Tinta à óleo

Capítulo segundo

De manhã bem cedo, Ikki já estava de pé. Bateu na porta do irmão, para acordá-lo para o cursinho, e foi tomar um café da manhã reforçado. O café estava forte, como gostava, e estava sorvendo-o lentamente quando Shun apareceu pelo corredor, com o rosto recém-lavado, mas os olhos fechados de sono.

- 'Dia. – O mais novo, que só vestia a calça do pijama, sentou-se à mesa, preguiçoso. Seu corpo era claro – comparado com o do irmão, era quase leite. Não era muito forte, mas se bem observado, podia-se ver que os músculos definidos eram predisposição genética – Shun era magro e não malhava, mas se podiam ver onde um músculo terminava e o outro começava.

Comeram em silêncio, apenas apreciando a companhia um do outro, preparando-se mentalmente para um dia puxado de trabalho e estudo.

Já no bairro nobre, o dia começava um pouco mais tarde. Shaka abriu os olhos com o brilho do sol, que o incomodava. Os olhos azuis demoraram a abrir, desfrutando os primeiros minutos do despertar antes de se abrir definitivamente e dar bom dia à nova manhã.

Tomou seu costumeiro banho matutino, antes de sua sessão de yoga caseira. O silêncio e a tranquilidade o agradavam, e já lá pelas dez da manhã, desceu as escadas para o café. Preparou o seu delicioso sanduíche natural com suco de couve e limão batidos, enquanto um incenso queimava no balcão. Precisava se inspirar, afinal, obras de arte não saiam de qualquer jeito de sua mente.

Subiu para o ateliê, que ficava ao lado de seu próprio quarto. Ligou o aparelho de som que ficava no ambiente, que começou a tocar uma calma música New Age.

Quase que instantaneamente, seu cérebro quis criar. Era algo natural, que simplesmente chegava e que ele deixava fluir. Pegou uma das inúmeras telas que tinha espalhadas pelo ateliê e, com aquarela, começou a fazer um esboço. Uma pessoa ficou com sua base definida e, apesar de não saber quem era ou como ia ficar, sabia que seria uma bonita tela.

Não pôde fazer mais do que o esboço. Seu celular, que ele esquecera de desligar, começou a tocar uma música calma. Desligando o aparelho de som, ele atendeu, escutando a voz de um de seus melhores amigos.

- Oi, Mu. – O loiro o cumprimentou, sorrindo. – Eu estava pintando, mas não estou mais, pode falar. – Silêncio. – Posso passar ai, se quiser. – Mais um sorriso. – Certo, vou chegar em uma meia hora.

Ele pegou os pincéis que usara e os lavou, delicado, guardando-os em seguida. Seguiu para a universidade, onde o amigo fazia artes plásticas. Um já era formado em Engenharia Mecânica, mas decidiu das asas ao seu talento natural, entrando em outro curso. Se sustentava fazendo e vendendo projetos mecânicos, que apesar de demorarem um pouco para serem feitos, rendiam um bom dinheiro.

Um pouco depois do tempo estipulado por ele, Shaka chegou à sala onde o amigo estava. Mu tinha os longos cabelos castanho-claros presos num frouxo rabo-de-cavalo, e mexia na argila com maestria.

- Olá, Shaka. – Ele cumprimentou, antes mesmo que o louro pudesse dizer que havia chegado. Mu tinha dessas coisas, de ser sensitivo.

- Olá. – Shaka sorriu, olhando a nova obra do amigo.

- Queria te mostrar o que estou fazendo. Parece um tanto vazia, e não sei como melhorar... – Mu virou a escultura, para que o loiro pudesse vê-la.

Era um busto de uma mulher contra o vento. Seus cabelos esvoaçados, mesmo que interminados, pareciam tomar uma rajada de vento real. A boca estava entreaberta, como num susto. Os traços eram perfeitos, precisos, mas, realmente, faltava algo na moça, e Shaka sabia o que era.

- Seus olhos parecem vazios. – Falou para o amigo, que levantou as curtas sobrancelhas.

- Agora que você falou... Parece que é isso mesmo. – O outro sorriu, virando a escultura para si.

Passaram quase uma hora conversando, na maioria das vezes, amenidades, até que Shaka se despediu. Queria terminar a pintura que começara. Saiu distraído da sala, pensando em como continuaria o desenho, analisando as cores, o formato, o que seria...

