Enquanto esperava a chegada do carro de Antony, que seria trago por um dos manobristas do restaurante, Alice refletia a respeito de um incomodo que estava sentindo, pelo que tinha passado há pouco. O estranho de todo esse mal estar era de que o motivo para estar sentindo isso não era fato de ter confrontado a modelo internacional e sim porque ela estava acompanhando Bruce.

Por mais insuportável que ele parecesse, por mais arrogante que fosse ela não podia ignorar o fato de que todo aquele charme, de que todo aquele senso de estilo interessante e o sorriso de dez milhões de dólares a atraiam de um modo que a própria odiaria admitir.

Mas mesmo que no fundo cogitasse ter alguma coisa com ele, Alice sabia que Wayne era um caso totalmente perdido. O solteiro mais cobiçado da cidade, e senão do país vivia pulando de cama em cama a procura da diversão mais diferenciada que podia ter. Mas no fundo Alice sabia que todo esse mau caráter não tinha sido herdado do berço, e sim herdado da fortuna que havia sido direcionada a ele.

Deveria ser impossível saber se uma das inúmeras mulheres que teve se aproximaria dele por que realmente se interessava pelo que ele era ou pelo que ele tinha. Claro, nada justificaria a troca diária que fazia com as suas companhias, mas não confiar em ninguém ajudava muito a ter uma estratégia de vida banal como a que Bruce levava.

Antony cutucou Alice e perguntou:

-Você está bem?

Alice se virou para olhar diretamente para ele e perguntou:

-Estou, por quê?

Ele sorriu e respondeu:

-Nada, é que parecia que você estava no mundo da lua.

Alice sorriu e disse:

-Eu vivo no mundo da lua.

A indagação que vinha a sua cabeça agora era: Por que pensar no mauricinho esnobe se o homem perfeito se encontrava ao seu lado. Perfeito poderia até ser uma hipérbole das mais cascudas, mas desde que o conheceu, ela não notou nada que sujasse o caráter limpo que apresentava. Antony era bonito, inteligente, engraçado e tratava Alice como uma dama. Bem, ter chegado a essa conclusão fez com que ela começasse a desconfiar um pouco de todo aquele conto de fadas , isso porque, sempre que encontrava alguém, assim como Antony, quebrava a cara de um jeito bizarro que poderia ser comparado a qualquer trama de novela mexicana.

Quando os dois se voltaram novamente na direção da rua, viram um cachorro de rua se aproximando, nisso Alice toda sorridente se abaixou um pouco para acariciá-lo, mas na hora em que o animal estava quase chegando rente a ela, Antony chutou o pobre coitado para longe, o que fez com que o pobre chorasse e latisse com a dor que tinha sentido com o golpe.

Alice olhou para ele indignada e perguntou:

-Por que você fez isso?

Ele respondeu:

-Esse vira-lata ia pular em você.

Alice se aproximou do cachorro e com uma das mãos começou a acariciá-lo. Olhando mais de perto viu que umas das patas estava muito machucada e ele estava muito magro, de corrente de viver na rua e sobreviver a base de doações escassas que recebia quem sabe algum dia da semana. Alice olhou para Antony que se aproximava e disse:

-Você só fez o estado dele piorar.

Antony irritado ordenou:

-Alice, tira as mãos dele agora.

Ela pegando o cachorro no colo disse:

-Não, eu vou levar ele para casa.

Antony ainda mais irritado disse:

-O que? Você só pode estar brincando.

Alice o olhou e perguntou:

-Isso quer dizer que você não vai me ajudar, não é mesmo?

Antony respondeu:

-No meu carro esse pulguento não entra.

Alice se virando disse:

-Tudo bem, eu vou andando para casa.

Antony se colocou na sua frente e perguntou:

-Isso é ridículo, você prefere ficar com esse animal em vez de ficar comigo?

Alice se virou para encará-lo e respondeu:

-O único animal que eu vejo aqui é você.

O manobrista que estava por perto disse:

-Senhor o carro.

Antony pegou grosseiramente as chaves da mão do funcionário, abriu a porta do carro e entrando no automóvel disse:

-Então tenha uma boa noite com esse sarnento.

