de telefone apoiado entre um dos ombros e o ouvido.

- Como assim? – rebateu Valentine, inconformada.

Mas a funcionária nem sequer tornou a responder.

- E agora? – perguntou Redfield, dando um soco frustrado no balcão.

- A doutora só atenderia a pessoas doentes... não?

Os dois trocaram um olhar cúmplice... e em seguida se afastaram andando naturalmente, rumo à saída, mãos nos bolsos... Quando, de repente, Chris jogou-se no chão, debatendo-se e rolando pelo piso – causando assim o afastamento assustado de algumas pessoas – enquanto Jill gritava, simulando completo desespero:

- Oh não, socorro! Ajudem!

Do balcão de atendimento, a recepcionista ergueu a cabeça, acionando em seguida um pequeno botão sobre o móvel. Uma porta dupla abriu-se quase de imediato, dois enfermeiros avançando pela recepção com uma maca. Abriram caminho entre a pequena roda de curiosos que se formara em torno de Redfield – que até babava – e colocaram-no com cuidado sobre o transporte. Chorando, Valentine berrava:

- Foram os esteróides! Os malditos esteróides! Eu tentei avisá-lo, mas ele nunca me ouviu!

A dupla de funcionários partiu empurrando o ainda espumante Chris, Jill correndo com eles para acompanhá-lo. Aos poucos a recepção voltou ao normal, as pessoas tornando a se concentrar em seus próprios problemas. A balconista, por sua vez, falou junto a um microfone, sua voz sendo propagada pelos alto-falantes:

- Doutora Rebecca Chambers, sua presença é requerida na ala de desintoxicação!

E, completamente alheia ao esquema que conseguira enganá-la, voltou a falar ao telefone.

Tendo ouvido ao chamado, Rebecca já descia por um elevador até a dita ala de desintoxicação, imaginando que paciente teria de tratar. Quando as portas se abriram para o corredor, viu-se tomada pela surpresa ao encontrar o velho colega Chris Redfield, deitado numa maca, junto com a antiga parceira Jill Valentine, de pé ao seu lado... e dois enfermeiros nocauteados mais atrás, encostados a uma parede.

- C-Chris, Jill? – a médica balbuciou, confusa, enquanto arregalava os olhos. – O que houve aqui? E por que... aqueles dois estão desmaiados?

- Sabe, eles estavam nos atrapalhando... – sorriu Jill. – Chris teve de se passar por doente para conseguirmos vê-la! Você é uma mulherzinha difícil de se falar, sabia?

Chris doente também lembrava a Rebecca os velhos tempos... Ignorou o sarcasmo vindo de Valentine e pôs-se a se recordar das trapalhadas do rapaz na Mansão Spencer, quando diversas vezes tivera de salvá-lo... ainda que ele também a houvesse salvado algumas vezes, ainda que em menor quantidade. OK, OK, ele só a salvara do Hunter mesmo!

- O que vocês estão fazendo aqui? – indagou Chambers, confusa e ao mesmo tempo feliz. – O que querem comigo?

- Rebecca... – falou Chris, sentando-se sobre a maca e olhando para o rosto da doutora. – Gostaria de voltar aos velhos tempos? Ao clássico survival horror?

- E-eu, eu não sei... – ela oscilou, baixando a cabeça.

- Wesker está preparando um novo desafio para nós – revelou Jill. – Como nos primeiros tempos. Zumbis, lugares fechados, munição escassa... falta de linearidade.

Chambers deu um demorado suspiro antes de responder:

- É encantador, mas... Eu tenho uma nova vida agora, pessoal. Meus pacientes precisam de mim. As ervas, que antes nos salvavam da morte para os zumbis e monstros, agora são um tratamento ao alcance de todos... Não quero abrir mão disto. Sou necessária aqui.

- Mas você também seria necessária entre nós, na nossa equipe! – contra-argumentou Redfield. – Sempre foi a médica do grupo! Uma das integrantes mais inteligentes!

Rebecca sorriu de forma acanhada, colocando uma mão no ombro direito de Chris e dizendo, fitando fixamente seus olhos:

- Chris... Criar uma nova infecção agora, nos moldes antigos, seria a mesma coisa de combater a Umbrella e suas criações malignas como antes... ou apenas algo para satisfazer nossos próprios egos?

Os recém-chegados se calaram diante da indagação, ao mesmo tempo em que Chambers, tornando a suspirar, dirigia-se de volta ao elevador e falava:

- Lamento, pessoal, mas meu lugar é aqui. Espero que se divirtam.

A médica desapareceu no transporte, deixando Chris e Jill a verem navios.

X – X – X

- Quem diria que a Becca acabaria recusando? – resmungou Redfield, caminhando com a parceira pelo estacionamento do hospital.

- Ah, talvez ela nem mereça estar entre nós... Quem ela pensa que é para falar com a gente daquele jeito? Para falar com você daquela maneira?

- Com ciúmes, é?

Jill ia fazer uso mais uma vez dos golpes que aprendera quando era leal a Wesker – como agira com os enfermeiros dentro do prédio – porém se deteve no momento em que um misterioso indivíduo de sobretudo preto e chapéu da mesma cor surgiu diante deles, andando lentamente. Ele ganhou a receosa atenção do casal enquanto se aproximava, até que Valentine, com melhor visão, pôde identificar de relance o rosto semi-oculto do sujeito... não podendo evitar soltar uma exclamação:

- Minha nossa, é você!

X – X – X

A correria no hospital continuava. Rebecca, após mais alguns atendimentos, fora chamada para examinar um paciente recém-chegado numa ambulância. Ele já era empurrado numa maca por uma dupla de enfermeiros quando a médica se aproximou e perguntou a um deles:

- O que ele tem?

- Algum tipo de infecção. Bastante febril, um tanto trêmulo.

Chambers pousou as costas de sua mão direita na testa do doente: estava mesmo quente.

- Teremos de fazer alguns exames para diagnosticar. Mesmo assim, administrem uma dose de erva verde. Se não curá-lo, ao menos vai melhorar seu estado.

- Doutora... – o outro enfermeiro falou, relutante.

- O que foi?

Ele trocou um olhar preocupado com o colega antes de revelar:

- Conhecemos o procedimento padrão da senhorita e já administramos a dose dentro da ambulância... sem resultados.

A tranqüilidade de Rebecca terminou pela primeira vez aquele dia. Torceu os lábios. Nenhuma enfermidade ou ferimento conseguia resistir ao poder de suas ervas medicinais! Com uma suspeita que torceu para não ser verdadeira, puxou as longas mangas da blusa que o paciente usava... apenas para se deparar com a pele dos braços toda cheia de feridas.

- Senhores... – ela murmurou, tentando controlar a tensão que a invadia. – Estamos com um caso de contaminação pelo T-Virus!

To be continued...