Alice estava no meio de uma aula de química, e apesar de adorar a matéria, sua mente tinha se desligado de qualquer coisa que não fosse relacionada a Coringa. Mas dessa vez, o assunto que persistia em sua mente não era a sensação diferente que sentia em confrontá-lo, e sim na questão dele ter ameaçado os irmãos mais novos dela.

Colocar-se em estado de risco, pouco importava. Na verdade, ela até estado gostando de todo o perigo que a envolvia agora, mas envolver a vida de pessoas que amava, a fazia se sentir culpada de um modo que a machucava demais.

Depois que tocou o sinal para um dos intervalos, ela decidiu ficar em sala de aula. A verdade era que não tinha a mínima vontade de fazer mais nada além de refletir a respeito daquele bilhete deixado pelo palhaço.

O professor que tinha dado a aula, Covre, percebeu a distração de Alice, em toda a sua aula. E como ela sempre tinha sido uma aluna exemplar, aquele comportamento o preocupou muito. O professor se aproximou de sua cadeira e perguntou:

-Aconteceu alguma coisa Alice?

Ela surpresa com a abordagem, respondeu:

-Não.

O professor se agachou e disse:

-Pareceu que você não prestou a mínima atenção na aula de hoje.

Alice disse:

-Me desculpe, não foi a minha intenção não parecer interessada na sua aula.

Covre sorriu e disse:

-Eu não estou bravo por você não ter prestado atenção na aula Alice, eu só fiquei preocupado com o motivo de toda essa distração.

Alice sorriu e disse:

-Eu estou bem Covre, obrigada por se preocupar.

Ele a abraçou e disse em seu ouvido:

-Eu sei que aquele criminoso pode estar atrás de você, mas deixe na mão de Deus, que tudo dará certo.

Alice o abraçando o mais forte que podia disse:

-Obrigada pelas palavras Covre.

Depois de ver o professor se afastar, Alice resolveu ir para casa. Ficar ali não ia ajudar a esquecer da confusão toda, e ela sabia que não iria conseguir prestar atenção em nenhuma das aulas que estavam por vir.

Assim que entrou em seu carro, avistou um papel no banco do passageiro. Nisso, abriu o bilhete e leu:

Traga muitos doces.

Coringa

Alice bufou de frustação e disse:

-Eu tenho cara de Willy Wonka por acaso.

Era muito estranho, para ela, não ver o verdadeiro vilão que Coringa poderia ser, claro, ele quase a matou mais cedo, mas faltava a frieza e a tortura psicológica típica do vilão. Aquilo que tinha se apresentado a ela, não era o homem destemido de que Gotham morria de medo.

Pensando nas ações do criminoso chegou à conclusão de que talvez esse fosse o plano dele. Se mostrar como um pseudo vilão só para enganá-la. E se esse fosse mesmo o jogo, ela entraria nele só para ver até onde tudo aquilo iria.

Alice passou no supermercado e comprou inúmeros pacotes dos doces mais baratos e ruins que pôde encontrar. Quando chegou ao seu apartamento se surpreendeu com Batman parado na sua varanda.

Ela foi até ele e perguntou:

-Você é um imprestável, sabia?

Batman permaneceu na mesma posição em que estava, mas agora olhava para ela.

Alice que agora já estava em sua frente disse:

-O Coringa apareceu... Alice nesse momento se lembrou de que não poderia falar nada a respeito do ocorrido mais cedo e pausou a frase no meio.

Batman preocupado perguntou:

-Ele apareceu aqui?

Alice riu desajeitada e disse:

-Eu só queria ver se você estava prestando atenção no que eu dizia.

Batman disse:

-Você está mentindo.

Alice se fingindo de ofendida disse:

-Claro, ele veio aqui, me matou e você na verdade está vendo a minha assombração na sua frente, chame os irmãos Winchester.

Batman disse:

-Eu tive que ir até o hospital...

Ela o interrompeu e disse:

-Eu já sei, o seu defensor número um já me explicou o que aconteceu, mas se você tirar a roupa como um gogoboy eu posso te perdoar.

Batman disse:

-A sua situação não dá brechas para piadas infantis.

Alice percebeu o semblante de preocupado do herói quando o olhou mais de perto. Deveria ser um sacrifício ficar ali cuidando dela em vez de cuidar de pessoas, que para ele valessem mais a pena. Mas mesmo entendendo o porquê dele a tratar daquela maneira, Alice se sentia ofendida todas as vezes que as pessoas confundiam o seu senso de humor com infantilidade.

Ela irritada disse:

-Ei, eu poderia ter morrido por sua causa.

Batman disse:

-Você quase morreu por querer dar uma de engraçadinha para qualquer um.