Depois que disse isso ele fechou a porta do carro e saiu em arrancada deixando Alice e o cachorro abandonados no meio da rua. Ela olhou para o novo companheiro e disse:

-Quanto mais eu conheço os homens mais eu gosto dos cachorros.

Enquanto estava cariciando o animalzinho tomando coragem para ir para casa, uma voz de uma pessoa que aparentemente estava atrás dela perguntou:

-O que aconteceu?

Quando se virou viu Bruce a encarando com um ar de preocupação, nisso respondeu:

-Nada.

Ele se aproximou totalmente dos dois e acariciando o cachorro perguntou:

-Ele está ferido, você viu quem fez isso?

Alice estranhou tudo aquilo, mas mesmo assim quis ser simpática com o bilionário e então respondeu:

-Quando ele cruzou o meu caminho o seu amiguinho chutou ele para longe , então quando eu fui ver como ele estava vi que uma das patas estava machucada.

Bruce confuso perguntou:

-O Antony?

Alice respondeu:

-Não, o Che Guevara.

E parecendo não ter ligado para a resposta dela disse:

-Eu não conhecia esse lado dele.

Alice riu e disse baixinho:

-Você só deve conhecer a parte de trás.

Bruce confuso perguntou:

-O que você disse?

Alice respondeu:

-Eu disse que é melhor levar o Madruguinha para algum veterinário.

Bruce sorriu e perguntou com aquele nome inusitado:

-Madruguinha?

Alice respondeu:

-É o nome que eu dei a ele, oras.

Bruce perguntou:

-Você se importa se eu pegá-lo no colo? Você deve estar com os braços cansados.

Alice entregou o cachorro e ele e perguntou:

-Obrigada. Você conhece algum veterinário de confiança aqui na cidade?

Bruce já se dirigindo ao carro que estava perto respondeu:

-Bem, nós podemos levar para a minha ONG.

Alice o acompanhando perguntou confusa:

-Sua ONG?

Bruce respondeu:

-Sim eu tenho uma ONG em defesa aos animais de rua que funciona perto daqui.

Alice ficou sem reação alguma, essa notícia tinha a pegado de surpresa. Saber que o Senhor que se dane o mundo tinha uma ONG, já era motivos de sobra para ela olhar para ele com um pouco mais de respeito. Agora saber que ele tinha uma ONG destinada a ajudar animais de rua, simplesmente a faria bater palmas para o mauricinho. Afinal, um de seus sonhos era construir uma ONG com esse fim de ajudar aqueles que só nos ajudam sem pedir nada em troca.

Ela sorrindo disse:

-Você é um riquinho esnobe, mas pelo menos faz alguma coisa que preste na sua vida.

Bruce sorriu e perguntou:

-Você é sempre direta assim?

Alice respondeu:

-Sim.

Bruce já em frente ao seu carro disse:

-Bom, vamos ajudar o nosso amigo aqui a ficar bem.

No meio do caminho, Alice carregava Madruguinha no colo e conversava com o bilionário:

-Há quanto tempo você tem essa ONG?

Bruce se virou por um instante e respondeu:

-Se não me engano há cinco anos

Alice perguntou:

-E por que quando nós discutimos no trânsito, você não me jogou isso na minha cara?

Bruce olhou para frente e respondeu:

-No fundo você tinha razão.

Alice riu e disse:

-É claro, eu sempre tenho a razão.

Bruce levantou uma sobrancelha e rapidamente olhou para ela que disse:

-Foi você mesmo que disse que eu tinha razão.

Bruce disse:

-E você se aproveita para se gabar.

Alice perguntou:

-Falando em se gabar, onde está a sua namorada modelo internacional?

Bruce hesitou um pouco, mas acabou respondendo:

-Eu terminei com ela.

Alice riu e disse:

-Isso deve ser normal para você.

Bruce sério disse:

-Você faz muito mau juízo de mim.

Alice riu e disse:

-Eu tenho motivos.

Bruce perguntou:

-Tem?

Alice respondeu:

-Oras, na primeira vez que eu te vi, você estava com duas mulheres no carro, na festa de ontem com mais três e hoje você terminou um namoro que deveria ter começado á horas atrás.

Bruce se defendeu:

-É muito difícil saber se uma pessoa se aproxima de mim por causa da minha companhia ou por causa do meu dinheiro.

Alice perguntou:

-E por isso você sai com todas?