Não sentiu dor quando bateu contra o que achava ser um rinoceronte furioso, mas cambaleou um pouco até sentir firmeza nos pés novamente. Olhou para o rinoceronte, que apontava para ele dois olhos azuis cheios de culpa, fazendo com que o loiro esquecesse completamente o que planejava fazer depois dali.

- Eu estava distraído. – O rinoceronte falou, mas Shaka já o havia perdoado. Assentiu com a cabeça, mas não saiu do lugar. Ficou olhando para o rosto do rapaz à sua frente.

- Ikki, não é? – O loiro perguntou, sorrindo. Abriu ainda mais o sorriso quando viu o rosto assustado do outro, e não conseguiu evitar que seu coração aquecesse ao ver o rapaz retribuindo seu sorriso.

- Shaka! – Ikki deu um aperto de mão firme, ainda sorrindo. – Está perdido?

- Vim visitar um amigo. Está de saída? A gente poderia almoçar em algum lugar...

Ikki anuiu.

- Terminei de fazer o que vim fazer. Temos duas horas até eu ter de ir trabalhar. – O moreno falou, ajeitando nas costas a mochila que usava. Shaka pensou que ele ficava muito bonito vestido daquele jeito, uma camisa simples e uma bermuda, mas afastou o pensamento.

Decidiram ir para um restaurante próximo dali, que vendia todas as "gororobas" que Shaka comia – dito nas palavras de Ikki.

Aquela não seria a última vez que se encontraram. Estavam ficando cada vez mais próximos, a ponto de toda semana estarem jantando ou almoçando juntos. Shaka gostava da companhia do outro, apesar de não terem quase nada em comum. Ikki era sincero, inteligente, e seriamente engraçado. Era fato que se irritava por besteiras, mas o loiro também não ajudava: gostava de tudo que o outro odiava, e fazia questão de demonstrar isso.

- Que tal almoçar em minha casa esse final de semana? – Ikki perguntou uma vez, enquanto andava pelos corredores de uma livraria, procurando um livro político.

Shaka parou de olhar o livro de aquarela que folheava e olhou para o moreno, que ainda olhava os outros livros, despreocupado. O loiro não soube o porquê, mas aquilo fez seu coração sambar dentro de sua caixa torácica. Será que Ikki sabia como aquele convite parecia?

- C-claro... – O indiano não conseguiu controlar a voz trêmula, e disfarçou, procurando outro livro. Isso não impediu que Ikki notasse, mas o meio-japonês não falou nada.

Eles compraram o que queriam e seguiram para os seus destinos. Era sexta, e Ikki não trabalhava naquele dia, então passou a tarde comprando livros com Shaka. Não sabia por que, mas queria passar tanto tempo quanto possível com aquele cara. Shaka o deixava feliz, com a sua inteligência, gentileza, sabedoria... mesmo que tivesse um pensamento muito diferente do seu – Ikki já chegou a chamá-lo de burguês -, eles nunca ficavam sem assunto.

O Amamiya mais velho chegou em casa, guardou a moto e entrou, tirando a mochila de estopa dos ombros.

- Shun? – Chamou, estranhando o irmão não estar na mesa, estudando, como sempre. Não houve resposta. Colocou a mochila no criado mudo, seguindo até o quarto do irmão. Já ia batendo, quando escutou pancadas, e gemidos. Seu rosto ficou vermelho e ele se afastou, voltando para a sala respirando estranho. Notou algo que não tinha observado antes: havia sapatos na soleira da porta.

- Hyoga... – Murmurou para si mesmo, pegando algumas folhas no criado mudo. Há muito sabia do namoro do irmão, e não estranhava o fato de estarem juntos, mas algo o incomodava. Não conseguia imaginar seu irmão, tão meigo, num ato como sexo.

Segurando as folhas, seguiu para o quarto. Pegou uma prancheta e um grafite, e começou a desenhar, sentado na cama. Quando já estava terminando, o celular ao lado vibrou, assustando-o um pouco. Pegou o celular, lendo a mensagem e sorrindo inconscientemente.

"O que você vai cozinhar? Sabe que não como carne vermelha".

- Burguês... – Ikki repreendeu o autor da mensagem, respondendo com um sorriso.

"Feijoada".

