Era noite e Alice estava parada no meio de uma estrada, que parecia não ter mais fim por causa de uma neblina densa vigente no local, ao seu redor apenas árvores podiam ser vistas, afinal como a escuridão cercava tudo o que estava por perto, nada além do superficial podia ser percebido.
De repente uma sensação estranha de que algo ameaçador estava próximo fez com que ela corresse na direção em que a estrada seguia, e mesmo parecendo que o caminho não tinha fim, ela conseguiu chegar a um local diferente, o que provavelmente seria o final do trajeto. Agora, a filha do Comissário estava em frente a uma placa sem nada escrito e que apontava para dois caminhos, duas estradas de terra que davam a lugares não sabia em que caminho continuava e para agravar, aquela sensação misteriosa ainda estava de algum modo junto a ela, e agora com um poder muito mais forte do que antes.
Quando olhou melhor para os dois novos caminhos percebeu que duas pessoas estavam se aproximando cada qual ao seu caminho respectivo. E quando as duas pessoas se aproximaram mais, ela pôde ver que de um lado estava Batman e de outro, Coringa.
E a pior parte estava por vir, a sensação misteriosa começou a deixá-la com medo, era como se isso a estivesse obrigando a escolher um caminho, mas Alice não conseguia mais se mexer e muito menos pronunciar uma palavra se quer.
De repente sua visão ficou preta em uma fração de segundos e com isso pôde mexer todos os músculos do corpo percebendo que estava em outro lugar, que estava com os pés no chão novamente. Então, abriu os olhos e constatou que tinha sido somente um sonho, ou melhor, um pesadelo.
Nisso, se sentou na cama e olhando para Madruguinha que já estava acordado e disse:
-Queria muito ser Freud para ter o significado desse sonho doido.
Era quase seis da manhã quando Alice olhou para o relógio que ficava ao lado de sua cama. Nisso resolveu se levantar para se aprontar para ir ao curso, antes que resolvesse se deitar por mais cinco minutos e chegar atrasada para a primeira aula.
Depois de tomar banho e se trocar, resolveu importunar o morcego uma última vez antes de sair de casa, mas vasculhou todos os cômodos e não o achou.
"Que incompetente, não serve nem para me vigiar". Pensou ela que se voltou à cozinha para preparar o café da manhã.
Abriu um dos armários e tirou de lá uma tigela, em seguida abriu a geladeira para pegar a caixa de leite. Quando se sentou a mesa percebeu que faltava alguma coisa.
Ela disse:
-Ah claro Alice, você quer comer cereal sem o cereal na tigela, parabéns.
Ela se levantou, abriu a dispensa que estava atrás dela, pegou o cereal e antes de se virar abriu a caixa e pegou um punhado do produto. Ela saboreando os flocos de milho disse satisfeita:
-Isso é muito bom com o sem leite.
Nesse mesmo instante uma voz masculina disse não tão longe de onde ela estava:
-Espero que esteja bom mesmo, porque será a sua última refeição.
Antes mesmo da pessoa que estava dentro de seu apartamento acabar de falar Alice deixou a caixa de cereais cair no chão e lentamente olhou para trás. Quando viu que era Coringa que estava na entrada de sua cozinha, ela se benzeu rapidamente como o seu personagem favorito, o Chaves.
Depois de todas as notícias que tinham saído nos jornais dias anteriores, era impossível o vilão não saber de quem se tratava a atrevida que tinha o vigiado na delegacia, e depois estragado os seus planos na feste do prefeito. E era claro que ele não deixaria a oportunidade de pegá-la de jeito, de lado, ainda mais se tratando da filha do Comissário.
E por mais bizarro que toda essa situação fosse, Alice estava animada de estar vendo o palhaço em sua casa prestes a atacá-la.
Coringa sorrindo disse:
-Vejo que você ficou sem palavras princesa Gordon.
Alice se acalmou e o enfrentando disse:
-Vem cá, te conheço.
Coringa se aproximou um pouco dela e perguntou:
-Ah conhece sim – ele apontou para ela -foi você quem estragou o meu plano naquela festa do prefeito, não se lembra?
Alice disse baixinho, fazendo cara de quem tentava se lembrar do ocorrido:
-Festa do prefeito, festa do prefeito... -de repente como se uma luz a iluminasse disse- Já sei – ela sorriu - você está me confundindo com a minha irmã gêmea, a Alice.
Coringa com voz de deboche perguntou parando a sua trajetória:
-Irmã gêmea? Sério?
Alice se afastando e se colocando ao lado oposto da mesa com relação onde o palhaço estava respondeu:
-Sim, irmã gêmea.
Coringa agora se aproximando novamente disse:
-Interessante, mas mesmo você sendo a irmã gêmea daquela imbecil eu acho que com a sua morte a minha vingança seria completa – ele fez uma pausa -afinal, não dizem que um gêmeo sente tudo o que o outro sente.