Bruce respondeu:

-Eu só não encontrei a pessoa certa- ele fez uma pausa –bem, achava que não tinha encontrado mas eu não tenho chances, essa pessoa me acha um mauricinho esnobe que sai com todas.

Alice olhou para fora do vidro do seu lado do carro e disse:

-É...você não tem chances, eu sinto muito.

Bruce disse:

-Isso é o que vamos ver.

Não demorou muito e os dois chegaram ao local, em seguida entraram e se dirigiram no sentido do consultório da veterinária chefe da ONG. Quando entraram na tal sala, Alice se surpreendeu com quem era a profissional que estava encarregada de cuidar dos animais.

Alice a analisou completamente e por fim perguntou:

-Aline Ribas Sanches?

A mulher igualmente a analisando perguntou:

-Alice?

As duas correram para um abraço e quando se olharam, Alice disse:

-É uma surpresa te ver aqui.

Aline ainda não acreditando em quem via disse:

-É uma surpresa te ver aqui também.

Bruce colocou o animal na maca do consultório e disse:

-Nosso amiguinho está ferido, doutora.

Aline se aproximou do cachorro e com os instrumentos necessários examinou o cachorro. No final da consulta olhou para os dois e disse:

-Ele tem uma contusão na pata, mas ele vai ficar bem.

Alice aliviada perguntou:

- E em quanto tempo ele pode ir para a casa?

Alice perguntou:

-Ele é seu?

Alice sorridente respondeu:

-Eu decidi adotá-lo.

Aline disse:

-Se você não fizesse isso, eu iria acabar fazendo.

Alice disse:

-E você acha que eu não sei, aposto que você mora em uma casa enorme e tem inúmeros animais.

Aline disse:

-Não tenho quase nada, só sete cachorros e cinco gatos .

A conversa continuou e depois de tratado, madruguinha foi para o apartamento de Alice.

Na porta de seu condomínio com o cachorro no colo ela se despediu de Bruce e antes que entrasse definitivamente no local disse:

- Espero que você me convide mais vezes para ir até a sua ONG.

Bruce disse:

-Você pode ir sempre que quiser.

Alice já se afastando disse:

-Obrigada almofadinha.

Antes que subisse para o seu apartamento, Alice passou em Aaron para mostrar a novidade.

Aaron abriu a porta e olhando surpreso para o cachorro perguntou:

-De onde você tirou isso?

Alice entrando no apartamento respondeu:

-Lembra que eu ia sair com o Antony? – ela esperou o amigo responder – Então, quando a gente estava saindo do restaurante que eu fiz um barraco com a namorada do Bruce Wayne...

Aaron a interrompeu e perguntou:

-Barraco com a namorada do Wayne?

Ela se sentou no sofá rindo e respondeu:

-Mano, a mulher achava que a Amazônia ficava na África.

Aaron riu e impressionado perguntou:

-Você está brincando?

Alice respondeu:

-Pior que não.

Os amigos continuaram a conversa até chegarem aos mínimos detalhes e assim como ela, o amigo ficou revoltado pelo que tinha acontecido com o ex cachorro de rua. Sem contar na implicância que teve em saber do que Bruce tinha feito, agora nem mesmo se a filha do Comissário escaparia de ouvir nome de Wayne todos os dias, quando Aaron resolvesse a importunasse com esse assunto.

Alice se despediu de Aaron e subiu até o seu andar para finalmente mostrar a nova casa ao novo morador de seu apartamento. Quando entrou viu que o cavaleiro das trevas de pé na sala de estar, pronto para vigiá-la por mais um dia.

Ela disse olhando para ele:

-Se o Madruguinha estivesse bom eu mandaria ele te morder.

Batman disse:

-Os cachorros são espertos demais para obedeceram uma ordem dessas.

Alice disse:

-Ele ia te confundir com um morcego gigante e ia correr atrás de você.

Batman ainda na mesma posição e sem ao menos alterar um pouco sequer da feição disse:

-A cidade deve estar um caos lá fora e você só pensa em piadas? – ele fez uma pausa – É melhor de deitar logo antes que eu me arrependa da promessa que fiz para o Comissário.

Alice bufou e disse:

-Só de desaforo eu vou ficar aqui com você a noite toda.