Alice disse:

-Eu só tenho senso de humor, muito diferente de você que sempre fica tão sério e acaba descontando as suas infelicidades em mim.

Batman disse:

-Se você não se preocupa com você mesma , pelo menos se preocupe com a sua família, ela pode estar correndo perigo por sua causa.

Alice tinha ouvido o óbvio mais pesado de todos, ela não queria ter ouvido aquilo justo dele. Justo ele que a beijou sem motivo algum e que por causa disso aumentou o interesse do palhaço, e se não de todos criminosos, em cima dela, a namoradinha do morcego. Se já não lhe bastasse ser a filha do Comissário.

Ela irritada disse:

-Olha só o sujo falando do mal lavado, ou você não acha que me colocou em perigo me beijando aquela noite.

Batman disse:

-Foi um grande erro.

Alice perguntou:

-Você se arrepende?

Batman secamente respondeu:

-Sim.

Claro que ele se arrependia, deveria ser doloroso demais para um herói como ele se sentir responsável por colocar um cidadão em perigo, mesmo que ela tivesse provocado toda a situação que a cercava no momento.

Batman se aproximou dela e disse:

-Eu só não quero que nada aconteça com você.

Alice se afastando disse:

-Não precisa explicar.

Ele andou até ela, pegou em seu braço e disse:

-Se as notícias de que você é minha companheira se confirmassem, todos os mafiosos vão querer ir atrás de você para se vingar de mim.

Alice o olhou nos olhos e perguntou:

-E você não acha que eles já estão atrás de mim sabendo que eu sou filha do Comissário?

Batman ficou quieto e Alice disse:

-Ah já sei, você só não quer ficar com dorzinha de consciência se por acaso acontecer alguma coisa comigo, não é?

Batman respondeu:

-Não.

Alice tentando se soltar disse:

-Olha, uma hora ou outra eles vão acabar me pegando e você não vai poder detê-los.

Batman disse:

-Eu não vou deixar isso acontecer.

Alice riu de deboche e disse:

-É só o Coringa aprontar alguma que você vai atrás dele igual uma marionete.

Batman disse:

-Não vai acontecer de novo.

Alice se soltando completamente disse:

-Vai sim, até porque eu não quero ser responsável pela morte de ninguém.

Batman segurou o rosto dela e disse:

-Quando tudo isso acabar eu espero que você ...

Alice o interrompeu e perguntou:

-Você não tem chances comigo, quem tem chances mesmo é o seu arqui-inimigo Coringa, que é cabeludo e eu só fica com cabeludos – ela fez uma pausa e perguntou- Você tem o telefone dele?

Batman se afastando disse:

-Vai estudar.

Alice se dirigindo ao quarto disse:

-Estou indo Batsy.

Alice se trancou no quarto, cumprimentou o mascote, que estava deitado em sua cama, e pensando na desordem de sua vida, chegou na conclusão de que contando ou não contando o que tinha acontecido para Batman ou qualquer outra pessoa, o vilão ia acabar matando a sua família. Foi com isso que decidiu contar para o morcego a respeito do pacto que tinha feito com o palhaço mais cedo.

Ela se levantou da cama e quando ia abrir a porta do cômodo o seu celular começou a tocar, nisso o pegou e atendeu a chamada:

-Alô.

Coringa que estava do outro lado da linha perguntou:

-Já comprou os meus doces?

Alice desanimada respondeu:

-Já.

Coringa disse:

-Então arruma alguma desculpa para tirar a Batsy daí.

Alice bufou e perguntou:

-E por que você não faz isso?

Coringa gargalhou e respondeu:

-Porque agora eu tenho uma empregada que pode fazer esse tipo de coisa para mim.

Em seguida ele desligou o telefone e Alice inconformada disse baixinho para o cachorro:

-O que eu vou falar para o morcegão?

Ela foi até a sala, limpou a garganta e disse para Batman:

-Eu preciso que você saia daqui hoje.

Batman nem sequer se virou para encará-la.

Alice se aproximando um pouco mais disse:

-Eu preciso mesmo que você vá embora.

Batman se virou e disse:

-Não.

Alice disse:

-Eu vou dar uma festa do pijama e eu não quero que você participe.

Batman disse:

-Será que você pode encarar a situação a sério pelo menos uma vez. Eu não tempo para perder com infantilidades.

Alice já tinha chegado ao seu limite e com isso disse irritada:

-Saí daqui, eu não preciso de ninguém me falando que eu sou infantil.

Batman disse:

-Talvez assim você possa crescer um pouquinho.

Alice gargalhou e disse:

-Não sou eu quem uso fantasia de Halloween o tempo todo.

Batman disse:

-Eu não sei como você pode ser filha do Gordon.

Alice disse:

-Eu não sou filha do Gordon, eu sou adotada.

Batman confuso perguntou:

-Como assim?