"Isso é um ultraje!" – Ikki soltou uma gargalhada. "Exijo algo saudável".

"Feijoada é saudável pra gente forte".

"Então faça algo saudável pra gente delicada".

Ikki sentiu o rosto ruborizar com o pensamento que teve. Um nada saudável.

"Vou te ensinar como fazer gente delicada ficar forte, pequeno príncipe".

Do outro lado, Shaka prendeu a respiração. Parecia que Ikki o provocava de propósito. Não sabia quanto ao moreno, mas o indiano sabia o que preferia. E, nesse momento, estava sentindo o corpo esquentar com apenas uma frase. Sem querer, imaginou Ikki tocando-o de maneira despudorada, e não resistiu a passar a mão pela sua calça, que não escondia o quanto ficara excitado com aquela afirmação.

"Quando?", mandou, sentindo o coração doer de ansiedade.

"Amanhã, de meio-dia, vou te buscar na biblioteca central. Vá sem carro".

Shaka se decepcionou com a resposta, olhando para o teto. Talvez ele não tivesse captado suas intenções com aquela pergunta. "Quando?" parecia tão óbvio...

Ikki apertava o grafite entre os dedos, tentando controlar seus sentidos.

"Quando?"

O loiro parecia ansioso com aquela pergunta, e o mais novo não conseguiu não pensar em agarrar o loiro e morder aquele corpo branco inteiro. Pegou a prancheta e olhou o desenho quase terminado: uma representação quase perfeita do indiano; os cabelos loiros caindo pelos ombros, o corpo altivo, os trajes típicos de sua região, o rosto perfeito.

Guardou o desenho, seguindo para o banheiro de sua suíte. Precisava se acalmar de algum jeito. Tirou a roupa, colocando-a dobrada em cima da cama, trancando a porta e indo direto para o chuveiro. Deixou que a água fria caísse sobre seu corpo, o deixando arrepiado. Sua mente não parava de despir o loiro, de tocá-lo, possuí-lo... Nunca tinha pensado nada disso sobre outro homem antes, mas algo dentro de si não se controlava.

Começou a tocar a si mesmo, imaginando que o outro lhe sugava de joelhos, à sua frente, submisso. Imaginou que ele o mordia e pedia para engolir todo o líquido dele. Sentiu o corpo esquentar, pressentindo o orgasmo. Imaginou shaka sussurrando seu nome, pedindo luxuriosamente para que gozasse em sua boca, os cabelos louros molhados pela água do chuveiro, o corpo branco cheio de gotículas de água, escorrendo pelo corpo definido e branquinho. Controlou um gemido alto, sentindo que chegava ao ápice. Seu corpo tremia, e ele escorregou até o chão, com as pernas bambas. Abriu os olhos, vendo o Box vazio do banheiro. Mais que tudo, agora queria que seu sonho fosse realidade.


Shaka passava a tinta pela tela, ansioso. Seu coração não parava de pular, mas suas mãos estavam firmes. Olhou para o que pintava: não havia notado quando fez o esboço, mas a pintura – um homem de pé, no meio de um ambiente escuro e fumacento, com uma expressão taciturna e olhos desconfiados – era muito semelhante à Ikki. Parou no meio do caminho. Nunca havia feito uma pintura tão sombria, nem com tanta expressão. Parecia que Ikki Amamiya estava influenciando-o de alguma forma sombria: logo ele, que não costumava dar a liberdade à ninguém.

O loiro se espreguiçou, olhando o relógio na parede do ateliê. Já eram 3 da manhã, e teria que encontrar Ikki ao meio dia. Levantou do banco onde estava sentado, indo até o banheiro para lavar os pincéis. Respirou fundo. Não lembrava de ter se sentido dessa forma antes de encontrar o moreno, mas parecia que algo estava mudando na relação dos dois. Não pensaria naquilo. A resposta à sua mensagem tão sugestiva encerrou o caso: eram só amigos.

"Ou será que ele não entendeu o que eu falei...?"

Aproveitou para tomar um banho demorado e relaxante. Amanhã teria um dia que não seria estressante, mas que sabia muito bem, nada comum.


Eram quase doze horas. Shaka estava sentado em uma das cadeiras da biblioteca central, folheando um livro que falava sobre filmes clássicos. Olhava nervosamente para o celular, esperando o moreno lhe avisar que havia chegado, como haviam combinado antes do loiro sair de casa.