Alice sorriu e nervoso e disse:
-Isso não vai funcionar.
Coringa perguntou sorrindo:
-E por quê?
Alice respondeu:
-Ela me odeia – ela fez uma pausa- ela e a minha família toda, então se você acha que vai atingir o meu pai me matando, você está completamente enganado.
Coringa se aproximando rapidamente ficando agora em sua frente e disse:
-Mas mesmo assim eu vou arriscar, afinal para quem tortura centenas por semana, torturar uma só não vai ser nenhuma perda de tempo – ele segurou o rosto dela com força e disse perto de seu rosto - Você não imagina o prazer que eu tenho em sentir o medo das pessoas de perto.
Alice sorriu abafado e disse:
-Mas moço você não entende, eu tenho que viver pelo menos mais 6 meses.
Coringa gargalhou, mas logo ficando sério disse pausadamente:
-Eu...não...dou...a...mínima.
Coringa a uma das mãos pegou rapidamente uma faca de um dos bolsos e colocou rente ao pescoço de Alice que pediu:
-Eu posso pelo menos contar uma piada antes de morrer?
Coringa agora pressionando mais a navalha disse sério:
-Você pode enrolar o quanto quiser, o Batman não vai chegar a tempo de te salvar.
Alice preocupada perguntou:
-E como você tem tanto certeza?
Coringa sorriu de satisfação e respondeu:
-Fui eu quem fiz ele sair daqui.
Alice de boca aberta disse:
-Além de ser inconveniente, incompetente e sem graça ainda é burro, eu mereço.
Coringa esclarecido disse:
-Estava me esquecendo de que matar você atinge a Batsy também.
Alice riu e disse:
-Atinge nada, ele me detesta.
Coringa sem paciência disse:
-Atatatata não fala mais asneiras, eu só quero ouvir gritos e pedidos de misericórdia de agora em diante.
Alice fechou os olhos e disse:
-Okay, você venceu, batatas fritas.
Coringa de deboche disse:
-Você é bem estranha sabia?
Alice ainda com os olhos fechados disse:
-Eu vou morrer mesmo, posso falar o que eu quiser.
Coringa deu tapas de leve em seu rosto e ordenou:
-Abra os olhos agora!
Alice fez o que eu pediu, abriu os olhos lentamente e disse:
-Só fala para o meu pai que quando ele encontrar o meu corpo numa vala ou no rio, é para ele resgatar o presunto, me cremar e colocar as minhas cinzas numa ampulheta decorada em tons de roxo e quando todos estiverem no meu enterro, tocar as músicas do U2, principalmente a música "Sunday Bloody Sunday" , apesar de sempre ter achado que essa música se referia ao Domingo Sangrento que ocorreu na Rússia, mas na verdade é o Domingo Sangrento que ocorreu na Irlanda – ela fez uma pausa – Você sabia disso?
Coringa ficou paralisado por alguns segundo e em seguida disse:
-Eu mudei de ideia, não vou te matar.
Ela o olhou e sorrindo disse:
-Você não quer desperdiçar um cérebro como o meu, suponho.
Coringa riu e disse:
-Não, só acho que uma pessoa com o seu senso de humor merece uma segunda chance.
Alice perguntou:
-Segunda chance?
Coringa a soltou e disse:
-Sim, e eu como sou bondoso vou te dar esse nova chance.
Alice levantou uma sobrancelha e disse:
-Ah é mesmo.
Coringa se aproximou novamente e disse:
-Vamos fazer um trato, eu te deixo viva por seis meses e em troca você vai fazer tudo que eu mandar.
Alice disse:
-Prefiro morrer, aposto que você vai me mandar fazer os seus trabalhinhos ilícitos e depois me trancafiar em Arkham para sempre.
Coringa gargalhou um pouco e disse:
-Você é bem espertinha – ele fez uma pausa – mas antes de conseguir isso, eu vou acabar com esse seu mecanismo de defesa.
Alice sorriu e disse:
-Ui, as pessoas não podem ter mais senso de humor.
-Não me interessa suas teorias – ele olhou para cima -vai ser bom ter uma empregada de graça por seis meses.
Alice incrédula perguntou:
-Empregada?
Coringa respondeu:
-Qual é a parte do ,você tem que fazer o que eu quiser, você não entendeu.
Alice confusa perguntou:
-Você quer que eu vá até a sua casa para arrumar as suas coisas?
Coringa se aproximou dela, e com umas das mãos segurou o seu queixo a fazendo balançar a cabeça de um lado para outro e perguntou:
-Você acha mesmo que eu deixaria você saber onde fica o meu esconderijo?
Alice respondeu:
-Ué, e porque não?