Alice respondeu:

-Meu pai verdadeiro é um fazendeiro japonês muito rico que não pode ficar comigo porque eu sou fruto da traição dele com a empregada.

Batman disse:

-E eu ainda paro para ouvir.

Nesse mesmo instante o telefone do apartamento tocou e Alice foi até o aparelho para atendê-lo:

-Alô.

Era Gordon do outro lado da linha:

-Oi filha, tudo bem?

Alice respondeu:

-Não.

Gordon perguntou:

-Aconteceu alguma coisa?

Alice respondeu:

-Ainda não, mas posso te adiantar de que sua filha vai ser presa por assassinato.

Gordon preocupado perguntou:

-O que?

Alice respondeu:

-Se a Batsy não sair do meu apartamento agora eu vou fazer pedacinho dele.

Gordon disse:

-E eu ainda paro para ouvir.

Alice perguntou:

-Vocês fizeram um complô contra mim?

Gordon disse:

-Bem, eu só liguei para avisar que o Coringa foi preso e que você não precisa mais se preocupar com isso.

Alice se virou para olhar para Batman e perguntou:

-Isso quer dizer que o morcegão não precisa mais ficar aqui?

Gordon respondeu:

-Sim.

Alice sorriu e disse:

-Ah coroa eu te amo tanto.

Gordon disse:

-Agora eu tenho que desligar.

Ela disse:

-Tchau.

Alice colocou o telefone no gancho, olhou para Batman e disse:

-É uma pena mesmo, mas você não precisa mais ficar aqui. O Coringa foi pego.

Batman perguntou:

-Era o Gordon no telefone?

Alice respondeu o debochando:

-Não, era o próprio Coringa me avisando para ficar calma, que nada iria acontecer comigo porque ele tinha se arrependido de tudo o que tinha feito e com isso tinha se tornado um pastor da Assembleia dos Ex Palhaços Pecadores.

Batman balançou a cabeça de um lado para outro e perguntou:

-Quando você vai aprender?

Alice se aproximou dele e respondeu:

-Nunca.

Batman disse:

-Quando você estiver realmente correndo perigo...

Ela o interrompeu com uma risada e disse:

-Eu dou risada na cara do perigo – ela fez uma pausa – agora tchau.

O morcego por puro impulso a puxou para perto dele e quando iria beijá-la, Alice se esquivou dele e se aproximando de seu quarto disse:

-Eu não quero que você se arrependa de novo por ter me beijado novamente e ... – ela sorriu - os mafiosos podem vir atrás de mim se souberem que nós temos alguma coisa...

Alguns minutos depois de ter se trancado no quarto novamente, ela voltou para a sala para saber se o homem morcego tinha ido embora. Mas em vez de ver o herói de Gotham, viu o pior vilão que aquela cidade já tinha visto.

O palhaço que estava sentado no sofá disse:

-Você demorou muito para fazê-lo sair daqui – ele inclinou a cabeça - eu odeio gente incompetente.

Alice confusa perguntou:

-Você não estava preso?

Ele gargalhou e disse:

-Seu pai é igual a você, incompetente.

Alice cruzou os braços e disse:

-Só eu posso falar mal do Zé do bigode.

Coringa agora sem paciência perguntou:

-Claro, cadê os meus doces?

Alice respondeu:

-Estão na cozinha.

Coringa perguntou:

-E porque você ainda não foi pegar?

Ela sorriu para o vilão e se dirigiu até a cozinha para pegar as guloseimas. Alice esperava conhecer a verdadeira ira de Coringa, o provocando ao máximo que podia, e o primeiro passo foi comprar os doces baratos, só para ver a reação dele, que com certeza seria natural, e não o personagem que esteve contracenando todo o tempo.

Quando estava se aproximando do criminoso, ele pegou os pacotes da mão dela e conferindo as embalagens perguntou:

-Você quer me envenenar com essas porcarias?

Alice respondeu:

-Você não especificou o tipo de doce que queria.

Coringa lambeu o lábio inferior e disse:

-Vai agora comprar doces de qualidade.

Alice perguntou:

-Até quando você vai agir assim, como se não fosse você?

Coringa riu pausadamente e respondeu:

-Até quando eu conseguir o que eu quero.

Alice disse:

-Então você admite que está só se fingindo de – ela levantou as mãos e fez sinal de aspas – bonzinho.

Coringa sorriu e disse:

-Sim.

Ela disse:

-Eu prefiro você sincero assim.

Coringa sério disse:

-Tenha certeza de que você não aguentaria, princesa.

Alice sentiu um arrepio estranho em todo o corpo, um arrepio a obrigando a sair dali de qualquer forma, como um sinal vermelho de que se não saísse poderia sofrer consequências muito dolorosas. Ela quase gaguejando disse:

-Estou indo comprar os seus doces.