Estava ansioso, e não se lembrava de ter ficado assim antes só por conta de um encontro. Não que aquilo estivesse sendo um encontro, mas parecia. Sentiu o bolso vibrar, e deu um pulinho com o susto. Era uma mensagem.

"Tô aqui fora. Cadê você?"

Shaka sentiu o coração bater mais forte – se é que isso era possível. Pegou a bolsa-carteiro que estava ao seu lado e a colocou no ombro, devolvendo o livro ao seu lugar e saindo, dando "tchau" para a recepcionista, que ficou vermelhinha e olhou para baixo.

Quase agarrou o moreno quando o viu do lado de fora. Ikki estava escorado na moto, com os cabelos negros sendo levados pelo vento. A calça jeans surrada e rasgada nos joelhos combinava perfeitamente com os coturnos negros e a camisa escura com a capa de um antigo CD do Queen.

- Desculpa a demora. Tive que comprar "coisas saudáveis" no caminho. – O mais novo falou, mostrando uma sacola que segurava em uma das mãos. – Porque alguém não come coisas normais. – Acrescentou, irônico.

O loiro só conseguiu sorrir. Aproximou-se do outro cauteloso e lhe cumprimentou com um abraço tipicamente masculino, enviesado, mas Ikki lhe deu um olhar estranho. Talvez Shaka tivesse transparecido algo, ou talvez tivesse apressado as coisas, mas pelo que ele sabia, já fazia quase dois meses que se conheciam. Seria pouco tempo para um abraço? Resolveu ignorar aquela expressão.

- Vamos, estou morrendo de fome! – Shaka falou, fazendo o outro sorrir. Ikki entregou a sacola à ele e um capacete extra, sentando-se na moto de cor escura seguido pelo outro, que o abraçou pela cintura para não cair. O moreno girou a chave na ignição, tentando ignorar as sensações que tinha quando o loiro o apertava mais, nas curvas mais acentuadas. Resistiu à tentação de acariciar a mão pálida que o prendia, chegando em casa em menos de 15 minutos.

O mais velho desceu primeiro, tirando o capacete e desembaraçando os cabelos loiros compridos, enquanto o moreno descia, tirando o próprio capacete e pegando novamente a sacola que estava com o outro, entrando em casa. Colocou a sacola em cima da mesa, procurando o irmão com os olhos.

- Shun? – Chamou, acenando para que Shaka adentrasse mais na casa. O loiro parecia ter uma leve vergonha, mas fez o que o outro pediu.

- Aqui na cozinha...! Para, Hyoga! – Os mais velhos ouviram o rapaz gritar, e entraram no aposento. Encontraram o rapaz de cabelos castanhos na frente do fogão, com uma peneira em cima de uma pequena panela. O rapaz loiro, ao lado, segurava um saco de farinha de trigo, e ria do outro, que estava com as mãos completamente brancas.

- Se for pra atrapalhar, deixa que eu faço sozinho, ok? – Shun falou para o loiro, com falsa raiva, e depois olhando para o irmão, enquanto limpava as mãos. – Oi, niisan. E amigo do niisan.

- Shaka, esse é o meu irmão Shun. – Ikki apresentou, e Shaka apertou a mão do mais novo. – E esse do lado não é ninguém importante, pode ignorar.

- Ei! – Shaka riu do rosto indignado do outro loiro. – É assim que você fala do seu cunhado? – Hyoga virou-se para o outro, sorrindo. – Eu sou Hyoga, namorado do Shun.

O mais velho o cumprimentou um tanto surpreso. Isso queria dizer que o irmão de Ikki era gay. E, do jeito que ele falava orgulhoso do irmão, isso quer dizer que ele não tinha nenhum preconceito... Talvez até ele fosse... Não. Não deveria pensar essas coisas sobre Ikki. Um cara daquele porte não seria gay.