Coringa disse:
-Já que você é lerdinha para entender as coisas eu vou ditar as regras do nosso acordo, primeiro eu vou frequentar o seu apartamento quando eu quiser...
Ela o interrompeu e perguntou:
-Meu apartamento tem cara de casa da mãe Joana?
Ele apertou o seu queixo, o que fez Alice gemer um pouco de dor, e perguntou:
-Segundo, quando eu pedir para você fazer alguma coisa, você vai obedecer de bico calado. Entendeu?
Alice perguntou:
-Você está bem nesse papel de não querer me matar por algum motivo que eu não sei.
Coringa gargalhou e se afastando disse:
-Eu não quero mais te matar, agora eu quero quebrar a sua mente em milhões de pedacinhos, só para o papai Gordon passar a vida toda se perguntando o que fez de errado.
Alice ofendida disse:
-Meu bem, você não sabe com quem está lidando.
Ele se aproximou e a olhando fixamente com o seu olhar, que parecia mais um buraco negro disse com certeza:
-Eu acho que sei sim.
Ela colocou as mãos na cintura e disse:
-Não sabe não.
Ele tocou em seu rosto e disse:
-Você é uma mulher muito bonita e atraente e eu sei qual vai ser a primeira coisa que eu vou pedir...
Ela o interrompeu e disse:
-Ah já sei, você quer algumas dicas de maquiagem – ela fez uma pausa olha eu tenho um gloss vermelho que vai fazer você arrasar na noite.
Ele puxou o cabelo dela e disse:
-3º regra, sem piadinhas pirralha.
Alice tentando se soltar disse:
-Está bem, não precisava puxar minha crina.
Coringa saindo da cozinha disse:
-Bem, agora vai preparar o meu café da manhã, tenho muito trabalho hoje.
Ele se dirigiu até o sofá, se sentou, colocou as pernas na mesinha central e ligou a tv. Alice que tinha o seguido, ficou estagnada na entrada da cozinha só observando o que o homem mais temido de Gotham fazia.
Alice estava muito confusa com aquele papel que o palhaço estava interpretando, não era de longe o que ela ouvia falar dele, mas como também sabia de que ele não dava ponto sem nó, chegou à conclusão de que o criminoso estava fazendo aquilo para tentar enganá-la de alguma forma.
Ele percebendo o olhar fixo de Alice disse:
-Eu sei que você ficou animadinha com a parte de fazer tudo para mim, mas agora eu quero o meu café da manhã.
Alice foi para a cozinha preparar alguma coisa para o criminoso, e como não sabia nem fritar um ovo, resolveu prepara o mesmo que a pouco serviria de café da manhã para ela. Chegando lá, pegou uma nova tigela de cerais no armário, recolheu o cereal que tinha caído no chão e colocou leite por cima.
A intenção era ver até onde o papel de bom samaritano ia.
Coringa pegou a vasilha e começou a comer o cereal. De repente o palhaço cuspiu tudo no chão e tirando um cabelo sujo do recipiente perguntou se levantando:
-Você pegou isso do chão?
Alice rindo perguntou
-Não, por quê?
Coringa pela primeira vez no dia a olhou com total ódio e respondeu:
-Ele está cheio de cabelo.
Alice disse:
-Ah me desculpe, é que eu tenho queda de cabelo crônica, não posso controlar, eu nasci desse jeito.
Coringa jogou a vasilha na parede, o que fez bacia se espatifar em inúmeros cacos de porcelana e perguntou rindo:
-Eu acho que o nosso trato acaba aqui.
Alice com cara de ofendida disse:
-Poxa, você tem que entender esse meu problema, afinal, você também vai ficar calvo um dia, olha só para as entradas na sua cabeça.
Coringa a jogou na parede que ficava bem atrás dela e segurou o seu pescoço, até que o corpo se elevasse do chão em alguns centímetros, mas logo a soltou um pouco, não queria que ela desmaiasse ou coisa assim, queria aproveitar ao máximo os últimos suspiros da filhinha do Comissário.
E mesmo com dificuldades ela disse:
-Para alguém que é conhecido como palhaço, você tem um péssimo senso de humor.
Ele pegou uma faca do bolso e disse a aproximando do pescoço dela novamente:
-Eu tentei ser bonzinho, mas você vai me obrigar a fazer isso.
Alice disse logo em seguida:
-Espere, vamos negociar.
Coringa cantarolava enquanto pressionava a navalha na superior do pescoço dela que disse:
-Por favor, senhor damas de paus.
O palhaço interrompeu o futuro corte e disse:
-Eu acho que não vou fazer um corte no seu pescoço não – ele olhou para a boca dela – acho que vou te deixar com um sorriso como o meu – ele apontou a faca para o próprio rosto – já que você gosta de sorrir o tempo todo – ele sorriu de satisfação – pode considerar isso como um presente do titio Coringa.