Quando saiu do edifício, viu Antony se aproximando dela com um buque de rosas. Quando ele estava na sua frente, lhe entregou as flores e disse:

-Primeiro eu queria me desculpar por ter sido intolerante com aquele cachorro de rua.

Nem em um milhão de anos, Alice daria outra chance á alguém tão grosseiro como Antony. E mesmo tendo tantas qualidades que a fazia se sentir muito próxima dele, a filha do Comissário nunca deixaria de lado uma de suas maiores paixões que eram os animais, sejam eles domésticos ou não, por alguém.

Saber que ele seria capaz de tal barbaridade reduzia à zero as suas chances de ter alguma coisa com ela, mas em meio a todo esse arrependimento que ele estava tentando demonstrar e conquistar, ela chegou à conclusão de que uma vingança viria bem a calhar.

Alice rejeitou o presente dele e disse séria:

-Bem, você deve pedir desculpas ao Madruguinha e não a mim.

Antony confuso perguntou:

-Você quer que eu peça desculpas ao cachorro?

Ela respondeu secamente:

-Sim.

Antony sorriu desajeitadamente e disse:

-Mas eu não sei onde ele está agora, é capaz de já ter sido atropelado ou coisa assim.

Alice respirou fundo e disse:

-Ele está na minha casa, eu ao dotei.

Antony dando a ela um sorriso amarelo disse:

-Então vamos até o seu apartamento pra que eu possa me desculpar com o cachorro.

Alice disse:

-Hoje não, tenho muitas coisas para resolver, mas – ela fez uma pausa – amanhã lá pelas vinte horas em ponto esteja no meu apartamento para se desculpar.

Antony sorriu e perguntou:

-Tudo bem, mas você não vai aceitar as rosas?

Alice disse:

-Não, dá para aquele mendigo que está do outro lado da rua, quem sabe ele não sai com você.

Ela se esquivou dele e continuou a andar até o mercado. Chegando lá comprou tudo o que precisava e voltou para ao apartamento. Quando abriu a porta Coringa estava sentado no sofá vendo um filme.

Ela perguntou jogando os pacotes em cima dele:

-Que filme você está vendo?

Coringa abrindo os pacotes respondeu:

-Jogos mortais.

Alice se sentou no braço do sofá e disse:

-Deve ser o seu filme predileto.

Coringa se virou para encará-la e disse:

-Não, meu filme preferido é It.

Alice se empolgou e disse:

-Eu adoro esse filme, principalmente na hora que o palhaço...

Coringa a interrompeu e disse:

-Você está atrapalhando.

Alice bufou de frustação e perguntou:

-E o que você quer que eu faça, fique parada ao seu lado admirando as suas cicatrizes?

Coringa se virou para olhar a televisão e respondeu:

-Se isso vai fazer você calar a boca.

Alice se levantou e disse:

-É melhor eu ir estudar.

Coringa riu e disse:

-Nada disso, você vai fazer massagem no meu pescoço.

Alice sem recusas se posicionou atrás dele, começou a massagear o seu pescoço e disse baixinho:

-Você faz muito bem esse papel, quero ver só quando vier a verdadeira tempestade.

Ele satisfeito disse:

-Você é muito boa com as mãos.

Ela apertando com pouco mais disse:

-Você nem imagina o quanto, senhor palhaço.

Coringa riu baixinho e disse:

-Eu nunca pensei que a filhinha do Gordon fosse safadinha.

Ela confusa perguntou:

-O que você quis dizer com isso?

O criminoso não disse nada, apesar balançou a cabeça de um lado para o outro em sinal de negação. Depois de acabar a sessão relaxamento, Alice perguntou:

-Posso estudar agora?

Coringa respondeu:

-Vai e não volta.

Alice disse baixinho:

-Respira e fundo Alice, respira fundo.

Depois que se trancou no quarto, por mais impossível que parecesse, deixou os problemas de lado para se dedicar aos estudos a tarde toda. E o motivo mais importante para que pudesse estudar em paz, foi o fato do vilão não a chamou mais para nada.

De certa forma, ela ficava aliviada de não precisar obedecer aos pedidos excêntricos do psicopata, mas por outro lado, a tranquilidade de simples pedidos para comprar doce a incomodava e muito. E o motivo era o mesmo, o que viria depois dessa calmaria? Com certeza, uma guerra milenar onde só um deles sairia vivo.

Quando decidiu ir para a sala viu que Coringa já tinha ido embora, mas tinha deixado um novo bilhete na mesinha central. Ela abriu o papel que continha uma lista de coisas que Alice deveria comprar para ele no dia seguinte. Nisso ela disse:

-Em vez de queimar dinheiro porque ele não usa para comprar comida.