Os quatro ficaram na cozinha – Shun cozinhando enquanto Hyoga o atrapalhava. Ikki implicava com o cunhado, enquanto Shaka, sentado numa cadeira que Ikki levara à cozinha para que ele se sentasse, observava os rapazes. Pareciam uma família muito feliz, e o indiano meio que sentia falta daquilo. Desde que saíra da Índia para viver o sonho de pintor, nunca tivera o que ele podia chamar de família. Viveu num templo budista desde muito pequeno e, tirando alguns amigos e alguns casos que tivera durante sua vida adulta, nunca teve ninguém mais próximo. O loiro mais velho sentiu uma leve tristeza, que se dissipou assim que o moreno o abraçou pelos ombros, fazendo uma piada sobre seus gostos alimentares. Não conseguiu evitar o sorriso que surgiu em seus lábios ao ver o sorriso do amigo. Esperou que não estivesse parecendo uma menininha apaixonada, como acreditava estar parecendo.

Depois do almoço pronto, eles sentaram à mesa para comer. Shaka observava os outros, se sentindo um pouco deslocado. Os três rapazes ao seu lado se divertiam com coisas simples, como um jogo ou um comentário idiota. Não eram sofisticados ou se preocupavam com elegância – via-se pela casa, arrumada de forma simples e prática, exatamente como dois homens a arrumariam. O indiano normalmente não ficaria tão à vontade num ambiente como aquele, mas se surpreendia, aproveitando cada segundo que passava ao lado dos outros rapazes. Às vezes pegava Ikki o olhando discretamente, mas logo o moreno desviava o olhar, enchendo a boca com a deliciosa macarronada ao molho branco que o mais novo de todos havia feito, junto com a salada de frango e brócolis e um delicioso suco de limão. Não era requintado como o pintor estava acostumado, mas ele estava adorando.

Saciados, eles ficaram conversando um pouco, relaxando o corpo recém-livre da fome. Quando já eram umas 3 da tarde, Ikki sugeriu que eles fizessem algo um pouco mais ativo.

- Que tal a gente jogar tacobol? – O moreno falou, enquanto, por instinto, talvez, arrumava os cabelos do irmão, ajeitando-lhe o rabo-de-cavalo como se o menor fosse uma criança.

- Vamos! – Shun falou, sem se importar com o gesto do irmão. – Mas eu sou o batedor.

- Isso é roubo! – Hyoga protestou. – Você sempre é o batedor!

- Tá com medo de perder, Yukida? – Shun sorriu, estreitando os olhos e deixando Hyoga com uma cara contrariada.

- Gente... Acho que vou ficar de fora... – Shaka começou, mas foi interrompido por Ikki.

- An? Quer que eu jogue sozinho, loiro? – O moreno levantou uma sobrancelha, fingindo-se de ofendido.

- É que não sei jogar... – O indiano ficou um tanto envergonhado e xingou a si mesmo: é claro que ele não sabia daquele jogo. Era tão classe média...

Hyoga deu um risinho e apertou o ombro do outro loiro.

- Não se preocupa. A gente te ensina, sim? – O mais velho anuiu, convencido. Achou que nada tinha a perder, no final das contas.

- Acho melhor você pegar alguma roupa emprestada. – Ikki falou, levantando-se. – Vai sujar sua roupa chique inteira se for jogar com ela.

Shaka era bem alto, mas era magro, então as roupas que Ikki lhe emprestou ficaram folgadas – uma calça de tactel preta e uma regata da mesma cor. O loiro prendeu os cabelos louros num rabo-de-cavalo enquanto Ikki, sem a mínima vergonha, trocava de roupa na sua frente. Quando o moreno vestia a bermuda, Shaka não conseguiu desviar o olhar do corpo dele. A pele morena era bonita, os músculos, bem desenhados. Ficou observando a cintura que, apesar de não ser fina, tinha uma bonita curvatura, e não conseguiu conter os olhos de seguir a linha dos músculos que entravam no tecido, formando a linha do ventre.

Depois de vestido, Ikki encarou o rosto do loiro, que estava vermelho.

- O que foi? Parece que nunca viu um homem de cueca... – O moreno riu, saindo do quarto e o arrastando pelos ombros.

Quando chegaram à sala, Shun e Hyoga estavam conversando. O mais novo segurava dois tacos, enquanto o loiro segurava o que pareciam ser leves tripés de madeira.

- Como... Como fazemos pra jogar esse jogo com... Essas coisas? – Shaka perguntou, sem esconder seu desdém.

- Você vai gostar dos jogos das massas, pequeno príncipe...! – Ikki falou, arrancando risinhos dos outros, enquanto pegava uma sacola de pano de cima do sofá. – Vamos ao parque. Não é longe, dá pra ir andando.