Alice estava nervosa, com tudo o que estava por vir, mas ao mesmo tempo aquele receio que tomava conta de seu corpo a fazia se sentir deslumbrada, como nunca havia acontecido antes. Ela disse:
-Eu poderia fazer uma charada, se você não adivinhar eu permaneço viva.
Coringa riu de deboche e disse:
-Charada é outro vilão querida.
Alice arregalou os olhos e disse:
-Eu sei, ele é a cara do Johnny Depp, porque não foi ele que veio me matar em vez de você.
Coringa desviou o olhar para o lado e disse:
-O seu pai vai ficar tão deprimido que não vai conseguir pensar em me deter, como se ele já conseguisse ao seu normal.
Alice tentando controlar a voz falhada que sairia perguntou:
-Está com medo de não saber responder?
Ele voltou a olhar em seus olhos e respondeu:
-Eu não tenho medo de nada, princesa.
Alice disse:
-Então aceita o trato.
Coringa sem paciência disse:
Ele soltou o pescoço dela por completo e gesticulando com umas das mãos disse:
-Então faz logo a charada para eu acertar.
Alice sorriu perguntou:
-Qual é o animal que come com o rabo?
Ele ficou pensativo por um bom tempo e disse:
-Isso não tem resposta.
Alice sorriu mais ainda e perguntou:
-Então você não sabe?
Coringa gritando disse:
-Fala logo.
Alice disse:
-Todos os animais comem com o rabo, ou você já conheceu algum animal que tirava o rabo para comer.
Coringa a pressionou novamente a parede e disse:
-Tenho mais ou menos 20 minutos antes da Batsy voltar, então...
Coringa olhou para o lado e viu pregado a parede o diploma dela, nisso perguntou:
-Como que uma lerda como você conseguiu ser aceita em Harvard?
Alice limpou a garganta e respondeu orgulhosa:
-Eu não só fui aceita em Harvard como também ganhei bolsa integral.
Ele riu e perguntou:
-Com quem você teve que dormir para conseguir isso.
Alice ainda sorrindo respondeu:
-Com ninguém, eu consegui pelas minhas excelentes notas na escola.
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro em sinal de negação e se afastando disse:
-Aposto que o seu pai usou os contatos dele.
Alice aproveitou que o vilão se afastado dela e se encaminhou até o quarto pegar o mochila para se aprontar para sair. Quando voltou para a sala, Coringa não estava mais lá. Uma folha de caderno tinha sido deixada por ele em cima da mesa. Ela pegou o bilhete e leu.
Espero que o nosso segredinho fique somente entre nós, senão terei que mudar o foco de me vingar de você nos seus irmãos mais novos.
Coringa.
Ela guardou o papel na mochila e saiu do apartamento o mais rápido que podia, afinal estava mais do que atrasada para a aula. No caminho para o elevador, viu que o seu pai estava acabando de subir as escadas, quando se aproximou totalmente dela, abraçou a filha e perguntou:
-Você está bem?
Alice tentando parecer confusa perguntou:
-E porque não estaria?
Gordon ofegante respondeu:
-O Coringa fugiu da prisão e eu pensei que ele poderia ter vindo te procurar.
Alice disse:
-Claro, você coloca o inútil do morcego para me vigiar e na hora que eu estou correndo perigo ele não está cuidando de mim.
Gordon disse:
-O palhaço ameaçou explodir o hospital central se por acaso o Batman não fosse lá marcar presença.
Alice cruzou os braços e perguntou:
-Era para eu ter virado mingau de Alice e você dá razão para aquele mamífero voador?
Gordon respondeu:
-Não, eu só queria explicar.
Alice sorriu e disse:
-Se por acaso aquele palhaço tivesse tentado me matar era só eu ter aplicado nele os meus golpes de Kung Fu.
Gordon sério disse:
-Você nunca praticou Kung Fu.
Alice disse:
-Ele não precisa saber, oras.
Nesse instante o celular do Comissário começou a tocar. Ele pegou o aparelho e atendeu:
-Fala.
Ele ouviu a outra pessoa que estava na linha e respirou aliviado com a notícia que tinha recebido.
Alice curiosa perguntou:
-O que aconteceu?
Gordon respondeu:
-O Coringa foi pego.
"Nossa, ele é rápido" Pensou ela que desanimada disse:
-Ah que bom...
Gordon perguntou:
-O que foi?
Alice respondeu:
-Pai, você nunca imaginou que esse criminoso é pego quando quer e sai da prisão quando quer também.
Gordon sorriu e disse:
-Alice, não tem como ele ter esse controle sobre todos, vejo que você ainda é obcecada por teorias da conspiração.
Alice olhou para o relógio e disse:
-Bom, eu só sei que estou muito atrasada para a aula.
Gordon disse:
-Então vamos.