Batman ríspido disse:

-Nossa que felicidade.

Alice levou o cachorro até seu quarto e o colocou em sua cama, mas em vez de descansar como o parceiro resolver mesmo importunar Batman. Ela se sentou do lado dele e o encarando perguntou:

-Você já teve um caso com o meu pai?

Ele permaneceu calado.

-Por que a sua voz é estranha assim?

Nada.

-Se eu tirar a roupa na sua frente o que você vai fazer?

Nada.

-Sabe, eu sempre quis ter um melhor amigo gay, você bem que poderia realizar o meu sonho.

Nada.

-Você não vai mesmo falar comigo?

Nada.

-Então está bem, eu vou cantar para você.

Ela limpou a garganta e começou:

-Estava a velha em seu lugar, veio a mosca lhe fazer mal, a mosca na velha e a velha a fiar, estava a mosca em seu lugar, veio a aranha lhe fazer mal, a aranha na mosca, a mosca na velha e velha a fiar... A morte na mulher, a mulher no homem, o homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar.

Ela decepcionada perguntou:

-Você nem vai me aplaudir?

Ele disse:

-Eu poderia estar salvando vidas agora, prendendo mafiosos perigosos, mas eu preciso ficar aqui e me certificar que nada de mau te aconteça, então , por favor, vai dormir.

Alice disse calmamente:

-Você só sabe jogar isso na minha cara? – ela olhou em seus olhos – Além do mais eu estou sem sono.

Ela se levantou, buscou na cozinha inúmeros pacotes de salgadinhos, colou na mesinha central da sala e ligou a tv.

Colocando um dos pacotes na cara de Batman perguntou:

-Quer?

Batman perguntou:

-Se eu aceitar você vai logo para cama?

Alice respondeu:

-Sim. Você quer?

Batman agora estava mais do que sério, parecia que estava começando a ficar um pouco irritado, não pela companhia, ou pelas peraltices de Alice, e sim por não estar lá fora combatendo tantos dos canalhas que faziam daquela cidade uma das mais perigosas do país.

Ele secamente respondeu:

-Quero.

Alice disse rindo:

-Compra.

Nesse mesmo instante, Batman chegou à conclusão de que toda essa implicância dela era apenas o seu orgulho falando mais alto, como se a missão impossível daquele momento fosse tirá-lo do sério, ou pelo menos mudar a feição dele por alguns milésimos de segundo. Com isso decidiu entrar no jogo de uma vez, afinal, ele não tinha nada a perder, tinha?

Claro, o fato de estar se "divertindo" no lugar de se assegurar de que a noite em Gotham não fosse tão perigosa, o incomodava e muito. Mas ele não podia negar que a companhia da filha do Comissário era muito mais agradável do que ele podia imaginar.

A presença dela o fazia de alguma forma reviver a adolescência que nunca teve a oportunidade de ter, e isso fazia com que se sentisse ainda mais culpado, por estar se divertindo com ela ao em vez de se preocupar mais com a violência lá fora.

Alice gargalhava distraída e por causa disso não percebeu quando o morcego se levantou e pegou um pacote de salgadinho da mesa.

Alice disse triunfante:

-1X0 para Alice.

Batman disse:

-Não, 1X1

Alice o olhou confuso e perguntou:

-Por que 1X1?

O herói sem avisar estourou um salgadinho na cabeça dela, mas mesmo estando se divertindo não deixou de permanecer sério com tudo.

Ela se levantou rapidamente e pegou um pacote da mesa, mas quando ia atacá-lo, Batman a segurou e a puxou para mais perto, os deixando cara a cara. Os dois se aproximaram mais e ela perguntou:

-Você não teria coragem de atacar uma dama indefesa como eu, teria?

Batman respondeu:

-Uma dama não, mas você sim.

Alice se afastou dele rapidamente e disse:

-Nem queria mesmo ficar aqui, só para a sua informação.

Ela correu para o quarto e quando entrou fechou a porta a trancando o mais rápido que podia. Ver o cavaleiro das trevas agindo de um modo que não condizia com o seu personagem foi de longe muito assustador e intrigante ao mesmo tempo, mas também não podia negar de que tinha gostado dessa interação estranha. E pensando bem, não seria um sacrifício para ela tê-lo em casa todos os dias a vigiando.