Os quatro seguiram caminhando. Apesar de se sentir um tanto intruso no meio deles, o ar lhe deixava feliz. Ikki ia lhe explicando as regras do jogo no caminho: dividiam-se em duas duplas. Uma dupla ficava com a posse das bolas, e a outra, com os tacos. De cada lado ficava cada um integrante das duplas, com os tripés ao seu lado, dentro de um circulo. Os com as bolas tentam acertar o tripé do outro lado do campo, e os batedores defendem o tripé. Caso a bola seja rebatida, quem a jogou deve recuperá-la.

As duplas foram formadas assim que eles ajeitaram os tripés nos lugares. Shaka era péssimo em rebater, então ficou no mesmo time de Shun, como lançador – Hyoga o havia convencido a trocar de posição. Ikki ficaria posicionado à sua frente com o taco, preparado para rebater todas as bolas que Shun lhe enviasse, assim como Hyoga rebateria as que Shaka lançasse.

Logo no começo do jogo, ficou claro que o mais velho realmente nunca o tinha jogado: simplesmente mandava a bola para o taco, e tinha que ficar correndo todo o parque, porque Hyoga não tinha piedade de sua alma e rebatia o mais forte possível. Já Ikki tinha certa dificuldade em rebater as bolas do irmão. Era mais fácil cair o tripé que o moreno protegia do que o outro, protegido pelo loiro mais novo.

Quando o time lançador – Shun e Shaka – estava realmente na pior, decidiram trocar de lado – os lançadores como rebatedores e vice-versa. Foi ai então que o loiro mais velho compreendeu o jogo. Na verdade, estava se revelando um bom rebatedor, e fazia com que Hyoga, que estava no outro lado, tivesse que correr pelo campo, como num sentimento de vingança.

Já eram umas cinco da tarde quando os regadores do parque foram ligados. Geralmente, Shaka ficaria muito irritado por se molhar, mas naquela hora estava adorando – principalmente quando Shun rebatia uma bola de Ikki, o que fazia o moreno correr pelo parque atrás da bola, com a regata branca que usava colando ao corpo por conta da água, ficando transparente e revelando os músculos trabalhados. A bermuda de algodão grosso, também molhada, escorregava pelos quadris do historiador por conta do peso que havia adquirido, revelando o elástico da cueca preta que ele vestia. Para Shaka, aquele não era apenas um jogo de pontaria e destreza, mas também de autocontrole.

Estava escurecendo quando eles terminaram de jogar. Ikki e Hyoga ganharam o jogo, mas graças a Shun, foi por poucos pontos. Voltaram para casa molhados e sujos, mas não paravam de rir. Shaka já estava bastante enturmado com os outros, a ponto de fazer piadas e brincadeiras, e não se incomodar com a que faziam com ele.

Ao chegar à casa dos Amamiya, Ikki deixou que os outros fossem tomar banho e seguiu para a cozinha, a fim de começar a preparar o jantar. Quando o loiro mais velho saiu do banho, pediu para que ele observasse a comida, enquanto ele mesmo iria tomar um banho.

Shaka ficou na cozinha, mexendo no frango que assava numa frigideira, enquanto cheirava o próprio braço. Aquele era o cheiro de Ikki. O cheiro que ficou em suas roupas quando o abraçou no começo da tarde. O cheiro que ficava impregnado em sua memória e não queria mais sair.

O indiano respirou, contrafeito, observando o frango novamente, ao mesmo tempo em que Shun e Hyoga apareciam na cozinha.

"É, Shaka", pensou consigo mesmo, antes de cumprimentar os amigos. "parece que você está apaixonado.".

Continua...

N/A.: Mais um cap! Esse ficou um tantinho maior...!

Queria agradecer à Victoriana por ter lido! Sim, sim, Yaoi! Espero não ter excedido muito na safadeza ~tehe

E à Sion! Claro! Mas eu publiquei no Nyah, Sion! A senhorita que não viu (nem respondeu minha msg lá tsc tsc) de qualquer forma, obrigada por ter lido! Detalhe: O apelido "loiro" eu roubei da Sion... Vai ter muitas coisas que eu vou roubar dela, então... Qq semelhança, NÃO é coincidência!

Visitem o perfil dela, tem muitas fics legais.

Para os silenciosos, espero que estejam gostando, e não se acanhem em mandar reviews, mesmo que não estejam logados!